março 20, 2006

Ao mestre com carinho (ele, o tempo!)

A subjetividade tem falado em meu nome ultimamente. Fazia tempo que não me sentia assim. É paradoxal, mas estes momentos são os que mais me proporcionam um auto-conhecimento. A vida me faz professora e aluna ao mesmo tempo e eu fico pra cima e pra baixo com um caderninho nas mãos, anotando as observações mais importantes. É como seu eu saísse do estágio de aprender com os erros dos outros e passasse a aprender com os meus próprios erros. Sim, eu os reconheço aqui e ali, às vezes, de mãos dados erros alheios. Mas isso não importa mais.


Eu me acerto

(Zélia Duncan)

Não pensa mais nada
No final dá tudo certo de algum jeito
Eu me acerto, eu tropeço
E não passo do chão
Pode ir que eu agüento, eu suporto a colisão
Da verdade na contramão
Eu sobrevivo
E atinjo algum ponto
Eu me apronto pro dia seguinte
Escovo os dentes
Abro a porta da frente
Evito a foto sobre a mesa
E ninguém aqui vai notar
Que eu jamais serei a mesma

dezembro 23, 2005

Proposta de Natal

Há doze meses, defini o Natal como tempo de pensar o bem, desejar o bem e praticar o bem. Propus um renascimento coletivo e, meio que nas entrelinhas, uma renovação de espírito.

Há vinte e quatro meses, refleti sobre o espírito natalino. Abri meu coração para cada mensagem de Natal, cada abraço, pensamento ou atitude natalina.

Hoje, estou aqui tentando não cair na redundância, escapar dela e inovar. Tudo em vão porque os desejos continuam os mesmos, a necessidade de paz continua a mesma, as pessoas continuam precisando se espiritualizar cada vez mais e o significado do 25 de dezembro é o mesmo de há 2006 anos.

Por isso, agora não quero desejar. Quero propor, você aí se compromete? Quero propor mudanças, experiências, atitudes do bem: uma mudança de hábito, alguns sorrisos a mais no rosto, uma nova idéia na cabeça, um pensamento positivo, um “eu te amo” inesperado, qualquer coisa que cause efeito nessa pessoa aí do seu lado.

Quero propor que você, meu amigo do peito, acenda a sua estrelinha e entenda que o brilho próprio dela é você. Lute pela sua causa, pelo seu mundo melhor, para ser a diferença nele. O Irmão lá de cima vai te ajudar, mas não se esqueça de que você é responsável por traçar a estratégia.

A minha proposta é que você alcance o seu sucesso; que você conquiste novos amigos, que você descubra novos amores; que você torne-se saudável.

O seu 2006 poderá ser diferente, depende de você.

Aqui, a minha proposta de um FELIZ NATAL e de um 2006 MÁGICO.

novembro 16, 2005

Hóspede do tempo

(Fred Martins/Zélia Duncan)

Sou hóspede do tempo
Da minha casa
Das minhas palavras
Das coisas que eu declaro minhas
Inquilina da vida que me foi dada
Portanto nada
Ficou na minha bagagem
Do velho brinquedo
Que já não me ilude
O que eu tenho é minha atitude
O que eu levo é minha atitude
O que pesa é minha atitude
Minha porção maior

setembro 25, 2005

Fique

Passaste por mim e deixaste lembranças. Sim, eu ainda as tenho – lembranças. Esquecida que sou, me esqueci de esquecer-te. E querer-te ainda está nos meus planos. Se tenho tuas lembranças, ainda tenho tu.
E tu, beleza encantadora, ainda és minha. Não tenho apenas lembranças. Mais que isso: tenho esperanças. Tudo o que preciso agora.

setembro 21, 2005

Escuro

Fecho os olhos e me enxergo melhor. Assim como Malte Laurids Brigge, que começou a ver aos vinte e oito anos, também eu comecei a ver já crescida, aos vinte e três. Fecho os olhos e deixo a lógica conduzir meus pensamentos. Logo eu, que jamais permiti ao meu lado humano transcender as barreiras do real e absoluto. Vejo melhor agora, sim, mas ainda de olhos fechados. Talvez algum dia eu os abra. Quando a minha visão míope não me incomodar mais. Aos trinta e três, será? Agora, preciso agora! Alguém me ensina a sentir?

setembro 20, 2005

E esse "não", o que é?

Agora que você veio, não quero mais. Pode ir, pode ir. Vá! Não te quero aqui. Não consigo. Não posso. Quero. Quero minha paz de volta. Minha cabeça no lugar de sempre. Quero minhas dúvidas comigo. Não essas, as outras. Quero meu coração inteiro,
batendo Zélia Duncan e não Maria Bethânia. Isso aqui não tem serventia, me diz? Leve tudo: meu desejo, meus óculos, meus sapatos. As canções. Deixe apenas meu sorriso - aquele que te cumprimentou pela primeira vez - e a linda imagem de canto do olho.

setembro 19, 2005

A luz da estrela mais linda que sorri em sua constelação

Como expor certas coisas sem parecer clichê? Dizer e redizer tudo o que já foi dito pelos outros sobre esse tipo de coisa que poderia ser tão bem dita por você mesma? Nessas horas, se arrepender é fácil e quase imprescindível. Rever certos conceitos também. Mas é inevitável não ser hipócrita e não enxergar a covardia que brota dos poros. Milagres existem? Estão por aí? Ofereço tudo o que tenho por um deles. Aceito empréstimo, consignação, permuta ou qualquer outra proposta que faça isso acontecer de uma vez. Que faça ser tão perfeito como espero que seja, que, assim como estas palavras que saem facilmente, simplesmente aconteça. Aconteça e faça brilhar essa mágica que me faz desligar do mundo e esquecer de certas importâncias. É forte, muito forte. E está começando a doer. Meu medo é que isso vá além do que parece possível. E se não for possível eu suportar? Não suportar também é clichê? Danem-se os clichês! Aos diabos com os medos! Uma gota de coragem e é tudo. Tudo para trazer sol às trevas. E eu só gostaria de saber como isso aconteceu. Veio assim, sem avisar. Do nada! E não está me levando à nada senão às expectativas de quem espera sentada. De quem em sua espiritualidade ainda acredita em milagres. De quem, mesmo diante de toda grandiosidade, insiste em não aceitar. De quem nunca sentira isso antes. De quem nunca mais vai rir ou duvidar ou julgar. Será que isso é? E agora?

setembro 11, 2005

(...) Pois versos não são, como as pessoas imaginam, sentimentos (a esses, temos cedo demais) - são experiências. E por causa de um verso é preciso ver muitas cidades, pessoas e coisas, é preciso conhecer bichos, é preciso sentir como voam os pássaros, e saber com que gestos flores diminutas se abrem ao amanhecer. (...)

(trecho de "Os Cadernos de Malte Laurids Brigge", de Rainer Maria Rilke)

agosto 28, 2005

O Eu

Voltar à minha subjetividade me faz bem. Permite que eu mesma toque o ritmo da minha vida, sem liberdades concedidas. Aproxima as minhas respostas e torna os meus anseios compreensíveis. E eu fico assim, “lispectoriana”, enquanto as pessoas se perdem em seus porquês. Afundada num egoísmo merecido e bom, eu consigo fazer poesia sem pretensão. Consigo até um tempo que é só meu, mesmo com o mundo à volta prosseguindo em seu percurso. E me cubro de uma espiritualidade em evolução. As minhas expectativas me acalmam porque, mesmo ainda não sendo fatos, são expectativas. Tudo devidamente mensurável, coberto de uma “trilha sonora duncaniana”. E basta.

julho 27, 2005

O Portuga, o Circo e a Verdadeira Verdade

Sabe de uma coisa? Lembro-me como se fosse hoje, de pessoas olhando sério para mim e dizendo que não votariam num cara que mal sabe falar o bom e velho Português. Engoli um seco qualquer que encontrei na região da garganta e fiquei em silêncio. Não pude deixar de enxergar uma certa opinião do contra nos olhos de quem discursava. A questão ali estava óbvia: não era o Português que incomodava, era o Lula.

Pois bem. Como bem reza a nossa política desde os primórdios até hoje em dia, para entender suas verdades e mentiras, dê uma zapeada na Globo. Para seguir o fluxo, deixei as minhas super séries favoritas de lado ontem e coloquei-me a assistir ao Jornal Nacional. Antes, permita-me um adendo: você não acha que o Jornal Nacional, ao menos neste período, deveria chamar-se "Jornal da CPI"? Ahan, eu também acho. O noticiário inteiro foi sobre o escândalo político, exceto pela queimada criminosa que ocorreu lá nas matas da região do Pará. O responsável, já identificado, poderá pegar de 3 meses a 1 ano de prisão, além de ter sido multado em 20 milhões de Reais. Não, eu não entendi errado. Fiquei pensando no que poderá acontecer com ele, além de perder sua fazenda, todos os seus bens, suas economias, suas roupas e até sua cueca. Fui mais além: será que sua dívida se estenderá para seus filhos, netos, bisnetos, tataranetos, etc.? Sério, o homem foi errado. Criminoso mesmo. Mas por que multá-lo com um montante deste sendo que é óbvio que ele nunca conseguirá pagar? Isso se transformaria numa "Dívida Interna Familiar". Bizarro! Ops. Acho que acabei fazendo dois adendos.

Continuando: na minha empreitada, assistindo ao Jornal Nacional, lembro-me bem de um episódio: um dos integrantes da CPI questionava o Presidente da Comissão quanto à dificuldade de acesso aos documentos de investigação dos envolvidos, criticando os métodos de apuração dos fatos. O moço estava bravo com a senhora esposa do empresário Marcos Valério, e aproveitou seu momento de fúria para despejar umas verdades aos superiores. Ou ele tinha razão. Ou ele estava querendo alguma espécie de promoção. Ou tudo fazia parte do script. Isso sim é uma genuína comédia. Hollyood não chega aos pés do circo político brasileiro, vai por mim. O então Presidente, com um olhar furioso, fitou-o seriamente e lançou: "Recebo estas afirmações com uma grande indgnidade". Indignidade? Indignidade?? A gente sabe que indgnidade ampara 99% das pessoas ali presentes, mas... Indignidade??? Só faltaram aquelas gargalhadas artificiais de fundo, sabe? Aquelas que a gente ouve quando assiste Chaves. Pois é.

Voltando ao meu primeiro parágrafo, que Lula, que nada! O bom e o velho Português não é sabido por ninguém. Falta mais construção em nossos argumentos e ainda mais atenção nas nossas escolhas políticas. Atenção naquilo que é colocado como prioridade, manja? Está a fim de saber a verdadeira verdade? Mesmo?! Educação deixou de ser prestígio da elite há muito tempo. Quer prestígio? Arrume um mensalão e comece a fazer os seus desejos.

julho 26, 2005

ET disse:

Ju,
Muitas pessoas me escreveram mas certamente vc foi a única que me fez rir :))
Thks menina do sorriso,
et


E eu respondo:

Então, pegue aí mais um sorriso pra você!

julho 13, 2005

JERÔNIMO, O MATADOR

(Desabafo concedido ao amigo Marcelino)

Não. Não vou falar aqui hoje da viagem a Paraty, da festa literária, essas coisas. Novidades e fofocas e graças outras que eu terei, juro, prazer em contar a partir de quinta-feira e saravá.

Falarei do Jerônimo, o Matador. Nada a ver com o Jerônimo, o Herói do Sertão, série que passou na televisão na década de 60 e 70 e 80. Esse, o nosso primeiro herói brazuca, pândego, à luta.

Falo de um outro. Cabreiro, sorrateiro e que me entrevistou (eu e o Ademir Assunção - leia também o que falou Ademir clicando aqui) para a revista Veja desta semana. Falando acerca do Movimento Literatura Urgente, do qual sou um dos "membros de primeira hora", como noticiou ele e eta!

O olhar do Jerônimo (de sobrenome Teixeira) era frio, longínquo. Como se tivesse me raptado, eu no cativeiro. "Cativeiro", isso mesmo. Jerônimo me ligou para marcar um papo sobre dois assuntos, segundo ele: o Literatura Urgente e os meus Contos Negreiros.

Estranhei: o que tem a ver o cu com a cara da carranca? Respondeu-me, cheio de artimanha: você é um dos "líderes" do Movimento. E mais: farei uma lincagem, na reportagem, com o lançamento do seu novo trabalho. Não acreditei. Não pode ser verdade. Comentei com o Ademir. Mas vamos lá. Não fujo dos meus algozes. Até espero que eles gozem primeiro.

E foi no que deu: o cara perguntou tudo e molecou as respostas, minhas e as do Ademir, a serviço do seu discurso. Seu não, o da revista. Não é à toa que lá, ao lado da matéria de uma página inteira, note, há uma outra, assinada também por ele, sobre outro nazista, o Adolfo Hitler. Confira, se puder. Mas não compre a revista.

Sigamos.

Falei para ele que nós, sobretudo, nos organizamos, assim, porque nunca nos sentimos representados pelas instituições que, digamos, estão aí para nos "representar". Entendam: são elas que são procuradas quando o assunto é Fundo, Feiras e Falecimentos. Falo da ABL, por exemplo. E da UBE. Essa última, simpatica e simpatizantemente presente nas duas últimas reuniões que tivemos. E onde o Jerônimo também esteve, me disse. Infiltrado, ele, no Movimento.

Por que não aproveitou, então, a ocasião para levantar as questões a todos os presentes? Colaborar para o amadurecimento das nossas reivindicações, sempre abertas à discussão? Não. Jerônimo é um assassino eficaz. Acompanha as vítimas, anota, estuda cada uma, passo a passo. É pago para espionar. O negócio é cortar as cabeças.

Estamos ou não estamos no tempo de cuecas e malas? Daqui a pouco, veremos escritores comprando terrenos e casas. Fugindo para Frankfurt etc. e tal. Conhecendo tudo que é paraíso fiscal. Não. A revista Veja não vai deixar. Logo ela que, desde a época da ditadura, zela pela nossa conduta exemplar.

Até falei: não entendo as perguntas que você me pergunta, pá, pá, pá. Parece que a gente é um bando de corrupto. Falcatrua na literatura. Porra! Não é nada disso. É essa, apenas, a primeira vez em que os escritores se sentam para confabular. Avançar em algumas questões. Clamar por algumas responsabilidades. Por exemplo: como melhor utilizar a estrutura já montada das universidades. O escritor ir para discutir a sua obra com os alunos por aí. Como acontece em outros países. Até nos mais pobres que o nosso, a exemplo de Cuba.

E os nossos consulados pelo mundo, falei para ele. Por que não realizam nenhum intercâmbio, Jerônimo? É coisa fácil e não carece de muito dinheiro. E o Jerônimo entendia, matreiro: câmbio. Eu dizia intercâmbio. E ele: câmbio, câmbio, câmbio. Não, não estou falando de dólares. Estou falando de um projeto básico. De bolsas de criação, como a extinta Vitae. Jerônimo, você é muito novo para esse olhar incrédulo. Repito: hitlerista.

Jerônimo não quer ouvir. Mandaram o cara atirar. E ele foi lá, fazer o serviço. Tudo bem, mas por que não ouvir humana e honestamente os nossos argumentos? As nossas falhas estampadas? Disse eu: cara, a gente não está dizendo que é o dono da verdade. A gente só quer saber por que o escritor nunca é ouvido nesses casos. Não somos, a maioria, tratados com dignidade. Que é isso? O nosso trem não é da "alegria", cara. É do fracasso.

Por isso muita gente tem se organizado. Em Belo Horizonte, Santos, Londrina, Curitiba. Porra, ninguém vive aqui com a bunda na cadeira, esperando (do imortal) a morte alheia. A gente quer ir à labuta, é isso. Ninguém é, escreve aí: filho da puta. Enumerei tantos trabalhos importantes (encontros, livros, antologias, festivais) que fizeram tantos autores que estão na lista do Movimento. Sem nunca esperarem por nada. Alguns dos quais a sua revista é doida para jogar no esquecimento.

Jerônimo ficava em silêncio. Vendo a minha agonia. Sem dominar um vocabulário político. Era outra, ali, a minha energia. Indagações e angústias que me levaram ao Movimento. Não como um dos líderes, discordei. Mas como um dos mais inconformados.

Jerônimo, é bem verdade, perguntou sobre os meus Contos Negreiros. Mas já era tarde. Não conseguiu dissimular o desinteresse. Tocou no tema, forçosamente. A saber: por que você trata sempre de personagens miseráveis e trabalha em um dos prédios mais chiques de São Paulo (próximo do café onde a entrevista foi feita)?

"Quanto mais miserável o escritor melhor", parecia dizer Jerônimo, o Matador.

E disse e atirou.

Pensando ele que nos matou.

Marcelino Freire

junho 28, 2005

Ânsia

Questionamentos.
próximos, distantes;
comuns, insensatos;
sutis, paralelos;
incertos, exatos.
Paradoxais.

Tal qual a incompreensão da música de fundo.
Tal qual o objetivo que nasce em minh'alma
E morre por tanto querer ser objetivo.

À minha frente, gente.
Ao meu lado, gente.
Em minha vontade de fuga, gente.
O querer ficar, gente.

Questionamentos afoitos.
Daqueles de querer arrancar o que está bem aqui.
O que jamais se teve certeza de que realmente esteve ali.
De querer destruir o auto-falante de onde ecoa
Essa voz concentrada
Que insiste em me desconcentrar.

Daqui pra frente, amanhã.
Vontade de dormir, amanhã.
Sede de seguir, amanhã.
Despedir, talvez, amanhã.

Questionamentos aspirantes.
Iguais aos botões de rosas do jardim -
Aqueles que pensaste ser azuis.
Iguais, sim, à música que toca agora.
Bendito seja o som que nunca ouvi
E que me trará todas as respostas.

Revelar o que se vê, amor.
Sustentar o que se sente, amor.
Desvendar o desconhecido, amor.
Ser o que se é, amor.

junho 14, 2005

23 Anos de Momentos

Certos momentos da vida, você pára, olha pra cima, dá aquela coçadinha na cabeça e sutilmente olha pra trás. Assim, disfarçadamente, com uma certa timidez, como quem não quer acordar nenhum fantasma. Então, você percebe que nem sempre olhar pra frente ou pra trás causa algum efeito substancial pra quem simplesmente caminha. A vida está aí na maratona, do seu ladinho. Às vezes, ultrapassa com um sorrisinho irônico e você nem percebe. Outras, passa como um furacão e quando você se dá conta, já foi.

Tem gente que chega aos vinte e três anos e fica se perguntando o que há de tão especial nisso. Tem gente que se desespera e finge que não está vendo. Tem gente que fica saudosista. Tem gente que não percebe que está lá. E tem gente que comemora, chuta o pau da barraca e continua levando. Acho que, no meu caso, coloco tudo isso aí num liqüidificador, faço uma vitamina daquelas e vou ingerindo em pequenas doses, day after day.

Mas olhar pra trás é inevitável. É a única viagem que você realmente consegue realizar só e com apreensão. Você pega uma nave espacial, vai até os cinco anos de idade, quando andava na rua segurando forte a mão do seu pai, como se o simples fato de segurar sua mão criasse um campo de força que o protegeria contra todas as forças do mal. Você retorna para a nave e vai uns dois anos adiante, quando pergunta pra sua mãe o que sigifica motel, porque viu escrito em letras garrafais num muro qualquer. E, lógico, acredita quando ela responde que é um lugar aonde vende madeira. Você segue na nave, num período bem confuso da sua vida, quando esquece o diário debaixo da carteira na escola, o que faz com ele pare nas mãos daquela professora que deixa bem claro que ele foi lido. Ainda queimando de vergonha, você entra na nave rapidinho e pára num período não muito distante, quando consegue o primeiro emprego e entra na faculdade. Então, você saca que todas aquelas estradas que ficaram lá atrás, momentos de afetos com irmãos, de diversão com os amigos da rua, de saborear o doce de leite da avó, de ter a redação lida na sala de aula, o primeiro show, o primeiro beijo, momentos que compuseram a pessoa que você se tornou hoje, não ficaram lá atrás. Momentos assim não passam. O ser humano é um quebra-cabeça de momentos. De infinitos momentos e é por isso que as pessoas não conseguem se entender e se decifrar verdadeiramente. Todos esses momentos não somem, não passam, não ficam no meio do caminho. Os momentos vão com a gente aonde quer que pensemos em ir.

Chegar aos vinte e três me fez perceber que não é tão ruim assim. Me permitiu perceber que nem sempre os melhores arquitetos assinam os melhores momentos. E que os melhores momentos nem sempre estão nos lugares mais bonitos. Mas me abriu os olhos. Me fez entender que entre ter vinte e três e oitenta e dois anos não há a menor diferença. Porque nunca é tarde para se criar bons momentos.

Quero agradecer aos meus amigos e todos que me acompanham e torcem por mim, por contribuírem com seus tijolinhos para a construção de momentos tão especiais na minha vida.

maio 28, 2005

Sim-sa-la-bim

Feriados prolongados passados em casa, caminhando pra lá e pra cá, oscilando entre a TV e a Internet, com uma ou duas páginas de um livro qualquer lidas, em que as músicas tristes deixam você triste e as alegres também – afinal, está em casa - , dias assim faz com que você tenha algumas idéias. Nada original, vou logo avisando. Vi isso uma vez no blogue do Tony. Para completar, a entrevista alguns posts abaixo que, cá entre nós, me transformou num ser deveras fútil, fez com que viesse uma luzinha meio cor-de-rosa na minha pobre cabeça. Seguinte: vou entrevistar os meus amigos. Os poucos que visitam este blogue e os da vida real. É isso. Nos próximos posts, vocês saberão o que pensam os amigos dessa que vos escreve. E, baseados naquele ditado “diga-me com quem andas que lhe direis que és”, vocês terão certeza sobre o que realmente sou. Ou penso ser. Ou tento ser. Ou sei lá o quê. Aguardem!

maio 26, 2005



Algumas autodenominações podem fazer jus à pessoa, mas nem sempre ao momento pelo qual essa mesma pessoa passa. Repensando a minha saga de pobre consumidora pop, devo dizer que este é um título que me remete a uma triste realidade. Gasto muito e me sobra pouco.

Peraí, vocês não estão entendendo nada. Calma aí, minha gente. Explico: estamos em pleno feriadão prolongado e o fato é que estou sem grana. Zerada. Durinha Marciano da Silva. Irei contra todos os meus instintos - e eu tenho vários, acreditem -, e ficarei em casa vendo novela e todas as minhas super séries favoritas. Vou aproveitar para dormir bastante e para fazer todas as minhas lições de inglês, pois minha teacher disse que se eu não entregar tudo o que devo na próxima aula serei reprovada. Cá entre nós, eu NUNCA entrego. Imaginem uma coisa dessas.

Isso aí em cima eu escrevi ontem, quando comecei este texto. Mentira. Não é um texto exclusivo para o Proseando. Trata-se de uma adaptação a uma resposta minha a uns amigos querendo combinar o feriado comigo. Então percebi que a resposta daria um belo post. Como vocês tem percebido, não tenho sido nada criativa ultimamente. A vida tem me consumido muito rápido e nem mesmo observadora eu sou mais. O post está meio sem pé nem cabeça, tal qual os meus propósitos, mas dá pra ser postado.

Hoje é o aniversário da Clarah Averbuck. Mandei um e-mail pra ela. Ei, Clarah, parabéns pra você! Não vou à sua festa “do caralho”. Se bem que rock na cabeça é tudo o que preciso no momento. Claro, com algo bem forte pra beber e fazer tudo girar e as palavras escaparem da boca pra nunca mais voltarem. Aí, eu até fumaria um ou dois cigarros, mesmo que me deixassem com ânsia de vômito depois. Mas não vai dar. Então, voltarei pra minha solidão. Vou nessa. Vai começar a 11ª temporada de E.R.. Até a próxima. Prometo que volto mais sóbria.

maio 05, 2005

Entrevista concedida à Dotz para a Coluna Social da Semana

“Espero continuar dando tudo de mim”

“Não pretendo casar e nem ter um filho”

“Gasto em tudo. Sou consumidora Pop”

Juliana Marciano, 23 anos, gosta muito de escrever e mais ainda de falar. Muito comuni-cativa, ela concede entrevista contando tudo nos mínimos detalhes e, assim, revela sua vida, suas preferências e seus planos para o futuro, que se baseiam em ser uma grande escritora famosa. Ju, como é seu apelido, mora no bairro Jardim Rey, em Diadema. Do signo de gêmeos, ela mora com a mãe Isa e tem o pai Antônio morando no mesmo quintal com outra esposa, história essa que Ju relata ao decorrer da entrevista, assim como outros fatos a seguir.

Comida: Gosto muito de massas, comida japonesa, e também gosto muito de comer “porcarias”. Às vezes vou no Mc’Donalds e como um Mc Lanche Feliz só para ver a surpresa, sou uma consumidora Pop.

Música: É minha paixão. Eu gosto de MPB, clássicos como Elis Regina, Tom Jobim, Chico Buarque. Mas o que eu prefiro mesmo são de cantoras que nunca ninguém ouviu falar, assim como Isabella Tavani, Marcela Biasi e Renata Gebara. Elas são do Rio de Janeiro e ficam sem espaço para cantar em outros Estados, isso porque no Rio o movimento musical é mais forte. Mas, no momento, estou gostando muito da Zélia Duncan porque a acho uma artista completa. Para cantora internacional não tenho muita preferência porque tenho difi-culdades com inglês então fico sem entender algumas letras. Gosto muito de música italiana, por isso quinta-feira fui no Show da Laura Pauzini, no Credicard Hall.

Time de Futebol: Não gosto de futebol, mas eu dizia que era torcedora do São Paulo. Acho futebol uma coisa estranha, vários homens correndo atrás de uma bola (risos).

Animais de estimação: Eu tinha dois peixinhos, o Tom e a Elis (em homenagem aos cantores). O Tom morreu primeiro e depois a Elis morreu porque a tampa do aquário caiu em cima dela. Agora eu tenho um outro peixinho chamado Luz, que foi minha mãe que deu esse nome.

Sonho: Não tenho sonhos. Acho que a gente vive de momentos, é o que eu almejo hoje. Não tenho um sonho de ter um carro, de casar, ter uma família. Ah, não...não...eu tenho um sonho sim, eu sonho em ser uma escritora famosa e fazer o lançamento do meu livro com muitos amigos e regado a vinho barato. Minha amiga sugeriu de fazer o lançamento do meu livro com pipoca, porque é barato e bem moderno (risos).

Mora com quem: Olha só, moro com minha mãe mas meu pai mora no mesmo quintal com a esposa dele. É uma longa história, vou contar. Era uma vez um mocinho que se apaixonou por uma mocinha e casou-se com ela e teve 3 filhos, o Ivan, o Fábio e a Neide. Aí, em um belo dia, aconteceu uma coisa muito triste. A mocinha ficou doente e faleceu. Meu pai ficou parado por um tempo, depois encontrou outra mocinha e com ela teve 2 filhas, a Juliana e a Ana Cláudia. Aí o casamento desse mocinho com essa mo-cinha também não deu certo e, passou-se um tempo, eles se separaram. Então meu pai encontrou uma outra mocinha e com ela teve mais uma filhinha, que é a Bia. Resumindo eu tenho uma irmão de 33 anos e uma irmãzinha que vai fazer 3 aninhos.

Atividades Preferidas: Gosto muito de sair com meus amigos e tenho ido bastante em baladas. Gostamos de cantar no Karaokê, promover almoços e jantares na casa de um e de outro, vou muito a shows, teatros, cinema. Costumo também ouvir meus cds em casa e escrever sobre bastante coisa, principalmente sobre o cotidiano das pessoas (ao lado encontra-se um de seus textos)

Graduação e Cursos: Sou formada em letras pela UniABC. Este ano quase fiz pós em Jornalismo Cultural, mas meu amigo disse que não era muito a minha cara. Aí eu ia fazer pós de Criação na Comu-nicação, mas não formou turma, então vou deixar para o ano que vem. E curso eu faço de inglês, mas não me dou muito bem. Todo mundo na classe me chama de risadinha porque eu só dou risada. Na verdade, eu sou mais de literatura, gosto de ir em Workshops, manter contato com escritores.

Empresas que trabalhou: Oficialmente eu comecei minha carreira na Teletrim e fiquei uma no lá até que vim para a Dotz, onde estou há uns quatro anos. Lá na Teletrim eu também trabalhava em atendimento, por-que o atendimento da Dotz era feito por eles.

Como entrou na Dotz: Eu entrei aqui convidada. Na Teletrim o Rylson era meu supervisor gerenciado pela Helen. Um dia eu fui trabalhar e os computadores não estavam na mesa, então me disseram que a Dotz não tinha renovado contrato com eles. Isso porque a Dotz estava em crescimento e com a equipe de tecnologia formada. Portanto eles desen-volveram uma plataforma própria e trouxeram o atendi-mento para dentro de casa. Na época eu fiquei bem triste, até quando fui convidada para trabalhar aqui pelo Rylson.

O que esperava e o que espera da Dotz: Eu cresci muito aqui. Alcancei todos os graus, até a posição máxima. Fui atendente, assistente e cheguei a supervisora. Eu espero que a Dotz dê a virada que tanto está buscando e seja bem conhecida. Quero dizer aos outros que trabalho na Dotz e que eles a conheçam.

E o que você fará para isso: Poxa, eu espero continuar dando tudo de mim, acompanhando o ritmo, fazendo com que o atendimento Dotz alcance o grau máximo de eficiência e encantamento, que é o que todos esperam.

Nota 10: Dou nota 10 para o amor, toda forma de amar é bem-vinda e merece ser percebida.

Nota 0: Ao ódio, detesto odiar as pessoas.

No que mais gasta o seu dinheiro: Gasto em tudo o que eu ver. Livros, cds, presentes. Se estou com vontade de alguma coisa vou lá e compro.

Planos pessoais e profissionais para o futuro: Ser uma profissional na área da comunicação, não importa o quê. Mas quando eu falo que quero ser uma escritora tiro um pouco meus pés do chão, porque isso não dá dinheiro. E nos planos pessoais eu não sei porque não pretendo me casar e nem ter filhos. Então, minha área profissional completa a pessoal.

O que você seria capaz de fazer para realizar um sonho: Qualquer coisa que não preju-dicasse ninguém.

Frase predileta: Pode ser um “poeminha” sacana? É do Bukovski, escritor que gosto muito.

“A gente bebe quando está feliz
Pra comemorar
Quando está triste,
Pra esquecer
E quando não tem nada acontecendo,
Pra acontecer.”
Charles Bukovski

Jornalista Responsável: Lílian Munhoz

abril 24, 2005

Poema da necessidade
(Carlos Drummond de Andrade)


É preciso casar João,
é preciso suportar, Antônio,
é preciso odiar Melquíades
é preciso substituir nós todos.

É preciso salvar o país,
é preciso crer em Deus,
é preciso pagar as dívidas,
é preciso comprar um rádio,é
preciso esquecer fulana.

É preciso estudar volapuque,
é preciso estar sempre bêbado,
é preciso ler Baudelaire,
é preciso colher as flores
de que rezam velhos autores.

É preciso viver com os homens
é preciso não assassiná-los,
é preciso ter mãos pálidas
e anunciar O FIM DO MUNDO.

abril 11, 2005

Caminhantes Perseverantes na Cantareira

Uma ótima forma de vencer o cansaço pode ser uma cama quentinha, um lindo sorriso no rosto da pessoa amada quando você chega em casa, uma ducha bem demorada, zapear na TV com o controle remoto e com as almofadas do sofá em meio às pernas e elas, as pernas, beeeeeem esticadas sobre a mesa de centro.

Mas a melhor forma de vencer o cansaço, aquele de caminhar quatro quilômetros e meio com uma mochila pesada nas costas, um baita sol quente brilhando lá em cima e incontáveis subidas íngremes, daquelas que faz qualquer ser normal neste mundo pensar em não encarar, a melhor forma de vencer todo esse cansaço é uma só: a companhia.

Companhia como a San, ligadona no 220 V, rindo e fazendo graça o tempo todo, variando de vez em quando com um papo-cabeça sobre a arte e suas interferências na vida das pessoas, amparada pelos mais inesperados neologismos-tentaculásticos-nishídicos, marcando o caminho com o carisma inexplicável, daquele que somente quem a conhece pode compreender.

Companhia como a Polly, mostrando o tempo todo que a recompensa sempre vem depois do sacrifício, que o topo é o único local de chegada e que vale a pena continuar e ser perseverante. Sempre generosa com todos à sua volta, feliz, e pronta para um sorriso necessário ou para um inesperado "vamu todu mundo dumi" pra quebrar o gelo. Com seus amigos, encara tudo - até mesmo o "filhote de monstro" - que nos ajudou a voltar pra casa com a mochila menos pesada.

Companhia como o Rei, o único entre as mulheres, sempre disposto e solícito para o que precisarem. O protetor da ala feminina, o guardião das amigas, aquele que se preocupa o tempo todo, que se previne, que se dispõe, mas que detesta tirar fotos, ou melhor, sair nelas. O Sansão da turma, cuja força não está nos cabelos, mas nas costas, não importando o tamanho ou peso da mochila. Esse é o nosso Rei!

Comapanhia como a Paulinha, sempre risonha e solidária para com os caminhantes perseverantes. Grande motivadora e articuladora dos momentos de descontração da galera. Sem se preocupar com o que virá depois, está sempre pronta para o que der e vier: uma, duas, três, quatro batidas. E desce mais! Brincando de ser criança no Balanço de Pneus, jura pra todo mundo que não existe fórmula para a sua juventude estampada no rosto. Mas que eu ainda vou descobrir o caminho da Terra do Nunca, ah, isso eu vou.

Companhia como a Marininha, que provou que quem fala pouco anda mais e sua menos. Muito bem prevenida e com um baita espírito aventureiro, salvou a gente das picadas dos insetos e levou seu estoque de ban-daid, caso não aguentássemos a caminhada. Ainda bem que não foi preciso. Eita, mulher guerreira!

Companhia como a nossa Diva que, desta vez, não nos consagrou com sua bela voz, mas contribuiu de montão para o astral da galera. Mostrou-se também bastante comovida com a morte do Papa e, amparada pelo espírito humanista de paz e confraternização no mundo, aproveitou o momento para alimentar os famintos da região - os peixes jurássicos e o "filhote de monstro".

Companhia como a Ana, mestre das artes e do bom português - deixa qualquer analfabeto da língua com UM DÓ por não saber, que vou te contar! Mesmo em estado de choque com a caminhada de uma hora calculada pelo Rei, aproveitou muito bem o momento para exercitar os braços e as pernas nas descidas, enquanto esta que vos escreve capturava imagens pitorescas para refletir o seu olhar. Ohhh! Foi também responsável por preencher o caminho da volta com todo o seu conhecimento e interesse pelas artes plásticas, cinematográficas e literárias.

Por fim, a lembrança dos amigos que não foram também é responsável pela garantia da nossa alegria e cumprimento da nossa meta. Companhias ausentes, presentes nas nossas lembranças. Se estivessem lá, teriam tornado o nosso passeio ainda mais agradável e as subidas menos íngremes.

Viram como comecei minha semana inspirada? Quero que a de vocês também seja assim.

EU AMO O RYL E OS AMIGOS DO RYL!!!!!!!!!!

março 17, 2005

Marco Literário

"Oração das Donas do Inferno". Foi esse o conto que Clarah Averbuck leu no início do seu pronunciamento. O motivo desta leitura? Ela teria que ler algo e, ao tomar emprestado o meu exemplar de "Das coisas esquecidas atrás da estante", era justamente a página deste conto que estava demarcada. Clarah gostou da coincidência e resolveu lê-lo, justificando que provavelmente também o teria escolhido, caso assim tivesse que fazer. Lady Averbuck leu seu conto ferozmente, entonando em sua voz exatamente o que sua linguagem escrita faz sentir.

Ao seu lado estava Marcia Denser - Clarah Averbuck amanhã -, que se emocionou com a performance teatral de um dos seus contos. Marcia leu uma crônica inédita, escrita para alguma antologia que participou, das várias que fez em comemoração aos 450 anos de São Paulo. Como definiu Marcelino Freire, "um encontro a quatro mãos", já que, sucedendo Clarah e Marcia, encontraram-se Marcelo Mirisola e Reinaldo Moraes. Os quatro escritores são estigmatizados como "malditos" e marcaram época porque possuem uma linguagem visceral, revolucionária, chocante.

De quem foi a idéia deste encontro? Só poderia ter sido dele, Marcelino Freire, que também foi curador do "Encontros de Interrogação", promovido em novembro passado no Itaú Cultural, cuja repercussão foi tão boa que teremos segunda edição em 2005. Seguindo a mesma linhagem deste, que objetivava reunir escritores da Novíssima Geração e discutir seu processo criativo, sua literatura e suas referências, o "Marco Literário" também contou com a valorização dos novos escritores, além da organização de oficinas literárias. Aconteceu para reunir escritores de mesmos estilos de uma geração anterior a ícones contemporâneos. Bem à altura de Marcelino Freire, a idéia não poderia ter sido mais criativamente feliz.

O próprio Grande Marça me explicou no restaurante do Sesc Consolação que o "Encontros de Interrogação" foi um imenso passo para se chegar ao "Marco Literário". Mais que eventos literários, tanto um quanto outro tiveram o grande papel de promover a literatura brasileira, aproximar o escritor do leitor e afirmar um cenário literário que, cada vez mais, aparece em constante criação e evolução.

Eventos como esses têm também a responsabilidade de "quebrar" o saudosismo literário nas universidades. Existem novos escritores em cena, a literatura mudou, inovou, está aí para quem quiser ver. A crítica está fazendo o seu papel e os estudantes precisam conhecer a nova literatura na escola e não por acaso, como vem ocorrendo.

O evento ainda não acabou. Hoje, 18 de março às 20h, Joca Reiners Terron, escritor mato-grossense radicado em São Paulo e autor do livro de contos "Curva do Rio Sujo" e do romance "Não há nada lá", encontra pela primeira vez Milton Hatoum, amazonense radicado em São Paulo e um dos principais nomes da literatura contemporânea, autor dos romances "Relato de um certo oriente" e "Dois irmãos".

Amanhã, 18 de março, também às 20h, Luiz Rufato, autor do premiado romance "Eles eram muitos cavalos", encontra pela primeira vez Evandro Affonso Ferreira, que também surgiu nos anos 90 e é autor dos romances "Erefuê" e "Araã!", este finalista do Prêmio Jabuti 2004.

Vai lá:

Sesc Consolação
R. Dr. Vila Nova, 245 - V. Buarque - São Paulo - SP
Tel.: 3234-3009 / 3011-3252

março 13, 2005

Desesperança

O fluxo da vida e suas modernidades -
Perda total do ritmo
Pessoas não reconhecem os passos
Não percebem os caminhos
Não observam as paisagens
Modernidades que retardam o sentir
A percepção só vem depois que a luz se apaga
E novamente encontra dificuldades quando reacende
A subjetividade sobrepõe-se a qualquer grau de percepção
E a vida vai soar numa sinfonia diferente da que se conhece
Sempre incompleta
A luz do mundo vai piscar
De repente, tudo vai ser ainda menos familiar
As portas estarão abertas
Mas a entrada continuará sendo proibida
A linha de chegada é a linha do horizonte

fevereiro 10, 2005

O Homem da Livraria

Cheguei com dificuldades para entrar. Cinco, sete, quinze adolescentes obstruindo a passagem. Por que será que decidiram não entrar? Com licença daqui, com licença dali, uma segurada para não escapar a cara feia, uma leve torcida no nariz e, ufa, entrei. A indagação permaneceu sem resposta: o que será que não atraiu a moçada para dentro da livraria? Será que eles não gostam de best sellers e não entraram em menção de protesto? Será que a sobreposição dos livros não atrai muito a atenção? Ou será que o ar estava frio demais para permanecer lá dentro? Não sei. Sei apenas que entrei e todos aqueles livros pareciam música para os meus olhos e como se eles - os olhos - absorvessem o restante dos sentidos humanos. As mães ajudando os pequeninos a escolher um título parecia a visão do paraíso, uma forma promissora de acreditar no futuro, de não dizer em vão "o Brasil tem jeito".

Olhei à minha volta e existiam apenas três mesas com duas cadeiras cada. Todas elas ocupadas. Fui até a seção de "Literatura Nacional" e peguei com cuidado um livro da Cinthia Moscovitch. Tornei a observar as mesas e ainda estavam ocupadas. Decidi ir até a seção de revistas e a circulei com os olhos, como se buscasse uma maçã bonita em meio a muitas maçãs bonitas. Peguei uma maçã que tinha uma atriz em ascendência na capa. Gosto daquelas edições e já sei de cór o formato do discurso de cada jornalista, podendo, sobretudo, escolher a minha preferida. Assunto fútil com um toque de intelectualidade. É complicado, mas ainda dá pra selecionar bem as futilidades da mídia. Comecei ler a revista em pé mesmo. Folhear não, ler mesmo, desde o editorial até as propagandas mais drásticas. Vou lendo as partes menos envolventes, deixando o melhor pro final, igual criança que come o doce devagarinho, para o gosto bom durar mais tempo na boca.

Olhei em volta novamente e, bem ali, uma cadeira vazia. Fui até lá num passo apressado, torcendo para que aquele moço que vem em minha direção não sente na cadeira antes de mim. Consegui. Cheguei perto da mesa e ele estava sentado, concentrado. Olhei pra ele e pedi licença baixinho, para não incomodar sua leitura. Elegantemente, ele sorriu e fez que sim com a cabeça. Sentei com cuidado, abri a revista novamente e continuei de onde havia parado. De vez em quando, eu sorria ou então me controlava para não comentar em voz alta. Estava compenetrada na minha leitura e em meus pensamentos, quando ele me olhou e aproximou o livro aberto do meu rosto, apontando com o dedo indicador e perguntando: "você concorda com isso?" Fiquei assustada, mas decidi dar-lhe atenção. "Não concordo" - respondi sorrindo. "Isso é truque comercial para alavancar as vendas do livro, e não é a toa que este autor está fazendo fortuna" - concluí. Ele recolheu o livro e, me fitando, respondeu que era isso mesmo. Continuei observando-o e ele se afundou na leitura novamente. Concentrei-me na minha.

Os depoimentos de mulheres que realizaram aborto estavam interessantes, a ponto de eu rever os meus próprios conceitos. Estava dividida entre meus dogmas religiosos e a lei da sobrevivência, quando ele novamente resolveu me abordar: "estamos no princípio do fim e as coisas estão acontecendo exatamente como está na Bíblia. Estava lendo numa revista esses dias e o Brasil possui quatro mil e quinhentas religiões. Isso só no Brasil. Aquele Edir Macedo é a figura dos falsos profetas que a Bíblia ensina. Como é que as pessoas acreditam nisso?"

O que fiz foi fitar aquele homem e apenas observá-lo. Ele continuou: "o mundo capitalista não leva as pessoas a lugar nenhum. Fala pra mim se na época dos militares existia desemprego. O indivíduo somente não trabalhava se era vagabundo. E hoje? Quem é que acredita nessa filosofia enganadora do PT? Se tem alguém que ganha com isso são os banqueiros. Eles emprestam dinheiro às empresas que estão falindo e ganham em cima dos juros. Sabe de quem é o dinheiro que eles emprestam? Meu e seu. Eles têm uma doutrina própria. Coitada da empresa que não se unir a outra. É falência na certa. Observe as empresas de ônibus de São Paulo. Hoje, é tudo consórcio disso, consórcio daquilo. E o país fica aí parado. Eles lançam para o povo a teoria da política do crescimento e é tudo teoria. Tudo enganação pra distrair o povo."

Aquele homem que, quem olhasse, só poderia imaginá-lo alimentando os pombos, estava ali na minha frente lançando o desabafo de milhões de brasileiros com tamanha lucidez. Talvez, qualquer outra pessoa no meu lugar se levantasse da mesa, sem mesmo pedir licença e fosse procurar um canto qualquer para concluir sua leitura. Ou permanecesse com a cabeça baixa, ignorando o pobre homem. Eu, ao contrário, decidi erguer a minha cabeça e ouvi-lo. Simplesmente ouvi-lo. Abosorvi cada palavra como se fosse uma aula acadêmica. Sua teoria sobre a máfia no futebol, a continuidade da sua visão político-social do mundo, a defasagem educacional do brasileiro, a verdade sobre o Carnaval, o Oriente Médio, o Bush, o começo do fim. Para aquele homem, o problema do Brasil se resume em uma única coisa: na falta de patriotismo, algo que vai muito além de conceitos de esquerda ou de direita. Aquele homem que nunca mais verei, que não sei o nome e nem de onde veio. Nem mesmo se era de carne ou osso. O homem da livraria.

fevereiro 05, 2005

Acabo de descobrir uma coisa. Poemas, a gente ouve. Isso mesmo, do verbo ouvir. As belas composições de palavras ficam ecoando na nossa cabeça e a gente fica ouvindo aquela voz lá no fundo. Às vezes é uma voz sutil, daquelas que a gente ouve apenas se prestar muita atenção. Mas às vezes, não. Ela é tão forte que os gritos nos faz ensurdecer. E, de tão forte, a gente precisa colocá-la pra fora, pra ver se, compartilhando, o volume fica mais baixo. Mesmo assim, é um risco. Risco de virar epidemia. Mas eu não me importo e não quero saber de vacina.

A primeira vez que ouvi este poema foi num programa de televisão. A pessoa que o arrancou da cabeça em forma de voz nem sequer parecia gostar dessas coisas. Mas, de alguma forma, ficou um pouco do poema nela. E ficou um pouco em mim. E não adianta fugir, porque vai ficar um pouco em você que está lendo estas palavras agora.

RESÍDUO
(Carlos Drummond de Andrade)

De tudo ficou um pouco.
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco.

Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).

Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficam poucas
roupas, poucos véus rotos,
pouco, pouco, muito pouco.

Mas tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
- vazio - de cigarros, ficou um pouco.

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
de teu áspero silêncio
um pouco ficou um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
nos pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.

Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
em pouco de mim algures?
no consoante?
no poço

Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.
De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil...

De tudo fica um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
do vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver...de aspirina.
De tudo ficou um pouco.

E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.

Mas tudo, terrível, fica um pouco.
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço do cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte de escarlate
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.

janeiro 29, 2005

Alguém aí me ouve? Eu queria falar. Queria falar dos erros que desconheço, aqueles que, se soubesse da existência, jamais teria libertado da prisão. Daqueles que até ouvi gritar meu nome como uma sinfonia sombria, bem ao longe, mas que eu fingi não ouvir e confundi com uma desgraça qualquer que não estava ao meu alcance. Aqueles erros que chegam sem bater, entram sem pedir licença, colocam o pé no seu sofá e ri da sua cara, como se você fosse de fato uma piada, como se rir fosse um seriado engraçado daqueles que continuam no dia seguinte e no dia seguinte e que chegam até a encher, tendo um fim inesperado, num momento jamais imaginado, talvez, encoberto por outro erro. Erros que te deixam com vontade de chorar, de sair correndo, de ignorar a melancolia, que nem um beijo molhado te faz esquecer. Erros que, como o próprio nome já diz, são erros. Erros... Erros.. Erros...

janeiro 27, 2005

A quantas anda a maturidade do Brasil?

Responsabilidade, hoje em dia, está muito aliada à questão de maturidade que alcançamos com o passar dos anos. Está, ainda, estigmatizada à função histórica do ser homem e ser mulher, mesmo com suas controversas.

A mulher, por si só, já amadurece primeiro; a menstruação e o crescimento dos pêlos púbicos acabam antecedendo o crescimento dos pêlos faciais e o engrossamento da voz no homem. Depois, vem a questão da maioridade: até há pouco tempo, o homem se tornava maior aos 18 anos; a mulher, aos 21. Hoje, talvez pela afirmação do papel feminino na sociedade, a questão da maioridade está padronizada. O homem e a mulher assumem sua maioridade cívica aos 18 anos.

Historicamente, socialmente e até logicamente falando, deveria ser assim. Mas como não "entrar em parafuso" quando ligamos a televisão e vemos crianças de 8 e 9 anos de idade cuidando dos irmãos menores e dos afazeres domésticos, enquanto a mãe trabalha fora? Ou, então, trabalhando em zonas rurais, carvoarias e lixões paragarantir o sustento da família? Sim, crianças iguais as que você tem na família e que deveriam estar na escola, atribuindo a sua maturidade ao ato de simplesmente ser criança.

E o Brasil, você e eu nessa história toda? Às vezes, fico pensando naquele adolescente que freqüenta uma escola pública e que não se dá conta das oportunidades que tem em mãos. Penso nos pais destes adolescentes, que não atribuem a devida responsabilidade para o problema. E lamento pelos educadores que vêem seus aprendizados acadêmicos se escoarem pelos vidros quebrados das escolas aonde lecionam.

Há pouco tempo, falei neste espaço da questão da revolução e reafirmo: os jovens de antigamente sabiam detectar os problemas e correr atrás da solução, mesmo que esra se tornasse um problema ainda maior. As pessoas sabiam pensar coletivamente.

Hoje, no entanto, vejo uma juventude com visões míopes. Diante dos meus olhos, o Brasil - um gigante adormecido e imaturo.

janeiro 10, 2005

Dizem que quem canta, seus males espanta. Eu digo mais: quem canta, seus males compatilha e com eles, também a sua alegria, a sua essência, o seu melhor e pior. Não é só isso: quem canta muda a vida de quem ouve. E quem sabe ouvir, tem o dom de proliferar sentimentos. Quem sabe ouvir torna aquele que sabe cantar imortal. E tudo vira música. E tudo vira poesia. E tudo começa a fazer sentido. Assim disse o eterno Itamar Assumpção:

Quem canta seus males espanta
(Itamar Assumpção)

Entro em transe se canto, desgraça vira encanto
Meu coração bate tanto, sinto tremores no corpo
Direto e reto, suando, gemendo, resfolegando
Eu me transformo em outras, determinados momentos
Cubro com as mãos meu rosto, sozinha no apartamento
Às vezes eu choro tanto, já logo quando levanto
Tem dias fico com medo, invoco tudo que é santo
E clamo em italiano ó Dio come ti amo
Eu me transmuto em outras, determinados momentos
Cubro com as mão meu rosto, sozinha no apartamento
Vivo voando, voando, não passo de louca mansa
Cheia de tesão por dentro, se rola na face o pranto
Deixo que role e pronto, meus males eu mesma espanto
Eu me transbordo em outras, determinados momentos
Cubro com as mãos meu rosto, sozinha no apartamento
É pelos palcos que vivo, seguindo o meu destino
É tudo desde menina, é muito mais do que isso
É bem maior que aquilo , sereia eis minha sina
Eu me descubro em outras, determinados momentos
Cubro com as mãos meu rosto, sozinha no apartamento

dezembro 24, 2004

Natal é Tempo

Luzes iluminando nossas vidas. Muitas pessoas nas ruas. Crianças correndo. Pessoas rindo. Uns entregando presentes. Outros ganhando. Alguns sonhando. Um cheiro diferente no ar. É NATAL!

NATAL é tempo de balanço: quantas vezes rimos, quantas vezes choramos, os amigos que perdemos, aqueles que ganhamos, as metas que não conseguimos alcançar, quantos quilos engordamos, quantas loucuras cometemos, quantas vezes nos lamentamos, quanto gastamos com coisas fúteis, quantas vezes deixamos de ser úteis.

NATAL é tempo de reflexão: de pensar naquele que está ao nosso lado e naquele que não está mais. De esquecer as desavenças, de encontrar a paz. De buscar no fundo do coração um sentimento que não precisa ser expresso em palavras, apenas com o olhar. Olhar de Feliz Natal. É o tempo certo de esquecer as desavenças para sempre. É o tempo preciso para pensar na miséria. É o tempo que não encontramos durante o ano inteiro para PENSAR o bem, DESEJAR o bem, PRATICAR o bem.

NATAL é tempo de conscientização: de entender que a perfeição é do tamanho da pretensão que cada um tem de ser perfeito. De aceitar que o belo não é um conceito padrão, mas sim que se encaixa à essência de cada pessoa. De compreender que a individualidade às vezes é necessária, mas que só a união faz a força. De afirmar que o único caminho para o sucesso é o foco nos objetivos, buscando sempre pensamentos positivos.

NATAL é tempo de mudança: de descobrir o que falta para sermos pessoas melhores. De entender que o mundo precisa ser diferente e que cada um PODE dar a sua contribuição para isso. É tempo de entender que a opinião alheia é importante sim e aceitá-la faz da gente pessoas menos egoístas. É tempo de crescer, de amadurecer.

De todos os tempos, NATAL é o tempo que Deus nos deu de presente para sermos filhos melhores, amigos melhores, pais melhores, PESSOAS melhores. É o tempo que Deus escolheu para nascer em nossos corações e nos fazer REFLETIR, CONSICIENTIZAR e MUDAR.

Que neste Natal, Deus nasça mais uma vez no seu coração e faça de você uma pessoa AINDA MELHOR.

FELIZ NASCIMENTO!

FELIZ NATAL!

dezembro 13, 2004

???

Uma das grandes frustrações com a geração a qual pertenço é justamente a ausência de argumentos construtivos para se fazer uma revolução, não para mudar o mundo, mas para fazer a diferença nele. Seja qual for o objetivo de fazer a diferença no mundo, no seu trabalho, na faculdade, em qualquer lugar, esse objetivo deve vir amparado pelo respeito às classes sociais, às essências sexuais, às diversidades raciais e também às diferenças de opiniões.

A verdade é que ninguém está de fato preocupado com isso. Talvez, nem mesma eu esteja. As pessoas não estão preocupadas em ser diferentes ou em fazer a diferença. Todo mundo pensa igual, como se a razão tivesse sido padronizada, restrita a um singelo pensamento coletivo: vamos seguir o fluxo que a sobrevivência vem por conseqüência. É isso, a preocupação deve ser com a morte e não com a vida.

Esse fulano aí do seu lado provavelmente não esteja vivo. Essa que vos escreve pode estar proferindo essas palavras do além. Do além da indignação humana. Do além da impossibilidade de compreensão. Do além das nossas dúvidas remetidas à miséria da condição humana. Há tanta coisa pra se lamentar. Pra duvidar. Pra conspirar. Quem está preocupado com o respeito?

Quem aqui se reconhece humano o suficiente para proliferar o perdão? Quem aqui se reconhece puro suficiente para chorar? Não existem lágrimas. Não há sorrisos. O ar que respiramos chama-se melancolia e a vida que bate em nossos corações está isenta de qualquer significado. O desrespeito nos governa.

A vida que se finge viva nos apodrece diariamente. Minuto a minuto. O amor é inatingível e a solidão não está só. Está acompanhada pelo desespero de abrir os olhos e entoar a voz. Estamos todos mortos pelo desrespeito. E a minha última palavra é BASTA.

dezembro 08, 2004

Depois do Perigo

(Lucina e Zélia Duncan)

Não, não me aqueça
Hoje eu quero o frio
O vazio
Que a sorte deixou aqui
Quero sentir a altura do abismo
Pra eu poder subir depois do perigo
Não, não me acalme com silabas doces
Hoje eu quero o açoite das palavras rudes
Pra que eu possa me defender em atitudes
Não, por favor hoje não me proteja
Para que eu finalmente veja
O que a vida reservou pra mim
Quero sentir a altura do abismo
Pra eu poder subir depois do perigo

novembro 29, 2004

Segunda-feira muito louca

Detestar as segundas-feiras nunca esteve no meu rol de detestações diárias. Segunda-feira é, antes de mais nada, uma quebra de rotina e, para quem vive em função de inconstâncias, vem a ser um ótimo aperitivo para o início da semana. Vá lá que tal otimismo dura, no máximo, até a terça-feira, mas aí é uma outra história.

Minha segunda-feira começou bem. Ignorei o despertador. Repeti mais de cinco vezes em pensamento "só mais alguns minutinhos". Acordei no banho. Não bebi meu café na xícara de sempre. Troquei os "Anos Incríveis" pela centésima transmissão do "Prêmio Multishow". Saí atrasada de casa pra não contrariar a ordem natural das coisas. Peguei um coletivo lotado. Ouvi duas vezes seguidas a fita da Zélia Duncan no meu walkman, cantando todas as músicas e repetindo todas as falas dos seus comentários. Ignorei os olhares curiosos. Cheguei ao escritório e, como sempre, me dirigi ao toalete para lavar as mãos e pentear meus cabelos rebeldes. Peguei o café-da-maria e um copo com água. Bati um papo matinal com a Cris. Sentei na frente do meu computador. Selecionei algumas músicas que não ouvia há tempos. Baixei meus e-mails. E o telefone tocou.

Tem horas que o simples tocar do telefone faz com que você deseje ser qualquer outra pessoa, atuar em qualquer outra área ou estar em qualquer outro lugar. Tenho a impressão de que, quando o telefone toca, junto com as ondas sonoras vem uma espécie de vibração que precede o assunto a ser tratado. Sei lá se é o meu sexto sentido em ação ou algum poder marciano, mas há momentos que o toque do telefone me dá vontade de sair correndo. O problema é que eu nunca saio.

O infeliz do outro lado da linha decidiu quebrar a seqüência da minha segunda-feira normal e jogar nas minhas costas todos os rezíduos maléficos do seu final de semana frustrado. Por pouco, quase esqueci da ética e moral que movem minha profissão e mandei o elemento se dirigir ao banheiro mais próximo e enfiar a cabeça na privada. Eu, que mal enxergo a ponta do meu pavio de tão curto que ele tem estado, tive que manter a compustura. Até tentei não ser irônica. Até tentei não ser redundante. Esgotei a minha capacidade de dizer a mesma coisa por um milhão e trezentas e setenta e sete mil formas diferentes. E a conversa com o fulano se prolongou em duradouros quase oitenta minutos. Dá pra acreditar? Um dia bonito, os passarinhos cantando, o Natal chegando e o fulano gastando o telefone da empresa em que trabalha, só para ESTAR COM A RAZÃO! E eu lá quero saber dessa tal de razão? Sério. Ultimamente estou mais para a sensibilidade do que para outra coisa qualquer.

Ei, alguém aí tem um chiclete?

novembro 17, 2004

O pior de mim I

Saudades de mim
Do mistério da minha essência
Do que me faz doce a amarga
Líquida, homogênea
Ingredientes da vida

Medo de mim
Da ousadia de ser
Da audácia de falar
Pensamentos silenciosos
Verdades inquietas

Raiva de mim
De tudo o que não sinto
Da simplicidade difícil
Do que falo e não digo
Quando paro para refletir

Pena de mim
Da covardia disfarçada
Do frio que me apetece
Desconhecido que me conhece
Da felicidade amargurada

novembro 09, 2004

A sorte vem por e-mail e ondas sonoras

Tá legal, tá legal. Prometo que nunca mais reclamo de falta de sorte na vida. Não digo isso porque estou viva. Também não digo porque estou empregada (ops, melhor não tocar neste assunto). E digo menos ainda por ter um teto e não precisar dormir na rua. Sim, claro, são motivos suficientes para eu viver feliz para todo o sempre, amém. Afinal, muitos são felizes por menos, oras. Então tá. Ei, Papai do Céu, tá me escutando? Valeuzão por tudo, viu! Papai Noeeeel, fui uma boa menina o ano inteiro. Muito obrigada pelas suas antecipações.

Calma, não ganhei na mega-sena. Mas desperdicei uma boa chance, pode acreditar. Algumas pessoas são céticas com relação a promoções, mas eu certamente quebrei umas boas barreiras há cerca de dois meses. E foram com estes argumentos que acalmei uma grande amiga por ter recebido um e-mail promocional indicado por mim.

Imagine você com uma enorme vontade de conferir o super show de uma cantora que curte muito. Agora, imagine a sua enorme vontade atrelada ao fato de você não ter dinheiro. Você, evidentemente, buscará algumas saídas. Recorrer à sua mãe é uma delas. Mas a sua mãe já encerrou a cota de "quebra-galhos" do mês e resolve não ceder desta vez. Você tem seu irmão, mas ele também não pode quebrar esta. Você imagina algumas situações: talvez vender alguns objetos de casa, mas isso traria conseqüências drásticas. Não valeria a pena. Um empréstimo, talvez. Hmmm... melhor não. Então você parte para o "se":

Se não tivesse gastado seu dinheiro com coisas supérfluas...

Se tivesse um namorado rico...

Se não tivesse zerado o cartão de crédito...

Se houvesse algum milagre...

Ops! Milagres acontecem. Quando eu já estava mais que conformada, continuei dando o rumo normal à minha vida. Nada de baladas até o próximo mês. Nada de cinema. Nada de compras. Nada de lanche com os amigos. Tive que optar pelo "curtindo a vida adoidado na Internet", manja? É, dá para se divertir às vezes. E foi no Orkut que os anjinhos disseram amém. Lá mesmo, na comunidade da Zélia Duncan. Explico: alguém mencionou que o fã-clube estaria sorteando alguns convites para o show da Rita Lee, que a Zélia faria uma participação especial. Seria apenas uma participação, mas era também a gravação do DVD da Rita. Já era alguma coisa, né? Pois bem. Fui até o site do fã-clube, registrei a minha inscrição na promoção e desencanei total. Numa hora dessas, a melhor coisa é dispersar. E assim tentei fazer.

Em determinados momentos, por mais que você tente, não consegue. Quem disse que havia forma de dispersar? No dia seguinte, a caminho do escritório, a Nova anunciava a promoção para o tão sonhado show no Directv. Bastaria ligar para a rádio e informar o nome e documento de identidade. Ah, sim! Antes, eu teria que decorar o telefone da rádio que ouço todos os dias, cujo número é repetido zilhões de vezes e eu sequer saberia informar o primeiro dígito se me perguntassem. Até aí, valeria o sacrifício.

Cheguei ao escritório e disquei. Fui atendida no primeiro toque. Começamos bem, pensei. Fiz o que tinha de ser feito e esperei pelo resultado que seria divulgado na programação em vinte minutos. Liguei meu PC, continuei ouvindo meu walkman e fingi que nada estava acontecendo. De repente, alguém me chama. Tiro os fones e olho para trás. Quando me volto e recoloco os fones, ouço apenas: Parabéns, Juliana! Aguarde o contato da nossa produção". Venhamos e convenhamos que "Parabéns, Juliana!" não significa absolutamente nada. Você já parou pra pensar em quantas Julianas existem no mundo? Eu já. E não são poucas. Fiquei com vontade de brigar com a outra Juliana que havia me desconcentrado na missão, mas procurei me acalmar. Quase uma hora depois, eu lá, me corroendo em dúvidas, e o telefone toca. Era a moça da rádio. Sim, eu era a Juliana sortuda. Eu havia ganhado um par de ingressos para ver Zélia Duncan no Directv.

Como era de se esperar, não me cabia em mim de tanta felicidade. E todo mundo com aquela cara de surpresa de "Sim, as promoções funcionam". Quando volto do meu almoço, tal não foi minha supresa ao ver a mensagem que estava em minha caixa-postal. Era a resposta do fã-clube. Eu tinha sido uma das premiadas para ir à gravação do DVD da Rita Lee. Ah! E na sexta recebi a resposta dizendo que também ganhei dois ingressos para ver "Mulher Gato" no cinema + 1 walkman. A minha frase foi uma das vencedoras, em resposta à seguinte pergunta: "O que você faria se recebesse os poderes da Mulher Gato?".

Naquela semana acontecia o maior acúmulo da mega-sena dos últimos tempos. Pergunte se eu joguei.

outubro 21, 2004

Arte Filosofal

Como assim "este era o objetivo"? Quem disse que a arte tem objetivo específico? Cada um entende como a sensibilidade permite. Se eu levei para o lado racional, também não estou errada. Quem disse que o conjunto é irrelevante? Não basta tocar, tem que convencer. E não me convenceu.

outubro 20, 2004

Beije-me!
Quantos beijos você quer?
Hmm... Todos.
Olha que eles são infinitos.
O que importa, se temos todo o tempo do mundo?

outubro 14, 2004

O Cinema Brasileiro

O cinema é cultura. O cinema é arte. O cinema também é filosofia. As sensações cinematográficas podem ser comparadas às sensações literárias e é justamente por isso que vivo repetindo que, assim como acontece quando lemos um livro, jamais terminamos de ver um filme sem um mero grau de transformação. O cinema transforma.

Hoje, quando pensamos em cinema nacional, já estamos, automaticamente (por questão de cultura ou de maturidade social), nos distanciando do tabu que este assunto nos remete. Sim, o nosso cinema possui novas caras e arranca novas sensações. Não penso que isto ocorra em função da queda do favoritismo norte-americano e nem mesmo por uma epidemia patriótica que se infiltrou nos brasileiros de última hora. A questão é muito mais positiva do que se pensa. O conceito de qualidade está mudando. E mais: não só o conceito de qualidade estética, mas, sobretudo, intelectual.

É óbvio que o nosso humilde cinema não transcende as superproduções dos filhos de Bush. Não cabe aqui tirar-lhes este mérito. Mas as pessoas estão cada vez mais buscando o cinema-cabeça. Aquele que toca, que arrepia, que faz chorar e refletir. É este o ângulo que os nossos cineastas têm buscado e alcançado com êxito, seja no contexto documentário, como foi com Carandiru e recentemente com Olga, ou no contexto filosófico-reflexivo, como está sendo com A Dona da História.

Este último, ainda traz o conceito da arte gerada pela arte, a concepção (em seu verdadeiro sentido), de uma nova tendência: o cinema brotado do teatro, técnica feliz e bem sucedida, experimentada pela segunda vez por Daniel Filho. Não há investimentos de grandes proporções, mas há um refinamento na escolha do elenco e na adaptação do roteiro. O expectador se encontra, se identifica, reflete. E tudo isso acontece sem a necessidade de gastos milionários. O resultado pode ser visto nas estatísticas das bilheterias. As pessoas estão indo mais ao cinema, as crianças, assim como acontecia no passado antes das atuais tecnologias, estão pegando gosto pela sétima arte.

Naturalmente, ocorre o incentivo a talentos desconhecidos ou reprimidos e desperta-se a atenção das autoridades governamentais para esta nova fonte de lucro financeiro e intelectual que se revela o Cinema Brasileiro. Há lazer mais lucrativo do que apreciar a sétima arte?

outubro 13, 2004

Fale aí

Por acaso, o filho quer saber se a mãe está cansada quando deseja seu peito desesperadamente? Não. Assim também é a minha ansiedade por não postar nada aqui desde o dia 27 de setembro. Resolvi então dar um drible no tempo de que (sério), não disponho, e mandar um sinal de vida do meu planeta conturbado. Eu poderia falar do Dia das Crianças, do Programa da Xuxa, da correria que foi com o Vitinho no Shopping e no Paique Piigoso. Poderia falar ainda do Dia da Padroeira do Brasil e da vela que queima lá em casa em sua homenagem. Poderia falar também da minha vida profissional que não está muito diferente da vida pessoal. Aliás, que vida pessoal? Ah, sim! Eu esqueci que as minhas vidas são, na verdade, uma só. Simples, não? Tenho vontade também de falar do filme que vi na sexta com meus amigos, mas este ficará para um outro post. Só uma sugestão: não encare isso como promessa, okay? Se eu ousasse falar da minha não-ida a Curitiba, programada dois meses antes do feriadão, combinadíssima com uns amigos super que me acompanhariam, a graça que já não existe se perderia de vez. Para segurar a graça, só se eu falasse do show que pretendo ir no próximo final de semana. Como corro o risco de não ir, melhor não falar mesmo. Bom, disse que o tempo era curto, certo? Então, posso falar que passei aqui só pra dar um Oi!. Pronto, falei.

setembro 27, 2004

Escrevendo no Escuro

Perguntaram-me se eu gostei do filme. Como assim, se eu gostei do filme? Simplesmente amei o filme. Uma produção tocante, como poquíssimas que vemos por aí. Comentaram, então, que eu tinha o coração de pedra porque não estava chorando. Ah, sim, lembrei-me que determinadas utopias emocionam e, naquele momento, por ser convencional, eu deveria estar chorando. Mas não estava. Talvez, eu realmente devesse já que, de certa forma, era oportuno. Eu tinha motivos, mas não tinha forças. Sequer optei por comentar o filme - não estava muito racional naquele dia.

Agora, passadas algumas horas, entendo que sim, o filme era mesmo utópico. Personagens bem estruturados, enredo convincente e atuações excepcionais. Era um musical. O bem e o mal eram abordados de forma ambígua e a mocinha não foi polpada como normalmente acontece. A mocinha, uma "pessoa humana", com o perdão do pleonasmo tão bem apropriado nesta ocasião, era o verdadeiro exemplo de bondade. Sua alma era pura. Suas atitudes eram impecáveis, virgens do mal. Era o protótipo mais apropriado que já vi de mãe - o modelo ideal de ser humano. Selma era o tipo de pessoa que, se você se deparasse com ela na rua ou no supermercado, certamente ficaria envergonhado. É o tipo de amiga que não executa um mínimo esforço para ensinar grandes lições. A sua essência se permite isso facilmente. Tenho certeza de que Selma seria o tipo de filha exemplar, assim como gostaria que seu filho fosse. Até mesmo suas mentiras eram perdoáveis, mediante a causa que a fazia mentir. Sua ingenuidade não causava graça, mas sim admiração. Não comovia, emocionava.

Este é o tipo de filme que lhe deixa com vergonha das suas atitudes. Impossível não remeter-se à mesquinhez humana. Inevitável não revoltar-se contra a sociedade travestida de Deus. Uma gota de angústia adentra em você com tamanha intensidade que, quando percebe, já está alojada lá no fundo do seu coração. A vontade é de chorar sim. De sair correndo e entrar no primeiro templo que aparecer. De se redimir, de lamentar, de refletir, de questionar. E o pior: sem encontrar respostas. Porque a intolerância não admite justificativas plausíveis. E o mundo é isso o que vemos: fracos versus fortes. Caminhamos distante do mundo ideal, em que a felicidade é cultivada coletivamente e de forma recíproca. Ninguém percebe que não se é feliz em conseqüência de tristezas. E que não se consegue o sucesso em conseqüência do fracasso alheio.

O filme é Dancer in the Dark, de Lars Von Trier. Estas palavras estão sendo escritas no escuro, para que continuem sendo verdadeiras. Porque, às vezes, lê-se melhor no escuro, com mais nitidez. As idéias ficam mais claras.

setembro 22, 2004

Flores

(Fred Martins/Marcelo Diniz)
Flores para quando tu chegares
Flores para quando tu chorares
Uma dinâmica botânica de cores
Para tu dispores pela casa
Pelos cômodos, na cômoda do quarto
Uma banheira repleta de flores
Pela estrada, pela rua, na calçada flores num jardim
Pétalas ao vento para tu contares
Flores para compores
Metáforas antes de comê-las
Pelos cômodos, na cômoda do quarto
Uma banheira repleta de flores
Pela estrada, pela rua, na calçada
Flores para mim
Flores pros meus braços
Ofertá-las para parabenizar-te
Flores, quantas flores forem necessárias
Pra perguntares pra que tantas flores...

setembro 13, 2004

"Você é o amigo impecável a quem eu respondia que tudo ia mal, que tudo se tornara opaco. Enquanto os demais se calavam ou riam de mim, afastavam-se, deixavam de telefonar, você permaneceu firme no seu afeto por mim, dividindo comigo o estranho segredo de uma relação que cada um condenava -- inclusive você -- mesmo continuando a receber as informações berrantes. Foi mais do que uma presença, algo que permitiu estabelecer a ponte entre as minhas palavras e o indizível, entre a minha loucura e o resto do mundo que estava ali, a me olhar... Vivo, respiro, você está ao meu lado neste infinito de neve. Como lhe exprimir isso? Um dia, escreverei para você, para que saiba o quanto nada é inútil... Que os corredores escondidos onde se passam os amores e se estreitam as amizades levam necessariamente à luz, a fim de que cada um possa reconhecer a elegância dos que souberam, em silêncio, escutar."

em O Próximo Amor, de Yves Simon

setembro 08, 2004

Declaração de Amizade

Hoje, acordei com vontade de falar dos meus amigos. Bem, é claro. Tão bem como eu falaria deste churro que como agora. Não pretendo palavras de gentileza. Se assim for, será mera coincidência. Também não pretendo palavras duras. Às vezes, elas acabam saindo, mas eu sei e meus amigos também sabem, que não merecem isso e que, muitas vezes, são apenas palavras e não intenções.

Não é dia do amigo e também não perdi nenhum. Estão todos aqui comigo, em algum lugar do meu coração. Meu coração não é tão grande assim. Gostaria que fosse, mas não é. Acho que é a parte do meu corpo que menos gosto - meu coração. Questão de tempo, creio eu. Com o tempo, a afinidade se cria e, então, poderei dizer que sou muito mais bondosa do que me permito aparentar. Mas meus amigos nos entendem – a mim e ao meu coração. E este é um dos motivos que me levam a escrever sobre eles. Para eles.

A amizade é um sentimento tão complexo quanto o amor. E lindo também. Vai entender porque você olha para aquela pessoa e, de repente, a mágoa dela passa a ser a sua. A alegria, idem. Se ela está bem, você está. Vai entender porque essa mesma pessoa é a primeira que você pensa quando algo incrivelmente bom lhe acontece. E no contrário também, quando algo terrível passa pela sua vida. Vai entender, ainda, porque você, às vezes, uma pessoa tão metódica, tão centrada, tão limitada, se permite transgredir ao lado de uma pessoa que não lhe exige esforço nenhum para isso – apenas está lá, ao seu lado.

E os amigos propriamente ditos? Como entender as suas origens, o início de todas aquelas sensações boas e ruins? Tem aquele que cresceu com você e conhece um lado seu que aquele outro, que estudou contigo durante quatro anos, desconhece. Ou aquele que você conheceu num show e, por uma paixão em comum, tornaram-se companheiros de muitas experiências. Tem também aquele que era amigo do amigo do seu amigo e você jamais se imaginou ligando para ele numa hora daquelas da madrugada, só para trocar confidências.

O tempo passa, você pode estar na deprê que for, mas sempre aparecerá alguém na sua vida. Não importa se for ali na esquina ou aqui pertinho, no Orkut. E toda vez que um estremecimento romper a base da sua amizade, você vai ficar mal porque todas as pessoas que passam pela sua vida são importantes para você. Todas elas lhe acrescentam um aprendizado, lhe oferecem uma novidade. E você sempre precisará delas e sempre vai encontrar um pedacinho de você nelas. Porque são os nossos amigos os grandes personagens da nossa história. E escritores dela, em parceria com nós mesmos. São peças chaves na nossa vida. São diamantes que precisam ser lapidados, cada um ao seu tempo.

Aos meus amigos, a todos eles, os que conheço na prática ou na teoria, ou nos dois, o meu enorme abraço. A minha declaração de amizade eterna, enquanto durar.

agosto 30, 2004

Eu me transformo em outras

Muitas vezes, acabo pagando um preço alto por não ser boa observadora. Mas percebo também que, quando observo demais, o desconto não é nada merecedor de algum reparo. É triste, muito triste, você ver um grande ícone da mídia brasileira se mostrar só um pouquinho nada convencional, para as pessoas caírem matando. E olha que eu nem falo da massa crítica profissional. Falo dos verdadeiros críticos mesmo, o povo. Aquele mesmo povo que surpreende quando mostra uma opinião produtivamente formada e que também surpreende, com impacto não menos intenso, quando decide não processar o raciocínio de forma construtiva para denegrir a imagem de alguém. Se é que se pode denegrir a imagem de alguém construtivamente.

Ao sair do show “Eu me transformo em outras” da Zélia Duncan, neste último sábado, o burburinho que se ouvia parecia coletivo. A maioria das pessoas não tinha gostado do show. Se a maioria das pessoas não tivesse gostado do show porque não houve muito investimento na produção ou porque o show atrasou um pouco ou, ainda, porque a cantora não interagiu muito com o público, vá lá. Mas, não. A maioria não curtiu o show por causa do estilo das músicas cantadas e pelo fato de não ter havido espaço para os “Clássicos da Zélia Duncan”.

Posso tecer aí algumas teorias: grande parte das pessoas foi ao show sem conhecer o projeto “Eu me transformo em outras” e acabou se surpreendendo com o que ouviu. Se isso é verdade, posso dizer também que a falta de investimento de material publicitário também teve sua parcela de culpa, logo, esta grande parte das pessoas não é e não pode ser tão ferozmente criticada neste texto. Uma outra possibilidade pode ser o fato de que todas essas pessoas tenham ido ao show porque não tinham nada melhor para a noite de sábado. Está bem, essa possibilidade é bastante razoável. Mas a possibilidade que mais faz sentido em todo este processo crítico é que, infelizmente, a massa social apreciadora de música está corrompida. E digo isso com grande pesar, pois se incluem nesta categoria até mesmo a parte desta massa que aprecia a boa música. Na verdade, não só a boa música, mas também os bons cantores.

Sim, diga aí o que está pensando neste momento. Deixe-me ajudá-lo: “mas que menininha petulante, que não se digna a, sequer, respeitar o gosto alheio. Vem aí, com esse textinho moralista e não tem capacidade de perceber que está se manchando com o próprio veneno. Menininha prepotente, essa!”

Era justamente isso o que se passava pela sua cabeça, né? Pode falar, eu não ligo. Você pode até não acreditar, mas a minha inflexibilidade está bastante controlada. Explico: pode sim ser questão de gosto. Aliás, seria estranho se não fosse, porque eu não iria ao show de um artista que não estimo. Não mesmo. E não me venha dizer também que sou uma tiete simplista e sem noção. Tudo isso faz parte de uma teoria que costumo adotar: não comente sobre aquilo que você não possui um mínimo de conhecimento. E, quando eu digo que gosto de música, eu simplesmente gosto. E tenho a mania de estudar aquilo que gosto, à minha maneira. Para mim, a atitude das pessoas que criticaram o show foi uma atitude superficial, sem conhecimento de causa. Falar por falar, apenas para gerar uma opinião, entende? Eu, particularmente, prefiro ser taxada de “sem opinião” do que de “superficial”.

Se você aí gosta de música, de boa música, se não tem preconceito contra os clássicos e se amarra ver o clássico sendo abordado por um contemporâneo, não perca o show de Zélia. Escute o CD e aprecie. Boa música faz bem à alma. Já a superficialidade, esta me transforma em outra pessoa. Nada agradável, lhes garanto.

agosto 23, 2004

Transgredir de verdade é a solução

O meio artístico está cheio de figuras marcadas por uma personalidade forte e por altas dosagens de transgressão. Diante de termos como este, imaginamos um filhinho de papai armando a maior baderna na televisão e influenciando milhares de jovens Brasil afora. Vá lá, não é mentira. Mas é bem verdade também que toda época tem os seus ícones conturbados. Abra uma revista qualquer ou ligue a televisão e você encontrará inúmeras Britneys Spears causando no meio musical, milhares de Dados Dolabellas no meio artístico e intermináveis Fernandas Yongs no meio literário.

Certo, podemos tirar boas perspectivas de tudo isso, afinal, toda época é brindada com tipos que vão contra a corrente. Falo dos famosos transgressores. E, nesse mundo aonde ninguém é de ninguém e todo mundo é igual mas é diferente, transgressor é o adjetivo que a maior parte da nossa classe artística quer carregar a tiracolo. E a problemática disso tudo - sim, porque existe uma problemática -, fica em torno do significado das coisas. Ser transgressor é, antes de tudo, uma responsabilidade. Uma grande responsabilidade. Não é aparecer na mídia e utilizar-se do seu poder para subverter os fracos e oprimidos.

Ser transgressor não é ditar moda. Fazer uma tatuagem ou colocar um piercing no nariz. Tatuagens ou piercings não expoem causas. Transgredir é ir contra, construtivamente. É oferecer uma ideologia. É abrir os olhos da sociedade. Falo do bom transgressor, daquele que faz e que fica.

Transgressores hoje são confundidos com rebeldes sem causa. Muito diferente dos transgressores de ontem. O indivíduo vai, escreve um bilhete de cunho preconceituoso contra todos os nordestinos que vivem na Selva de Pedra, entrega nas mãos de um pobre coitado e pronto. Acha que sua revolução está travada. Este, senhoras e senhores, é um falso revolucionário. Diferente dos jovens que lutaram contra a ditadura na Era Vargas. Diferente dos jovens que passaram suas mensagens por meio da música e foram censurados. Diferentes de espíritos como o meu, como o seu, que me lê agora.

Quando eu falo que a juventude brasileira está corrompida, não minto. Mas também não minto quando penso que ainda há esperanças. Que ainda há boas músicas, bons livros e bons justiceiros. Façamos das nossas crenças a nossa voz, o nosso grito. Vamos compartilhar a nossa sensatez e destruir a hipocrisia. Vamos fazer arte na cabeça dos nossos jovens. Vamos combater os falsos moralistas. Quem se habilita?

agosto 16, 2004

Por que as pessoas vão ao cinema?

Pelo mesmo motivo que as impulsionam a ouvir uma música, você pode dizer.

Por ser um hobby tecnicamente construtivo, capaz de abstrair as futilidades da vida ou de transformá-las, dependendo do ponto de vista.

As pessoas também podem ir ao cinema para se ver sozinhas. Para fugir do mundo que as cerca. Ou para fugir de algumas pessoas. Ou ainda, para fugir com uma pessoa. Uma só.

Para sonhar, sem se importar com a realização. Fechar os olhos e se imaginar caminhando num belo campo coberto de flores silvestres, livres de pensamentos ruins, das maldades que nos cercam, dos espíritos corrompidos. Ou nuas, numa cama forrada com lençóis brancos, acompanhadas pela Nicole Kidman ou pelo Gael Garcia Bernal.

Talvez as pessoas entram na sala escura e sentam-se em frente à grande tela com a intenção única de se transformar. E ninguém termina de ver um filme sem um mero grau de transformação.

Respostas. As pessoas também podem ir ao cinema em busca de respostas. Significados. Justificativas. Elas desejam compreender o amor, explorar o amor, absorver a visão dos cineastas. Compreender a guerra também é outra possibilidade. Talvez as pessoas queiram encontrar culpados. Ou se descobrir culpadas. Existem boas almas que se preocupam com isso.

Projeções. Sim, o cinema também permite ao indivíduo projetar a sua vida. Desenvolver um objetivo. Oferece um ponto de partida, um apoio para o primeiro passo.

O principal motivo que leva as pessoas ao cinema é o auto-conhecimento. O estado de meditação a que recorrem entre uma cena e outra. Entre uma pipoca e outra. A reflexão de um sorriso inesperado, de um comentário baixinho entre o casal do lado. De analisar uma história para poder comentá-la depois. Para recomendar a uma pessoa querida.

As pessoas vão ao cinema porque o cinema é arte. Para quem faz e para quem aprecia. Porque, ao contrário do medo social, a juventude não está corrompida por completo. O cinema salva, assim como a música. Assim como os livros.

agosto 12, 2004

Hein?

A soma dos preconceitos é igual ao quadrado da ignorância multiplicado pela hipocrisia da sociedade. Seria o preconceito uma questão de cultura? Ou será que seria apenas uma complicada questão de educação de berço? Ou, ainda, um distúrbio psicológico, daqueles que nem Freud explica? Hein??

agosto 03, 2004

Criticando a Crítica

Em épocas como a nossa, com toda uma expansão tecnológica, uma diversidade cultural cada vez mais em evidência, com uma forma de pensamento muito diferenciada do convencional, do clássico, do politicamente correto, surgem conceitos no mínimo interessantes sobre a forma de se ver a vida e, sobretudo, sobre a forma do gostar e não gostar, do aceitar e não aceitar, do querer e do não querer, do ser e do não ser.

As pessoas tornam-se críticas umas das outras sem ao menos entenderem o verdadeiro significado de ser crítico. Mas isso é bom? Não, senhoras e senhores. Definitivamente, não é. Hoje em dia, fala-se muito e desconhece-se este muito de que se fala. Não existe relação entre a crítica e o assunto criticado e, por mais que esta minha idéia se designe a uma visão unilateral, insisto em dizer que não é.

O que é muito comum hoje em dia é ver a crítica tecida afastar o crítico do assunto principal e aproximá-lo da sua essência. Conseqüentemente, descobrimos uma sociedade fútil, superficial. Vivemos num mundo de plástico. E se você não está captando esta minha mensagem, tenho algumas dicas que facilitará a sua compreensão: acesse alguma comunidade do tão falado Orkut, dê uma navegada em alguns muitos blogues por aí, leia aqueles e-mails que circulam por nossas caixas-postais em formato de correntes, ouça um pouco a conversa do fulano de trás no coletivo, assista um capítulo de uma novela qualquer.

Não adianta, não há como fugir. Críticas superficiais já fazem parte da nossa cultura e caminhamos cada vez mais para dentro dessa cultura imprópria. Estamos nos afogando em detalhes sórdidos. Alguém precisa resgatar certos valores, certos comportamentos. Aceitar o novo, mas não ignorar o velho, manja? Aprender com o velho. Aprimorar o velho. Precisamos colocar propriedade em nossos argumentos. Precisamos merecer ser ouvidos. Senão, os nossos gritos serão em vão. A nossa juventude não vai ficar como ficou as juventudes passadas. Não seremos lembrados por bons motivos, por grandes feitos. Precisamos intelectualizar os nossos jovens. Alguém aí me ouve? Façam eco deste meu lamento.

julho 27, 2004

Jaburu neles

Extra! Extra! Extra! Dizem as boas línguas que o Marcelino reinstituiu o PRÊMIO JABURU DE PROSA E POESIA!

Quer fazer um bem para o meio literário? Quer mesmo? Então, clique bem aqui e não faça cerimônias para indicar a pior obra literária que você leu nos últimos tempos.

Não tenha dó. Indique o nome da obra e seu criador que os leitores encarecidamente agradecem.


Li-te-ra-tu-ra

Literatura. Literatura. Literatura. Há assunto mais envolvente que Literatura? É pauta em todas as rodas de amigos, em sala de aula, nas boates, na fila do banco, em tudo. Ah, você duvida? Tudo é literatura, my darling. Tudinhô. Você abriu a boca, pronto: virou história.

Música é literatura. Sim, sim, literatura em movimento, é verdade. Mas é literatura sim. Pensamento também é e, se não foi escrito ou mencionado, é literatura não revelada. Mas é.

Tudo nessa vida tem um desfecho. Tudo tem começo. Tá bom, eu confesso, nem tudo tem um fim. Mas eu não ia dizer isso. Sério! A literatura, monsenhor, está aonde você quer que ela esteja. Pode ser aí ao seu lado ou aqui, na minha mente perturbada. Ela não larga do nosso pé e isso não tem nada a ver com gostar ou não de ler. Se você esquece dela, ela lembra de você. E pronto.

É um ciclo. Vicioso não. A literatura é um ciclo virtuoso.

julho 23, 2004

Terráqueos com a cabeça em... Marte

Muito prazer, Guaíba!

No elevador panorâmico...

- Você já foi apresentado ao Guaíba? - perguntou a moça que o recepcionava.
Zé, que além de bom profissional era educado na presença de desconhecidos, dirigiu-se ao ascensorista do elevador:
- Muito prazer, José!
A moça, que também era muito educada, mas não contendo a risada explicou:
- Ah, sim, este é o Sr. João. E à sua frente, temos o Rio Guaíba.

***

Viciada em literatura

Julio liga para Isabela...

- Oi, Isa, tudo bem?
- Tudo. O que manda?
- Meu, aqui está uma correria. Os alunos estão organizando a participação nos jogos universitários e estão atrás de patrocínio. Sabe quem irá patrociná-los?
- Não faço idéia...
- Daslu.
- Caraca, que legal!
- Sabe quem é, né?
- Ai, claro que sei. Daslu - grande poeta!

***

Ingenuidade estantil

Marcelo e suas amigas combinando um cineminha...

- E então, pessoal, já decidiram qual filme veremos?
- Ah, eu só vou ao cinema pra pagar meia.
- Se for assim, não contem comigo!
- Por quê?
- Que isso! Ir ao cinema, assistir meio filme e ir embora!? Ah, não...

***

Balde de água fria

Numa mesa de bar...

- Nossa, já são oito horas. Preciso ir. Meu chuveiro queimou e preciso providenciar um urgentemente.
- Relaxa, fica mais. Sabe o que você pode fazer?
- O quê?
- Pega o seu carro, vai no posto da rua de cima e enche o tanque. Eles estão com uma promoção assim: "Encha o tanque e ganhe uma ducha!"

julho 20, 2004

Seção Publicidade

1. Quase amiga de Clarah Averbuck

Eis parte da dedicatória que Clarah deixou no meu "Vida de Gato", no lançamento oficial, ontem, na Fun House. Muito simpática e descontraída, ela recebeu amigos e amigos dos seus amigos, para uma noite de autógrafos e muita cerveja, vinho e afins. E, quem compareceu, também teve a oportunidade de ver a performance de Catarina, a Pequena que revelou-se, transformando-se em Catarina, a Pequena Dançante.

"Vida de Gato" é o terceiro livro de Clarah Averbuck, publicado pela Editora Planeta. Foi gerado em cerca de três meses, ainda na época em que o falecido Brazileira!Preta fazia acontecer na blogsfera. Logo no começo da obra, você já adentra no universo teen conturbado e contra-indicado em caso de preconceitos vários que você possa vir a ter contra jovens-mães-escritoras-tatuadas.

Em seu "Vida de Gato", Clarah Averbuck atesta mais uma vez que estilo e personalidade também são fatores cruciais para uma boa literatura e, sobretudo, para a descoberta da nova literatura. Clarah é, atualmente, a escritora que mais atinge o público jovem no Brasil e, conseqüentemente, o arrasta para o universo literário, coisa que seus piores críticos não conseguem enxergar. Ou não querem enxergar, amparados por um tradicionalismo idiota. Não. Você me entenderá mal apenas se quiser. Não estou renegando os clássicos. Viva os clássicos! Viva os contemporâneos!

Quer entender tudo isso que eu disse aí em cima? Leia Clarah Averbuck.

2. Paralelo de Luiz Esposto

Sim, ele mesmo. O cara que mais pisou no meu pé na faculdade. O cara que me tirava do sério quando ousava interromper as minhas prosas em sala de aula. O cara responsável por um dos momentos mais engraçados na Uniabc, quando confundiu insulfilme com tarde de temporal. O cara que quase me convenceu a ser professora de verdade (e que, inconscientemente, continua tentando). O cara que tem a paixão como educação e educação como paixão.

Luis Esposto resolveu compartilhar com a gente suas experiências e expectativas na área educacional, vividas dentro e fora da sala de aula. Decidiu compartilhar teorias, suas ou não, e seu intelectualismo refinado. Tenho o orgulho de lhes apresentar o Paralelo. Espero que gostem!

julho 19, 2004

Os filhos da gota

Corre, moleque! Olha lá, tem lugar na janela. Cuidado com a moça, ô filho da gota serena!

Ai, não abre. Está tudo emperrado.

Se fizer barulho, desce todo mundo. Tô avisando!

Podexá, ô fio do chico! O motô tá estressado, tá vendo?

Noooossa, tô até vendo minha mãe quando eu chegar em casa: "Aonde você estava até agora, Derrota?" "Mas é um desgraçado, um fio da moléstia mesmo!"

Caramba, você fala igualzinho. E meu pai? Vai querer me arrancar o couro...

Nem sei aonde eu vou dormir. A v... da minha irmã já deve ter pegado minha cama. Se eu não tô lá na hora de dormir, já era.

Mas também, ô gota serena, você tem um monte de irmão!

Eu tenho SEIS irmãs!

Vixi, a mãe dele é uma parideira!

Fica quieto aí, ô mané. Você não sabe de nada. Meu pai tem duas mulheres, né?

E mora com as duas??

Daarrrd!! Claro que não, só com minha mãe.

Olha a batida! Caramba, como é que o carro foi parar daquele lado?

Olha ali o bombeiro!

Ai, mas é um burro mesmo. Como o carro foi parar daquele lado? Com a mão, né, estrupício!

Ah, sim, com a mão. Mas como tu é burro, moleque!

Se continuar o barulho, desce todo mundo. Tô avisando!

Cala a boca aí, ô Derrota!

Ei, vamos descer em Diadema?

Pra quê?

Xiii, a menininha tá morrendo de medo.

Vamos aí. Dá o sinal!

- Valeu, motô!
- Tchau, fio do chico!
- Valeu, ô filho da gota!

julho 13, 2004

O encontro marcado

Melancolia. Deve ser porque acabei de ler mais um livro. Talvez o melhor que tenha lido até hoje. Aquele que condiz com as incertezas humanas, que oferece familiaridade com nossos conflitos, que aplica justificativas para o que você queira justificar. Devo estar sendo exagerada como sempre, mas talvez a história de Eduardo Marciano seja a minha biografia, a sua e a desse infeliz aí do seu lado.

O livro partiu das melhores indicações que eu poderia receber - Olá, tudo bem? Conheci você por meio do fulano de tal, do blogue tal, do texto tal. Parabéns! - geralmente, minhas palavras são bem mais entusiastas, mais sensíveis e geram um efeito muito mais verdadeiro, como de fato o é pra ser. E o retorno também é produzido por efeito semelhante. Às vezes, nem pelas minhas palavras, mas por ele mesmo, o sobrenome - Oi, Juliana! Obrigada pelas palavras et cetera e tal. Marciano é o nome do personagem que mais gosto do Sabino. Você já o leu? Se ainda não, vale a pena.

Marciano. Eduardo Marciano. Dúvida-procura-busca-encontro. O encontro Marcado. Até a quinta recomendação eu ainda não havia lido, mesmo tendo decidido ler na primeira, aliás, recomendação gerada por uma paixão. Fazia tempo que não via alguém tão empolgada com um escritor. E se é em Fernando Sabino que Cecília busca suas influências, puta que pariu, por que esperei tanto tempo?

Pensando bem, melancolia não é exatamente o que sinto agora. Sinto-me surpresa. Um escavador que encontra um grande tesouro. Que não sabe ao certo o que fará com ele. Talvez observá-lo por algum tempo. Apenas observá-lo. Depois, compartilhá-lo. Em vão. Não há como compartilhá-lo, mas é possível mostrar o caminho para a descoberta desse tesouro que está sob os pés de todos nós. Não adianta, tem que ser uma descoberta individual e nada do que eu pense ou diga fará sentido. Vá fundo. Então, eis a chave, mas com uma condição: conte-me tim tim por tim tim da sua escavação. Cuide dela com carinho!

julho 12, 2004

Uh, cadê, a Juliana sumiu!

Não, pessoal, não sumi não. Ainda não! O Proseando continua. Tem que continuar, com o ritmo que satisfaça a todo mundo, claro. A questão é que a proseadora aqui está meio sem ritmo. Mas continuo observando a vida por aí, nos coletivos, nos shows, bares e nos mundos protegidos pelas páginas de bons livros. Tem um montão de coisas às quais gostaria de comentar: novas amizades, novas trilhas sonoroas, novas cabeçadas, enfim, aguardem! Uma hora, essa minha inconstância deixa de ser uma constante. Amanhã, quem sabe?

Beijo grande,

Ju

julho 01, 2004

Incenso Fosse Música
(Paulo Leminsk)

isso de querer
ser exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além