junho 21, 2004

Mudando

Olho para um lado e... caixas. Olho pra outro e... caixas. Dou um passo e... mais caixas. Tudo encaixotado, tudo perdido em meio à bagunça. Guardados que não se acham. Coisas que encontrarei somente quando não estiver procurando. Sim, mudança é o caos concretizado.

Por um momento, pensei que mudaria apenas de casa. Que ingenuidade a minha. A gente muda de casa e muda de caminho e muda de hábito e muda de opinião. Quando cai em si, você já não é mais a mesma pessoa. Está mudada. No coração, um sentimento estranho. O que é? Não sei. Eu gosto de ter respostas para tudo, mas não tenho medo de dizer que não sei. Talvez seja medo, talvez seja receio, o sexto sentido querendo se manifestar, me prevenir para alguma coisa, falar do retorno àquele lugar onde vivi grande parte da minha vida. Lugar onde cresci, fiz amigos, mantive amigos, escrevi histórias com eles. Talvez sejam apenas sintomas de mudanças. Talvez isso seja a normalidade com que não estou acostumada. Talvez seja eu crescendo ou simplesmente, sendo eu mesma.

Assim como eu, aquele lugar também mudou. Não encontro mais todos os meus amigos. Meus vizinhos não são mais os mesmos. O cachorro que furava as minhas bolas não está mais lá. O terreno enorme que tinha em frente a casa transformou-se num belo sobrado. As menininhas que brincavam de boneca no quintal agora caminham de mãos dadas, com os mesmos menininhos que jogavam futebol na rua. Nem mesmo a festa junina que ocorria todos os anos é a mesma. Não é mais feita com a mesma alegria e o mesmo entusiasmo de antes. Apenas acontece. Como uma tradição boba.

Um retorno com gosto de mudança e, ao mesmo tempo, de coisas que não mudaram. As mesmas escadas, facilmente reconhecidas pelas minhas pernas. Nas paredes, as mãos, minhas e da minha irmã. Marcas de treze anos. Tão singelas, ingênuas, que nem sequer mereceram uma repreensão por desperdiçar tinta e carimbar a parede com uma lembrança que lá permanecerá, enquanto a casa estiver em pé. No quintal, o mesmo suporte do balanço, cenário de muitas risadas, briguinhas e festinhas. A piscina dos ganços transformou-se num mini-jardim mal cuidado. É difícil olhar lá de cima e não ver os doze ganços querendo pegar o Salomé, que também corria da Pombosa, a galinha. Seria o papagaio chinês confundido com um pedaço de couve verde? Ah, sim, o Negão correndo pelo quintal, arrastando enormes ursos de pelúcia que pegava escondido. Seriam os ursos confundidos com a espécie do canino? O coqueiro continua lá, agora, com suas folhas menores e sem cocos. À noite, uma iluminação melhor, diferente da época que brincávamos de polícia e ladrão, esconde-esconde, casa do terror.

Na casa, novos habitantes que, certamente, assim como eu, também terão saudades de algum tempo. De outras marcas. De outros animais. De outras brincadeiras. Talvez eu também tenha novas saudades daqui a algum tempo. Mas de uma coisa eu não tenho dúvidas: serei outra, estarei mudada. Porque a mudança é uma constante em nossas vidas.

junho 18, 2004

Engavete o diploma e desengavete a proatividade

Quando falo para as pessoas que fiz Letras, a primeira coisa que me perguntam é sobre onde leciono. Então, quando digo que simplesmente não leciono, o olhar que me lançam é de “Como não?”. Pior do que não ter curso universitário hoje em dia é ser subestimado pelo que as pessoas pensam ser o curso que você fez. Posso ler os pensamentos, exibidos em suas testas: “taí mais uma que engavetou o diploma!”.

Seria muito mais fácil relacionar o fato de eu não lecionar com a crise do desemprego, crise econômica, crise de choro ou qualquer outra crise que se ouve por aí. Mas não. Chego a ouvir coisas do tipo “é por isso que eu não estudo, assim, não jogo meu dinheiro fora”.

Espera aí. Quem foi que disse que eu joguei o meu dinheiro fora? Pior: quem foi que disse que o fato de eu não lecionar tem alguma coisa a ver com o suposto fato de eu ter dedicado anos a um curso cuja profissão principal não me agrada? Pelo menos não agora. E quem disse, ainda, que o indivíduo que cursou Letras tem somente a área da educação para atuar?

As respostas para todos esses questionamentos foram os argumentos que me impulsionaram a dar este passo na minha vida, ignorando, sobretudo, a convicção que sempre me acompanhou, repetindo muitas e muitas vezes que jamais seria professora. Tudo bem, isso pode acontecer nos momentos mais confusos da sua vida. Então, um dia você cresce, amadurece e é obrigada a encarar os fatos. O que é melhor?

1. Terminar o Ensino Médio e esperar seu pai ganhar na mega-sena para ingressar no curso que te agrada, formar-se na profissão que, por ora, sempre sonhou? ou

2. Encarar a realidade, ingressar no curso que tem condições de bancar e ao menos ter um objetivo traçado facilmente de ser alcançado?

Quando eu era pequena, dizia que seria veterinária. Qual a criança que nunca disse disso? Mais tarde, pintam outras possibilidades: Biologia ou Matemática? As ciências exatas estão bem moldadas no mercado de trabalho atualmente. Matemática agora, Administração depois, já com um emprego consolidado, e um futuro brilhante. Puff! Desfaz-se a nuvenzinha. Que matemática, que nada! Você sempre foi péssima nessa disciplina e até hoje não se entende com a calculadora. Vamos com calma! Você adora ler. Se amarra em escrever. Todo mundo diz que tem uma boa redação. Letras!

Meses depois do ingresso na faculdade, um emprego de estagiária. Oh, ela já não faz mais parte do grupo dos desempregados! Função? Ah, sim. Responder mensagens via e-mail. Atendimento ao Cliente com textos de autoria própria. A façanha de seguir padrões, implementando, construindo, transformando. Pronto: o padrão agora é criar. Mais tarde, o desenvolvimento de um programa de qualidade para aprimorar o desempenho da equipe. Idéias e mais idéias surgindo e fluindo. O resultado? Um atendimento ao cliente por meio da linguagem escrita, embasado na eficiência e encantamento.

Um ano após o término da faculdade, a literatura como paixão e nada de lecionar. Está vendo? Não basta ter um diploma, é necessário ser proativa. Diploma engavetado, né? Sei...

junho 15, 2004

Uma só palavra nem sempre basta

Se tem uma coisa que eu detesto é censura. Tudo bem, eu vivo dizendo por aí que gostaria de ter nascido umas duas ou três décadas antes da de 80, mas é só pra ter podido combater esse mal como ele realmente mereceu. Naquela época teria um gostinho especial, manja?

Olha só, eu nunca me entitulei escritora. Eu não tenho livro em meu nome, nem casa e nem carro. NÃO SOU ESCRITORA, deu pra entender? Certo. Este espaço tem muito de mim, mas também NÃO É UM DIÁRIO, ouviu bem?

Este aqui é o MEU espaço, aonde eu escrevo o que EU quiser e sobre quem eu quiser. Se não tiver vontade de ler, não leia. O endereço já não é muito fácil mesmo e além do mais, sempre pinta a dúvida se é com "s" ou com "z", o que não torna muito difícil esquecê-lo pra todo o sempre e sempre, amém.

Ah, já ia me esquecendo: não escrevo mentiras. Se você não vê um fundo de verdade, encare como ficção. Mas eu, meu amigo, NÃO ESCREVO MENTIRAS. Um escritor, talvez. Mas eu não sou escritora.

E, só para fixar bem: eu sou meio tribalista, sabe? Não sou de ninguém. Portanto, não venha me dizer o que eu devo ou não fazer. Muito menos como fazer. Eu faço o que eu quero e escrevo o que sou. Você não me lê, você não me conhece.

junho 13, 2004

A visão do mundo exterior

Alguém aí viu a visão do mundo exterior?
Aquela cúpula de pessoas decadentes na calçada,
embaçada aos meus olhos.
A tela da tevê está destorcida e a do cinema também.
Somente os meus ouvidos escutam a música sórdida que toca ao meu redor.
E as palavras imundas e sem nexo que saem das várias bocas que eu não vejo.
O que eu não vejo mesmo, com grande esforço, é a visão do mundo exterior.
O juízo talvez esteja ao alcance das minhas vistas.
O bom senso, apenas a alguns metros adiante.
Mas ela, a cura do mal, a compreensão do bem, não consigo enxergar.
Será o mau vítima do próprio mal?
Ou será a singularidade a concretude do mal?
A visão do invisível é ela, aquilo que não vejo.
A visão do mundo exterior – a busca dos que não entendem o que devem buscar.
Precisam buscar.

junho 12, 2004

Fases

Analisar as fases do crescimento humano é uma tarefa bastante curiosa. Todo mundo convive com isso. Se ainda não chegou lá, certamente tem um irmão ou um primo no meio do trajeto. Ou então, cansa de ouvir um adulto sabichão repetindo “mas aquele menino. Que idade difícil, meu Deus!”.

É, meu amigo, a coisa não é nada fácil. Há algum tempo era super bacana sair mais cedo do colégio (sem uma dispensa oficial), e juntar a galera toda pra comer pizza na casa de um ou outro. Ou andar em bando no shopping center, sem pais ou irmão mais velho, provando da tão sonhada tal liberdade. Então, bastam dois, no máximo três anos mais tarde, pra você descobrir que a vida não era tão supimpa assim. É só ter a responsabilidade de bancar a conta telefônica pra descobrir que é muito mais lucrativo atravessar a rua e bater aquele papo pessoalmente do que passar horas falando ao telefone. Tem também aquela calça ou aquele tênis da grife não sei das quantas. Pensando bem, nem são tão legais assim.

Sei, tem muita mãe lendo isso aqui e não se cabendo em si com o fatídico “Eu não disse!”. Tá bom, é engraçado. Mas vocês, mães, devem entender que isso tudo é uma questão de fase. E, como bem é de conhecimento de todas, as fases passam e ficam as experiências. Sim, sim, e as experiências se vivenciam. Não tem como pegar emprestado, sacaram?

Se você aí está num momento complicado com a sua menina ou o seu moleque, dê tempo ao tempo porque as pessoas crescem e amadurecem (costuma acontecer com a maioria, pode acreditar). Nada como um futuro próspero.

junho 07, 2004

Falando com estranhos

- Bom-dia!
- Bom-dia! Pra onde vamos?
- Alphaville, por favor.
- Alphaville? Longe, né?
- É...
- Algum caminho em especial?
- O mais rápido, por favor. Preciso estar lá até o meio-dia.
- Sem problemas. Vou pegar a Bandeirantes e não vai ter atraso. Nesta hora, o tráfego não é tão ruim.
- Ótimo.

***

- Você trabalha numa empresa de informática?
- Não.
- Então, em uma construtora?
- Hum, hum.
- O que você faz?
- Marketing. Trabalho numa empresa de marketing.
- Ah, tá.

***

- Está um dia bonito hoje, né?
- É...
- Você tem celular?
- Como??
- Eu perguntei se você tem celular?
- ...
- Você acredita que eu esqueci todos os meus documentos em casa? E, pra ajudar, meu celular está sem créditos. Então, se você puder me ajudar e ligar para o celular da minha cunhada...
- ...
- Não precisa nem atender, não. É só discar. Então, ela retornaria para você, que pediria para ela me ligar.
- Sei. Estou sem créditos.
- Seu celular é Tim ou Vivo?
- Tim, moço...
- Então, faz ligação a cobrar...
- Não. O meu não.
- Ah, então tá.

***

- Você torce para qual time?
- Não torço.
- Ah, que isso! Você deve ter simpatia por algum, vai...
- Não gosto de futebol.
- Tá com vergonha de dizer que torce para o Corinthians, né?
- ...

***

- Xii, vamos ter que pagar pedágio, né?
- Não sei.
- É, vamos sim. Será que eu tenho dinheiro? Quanto está o pedágio, hein?
- Deixe eu ver se entendi. Você está cumprindo seu expediente dentro de um táxi sem documento nenhum e sem dinheiro para o pedágio?
- Ah, não. Sei de um caminho que não será preciso.
- ...

***

- O que você vai fazer em Alphaville?
- Como?
- Não, é que se você não for demorar, posso te esperar. Sem cobrar pela espera, claro. É que a corrida é boa.
- Vou demorar.
- É uma reunião?
- Aqui, entre à direita, por favor. Pode seguir.
- Então...
- Faça o retorno ali, à esquerda, e pare ali naquela segunda entrada.
- Será que eles deixam eu esperar aqui dentro?
- Assine aqui, por favor e, olha, não precisa me esperar. Vou demorar.
- Está bem, então. Boa reunião!
- Tchau.

junho 02, 2004

ARRASTANDO MARAVILHAS
(Kali C. / Alexandre Lemos) - Setembro / EMI

Eu não tenho muito, quase nada
Só a sombra do meu corpo sobre a estrada
Misturada a galhos secos
Eu só tenho becos e perguntas
Minha alma e minha culpa dormem juntas

Eu não tenho frio nos meus versos
Mas também não sei dos outros universos
Que carrego paralelos
Eu não tenho elos, nem correntes
Meus fantasmas sempre foram diferentes

Eu não tenho ilhas no tesouro
Nem lugar em casa para desaforo
Nem espaço pra lamento
Eu não tenho vento que me pegue
Nem diabo que me agüente ou me carregue

Eu tenho convites e te chamo
Minha natureza está no que eu te amo
Mesmo nesse mundo louco
Eu só tenho pouco tempo agora
Posso esperar, mas não demora

No silêncio do vazio
Arrastando maravilhas
Nem vertigem, nem limites
Daqui a pouco é outro dia.

maio 28, 2004

Curriculum Vitae

Sou do tipo que adora um papo-cabeça, discutir a relação e ter o dom da discórdia. Não consigo ler em ônibus nem que a vaca tussa, detesto que sequer olhem para as minhas coisas em casa e não tô nem aí para os vizinhos que me chamam de metida porque eu gosto de economizar bons-dias pela manhã.

Até um tempo atrás, não admitia que falassem obscenidades na minha presença e levava qualquer briguinha aos extremos. Sou craque em interferir na educação do meu sobrinho-afilhado, mas sei que não sou um bom exemplo. Sou taxativa até o ponto de ter que liberar qualquer eletrodoméstico que ele queira fazer de brinquedo, para não ouvir pela centésima vez a Lala falando naquela fita: "de novo! de novo!". Urg! A "fita da Lala" é o efeito paralizante dele, mas eu prefiro mil vezes o Vitinho na sua versão original.

Tiro meus óculos para todas as refeições e não vivo sem meu walkman na bolsa. Deixo os meninos da tecnologia com os cabelos em pé quando meu Media Player apresenta qualquer sintoma de desconforto, e arranco inúmeras risadas no escritório quando penso que estou cantando em italiano.

Adoro quando as pessoas vêm ao meu lado perguntar sobre os personagens dos desenhos da Disney que ficam na minha mesa ou pedir qualquer indicação de leitura. Ou quando o Ryl me manda um texto incrivelmente interessante, perguntando minha opinião, só para gerar alguma argumentação inicial para o seu trabalho de faculdade.

Amo ir ao cinema sozinha em dia de semana, comprar pipoca para comer com sachê de pimenta e coca-cola, e ficar observando aquelas poucas pessoas presentes e a sala imensamente vazia. E depois, sentar na cafeteria do shopping para escrever após o filme. E no dia seguinte, comentar o filme e descobrir que minha opinião é diferente da de todo mundo, ignorando o fato de que os filmes que eu gosto não faz o gênero da maioria das pessoas que conheço.

Brigo com o Jackes todos os dias por e-mail e me descontrolo quando ele vem com o papo de que não vai me acompanhar a algum lugar porque não conhece as pessoas que estarão presentes. Mas morro de rir quando ele fica os shows inteiros identificando os artistas e seus acompanhantes, tentando me lembrar de seus personagens nas novelas. Acho que ele seria um ótimo "fofoqueiro".

Já tentei gostar de futebol, mas não levo jeito. Quando um menininho de cinco anos tentou me explicar o fenômeno do escanteio outro dia, fiquei fascinada, agarrei ele e tasquei-lhe um beijo. Aquela criaturinha que entendia de futebol tanto quanto o Pelé era simplesmente incrível. Igualmente fascinada fico quando um bando de marmanjão começa a discutir com o juíz (como se ele fosse ouvi-los lá de dentro da tela plana, 29"), dizendo que o tal fenômeno ocorreu, quando o homem de preto insiste em dizer o contrário. Fato esse que eu teria dificuldades para entender mesmo por meio de uma análise digital minuciosamente representada por gráficos e com a certeza de acontecimento assinada pelo Papa.

E ainda assim, sou obrigada a ouvir de certas pessoas o quão chata que sou. Alguma vez eu disse o contrário? Faça bom uso do meu currículo aquele que decidir me encarar.

maio 27, 2004

Ela por Ela mesma

O frio lá fora continua. E é bom porque se você estiver com a cabeça quente, basta abrir a janela.

O horóscopo diário insiste em afirmar a tal da racionalidade, que até agora eu não tive paciência para compreender. Paciência! Porque até agora eu também não entendi o porquê de ler essas palavras todos os dias, assim, como uma religião. Espera aí, mas não é uma religião? Talvez seja. Mas no fundo, no fundo é uma tentativa de prever o futuro, de saber o que os astros reservam e essas baboseiras todas. E eu, tão racional, como ele diz - o horóscopo - ignoro o fato de como um astrólogo lança algumas palavrinhas e essas palavrinhas servem para traçar, desvendar, ou seja lá o que for, o destino de milhares e milhares de pessoas do mesmo signo, dizendo o que acontecerá ou como elas estão se sentindo, assim, tudo ao mesmo tempo, como se todas as pessoas fossem iguais.

Um tanto quanto curioso, não? Tudo bem, nem posso falar muito porque sou rendida a essas palavras todos os dias e, não sei se verdade ou coincidência, sempre acabo relacionando algum fato ou acontecimento da minha vida a elas. É impressionante, mas elas sempre acabam desvendando meu estado de espírito. Vai ver são palavrinhas estratégicas. Ops! Acho que acabo de descobrir a minha tal racionalidade.

Quer saber? Acho que eu sou racional mesmo. Sou do tipo que acorda de manhã e antes mesmo de sair de casa já consigo saber se o meu estado de espírito será chato ou chatíssimo. Peraí, você também deve fazer isso. Tá, mas duvido que logo cedo você mande um e-mail ao seu melhor amigo avisando-o para não encher a sua paciência porque você não está num bom dia. Tudo bem, isso pode simplesmente não ser racional e sim um sintoma da sua chatisse incontrolável. Ou melhor, da minha.

Você aí deve estar pensando que estou assinando minha sentença de monstro, insensível e destruidora de corações. Não, meu amigo, não é nada disso. Sou até sentimental demais, se você quer saber. Choro até com final de novela e, dependendo do dia, meus olhinhos enchem-se de lágrimas ao ver um cachorrinho largado na rua. E eu nem gosto tanto de cachorrinhos assim. Isso é sinal de inconstância, aliás, característica também identificada pelo horóscopo. Se você for um bom observador, deve ter percebido essa falta de ritmo aqui no Proseando. E então, agora você quer falar de quê?

maio 22, 2004

Arrumação

A atenção que este blogue merece demora a chegar. Não, ainda não chegou. Eis apenas uma tentativa. Declaro inauguradas duas novas seções: a primeira, "Falando em Prosear...", foi criada há algumas semanas. No índice, vocês encontrarão alguns sites que falam de literatura cientificamente. Tenho uma nova listagem a inserir, mas está no computador do escritório. Prometo que disponibilizo em breve. A outra seção, "Prosas Musicais", traz sites oficiais de uma galerinha nova que vem surgindo por aí, promessa de sucesso. Destaque para o Vega que vocês já conhecem e para a Danyela Gato, que eu já acompanho há um tempinho, especialmente em suas apresentações no Pão com Manteiga, um simpático bar da região da Paulista. Com o passar do tempo, pretendo disponibilizar outros sites de pessoas que admiro, sim, pois assim como a literatura, a música também é uma grande paixão. Para finalizar, criei vergonha na cara e inseri mais alguns blogues amigos e outros que ainda não são. Espero que gostem e apreciem!
Domingo

Domingo,
Tristeza ao contrário
Dia Fútil
Dia útil

(caso alguém conheça o autor, fique à vontade para mencioná-lo)

maio 19, 2004

Eu vi, eu fui

A rá, eu estava lá!

E presenciei muitas coisas engraçadas. Vi a Camila se declarando para o Bruno de Luca, dizendo que ele era o ídolo dela desde a época da Malhação e quase morri de rir. Como se não bastasse isso, vi ainda a pentelha da Camila pentelhando os pentelhos do Pânico na TV, que não se continham em suas pentelhices. Vi também meu diretor abordando, e deixo bem claro que no bom sentido, a Maryeva, quando ela passou pela gente a caminho do camarim. Sim, vi as figuras mais esdrúxulas do meio artístico transitando pela Via Funchal. Lembram-se do Fly, dançarino da Xuxa, integrante do You Can Dance? É, ele não fez nenhuma performance, mas marcou presença. Fora algumas modelos loiras e peitudas que, nem mesmo se minha memória funcionasse corretamente, eu lembraria os nomes.

Sim, eu compareci à cerimônia de premiação iBest 2004 e ainda estou sob efeito do excesso de prosseco ingerido, o qual levou os mais sãos dos meus sentidos. Por isso, não liguem caso esse texto também comece a não fazer sentido algum.

A empresa em que trabalho concorreu à categoria fidelização pela academia e pelo júri popular. Não, não ganhamos. E nem vou adentrar no universo do "tudo muito estranho", para não nos estressarmos, ok? Sim, muito estranho como o maior site de fidelização da América Latina não leva, e a patrocinadora do evento abraça todos os prêmios que concorreram, inclusive o de fidelização. E nas duas categorias! Oh, não vou me adentrar.

Um ponto interessante que, particularmente, considerei um dos mais altos foi a premiação na categoria blogues. Peraí, não é empolgação demais. Afinal, estamos falando de um dos maiores prêmios de internet no Brasil. Vá lá que pode ter as suas particularidades, mas merece o nosso apreço. O blogue "Garotas que dizem Ni", que está aí ao lado, era um dos concorrentes e o meu favorito desde a época do Top 10. Foi o máximo ver suas criadoras, Clara McFly, Vivi Griswold e Fla Wonka, ao vivo e a cores. Pena que também não levaram, mas o reconhecimento que receberam com a indicação e tudo o mais foi válido, com certeza. Além disso, o fato de colaborarem para firmar ainda mais a categoria blogueira é um prêmio para todos nós, que prezamos por coisa de qualidade nessa internet de meu Deus. Parece papo de feminista, petista, ista, ista. Mas que mereciam a vitória, isso mereciam!

Mas tudo bem, ano que vem tem mais. Quem sabe o nosso humilde Proseando não marque presença? E quem sabe ainda, esta que vos fala saia de lá num estado, digamos, menos acoolizado? Tudo é possível.

maio 17, 2004

Notas

O frio resolveu aparecer aqui na Metrópole Desvairada. Não que isso seja um grande problema para os paulistanos. Muito menos para aqueles que passam 80% do dia dentro de um escritório, geralmente na parte mais alta de algum edifício, onde a vista para o lado externo dá a impressão de que é sempre noite e, claro, o ar condicionado na temperatura dos 18 graus suportáveis.

Não é nada incomum você sair na rua em plena manhã de verão e flagrar pessoas com blusas de frio entre seus pertences e, lógico, um guarda-chuva. Porque assim como o trânsito, nessa cidade o tempo também é imprevisível. Mas desta vez a culpa não é da imprevisão. E nem mesmo estamos no verão. Ouvi dizer que é reflexo do tal ciclone que apareceu lá pelas bandas do sul do país. Para pessoas como eu, que curtem um friozinho na espinha, é maravilhoso. Mas, para aquelas que fazem jus às belas praias do Brasilzão e, claro, do astro-rei brilhando lindão lá em cima, vou te contar. Deve ser um martírio. Mas o bom de tudo mesmo é que vivemos num país tropical e que o clima agrada igualmente a todos, não é verdade?


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Três comadres resolvem sair de casa na tarde de um domingo qualquer com destino ao teatro. Em decorrência da super lotação não prevista, os planos passam por uma pequena adaptação e o destino as levam a uma mega exposição fotográfica. De repente, as três, que não entendem nadinha de fotografia (uma delas tem dificuldade até de se auto-reconhecer num retrato), se vêem nas principais ruas de Sampa em pleno século XIX. Sob a vertente iconográfica introduzida pela ótica de grandes fotógrafos, elas realizam um passeio por São Paulo desde a época em que era um tímido vilarejo, captando cada aspecto que fez da Terra da Garoa uma grande metrópole. Cada fator determinante para o crescimento populacional de São Paulo e sua evolução do ponto de vista moderno e social deixou as garotas de queixo caído. De queixo mais caído ficaram, quando saíram daquele universo do tempo dos seus avôs, provavelmente, e se depararam com a Avenida Paulista linda e acolhedora como sempre. Mas vazia, não se esqueçam disso. Era um domingo. Como acabou? Num bar ali perto, num longo bate-papo de comadres, regado a chopp e chocolate quente porque, afinal, os corações ali eram paulistanos. Se você ficou com vontade, as três recomendam: São Paulo, 450 anos - A imagem e a memória da cidade no acervo do Instituto Moreira Sales. (Galeria de Arte do Sesi - Av. Paulista, 1.313 - São Paulo - SP).


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Se você acha que isso aqui está parado demais para o seu gosto, a alma do outro lado do seu monitor, a milhões e milhões de giga bytes luz, adverte: tenha paciência e muita fé, pois uma hora ela conseguirá ter o mínimo de organização possível e pelo menos dar a impressão de que as coisas estão caminhando no ritmo recomendável. Vejam bem: ela disse "recomendável".

maio 09, 2004

Mãe

Nesta data especial, aqui, representando todas as mães do mundo, e em especial a minha: Dona Isa.

A elas:

Amigas. Colegas. Às vezes, desconhecidas. Outras, irmã mais velha...

Mães em todas as ocasiões.

Seres especiais. Pedacinhos do coração de Deus. Presentes do Pai.

Sinônimo de esperança.

Força em pessoa.

Resposta para todas as perguntas.

Em cada lágrima. Em cada olhar. Em cada sorriso.

Amor. Fraternidade. Compreensão.

Nem que eu buscasse todos os adjetivos do mundo,

Nem que eu dominasse de todas a línguas: latinas, ocidentais, orientais,

Nem que eu tivesse a sensibilidade de Maria, mãe de todas as mães e de todos os filhos,

Nem mesmo assim, conseguiria traduzir em palavras o significado de

Mãe, palavra intraduzível.

Que as nossas mães tenham um lindo Feliz Dia das Mães!

maio 07, 2004

Meu lado esquerdo

Meu lado esquerdo do cérebro não funciona muito bem. É essa a justificativa que ofereço às pessoas quando fica explícito o quão avoada que sou. Não é uma justificativa inventada, pode acreditar. Também não sei se é plausível dizer que é aceitável, uma vez que eu não entendo nada de questões cerebrais ou coisa parecida, exceto a parte que justifica a insanidade humana, para a qual eu também contribuo e de forma bastante ativa. Se você, meu caro amigo, está achando isso um tanto esquisito, não ache. Lembre-se daquela velha e sábia frase do Caetano Veloso: "de perto, ninguém é normal" e a normalidade passou longe do meu planeta, tenha a certeza.

Quanto ao lado esquerdo, atribuo a justificativa a uma queda que tive aos três anos de idade, o que me coube uma fratura no lado direito da cabeça. Como existe a teoria de que o lado direito do cérebro comanda o esquerdo e vice-versa, adaptei essa lógica à minha problemática. Vai dizer que não faz sentido?! Se restaram seqüelas? Hmm... você tem alguma dúvida?

Pois bem, eu não tenho nenhuma. Para captar esse meu grau de loucura foi muito simples. Bastou mais uma vez acabar as pilhas do meu walkman para que eu me colocasse a refletir sobre a vida. Como? Simples e, se quiser, você também pode tentar. Pegue um dia da sua vida, apenas um dia, e trace sua trajetória. Tente, vá fundo. O meu dia escolhido rendeu ótimos resultados e muitas, mas muitas trapalhadas. Mas o pior de tudo foi descobrir que minha memória definitivamente não está compatível com meus quase 22 anos de idade. Não, não está mesmo.

Imagine você acordar as cinco da matina, tomar aquela ducha demorada para refrescar o tico e o teco e começar o seu dia com, não um, mas vários esquecimentos. Primeiro, depois do café da mama, peguei meus pertences e, quando cheguei ao portão, com um singelo toque na face percebi que estava sem meus óculos. De início, você até tenta se imaginar no escritório, na frente do computador sem eles e... não, não dá. Então, você sobe as escadas, caminha xingando a si próprio como uma autopunição, chega até a sua escrivaninha pensando no que raios você foi fazer ali mesmo. Ah, sim, os óculos. Apanha sua visão para o mundo exterior e ouve de novo todas aquelas recomendações de mãe. É engraçado porque todo dia é a mesma coisa, sem mudar uma vírgula: “vai com Deus, minha filha, tenha um bom dia, cuidado na rua com esses malucos, não chegue tarde...”.

Quando finalmente você chega ao portão novamente, não consegue passar para o lado de fora porque esqueceu as chaves. Oh, as chaves. Não adianta, desta vez, larga os pertences em cima de qualquer coisa e repete o percurso outra vez. Só não repete os mesmos palavrões pela milésima vez porque quando chega na porta se depara com sua mãe com as danadinhas na mão. Só resta rir da própria desgraça mesmo. Se você acha que este curto período matinal acaba por aí, está redondamente enganado. Depois de sair na rua e chegar ao ponto para pegar o coletivo, você percebe que alguma coisa está estranha. Não, não foi o passe que esqueceu em cima da escrivaninha. Parece ser algo mais importante. Mas, tudo bem, você apanha outro passe na bolsa e finalmente senta-se no banco altão que está lá todos os dias à sua espera.

O astro-rei brilhando e você, compenetrada, testando várias pilhas usadas jogadas na bolsa, tentando adivinhar se conseguirá concluir a viagem mantendo-se a par do noticiário do dia e, claro, daquela bela trilha sonora ou não. Mal sabe. A avenida Interlagos com aquele trânsito que faz qualquer um desejar ter o dom de poder se teletransportar. O coletivo tão lotado que faz você sentir remorso por estar sentado enquanto tantas pessoas estão em pé e as horas, vejam só, as horas voando. Isso sem contar que você ainda tem que enfrentar a avenida Berrini e o mau humor do motorista que nem iniciou o dia e já está estressado com o trânsito da cidade. Você olha para o relógio que, por algum milagre está no seu braço, e percebe então o que de tão importante havia esquecido. Sim, ele mesmo, o celular. Um dia sem celular. E você nem sequer pode dar uma ligadinha básica no escritório para avisar que não chegará trinta ou quarenta minutos atrasada como é de costume, mas sim uma hora. É, uma hora inteirinha, com todos os 60 minutos que lhe cabe. E, quando finalmente chega, percebe que o mocinho que chamou para a entrevista está à sua espera desde as oito horas e lembra-se, que maravilha, que de lá há exatamente 30 minutos tem que estar na avenida São João para um treinamento, cuja apresentação você esqueceu-se de pedir para gravarem em CD. Resta então você liberar um belo sorriso para descontrair e se conformar já que, bom, pontualidade nunca foi o seu forte mesmo.

Se você gostaria que as trapalhadas do dia terminassem por aí, na parte da manhã, fico feliz pela parte que me toca, mas não. Elas continuam durante o dia todo e, partindo dessa minha reflexão, não encontro outro diagnóstico senão, admitir que meu caso de fato é crítico. Então, finalmente começo a entender o porquê daquela franjinha de post it’s amarelos ao redor do meu monitor, sem contar os post it’s virtuais multicoloridos e adaptados com vários alerts na minha área de trabalho. Ah, agora eu também compreendo porque a minha mãe me acompanhou até o quarto outro dia, quando estava me preparando para dormir, só para avisar que eu estava usando óculos, morrendo de medo de que eu fosse dormir com eles e furar a vista com os parafusinhos. E ainda quando eu saio de manhã e, quase sempre, ela me acompanha fazendo um questionário: “está levando guarda-chuva?”, “o cheque do seu irmão?”, “não está esquecendo de nada?”.

Agora, pode falar: você acha que, depois de tudo isso, existe alguma chance do meu lado esquerdo exercer algum auxílio para o direito? Hum, hum, meu amigo. Negativo! O meu lado esquerdo realmente não funciona.

maio 05, 2004

O Jardim da Alienação

Enclausurada. Não apenas naquele lugar, mas dentro de si. Era assim que se sentia. Bem. Todo mundo dizia que aquilo tudo era para o seu próprio bem, a ponto de ela já não saber o que era bom e o que era ruim. O positivo e o negativo já não eram reconhecidos. Aprisionada num mundo desconhecido e tudo porque simplesmente quisera assim. Porque um dia acordou e nada mais fazia sentido. À sua volta, todos com o mesmo olhar. Sem aprovação, mas também sem repreensão. Cada ato, cada procedimento, cada gesto e cada contato era parte de um tratamento imposto. Pré-estabelecido. Necessário.

Longe de si, longe dos outros, de tudo, de todos. Não dominava suas vontades, não mais identificava os seus sentidos. Era escrava de algo desconhecido. Um instinto. Uma dominação que nascia sabe-se lá de onde, sem motivo, sem razão. Uma força que se apoderava assustadoramente partindo das entranhas da sua alma. Sim, uma necessidade sem razão de ser, apenas monstruosa. A condição que, cada vez mais, a afastava de si mesma. O vício. Ela era escrava do vício.

Ali, sentada, ela não enxergava e não ouvia. A única consciência era do que que estava por vir, mas mesmo assim não entendia. Aquilo tudo era forte demais para a sua essência. Não, ela não poderia fugir, mas não hesitava ao tentar. Levantou-se devagar, lançando um olhar insano para todos os lados. Que pena, não tinha noção do belo jardim que estava à sua frente - o jardim das mais belas flores do mundo. De repente, viu-se correndo e não percebia que esmagava as flores, uma a uma. Tentava uma fuga desesperada. O corpo formigava por inteiro, as mãos sobre cabeça, como se aquela dor fosse arrancada junto com cada fio de cabelo vermelho. O olhar, imcompreensível. Os olhos, sim, cobertos de lágrimas de desespero e gritos incontrolados que despertavam a atenção de qualquer um. O pavor no seu rosto parecia contagioso. Corria desnorteada, destruindo casa pétala de flor. Estava ensandecida. Nenhuma explicação plausível. Por um segundo pareceu entender o que acontecia. Mas não. Nada tinha explicação.

Uns cinco seres vestidos de branco em cima dela. A razão controlando a loucura. Na linguagem deles, ela estava sendo imobilizada. Na linguagem dos que pensam entender, estava claro que o líquido injetado nas suas veias era apenas mais uma dose de insanidade. Hipócritas os que pensam ser calmante. O seu corpo recebia agora um aditivo para impulsionar a sua perda de memória recente. Um auxílio para fugir dos problemas. Para continuar não entendendo nada. Para, no dia que encontrar alguma certeza na vida, certificar-se do nada. Perdia os sentidos, de fato, lentamente. Não precisaria sair dali algum dia para encontrar o nada. O nada fora mais rápido.

Quando finalmente abriu os olhos, percebeu-se sozinha no quarto. Serena. Tranqüila. Quem ousasse dizer que acabara de despertar de um pesadelo seria taxado como o maior infame do mundo. O nada ainda estava em sua mente. Levantou-se calma e caminhou cuidadosamente até a janela. Impulsionou a pequena fresta e deparou-se com um majestoso jardim. Lírios brancos em meio a rosas azuis. Cantos variados de pássaros invadiam os seus tímpanos e uma espécie rara de borboleta pousou ali perto. Não, ainda não era a liberdade.

maio 04, 2004

Fútil

Então pra você a homossexualidade é uma questão de contracultura? Sei. Assim como a Aids deve lhe parecer uma tendência comportamental. Ou uma escolha, como preferir. Algo como quando você acorda de manhã e diz "hoje quero ser gay" ou "hoje quero ser aidético". Isso sem a necessidade de afirmar o que realmente você de fato é ao expressar determinados pensamentos. Nem vem, porque determinados pensamentos não são absolvidos pela liberdade de expressão. Se você não entendeu, aqui eu faço as regras. E, só para deixar ainda mais claro, meu senso de defesa não é necessariamente a minha essência.

abril 30, 2004

Os Criadores e a Criatura

Loucos. Descabelados. Solitários. Você reconhece essas características? Hmm... deixe-me ajudá-lo. Você tem ido ao cinema ultimamente? Se sim, deve ter percebido explicitamente a forma como os cieastas vêem os escritores. Sim, até mesmo aqueles que são sucesso de mídia. Todos têm traços de loucura - quando não no porte físico, são facilmente identificados nos aspectos psicológicos das personagens. Todos, em determinado momento, se descabelam por alguma coisa, isso quando não são descabelados visualmente falando mesmo. Chega a dar medo. E todos são solitários, é impressionante. Parece até que é uma taxação prioritária. Quando não são vítimas do divórcio, são figuras focadas no trabalho e não disponíveis para qualquer aventura amorosa (quadro que muda só no final do filme, lógico), ou, são homossexuais do tipo frustrados e desgraçados pela vida.

Além do mais, parece que é moda abordar personagens escritoras nos filmes ultimamente. Não que eu ache ruim, muito pelo contrário, me divirto e muito, mas que isso chama a atenção, ah... chama. E desperta atenção também, além das três características básicas que citei há pouco, os vários perfis de escritores que nos apresentam. Até pouco tempo atrás, minha visão de escritor era um vovozinho ou uma vovozinha de cabelos bem branquinhos, com aqueles óculos redondinhos e com aquela carinha que dá vontade de apertar de tão fofa. Isso, claro, até eu quebrar a bolha que me protegia das coisas boas da vida e conhecer uma rapaze que deixa de cabelo em pé qualquer tipinho simpático dito literato tradicionalista. Hmm... vocês nunca ouviram falar da Geração 90 de escritores, certo? Não sabem o que é o humor bombástico do Marcelino Freire? A visão mais que naturalista da vida pelos olhos de Clarah Averbuck? A "fama transgressora" de Nelson de Oliveira? A criativa linhagem poética de Fabrício Carpinajar? Sem falar nos muitos e muitos talentos que esse texto não comportaria... Se não conhece, nem preciso fazer convite, certo?

Pois bem, o protótipo de escritor abordado pelos cineastas e aquele que o ensino de litetatura na escola nos oferece é completamente diferente, diante do que realmente é o que escreve a história da nossa geração atualmente. Mais do que loucos, descabelados e solitários, temos gente com sede de juventude, de criar novas frentes de discussões, de admitir que estamos em pleno século XXI e que temos que escrever a realidade nessa nova linguagem, falar de geração para geração. Não falo aqui de transgredir regras gramaticais, de transformar a língua materna numa linguagem chula. Falo língua materna porque essa evolução de que trato não é apenas brasileira. A literatura possui um elo mundial globalizado. E, acreditem, não falo somente de adolescentes de classe média com piercings and tatoos que decidem embrulhar pra presente suas aventuras sexuais e narcóticas e oferecerem à mídia para, então, transformar-se naquilo que todos nós já sabemos.

Certo, não é novidade que cinema e mundo real não são a mesma coisa. O cinema trata os escritores com certo diferencial, mas não está acompanhando nem de longe essa evolução. O tipo louco psicótico que sofre de distúrbio de personalidade múltipla, vivido por Johnny Depp em "A Janela Secreta", é caótico, caricato. De fato, cômico, mas não real. O solitário e mega confuso Alex, vivido por Luke Wilson em "Alex e Emma" é até normalzinho, mas não passa de um tipinho cômico limitado. Sim, às vezes, eles dão umas dentro. Em "Encontrando Forrester", Sean Conery, apesar de esquisito por tratar-se de um ser recluso não só em seu apartamento, mas em seu inconsciente, não está tão distante do que seria um escritor experiente nos dias de hoje. Só para não me estender muito, vale citar Diane Keaton em "Alguém tem que ceder". Sim, o filme arranca ótimas gargalhadas, apresenta as nuances cômicas das personagens, mas a escritora teatral vivida por Diane parece ser bem situada em seu mundo, em sua realidade, principalmente quando adapta sua própria realidade.

E, falando em realidade, a literatura não possui só um aspecto imaginário, como a maioria das pessoas pensam. Principalmente, quando lemos um escritor situado em nosso tempo. Conhecer a literatura e seus criadores nas telonas é ótimo, mas muito mais interessante é conhecê-los por meio das suas próprias obras, através delas. Tente e me conte depois.

abril 27, 2004

Texto crítico

Okay, okay. É fato que tudo nessa vida é concebido partindo de uma opinião pré-esatabelecida sobre algo ou alguém. E é fato também que essa tal opinião não precisa simplesmente nascer, viver e comer muito arroz com feijão para ser notada. Não, não, ela já nasce com força tamanha, com capacidade total para destruir ou alavancar qualquer coisa. Exatamente, eu disse qualquer coisa.

Sim, sim, falo dela mesma: a CRÍTICA. Essa palavrinha trissilábica tão comum, tão conhecida por todos, tão presente em cada fio de pensamento, tem um poder tão grande que ninguém, absolutamente ninguém, é capaz de deter. Muito mais que um poder ou uma conduta comportamental, a crítica é uma necessidade. E nós somos absorvidos pelo ato de criticar de forma tão fluente, a ponto de nos perdermos e afundarmos na grande confusão que se cria quando não se consegue perceber a diferença entre criticar e julgar.

Julgar. Criar opinião. Dizer o que se pensa no ímpeto do momento. Essas características fazem de nós simplesmente seres humanos e desconhecedores do significado de sermos seres críticos. Eis a grande diferença e o motivo pelo qual vemos nossos semelhantes tornarem-se, de um segundo para outro, seres monstruosos, mesquinhos e, por muitas vezes, inconseqüentes.

Mas, como dizemos no nosso dia-a-dia quando algo está longe de uma conclusão sensata, "é a vida". E de fato é mesmo porque a vida também é movida pela crítica. O governo de nenhum país terá rumo decidido senão por meio da opinião crítica de alguém - seja de uma população ou de uma cúpula; nenhum escritor, por mais que isso possa parecer desconfortável em determinados momentos, terá sua obra firmada senão pela opinião crítica de alguém; idem para os músicos, artistas plásticos e toda variada categoria artística; nenhum filho assume determinada conduta ética e moral na vida senão pela opinião dos pais ou de quem o criou ou de quem interferiu diretamente no seu crescimento e amadurecimento - aqui, entenda-se amigos de infância, colegas de escola, professores, chefes et cetera. E assim, reforço mais uma vez, "é a vida".

Ah, mas ela está focada somente em único lado dessa tal de crítica, vocês devem estar pensando. Não, claro que não. Eu não me esqueci que existem as críticas construtivas e as críticas destrutivas. E também não descarto a possibilidade de uma crítica destrutiva ter lá o seu quê de positiva. Estou errada? Ao menos para identificar que o crítico é, no mínimo, um precipitado ao formar determinada opinião destrutiva sobre algo, esse tipo de crítica serve. Daí, dependendo da perspectiva, muitos outros aspectos positivos podem ser extraídos. Pode tentar se quiser, mas cuidado para não correr o risco de ser considerado também um mesquinho, ao tentar combater uma mesquinharia com outra.

É justamente aí que mora o xis da questão. A grande proeza que faz da gente "pessoas críticas" e "pessoas críticas" está na diferenciação entre ser um bom observador e ser um oportunista de plantão, registrando nas pessoas apenas os seus deslizes. E mais uma coisinha: saber relevar, filtrar o que realmente é importante e faz a diferença. Saber ser um bom observador e registrador dos fatos e não um paparazzi do mundo real.

Isso, esse será meu exercício daqui pra frente.

abril 26, 2004

Verdadeiro ou Falso?

Viver - insanidade indomável.
Não se importar com as verdades
E abusar das mentiras.
Desistir? - eu pergunto.
Jogar para o alto?- eu insisto.
Jogar para o alto, talvez.
Desistir, jamais.
Jogar para o alto
E viver um segundo por vez.
O que importa o dinheiro,
Tesouro falso?
E a fama, necessidade de auto-afirmação?
Simplesmente não importam.
Importa sim a luz do sol,
Astro-rei soberano.
Ou ainda, os pingos da chuva,
Tentativas de recomeço.
Importa de fato o brilho nos olhos.
Se os olhos brilham, o sentimento é verdadeiro.
Mas o que é a verdade? - busco entender.
É a mentira para uns, travestida de fada-madrinha.
É o ímpeto que se sente
Quando as necessidades são manifestadas.
É a nossa razão, oras!
É a miséria das condutas.
Seres Desumanos.
A verdade pode não ser o que escrevo agora.

abril 22, 2004

Entender é preciso

Chiclete mascando
Uma mordida inesperada na língua
Não é sinal de tagarelice
O trabalho exposto na sua frente
E João Gilberto falando baixinho ao seu ouvido
Uma intimidade falsa?
A vida fugindo da lembrança
Porque ainda é preciso deixar o pensamento livre
Irresponsabilidade também cabe aos ocupados
E também a vontade de transgredir aos politicamente corretos
E aos falsos intelectuais
A ânsia de envelhecer para acabar mais rápido
A esperança de manter-se jovem porque a confusão é inevitável
Tudo parece mágica
Quando qualquer palavra parece fazer sentido
Enfatiza os caminhos errados
E apaga só um pouquinho a neblina do que parece ser certo
Porque acreditar ainda é possível

abril 19, 2004

A arte de não expandir

O que você quer? Que eu me converta em off para o mundo? Que eu me tranque no fundo do seu quintal? Que eu me esconda para sempre atrás da sua cortina? Que nunca mais na vida ligue a televisão? Que eu afogue meu radinho à pilha no seu vaso sanitário? Na sua presença, para não restar dúvidas? Ah, então você quer que eu desacredite na índole da multidão? Que eu pense que o azul não é mais azul? E que o arco-íris nunca foi colorido? Quer que eu acredite no seu conceito de inteligência? Na sua unilateralidade? Você acha mesmo que o mundo foi escrito em uma só língua? Ah, sei, você acha mesmo que isso que faz é literatura? E que eu sou mesmo tão santa como você havia previsto? Nunca ouviu falar em transgredir, não? Acha mesmo que essa sua vidinha regrada me satisfaria? Você sempre duvidou desse meu egoísmo, né? O que você pensa, que a felicidade é eterna, é? Que o gnomo do seu jardim lhe é fiel? Que todas as menininhas nascem virgens? Que o mundo é uma grande bolha rodeada de sexo, drogas e rock'n roll? Você acha mesmo que Freud é o senhor único da psicanálise? Tá, e você nunca ouviu falar em revolução? Que um único filme pode ser dirigido por mais de uma pessoa? E que um escritor nunca escreve um livro sozinho? Que a solidão é boa, sim, muito boa? O seu problema é não enxergar que o mundo é uma grande interrogação.

abril 12, 2004

Mudanças

Agora ele fechou os olhos. Quer ver o mundo com os ouvidos, para que aquilo que captar chegue mais rápido ao coração, assim como aquela canção que faz a gente chorar. Ver o mundo como uma canção. Faz a vida ganhar um sentido mais intenso, mais profundo, sabe? Como notas musicais que se adentram pelos poros, por qualquer orifício disponível.

Ele quer realizar o encontro da imaginação com a vida. Porque ele acha que a imaginação é o princípio da verdade. E eu, honestamente, acho que ele tem razão. Porque a razão é um dos combustíveis da vida. É, eu acho isso. Mas, que droga, ele não quer saber da razão. A razão, para ele, é conotativa. A razão, para ele, não é única e nunca vai ser. A razão têm várias caras, vários donos. Cada um sabe identificar a sua de olhos fechados. E ele permanece lá, se redescobrindo ao som do mundo. Consegue pensar em várias coisas ao mesmo tempo, como um cérebro feminino, como se sua alma fossem duas - uma feminina e outra masculina. E conclui que, de olhos fechados, qualquer homem nesse mundo é capaz de enxergar três mil vezes mais que de olhos bem abertos.

Ora, ora, ele consegue até conter lágrimas e sorrir. Sabe detectar a paisagem pela janela sem ver as suas cores e formas. Consegue até enxergar as várias feições ali presentes. E de olhos fechados. Ele está se redescobrindo, talvez, renascendo. Ainda não sebe quem são seus pais. Ele não deseja saber isso agora. Agora, não. Está provando a liberdade de forma digna. De uma forma não convencional, o que tem tudo a ver com sua personalidade. Sem desgastes, sem males causados, sem perdas, sem danos, sem sofrimento. E de pensar que se é possível renascer em conseqüência de um sofrimento. Chega a dar frio no estômago. Mas é um fenômeno maravilhoso comum a poucos. Igual ao Cometa Halley, que nem todo mundo teve ou terá a oportunidade de ver.

E o alívio? É possível ter noção do tamanho da cruz que foi tirada das suas costas. Por um instante dá a impressão de que ele não tem mais responsabilidades. Mas viver já não é uma grande responsabilidade? Sim, ser dono do próprio nariz, saber o que dizer e para quem dizer, saber pra que lado ir, o que ter, o que jogar fora e a quem recorrer. Ninguém é sozinho no mundo. O mundo é bem menor do que a maioria das pessoas imaginam. Ninguém é sozinho no mundo, nem que a companhia seja a própria consciência. Mas isso sendo radical demais, é claro.

Mas uma coisa é certa: ele ainda não é feliz de fato. Xiii, ser feliz de fato não é nada fácil. Minha vã sabedoria inexperiente diz que ele está no caminho certo. Não importa se de ônibus ou de táxi, mas ele está no caminho certo. Eu vou acompanhá-lo. Talvez não passo a passo, mas estarei junto dele em alguns momentos. No momento certo, eu estarei lá e tenha a certeza de que minha contribuição não terá sido miúda, não. É o que diz minha razão e acredito que a dele também.

abril 08, 2004

O significado da Páscoa
(Por Nova Manhã)

Nesse fim de semana será comemorada a Páscoa.

A Páscoa simboliza a alegria, o recomeço, a nova vida e o sentido do sacrifício.

Para os cristãos, a Páscoa celebra a ressurreição de Jesus Cristo, crucificado numa cruz para liberar os homens do Pecado Original. Por isso, além de símbolo da Páscoa, a cruz é o principal símbolo da religião cristã.

Durante a Semana Santa, ocorrem alguns rituais que representam a Crucificação, a Morte e a Ressurreição de Cristo.

Mas como é que a festa pela celebração da ressurreição de Cristo acabou se misturando com coelhos e ovos? Tudo começou há muito tempo antes de Cristo, com a Deusa da Primavera, Ostara. Os europeus faziam homenagens aos deuses para celebrar a natureza.

Já o povo egípcio, acreditava em um único deus e comemorava a Pessach, páscoa para os judeus. É a celebração do êxodo e a liberação do povo de Israel da escravidão do Egito. É um ritual de passagem, assim como a "passagem" de Jesus Cristo da morte para a vida.

Durante as comemorações da Pessach, Jesus foi preso, crucificado e depois ressuscitou. A Santa Ceia, na qual todos os apostólos se reuniram com Jesus, era um grande banquete de Pessach!

Para os judeus que mudaram de religião e passaram a acreditar em Jesus Cristo, a Pessach passou a ter outro significado: a data não deixava ninguém esquecer o sacrifício e o renascimento de Jesus. Para os cristãos, a celebração então passou a se chamar... Páscoa!

Depois da morte de Jesus Cristo, o cristianismo começou a se espalhar pelo mundo. Na Europa se deparou com os rituais pagãos.

Os cristãos difundiram os ensinamentos de Jesus Cristo aos pagãos, que foram deixando de lado os rituais.

Muitos aspectos das duas religiões acabaram se misturando. E aí, quando os ex-pagãos viraram cristãos, eles deixaram de comemorar a primavera para comemorar a Páscoa, mas levaram para dentro do cristianismo alguns símbolos que eles usavam em seus rituais, como por exemplo, o coelho!

O coelho era um símbolo superimportante nas comemorações pagãs de primavera. Antes de ser o coelho da Páscoa, era mais conhecido como o coelho de Ostara, a Deusa da Primavera. Com seus superpoderes de reprodução ele representava a fertilidade da primavera, que é a estação que mais nascem flores.

O coelho passou a representar a "fertilidade" da Igreja Católica e sua capacidade de "reproduzir" os fiéis e espalhar sua fé pelo mundo.

Assim como os coelhos, os ovos também simbolizavam o renascimento da natureza depois de um longo inverno.

A idéia de renascimento ficou, mas no lugar de "primavera", entrou "Jesus ", e o ovo passou a representar a ressurreição de Cristo.

Uma Feliz Páscoa para todos!

abril 07, 2004

Coisas que emocionam

Não sei como e nem por que me veio à cabeça tais palavras. Estou aprendendo a gostar de poemas agora, já grande. Tenho muito que percorrer. Mas já tenho meus favoritos, acreditam nisso? Sim, é dele mesmo: Mário de Andrade. Um dos melhores poemas já identificados por minhas vistas míopes e sei lá mais o quê. Ah, tenho que compartilhá-lo com vocês! Poema é como música e a gente nunca sabe por onde ele toca nosso coração. Chega por algum caminho. Muitas vezes, as lágrimas também têm motivos desconhecidos. Aconteceu comigo. Não conti minhas emoções quando vi esse poema na minissérie Um só Coração, anunciando a morte do poeta Mário de Andrade há alguns capítulos. Já o conhecia, mas foi diferente. Espero que apreciem. E que se sintam. E que se emocionem.

Poemas da amiga
(Mário de Andrade)

A tarde se deitava nos meus olhos
E a fuga da hora me entregava abril,
Um sabor familiar de até-logo criava
Um ar, e, não sei porque, te percebi.

Voltei-me em flor. Mas era apenas tua lembrança.
Estavas longe doce amiga e só vi no perfil da cidade
O arcanjo forte do arranha-céu cor de rosa,
Mexendo asas azuis dentro da tarde.

Quando eu morrer quero ficar,
Não contem aos meus amigos,
Sepultado em minha cidade,
Saudade.

Meus pés enterrem na rua Aurora,
No Paissandu deixem meu sexo,
Na Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam.

No Pátio do Colégio afundem
O meu coração paulistano:
Um coração vivo e um defunto
Bem juntos.

Escondam no Correio o ouvido
Direito, o esquerdo nos Telégrafos,
Quero saber da vida alheia
Sereia.

O nariz guardem nos rosais,
A língua no alto do Ipiranga
Para cantar a liberdade.
Saudade...

Os olhos lá no Jaraguá
Assistirão ao que há de vir,
O joelho na Universidade,
Saudade...

As mãos atirem por aí,
Que desvivam como viveram,
As tripas atirem pro Diabo,
Que o espírito será de Deus.
Adeus.

abril 06, 2004

Filosofia dos Acontecimentos

Esta sou eu, parada na esquina
Do observatório da vida tentando entender tudo.
Aí está você, olhando pra cima
Sem entender nada.
Lá em em cima, os meus olhos
Bem ao lado da sua boca
Olhando para os seus pés aqui embaixo.
Eles estão na metade do meu caminho.
Ali na frente, nós dois
Atrás do futuro distante,
Bem próximo do que nos é real.
Quem sou eu?
Não sou Mario de Andrade
E também não sou Humberto Gessinger.
Eu sou um ser insistente
Esforço-me para permanecer ativo
Nas pontas do grande coelho de pelugem branca.

março 31, 2004

Começando pelo fim

Mania de começar pelo fim. Quem não tem curiosidade de saber o que vai acontecer no final? Como vai terminar a novela? E aquele filme, será que o mocinho realmente vai levar a melhor?

Essa característica é comum em todas as pessoas. A gente vive premeditando o que poderá vir depois. Vive com aquela curiosidade de saber se o romance vingará, se terminará o ano com dinheiro, se morrerá cedo e muitos outros “se”, que seriam suficientes para estender esse texto por mais umas quinhentas páginas. Tem gente que se rende às crenças de religiões africanas. Tem gente que prefere os costumes ciganos e tem gente até que acredita em dons sobrenaturais. Será que é bom viver correndo atrás do que acontecerá? Vai depender da circunstância, mas não deixa de ser um comportamento inevitável. Eu vejo isso de forma positiva quando nos permite o estabelecimento de metas, quando parte de um planejamento pessoal ou até mesmo profissional. Agora, a partir do momento que há o desprendimento do foco principal, dos verdadeiros objetivos, imaginando apenas o que poderá ser o final, pode sim senhor trazer prejuízos catastróficos. É preciso saber se policiar.

Em muitos momentos, nos atentamos ao final dos fatos e acontecimentos involuntariamente. Eu, por exemplo, tenho uma mania peculiar de, sempre que iniciar a leitura de um novo livro, ir direto à frase final. Se estraga a surpresa? No meu caso, não. Primeiro porque, saber do final desconhecendo o contexto, é irrelevante. E, depois, sempre acabo sendo absorvida pelo contexto e, conseqüentemente, esquecendo do final. Isso quando o destino não decide colaborar e o final acaba sendo o início por conta própria. Acabo de ler o livro 1933 foi um ano ruim, de John Fante, e descobri que ele foi publicado pouco antes de sua morte, no ano de 1983. Como é o segundo livro que leio do autor, não é mentira afirmar que iniciei a trajetória literária a la Jonh Fante pelo final.

Ainda no meio literário, no final do ano passado, ganhei o livro A Ditadura Derrotada, de Elio Gaspari, último livro da trilogia que completa-se com A Ditadura Escancarada e A Ditadura Envergonhada. Tive, claro, a opção de substituí-lo na livraria por qualquer um dos dois primeiros, mas optei por não fazê-lo. Mais uma vez, impulsionada pelo "ímpeto do que ocorrerá no final", resolvi iniciar minha leitura por meio das últimas conclusões do autor em relação à ditadura militar no Brasil. Comecei pelo último ciente de que, neste caso, a ordem dos fatores não iria alterar o produto. De súbito, fui atingida por uma dupla curiosidade: a de conhecer a visão de mais um jornalista a respeito deste drástico período político e a ansiedade de saber como foi que Elio Gaspari finalizou o terceiro fruto após anos de estudos, de coleta de depoimentos, aprendizados, e concepções de amizades, conforme o livro ilustra muito bem. Conclusão: independente de começo, meio ou fim, iniciei uma leitura prazerosa que poderei comentar mais a fundo em uma outra ocasião.

Continuando essa minha reflexão, certa vez, li um texto do ilustre Charles Chaplin que dizia algo sobre como a vida deveria ser iniciada com a velhice, quando já passamos pelas experiências de uma vida inteira, aprendemos, choramos, perdoamos, seguindo pela juventude, quando normalmente desfrutamos o que de melhor a vida nos oferece e sendo finalizada com um belo gozo, o momento da nossa concepção. Trata-se de uma teoria bastante interessante, fruto daquele nosso sentimento de saber antecipadamente no que vai dar a caminhada e em concluí-la em grande estilo.

Mas há algo realmente muito importante nesse pensamento. Existe, nisso tudo uma esperança, um otimismo, uma torcida pelo bem sucedido, seja lá o que ele for. E, se o fim é a felicidade, por que não começar por ele, ou melhor, por ela?

março 29, 2004

Por favor, aceite!

Você me viu sorrir e me disse para não sonhar. Disse que aquilo era aquilo, o ali, o agora e que de nada adiantaria eu viver de ilusão. Eu entendi, sério, entendi.

Então, você me ofereceu a sua verdade e eu aceitei. Todos os seus planos, os seus projetos . Vesti-me dos seus objetivos e não me importei se estava na moda ou não.

Aceitei a sua falta de possibilidades e até mesmo quando sem querer você não disse nada, nem que sim nem que não, eu aceitei.

Você me puxou para dentro do seu mundo e eu tirei os sapatos para entrar em você.

Eu conheci o Natal e aprendi a esperar e a prosperar. Entendi quem vinha primeiro e não me importei – respeitei as suas satisfações e ignorei o seu passado. Mais que isso: eu aceitei.

Engoli o tédio, inventei domingos, encontrei minha fé.

Chorei ao seu lado, lamentei as dores do mundo e não medi sacrilégios.

Compreendi o meu destino e resolvi encarar os seus desafios. Como recompensa, desvendei o enigma e aceitei. Simplesmente aceitei.

Aprendi a destruir o mal, a apreciar a vida e a amar as pessoas. Descobri que precisava delas, das suas felicidades e exaltações.

Deixei que você me conduzisse, fosse o meu guia, a minha bússola em mar aberto, em plena tempestade.

Aceitei tudo o que você me ofereceu, sem me preocupar se aquilo me deixaria pobre ou não.

Aceitei você, a sua pretensão e não me importei. Seus desejos foram os meus desejos e seu suor era formado pelas minhas lágrimas, que se escondiam em meio às suas alegrias. Não me importei.

Mas isso eu não aceito. Sério, pode levar. Leva, leva embora com cuidado. Não deixe cair, não deixe transbordar porque isso é perigoso. Sei que não é secreto e eu vejo isso. Mas não quero e queria que você entendesse. Eu aceitei você e só queria que você me aceitasse.

(Letra "proseada" da música Virtude de autoria do Francisco Lima, conforme desafio proposto em uma discussão sobre a aproximação da música com a literatura)

março 24, 2004

Quem nunca causou na vida?

Andei causando, sabe? Sim, causando, do verbo causar. Provoquei. Sempre faço isso. Hum, por quê? Ah, porque é assim que sou. Em casa, no escritório, na rua e na internet. Sim, na internet. Tenho causado bastante por aqui. Tem um montão de gente querendo me pegar de jeito. Por que causei? Nada demais, fui defender Caetano e Gil, só isso. Não, não me interessa a conta bancária deles, se andam embolsando do governo, se colocam no mundo filhos inúteis, nada disso. Não agora. Interessa sim sua herança musical. Se não são tão bons quanto antes também não me interessa. As pessoas mudam, sabia? Umas para melhor e outras para pior. Ninguém passa mais que vinte e quatro horas exatamente igual. Não, não passa. Brasileiro tem memória curta, esse é o meu problema com as pessoas. Se já fiz isso antes? O que, causar na internet? Sim, sim, já fiz. Há um tempo atrás arrumei uma puta confusão com um pessoal aí. Fui defender a Clarah Averbuck no blogue da GNT. O que eu estava fazendo lá? Lendo a crônica da Clarah, lógico. Um montão de gente não entendeu nadica de nada do que ela escreveu e lá fui eu, pintando de advogada e professora ao mesmo tempo. Professora eu sou e, involuntariamente, estou apresentando grandes sintomas de advogada. O que a Clarah disse? Ah, ela disse que blogueiros não são escritores e que, nem sempre, escritores são blogueiros. Sim, escritores têm blogues. Conheço um montão. Mas blogue é um espaço particular e cada um faz dele o que quiser. Não é exclusivo da literatura, entendeu? Tudo bem, não quero discutir isso de novo. Sim, a Clarah é polêmica. Todo mundo é quando defende sua causa. Estou mentindo? Não é todo mundo que gosta dela. Não é todo mundo que gosta de mim também. O que ela acha das críticas? Nada. Ela não opina sobre isso. Faz bem ela. Sim, ela me disse isso uma vez. O que ela achou da minha opinião? Não achou muito, não. Deve ter caído da cadeira de tanto rir das asneiras que escrevi. Sim, escrevo asneiras, sabia? Nunca percebeu, não? Você precisa rever seus conceitos. Eu revejo os meus todos os dias. O Alê que fica nervoso quando não consegue mudar minha opinião. E ele quase nunca consegue. E eu também não mudo a dele, exceto em assuntos profissionais. Aí, não sei se por ética ou por ele realmente concordar. Ontem, mandei uma crônica do Zuenir Ventura pra ele e você tinha que ver, ficou uma fera. Não, comigo não. Com o Zuenir. O Alê não gosta dele. Ele não gosta dos colaboradores, só dos jornalistas por formação acadêmica. O que o Zuenir fez? Nada demais. Só criticou o despreparo de certos estudantes de jornalismo, ilustrando com um fato que ocorreu com ele. Mas não agiu ilicitamente, imagine. Ele não citou o nome do estudante que o entrevistou, apenas citou trechos da entrevista. Ele criticou a instituição e não o estudante. O Alê disse que ele não tem o direito de fazê-lo porque não é jornalista. Só os jornalistas podem falar de jornalistas? Disse ainda que a crônica foi plágio de idéia da Raquel de Queiróz. Até me mandou a crônica dela, a qual ele se referia. Muito bem escrita. Mas não, não foi plágio. Na literatura e na comunidade jornalística não existe plágio de idéias. Imagine se só o Drummond pudesse falar de amor. E o Vinícius, o que seria dele? O que seria de todos nós? Eu, hein. É, o Alê não gosta mesmo do Zuenir. É o jornalista mais parcial que já conheci na vida. O Alê, não o Zuenir. Ele gosta da Ana Paula Padrão. Até tem a foto dela no papel de parede do computador dele. O que eu acho dela? Nada. Nunca consigo ver o Jornal da Globo. Acordo às cinco, sabia? O Alê é um cara sério e leva as coisas muito a sério. A gente briga muito, sabe? Mas eu gosto dele e de todos meus amigos jornalistas. Até tenho intenção de me tornar uma algum dia desses. Essa discussão foi verbal, em pleno escritório. A gente sempre faz isso. Não, não falo baixo. Nem ao telefone. Se tento falar baixo ao telefone, não dá certo. Sim, sempre fui assim. Uma vez fiz um escândalo na rua por causa de uma abelha. Odeio abelhas. Eu era uma criança comedora de hambúrgueres, sabe? Ainda sou. Estava na ladeira da granja com minha mãe, lá em Diadema. Era perto da minha casa e estávamos cansadas. Tínhamos passeado bastante pelo centro e estava um calor infernal. Detesto calor infernal também. Sabe criança que, quando se vê nessa situação, anda rapidinho na frente da mãe só para esperá-la sentadinha logo mais adiante? Então, cheguei na metade da ladeira e sentei esperando minha mãe, lá embaixo. De repente, senti uma picada. Uma picadinha mínima. Quando vi a abelha, ah, foi um escândalo só. Nunca subi uma ladeira tão rápido em toda a minha vida. Quando fui ver, tinham umas três vizinhas no portão. Uma tinha levado até um vidro de álcool para passar na minha perna. Abelhas! Sempre acontece isso comigo. Já contei que aprendi a andar de bicicleta por causa de uma abelha? Sim, foi na Praça da Moça lá em Diadema. Era uma Monark rosa. Nem era minha. Estava tentando quando, de repente, pousa uma abelha americana no meu anti-braço esquerdo. Foi terrível. Pedalava e assoprava ao mesmo tempo, tentando espantá-la. Ela lá, concentrada fazendo seu trabalho. Entrei em desespero total. Quando vi, tinha aprendido a andar de bicicleta e, oh, mal tinha aprendido e já estava pedalando sem as duas mãos. Cometi um assassinato abelhudo, não tenha dúvidas. De recompensa, fiquei com um calombo enorme no meu braço. Mas aprendi a andar de bicicleta. Sim, continuo tendo pavor de abelhas. Até o Vitinho ri de mim, acredita? Outro dia fomos ao Zoológico, um mês antes de começarem a matar os animaizinhos. Estávamos na praça de alimentação, só nós dois, sem as minhas duas irmãs para nos acudir. O Vitinho lá, concentrado na batatinha e eu mal conseguia olhar para o lado em meio a tanta abelha. Sem mais nem menos, aquela abelha intrusa resolveu invadir o meu suco passando sabe por onde? Pelo buraco do canudo. Ah, perdi as estribeiras. Saí derrubando tudo. O vitinho? Não, ele ficou lá, achando que eu estava fazendo graça pra ele rir. Depois disso, a mãe dele percebeu que não pode nos deixar sozinhos em um ambiente em que sobrevoam abelhas. Não, não pode. Se eu não trabalho? Sim, claro que trabalho. Tá vendo! Por que foi tocar nesse assunto? Estou sendo convocada para uma reunião. Deixe eu ir causar por lá também. Tchau.

março 20, 2004

Família

Eram três. Pequenos, com idade não muito diferente entre um e outro. Sete, oito e nove, talvez. É possível que seja menos também. Suas idades somadas e multiplicadas por três totalizam a intensidade do sofrimento que carregavam pelo corpo. Mas eram fortes. E eram crianças. E sabiam sorrir.

Não estavam sós. Caminhavam pela noite escura e fria a caminho de casa. Sim, certamente, tinham um lar. Os dois menores vinham um pouco atrás, comentando sobre o susto que tinham acabado de levar com os latidos fortes da fera presa. Feras que pegam de surpresa aqueles que dificilmente se surpreendem.

O mais velho ia à frente, pela direita, acompanhado pelo Grande Líder Destituído que vinha à esquerda. No centro, uma Grande Causadora. Tinha o triplo de sofrimento que os garotos e parecia que trocara os papéis: responsabilidade com eles e inconseqüência com ela.

Era carregada pelos braços dos que a acompanhavam, que garantiam seu andar descompassado em zigue-zague. Parecia que estava inventando uma coreografia. Mas a sua dança era feia. Despudorada. E assustava os espectadores. Os corações ali presentes enchiam-se de angústia, de milhares de questionamentos, os quais não dizem respeito a ninguém. Ou dizem?

Estava calada, a Causadora. O único som que se ouvia era do sorriso das crianças. E das lágrimas que pingavam dos corações ali presentes. Do desespero que não se podia calar.

Eram crianças. Sim, crianças. Quando chegassem em casa, não receberiam o jantar materno. Não receberiam ordem para tomar banho e nem para apresentar o dever de casa. Também não receberiam o beijo de boa-noite.

Mas eram crianças e sonhariam com os anjinhos e teriam para sempre a proteção divina.

março 17, 2004

Ler

Ler um livro é viver uma grande história de amor. Você convive dias (ou horas) com uma ou mais personagens, presencia os seus anseios, identifica-se com seus problemas, almeja suas alegrias, diverte-se com seu senso de humor, questiona sua chatice, chora por seus dramas e, muitas vezes, vê-se diante de um espelho. É uma relação profunda de entrega. Às vezes vicia e outras faz a relação ficar chata, monótona. Às vezes, desperta curiosidade e outras faz parecer apenas um dever, uma obrigação. Às vezes, faz você entrar em crise, ficar de mal. Então, a relação pode ser mais duradoura, porém, não muito freqüente. Mas sempre há um aprendizado.

Terminar de ler um livro nos remete a um imenso vazio. Depois de você se aprofundar na história e de sentir-se parte dela vem o momento da despedida. Você se sente como se houvessem mais aventuras a viver, mais o que aprender, rir e chorar. Sempre há. Vem aquela sensação de abandono, de solidão e de esperança, assim como os amores que chegam ao fim. E então, você corre atrás de outros amores, outros livros. E é tudo um círculo vicioso. E sempre há garantia de prazer, com mais ou menos intensidade. Fica a seu critério.

Ler um livro é tornar esse prazer eterno e ao seu alcance sempre. É eterno como os amores verdadeiros.
O Caso da Borboleta Dentuça

E também: cobra com patas, brocos (uma espécie de brócoles suprimido), nariz de peixe (ou seria peixe com nariz?), personal tremmmmmm e outros. Ah, você não assiste ao Big Brother? Então, tá! Quer saber? Sorte a sua.

março 12, 2004

A Loucura como uma tendência não indicada

Antigamente, taxavam as pessoas de loucas por motivo pouco. Bastava transgredir alguma regra e pronto: a justificativa era loucura. Hoje, as coisas não mudaram muito de rumo. Os loucos continuam nascendo, porém, para serem percebidos, são necessárias algumas certas estravagâncias. Loucura virou moda. Os grandões ditam e os pequenos acham bonito e mandam ver.

A moda mais louca do momento é matar. Sim, matar mesmo, mas em vez de matarem o preconceito, a fome e as desgraças em geral, preferem matar pessoas. PESSOAS. E essa moda, pasme, possui algumas tendências e tanto: é filho matando pais, pais matando filho, namorado matando namorada, neto matando avó e por aí vai. Mas tem uma tendência, meu amigo, que vou lhe falar! É a mais acentuada de todas as que citei até aqui e outras tantas que devem ter passado pela sua cabeça. Na verdade, essa tendência vem sendo ditada já há algum tempo, mas desde a última estação, a de onze de setembro, lembra? Então, desde esta estação, essa tendência ganhou força total e está aí, fazendo muitas cabeças e arrancando outras tantas. Louco, não? Que isso, loucura pouca é bobagem!

Dá para imaginar a força que uma tendência dessas tem, né? Lá no Oriente, tinha um certo reflexo mundial, mas apenas um reflexo, nada muito além disso. De repente, invade aqui, o Ocidente e deixa todos os resquícios de que será uma temporada, no mínimo, bombástica. Nova York como palco deixou os espectadores polvorosos e repercurtiu no mundo inteiro. Sim, foi marcante, até mesmo para os incrédulos e aqueles que nunca entenderam nadica de nada disso tudo.

Mas, como o berço da moda é a Europa, a próxima temporada não poderia oferecer essa desfeita. Desta vez, a passarela foi montada no dia 11 de março na Espanha. E, como era de se esperar, o mundo inteiro está comentando novamente. As pessoas, aquelas que criam seu próprio estilo de vida e que não gostam de seguir a moda estão chocadas. Eu estou chocada e você, certamente, também está.

Lamentos atrelados a convicções políticas e religiosas, indignações e perdas, muitas perdas. A loucura está falando mais alto que tudo isso e o prêmio oferecido é o medo. Eu disse oferecido? Mentira. É um prêmio imposto, entregue inesperadamente a milhares de famílias espalhadas pelo mundo. Essa tendência de que falo está mais que globalizada e parece que, quanto mais choca, mais ela cresce. Perdeu o controle. A loucura perdeu o controle e o rumo da razão. Essa loucura somente poderá ser vencida com outras loucuras: a esperança e a coragem. Essa moda maluca, definitivamente, não pode continuar roubando a cena. Eis aqui a minha proposta para mudarmos de estação e derrotar esse manicômio. Você vem comigo?

março 10, 2004

Fraquezas

Assumir fraquezas parece uma atitude um tanto quanto bucólica, né? É mais ou menos como assumir um grande pecado ou talvez um crime mal feito. Então, de repente, você se vê refém do mundo, das pessoas, das coisas, da sua própria vida. E, meio que sem perceber, você começa a subestimar os próprios conceitos, a desconfiar da capacidade de fazer, de ser, de fazer ser. E a vida parece fútil, injusta, reveladora de coisas jamais imaginadas e as pessoas, ora, as pessoas parecem monstros que tramam o tempo todo contra tudo e contra todos, contra você e, no primeiro momento de descuido, o espelho não mostra mais aquela velha imagem conhecida. Você não é você. A sua vida não é mais sua e passa a ser fruto de mãe e pai desconhecidos e você começa a acreditar que a sua vida jamais foi sua e nem de ninguém. A vida. Que vida? Tudo ao redor parece conspirar, tudo é do contra. O inesperado, o não desejado. Tudo o que você gostaria de mudar, de entender, de não mais crer. Esse “tudo” é manipulador, incontrolável. Não é ingênuo. Não é perfeito nem imperfeito. Tudo é errado, desesperador, incompreensível. Tudo, tudo, tudo não passou de um pesadelo. Não de conseqüências. Tudo foi um pesadelo, uma dramatização barata da sua mente perseguida. Talvez, algo que poderia ser, mas não é e não foi. Tudo pode ser resgatado, positivo, remodelado. A sintonia encontra a freqüência certa e a música passa a ser entendida. Nem cantada nem dançada. Apenas compreendida. E, mesmo com os cabelos bagunçados, com um gosto desconhecido na boca, com o cérebro disputando lugar com o coração, mesmo com aquele velho pijama que você tanto gosta, mesmo com excesso de claridade na face, você consegue abrir os olhos. E, devagar, começa a reconhecer o ritmo, o verde, o rosa, o azul e o branco.

março 08, 2004

Ser Mulher

Ser mulher hoje em dia é correr atrás, é ser (assim como o sertanejo), antes de tudo, forte. Ser mulher é ser fonte de prazer. É ser a peça chave para esse quebra-cabeça que é o mundo. Ser mulher é ter o dom de gerar vida, outras mulheres. Não, caros, não estou soando feminista demais. É impressão. Mulheres não existiriam se não fossem os homens e estes também não, se não fossem as mulheres. Homem e mulher formam um só e geram juntos a essência da vida, o alimento da alma: o amor.

Todo ser humano, independente do sexo, traz dentro de si uma essência feminina. Sim, todo mundo tem o seu lado mulher de ser e, por isso, desejo a todas as mulheres e a todos os lados femininos que circulam por aí, mundo afora, um Feliz Dia Internacional da Mulher!

março 03, 2004

A índole das criancinhas

- Sempre me guarde, me proteja, me ilumine, amém.

- Amém!

Houve um olhar repreensivo para a pequena Giulia ao pé da cama, que imediatamente completou:

- Amém, Papai do Céu!

As duas correram para debaixo das cobertas, com o acompanhamento da mãe, que ajeitou suas garotinhas acolhedoramente, com um leve beijo de boa-noite na testa de cada uma.

A mãe, por um simples comportamento de mãe, sentou-se na cadeira que estava ao lado e ficou por um instante observando suas crias, assim, com olhar de mãe, sem dizer nada. Foi interrompida pela curiosidade incontrolável de Nicole:

- O que foi, mamãe?

- Nada. Estava aqui pensando... Estive em Santo Amaro hoje e, na porta de uma loja havia uma família com um monte de criancinhas. Tinha uma, que estava no colo da mamãe dela, que chorava, chorava...

O olhos arregalados da Nicole, não apenas por curiosidade, mas, sobretudo, por sua essência infantil, virgem das maldades do mundo, precederam sua pergunta:

- Mas por quê?

- Ah, ela não tinha chupeta e a mãe dela não tinha dinheiro para comprar.

O siêncio tomou conta do quarto naquele momento, quando, inesperadamente, num ato terno e atípico nos dia de hoje, Nicole levou a mão à sua boca, pegou sua chupeta e entregou à mãe, em silêncio, sem a mínima necessidade de palavras. O silêncio permaneceu, até que a mãe o interrompeu:

- O bebezinho que estava chorando tinha mais cinco irmãozinhos. Assim, um pouquinho maior que ele...

Não precisou continuar. A pequena Giulia, sem muita certeza de sua decisão, porém, guiada pelo seu bondoso coraçãozinho, levou a mão até a chupeta, hesitou por um momento e entregou à sua mãe.

No meio daquela noite, a mãe teve seu sono interrompido com alguns leves chacoalhões. Abriu o olho lentamente e viu a pequena Giulia, que disse, meio sonolenta:

- Mamãe, você pode devolver a minha chupeta, por favor? A mãe do menininho que trabalhe para comprar uma chupeta pra ele, assim como a minha faz.

(adaptação de uma história narrada por um dos oitenta passageiros de um coletivo lotado, às sete horas da manhã de uma terça-feira ensolarada)

março 01, 2004

Vega no Centro Cultural

Mágica, assim é a música, quando toca o nosso coração.

De forma não menos mágica, sim, precedida por um belo espetáculo de magia, a banda Vega apresentou o seu incrível repertório, embalado pelo carisma e talento da vocalista, Claudia Gomes, acompanhada pelo profissionalismo mais que apaixonado da sua banda, domingo, 29 de março, no Centro Cultural de São Paulo.

Hoje, num momento em que a música deixou de ser protesto, deixou de ser paixão, deixou de ser música, são poucas as pessoas que resgatam o verdadeiro sentido de uma sonoridade harmoniosa, de cantar por talento e não por fama ou marketing camuflado. O Vega veio para nos dizer isso: que talento não se compra na esquina nem se pede emprestado ao titio, diretor de qualquer gravadora famosa. Talento vem da alma, do coração e só é revelado verdadeiramente se acompanhado por uma certa humildade e dignidade. Se não, não dura. Se não dura, não é talento.

Mas não é só talento que acompanha essa super banda. Acima de tudo, criatividade. Seus shows começam sempre de forma inesperada e peculiar. Quer ir ao show do Vega? Então, relaxe e vá porque, certamente, além da voz maravilhosa da Claudinha, que nos surpreende cada vez mais, sempre haverá outras surpresas nos aguardando. A desta vez, acreditem, resgataram o cantor Leo Jaime, que, em meio a tantos jovens, mostrou-se mais imortal que nunca.

E, em meio a um clima jovial, a uma união mais que perfeita do hoje com o ontem, a uma explosão de carisma, talento e criatividade, o Vega concluiu mais um super show, que ficará na memória dos que estiveram presentes para todo o sempre. E viva à nossa boa música nacional!

fevereiro 29, 2004

Para R.

Certos momentos acontecem na vida da gente, assim, sem mais nem menos. Nos pega de surpresa pelas mãos e nos oferece aquilo que pode ser visto como um tapa na cara ou como uma grande lição. Você é quem escolhe. E, de repente, você se vê em meio a decisões que estão lá, para serem tomadas.

Ao som daquela trilha sonora que sempre fez parte de tudo o que sentiu e, óbvio, do que ainda sente, você percebe que uma nova coreografia precisa ser inventada. E agora, depende só de você. A música está rolando. Não, não é Mandala. Também não é Magriço e talvez não seja da Lua. Ah, esse tum tum tum não é só o seu coração.

A primeira parte da coreografia foi apresentada. Acho que você não precisará de ensaios. A-ha, mas essa coreografia não pode ser dançada sozinha. Mesmo só, o seu par continuará sendo o mesmo. Tenha paciência que ele vai aprender esse seu novo passo, essa lição, esse você, assim ao seu modo. Vai, vai acontecer sim. E então, diga simplesmente: vida, obrigada. Vida, obrigada!

fevereiro 26, 2004

Como se fosse ontem

O tempo passa, hem? E de pensar que, como se fosse ontem, estávamos nós lá, brincando na rua, jogando queimada, tentando me ensinar a andar de patins (lembra?), cantando a "Pinta da Angélica", dançando a quadrilha, fazendo nosso baile de Carnaval com a rua interditada, com os confetes e serpentinas que seu pai trazia para nós, tramando a nossa festa do Dia das Bruxas lá na minha casa, onde ficava a mesa de ping-pong e, lá mesmo, em cima da mesa, num dia como esse, fazendo bolo. Sim, cada uma contribuía com um ingrediente e, na hora da "dedada", não tinha cerimônia. Uns cinco ou seis dedos dentro da vasinha e, se uma espertinha ousasse repetir, lá ia todo mundo de novo.

Depois, a odisséia para ver qual mãe assaria o bolo. Quantas vezes andamos com a vasilha coberta por um guardanapo na rua, perguntando para sua mãe, para a minha, a Bete, a Clarinda... Lembra? Era uma festa. Na verdade, o início da festa porque à noite tinha festa de verdade. Ao som de Ilariê, Quem quer Pão, Vamos Brincar de Índio e outras que não me recordo, a garotada toda pulava e dançava, parava um pouco para ver a Xuxa desfilar na TV, e, em seguida, saboreava o maravilhoso Bolo da Carmelita. Que bolo!

Dias como esse, Ju, para mim e para você são especiais. Pelas lembranças, pelas alegrias e pelos perdões. Lembra daquele dia que você me surpreendeu numa bela tarde com uma Cesta de Chá da Tarde? Nem lembro há quanto tempo não nos falávamos. Nem mesmo o motivo. Será que foi a vez do tubarão?

"Tubarão é preto ou azul?", você perguntou na aula de Biologia da professora Luciana.

"Ai, burra, é preto, né?", respondi como se fosse uma especialista em tubarões.

De repente, você pegou minhas coisas que estavam com você, jogou no chão e disse para eu nunca mais lhe dirigir a palavra. Assim, sem ninguém entender nada, como tinha de ser, ficamos um bom tempo sem nos falar. Nós, que éramos tão grudadas, unha e carne. Uma morria de vontade de falar com a outra, mas qualquer coisa impedia. Como não tenho muita noção de tempo, não sei exatamente se isso durou semanas ou meses, acho que você também não sabe. Mas acabou naquela tarde, quando você resolveu engolir o orgulho e "quebrar as minhas pernas". Foi complicado dar aquele telefonema de agradecimento, mas foi um dos melhores telefonemas que já dei em minha vida, o meu melhor orgulho engolido.

Hoje, cada uma com a sua vida, seus amores, seus problemas, seus objetivos, ainda fazemos desta amizade algo importante. Eu aqui, com meu jeitinho calmo de ser, e você aí, doidinha como sempre (e noiva???). E, num trio super bacana, você, a Loiríssima e eu faremos de nossas boas lembranças algo sempre presente em nossas vidas, não importa o tempo ou a distância que nos separe. Tudo sempre acabará em ótimas gargalhadas.

A você, Ju Magra, Ju Silveira, Ju da Carmelita, Ju Vassoura (com todo o respeito), meus sinceros e calorosos PARABÉNS!!!!
Bandeira
Zeca Baleiro

Eu não quero ver você cuspindo ódio
Eu não quero ver você fumando ópio
Pra sarar a dor

Eu não quero ver você chorar veneno
Não quero beber do seu café pequeno
Eu não quero isso seja lá o que isso for

Eu não quero aquele eu não quero aquilo
Peixe na boca do crocodilo
Braço da Vênus de Milo acenando tchau

Não quero medir a altura do tombo
Nem passar agosto esperando setembro
Se bem me lembro

O melhor futuro esse hoje escuro
O maior desejo da boca é o beijo
Eu não quero ter o Tejo me escorrendo das mãos

Quero a Guanabara quero o rio Nilo
Quero tudo ter estrela flor estilo
Tua língua em meu mamilo água e sal

Nada tenho vez em quando tudo
Tudo quero mais ou menos quando
Vida vida noves fora zero
Quero viver quero ouvir quero ver
(Se assim quero sim acho que vim pra te ver)

fevereiro 18, 2004

Impressões

À minha direita, dois. Uma, falante feito o simpático grilinho. Estava maravilhada por estar ao lado de quem estava. O sorriso nos lábios era freqüente e parecia recordar-se de momentos maravilhosos que tivera naquele final de semana. Parecia ouvir conselhos e estava feliz com o que ouvia. Sim, estava feliz. Sua alegria infantil era propícia. E era reparada. E era bem quista.

O outro retribuía. Não apenas em alegria, mas, sobretudo, em orgulho. Aquele momento também lhe era propício. Dava a impressão de que em breve, questão de uma hora no máximo, aquele momento seria transformado em saudade. Mas seria repetido no final de semana seguinte, o que era de grande consolo. De maior consolo ainda era o fato de que aquele momento ficaria marcado naquelas vidas para sempre. E na minha também.

Um pouco mais atrás, de costas para mim, mais dois. Um, carregava a experiência de uma vida bem vivida. Gesticulava e mexia-se como se cada gesto fosse uma grande lição. E que lição. Parecia respeitador, e merecedor de respeito também. Prendia a atenção do seu ouvinte. Este, bem mais jovem. Era calmo. Consentia com a cabeça cada palavra que ouvia e cada gesto que observava. Sorria educadamente de vez em quando. Absorvia como um discípulo à lição do seu mestre. E eu lá, esperando minha vez.

Mais perto, à minha frente, outros dois. A da esquerda para a direita trazia dentro de si uma vida além da sua. Aquela vida não demoraria muito a dar o ar da sua graça. Que bom. Era jovem e parecia não seguir os conceitos da moda. Também não fazia questão de ser um protótipo dela. Fazia a sua própria moda e era bela por isso. Parecia cansada e sensivelmente feliz. Ao seu lado, outro. Era jovem e apreciador da cultura urbana. Parecia conformado por ter que presenciar a vida que estava por vir. Aparentava carregar nas costas uma responsabilidade imposta. Mas não estava preocupado por isso. Como a outra, também parecia estar sensivelmente feliz.

Ali, naquele lugar reservado para idosos, deficientes físicos, gestantes e portadores de crianças no colo estava eu. Sozinha. Estava inaugurando a próxima modalidade exclusiva para aquele assento: alimento de antropófagos. Eu disse que estava sozinha? Mentira. Estávamos eu, Clarice e seus questionamentos. Nossos questionamentos porque, uma vez dela, eram meus também. Quando achei que estávamos entendendo alguma coisa, fomos interrompidos:

- Estação final Jabaquara. Desembarquem pelo lado direito do trem.

fevereiro 15, 2004

“(...) - Que fazia domingo na praça? A praça é larga e solitária – disse afinal lentamente procurando recordar e atender ao pedido do homem. – Sim... Tanto sol, preso ao chão como se nascesse dele. O mar, a barriga do mar, calada, arquejante. Os peixes em domingo, volteando rapidamente as caudas e serenos continuando a abrir caminho. Um navio parado. Domingo. Os marinheiros passeando pelo cais, pela praça. Um vestido cor-de-rosa aparecendo e desaparecendo numa esquina. As árvores cristalizadas em domingo – domingo é qualquer coisa como árvores de Natal -, brilhando silenciosas, contendo, assim, assim, a respiração. Um homem passando com uma mulher de vestido novo. O homem quer não ser nada, anda ao lado dela olhando-a quase de frente, indagando: diga, mande, pise. Ela não respondendo, sorrindo, puro domingo. Satisfação, satisfação. Pura tristeza sem mágoa. Tristeza que parece vir de trás da mulher de cor-de-rosa. Tristeza de domingo no cais do porto, os marinheiros emprestados à terra. Essa tristeza leve é a constatação de viver. Como não se sabe de que modo usar esse conhecimento súbito, vem a tristeza. (...)”

Perto do Coração Selvagem - Clarice Lispector

fevereiro 14, 2004

Gostar

Gosta-se muito, gosta-se pouco
Gosta-se do ontem, gosta-se hoje
Gosta-se tanto que nem sei o quanto isso significa

Gosta-se de gente, gosta-se da gente
Assim, juntinhos, unidos pelo gostar
Da natureza, dos animais, do que nos faz feliz

Gostar da vida, da felicidade
Gostar do gostar de gostar
De você assim, pertinho de mim

fevereiro 12, 2004

Você acredita em Marciano?

Poderia ser simplesmente Silva. Poderia ser Souza. Poderia ser Pereira. Poderia ser Souza e Silva Pereira de Oliveira Costa Albuquerque Pinto. Poderia ser Stalamoviskiwysk. No entanto, é Marciano.

Juliana de mãe e Marciano de pai. Poderia ter um sutil Cuenca antes, mas, dona Isa, ao ter sua primeira filha com o sr. Antonio, quis manter a estética do nome dos primeiros filhos do seu esposo. Assim, ficou apenas e tão somente Juliana Marciano. Só isso.

Mas, de onde veio este nome? Quem respondeu que veio de Marte chegou perto. Realizando uma breve pesquisa em minha árvore genealógica é fácil perceber que somente meu pai herdou o sobrenome Marciano. Nem meu avô, tampouco minha avó, nenhum tio, nenhum primo, ninguém. Eu poderia realizar uma seção espírita e perguntar aos meus avós de onde veio essa criativa idéia de batizar o primeiro filho com um sobrenome tão peculiar, já que dona Isa não sabe explicar e nunca me lembro de questionar o sr. Antonio quando estamos juntos.

O curioso é que nenhum dos demais filhos deste casal tão, digamos... diferente, teve o ímpeto de questioná-lo. A explicação mais plausível que encontrei até então é que Marciano realmente veio de outro mundo, até que alguém prove o contrário. Vovó??? Vovô???

Mais curiosas ainda são as situações que nós, Marcianos de batismo, presenciamos às vezes. Na escola, já dá para imaginar a gozação, né? Varia de ET, Djou (de outro mundo), Mimimi (enteda-se um possível dialeto marciano), até Marcy. Este último é utilizado até hoje no trabalho.

"Exceção escreve-se com c ou com dois esses?"

"Não sei, pergunte para a Marcy!"

Sem contar no consultório médico, quando o doutor simpaticamente anuncia: Juliana Mariano! Não, doutor, é Marciano. De Marte mesmo.

A situação mais engraçada aconteceu com a minha mãe. Numa bela tarde ligaram lá em casa e perguntaram: "Alô, é da Lua?" Minha mãe, coitada, sem entender nada disse que não, que era engano. A voz do outro lado rapidamente respondeu: "Ah, tá! É que me disseram que aí mora um monte de Marciano".

Não sei se você aí tinha alguma dúvida, no entanto, provo aqui que, mesmo inexplicavelmente, Marcianos existem sim. Se algum dia eu descobrir os mistérios de Marte, juro que conto neste blogue. Agora, para descobrir alguma coisa sobre uma certa marcianinha perdida neste cyber espaço, basta acessar o Proseando de vez em quando. Vou ali ver se já acharam a Nave Spirit e já volto.

fevereiro 08, 2004

Dom

Dom de ser maravilhoso. Assim resumo Machado de Assis. Indefinível. Assim defino o romance Dom Casmurro do mestre.

Hoje em dia, cinema e literatura estão lá, caminhando juntinhos. Não sei se por falta de criatividade dos roteiristas de plantão ou até mesmo pelo contrário – talento -, muitos cineastas estão transformando grandes obras literárias em filmes. No Brasil, o escritor preferido para ter suas obras transformadas pela sétima arte é o nosso grande Machadinho. Acabo de ver Dom, uma adaptação do romance mais famoso da literatura brasileira.

O romance? Maravilhoso. Perfeito em cada detalhe. Sensível. Inovador. Universal. O filme? Não chega a ser uma super produção, mas, para quem leu a obra, permite uma certa emoção. Dá uma saudade das belas palavras do nosso gênio literário...

É interessante ver a literatura nas telonas. Os americanos estão sempre testando essa técnica. As mais inusitadas foram Harry Potter e Senhor dos Anéis. Confesso que tentei ler o bruxinho do século XXI, mas não tive muita paciência. O filme não merece grandes comentários, mas não é tempo perdido dar uma paradinha para vê-lo. Ao menos pela pipoca.
Já a saga do anel dark merece ser assistida. Imagino que a leitura seja lá uns quinhentos por cento mais prazerosa.

Claro que, por mais fascinante que seja o mundo do cinema, jamais substituirá o prazer que se tem ao ler um bom livro. Sem comparação. Mas, por outro lado, ver bons escritores sendo homenageados desta forma pela sétima arte, faz com que a proliferação da literatura ganhe novos rumos. Escritores consagrados como Machado de Assis agradecem lá de cima e nós, amantes literários, agradecemos daqui de baixo.

fevereiro 05, 2004

Mulher

Diz-se da mulher um ser versátil. É mãe, esposa, amiga, irmã, filha, profissional, tudo ao mesmo tempo. É um ser com dons especiais, não apenas pelo fato de conceber, mas, sobretudo, pelo de descomplicar, mesmo que da forma mais complicada possível.

Desde cedo, nós, mulheres, nos deparamos com a complexidade de nossa existência. Na escola, as diferenças entre meninas e meninos e as intenções de superioridade do sexo oposto nos são impostas de forma taxativa. Muitas vezes, essas tais imposições vêm antes mesmo do período escolar, da própria família, como a continuação de uma educação tradicional, impotente sob qualquer tentativa de ruptura. E essas taxações continuam por toda a exisistência feminina, como uma cruel lembrança de que somos providas de uma certa fragilidade eterna, de contínua dependência e, conseqüentemente, de uma tal fraqueza.

Nas últimas décadas, de fato, houve um considerável avanço nesses aspectos e ainda existe um trabalho enorme na desmestificação do mito da fraqueza feminina. O cinema trabalha isso muito bem em filmes de grande escalão. O Sorriso de Monalisa, que está nas telonas atualmente, estrelado por Julia Roberts, trata da ruptura social que ocorreu na década de 50, em especial, no universo feminino. Mostra as dificuldades que a mulher encontrou para se estabelecer num sistema social ríspido e da relutância na quebra de certos valores pré-estabelecidos.

Mas não é só o cinema. O teatro também tem a sua participação neste processo. Recordo-me, por exemplo, da peça Joana Dark, a re-volta, produzida e estrelada por Christiane Torloni, que trata da força e garra da heroína que também se destacou por ser diferente da mulher convencional de sua época. E tem, ainda, o meio das artes plásticas, o meio musical e, acima de tudo, o meio literário, formado hoje por mulheres decididas, de personalidade forte e responsáveis por grandes mudanças sociais, políticas e de comportamento.

E tudo isso não acontece somente aqui no Brasil. Acontece no mundo inteiro e creio que seja muito mais que um aspecto cultural. Talvez, seja um aspecto artístico porque, independente de qualquer coisa, mulher é arte e é daí que vem a idéia de a mulher ser um ser complicado. Complicação. É isso o que os insensíveis vêem na arte - algo simplesmente complicado. Os mais atentos a vêem como beleza, como cultura e como solução para os nossos conflitos interiores. E exteriores também. Beleza, Cultura e, sem pretensões feministas, Solução. É assim que se resumem as mulheres de todos os tempos.

fevereiro 03, 2004

Da participação do Primeiro e Último Concurso de Microcontos, promovido por Marcelino Freire, nasceu o Médio Conto que se segue:

O menino que queria ser crônica

Seu nascimento já foi assunto para capa de jornal: nascera num táxi a caminho do hospital.

Nos principais acontecimentos da cidade, lá estava ele: no enterro do Seu Pafúncio, o primeiro açougueiro da cidade. Na cerimônia de posse do Prefeito Mascarenhas e até nas bodas de ouro do Seu Ítalo e da Dona Dorinha.

Dizia para todo mundo que um dia ainda haveria de ficar conhecido no país.

Quando ele aparecia, todos logos diziam: “Olha lá o menino que quer ser crônica!”

No dia do baile de debutante da filha do Seu Fortunato, a cidade toda estava com ares de festa. Seria um evento que ninguém perderia por nada neste mundo. Todos estavam alegres e ansiosos, exceto Raimundinho, o namorado da moça. Ele foi incumbido pelo sogro de preparar um belo discurso para a aniversariante, e teria que ser algo de emocionar platéias. O problema era que Raimundinho não tinha a mínima intimidade com as palavras.

O Menino que queria ser crônica, sabendo da dificuldade do rapaz, resolveu ajudá-lo de forma simples e encantadora: correu até a casa do Seu Andrade, o poeta da cidade, e pediu emprestado aquele livro de poemas do... do... como era mesmo o nome dele? Do Poetinha, sabe? Pois bem. O Seu Andrade, que sabia exatamente de quem se tratava, apanhou a coletânea de poemas e entregou-a ao Menino.

O Menino que queria ser crônica saiu correndo, eufórico para encontrar Raimundinho. De repente, no meio do caminho, foi atropelado por um dos caminhões carregados de flores para a festa.

A cidade, em euforia, não se deu conta do acontecimento. Logo mais à noite, na hora do discurso, Raimundinho, muito nervoso, não sabia por onde começar. Com a voz trêmula e muito nervoso, perguntou:

- Céus, cadê o Menino que queria ser crônica?

Alguém lá ao fundo, entre a multidão de convidados, respondeu:

- O Menino que queria ser crônica? Virou poesia.