janeiro 28, 2007
Tum. Tum. É preciso ser muito homem. Tum. Tum. E vai ser até o final dessa semana. Tum. Tum. Está decidido.
De pouquinho em pouquinho não dá, tem que ser de uma vez. Esta é a essência. Direto e sem meias palavras. Pra quê rodeios? Poderia ser depois, mas pode ser agora. A essência manda e assim será.
Pai de um lado. Mãe do outro. Irmãs no meio da confusão interna. O menino não é mais criança, alguém poderia justificar. E a vergonha?, talvez a maioria perguntaria. E a minha felicidade?, o menino justificaria.
Começa o discurso. O menino é valente. É muito é homem. O menino está nervoso e inquieto. O menino começa.
Todo mundo desconfiava, mas ninguém tinha o mérito da valentia do menino. O pai simula um sorriso. Pode ser de nervoso. Pode ser de orgulho. O menino desanda a falar por cerca de dez minutos, marejando os olhos do pai.
A mãe diz que o menino é seu filho e que sempre o amará. A irmã diz que o menino sempre terá seu apoio. A outra não precisa dizer nada. O pai esconde a face por entre as mãos.
O menino permanece seguro, tirando das suas costas o peso da omissão, a iminência da rejeição. Certifica-se a cada instante de que aquela era a decisão mais honrosa dos seus dezoito anos. O menino, o segundo homem da família.
O pai pergunta sobre mulheres. O menino não tem as respostas satisfatórias ao pai. O pai fala da vergonha. O menino fala do respeito à família e da sua felicidade. A mãe murmura um cômico e inesperado comentário de alívio. O pai pergunta o porquê de ser com ele. O menino prefere não se aprofundar.
O pai e o menino ficam sozinhos. O pai, chorando feito criança. O menino dizendo que ama o pai. O abraço acontece.
O menino que gosta das meninas, mas o seu conhecer a fundo não é o ditado como certo pela sociedade.
O menino que é homem por assumir que gosta de outro homem.
Tum. Tum. E o assunto está consumado.
janeiro 08, 2007
muito prazer, dois mil e sete. eu sou a juliana.
novembro 20, 2006
Pronto, comprei para os três dias, comentei feliz da vida com a Tarsi. Sorrindo, ela me olhou e comentou que isso não era lá muito normal. Normal? – pensei comigo. É, normal, foi isso mesmo o que ela disse. Foi então que parei para refletir sobre este aspecto de normalidade. Três dias curtindo o mesmo show que vi um milhão de vezes. Três dias ouvindo ao vivo as músicas da cantora que ouço pelo menos uma vez ao dia. Três dias num compromisso inadiável em prol de um relacionamento entre fã e artista. Tudo isso sem falar na marca registrada: Zélia Duncan para o resto do mundo e “Zelinha” para a Juliana e os amigos da Juliana, inserida de forma tão natural no dia-a-dia:
- Ju, você viu que a Zelinha vai passar no Fantástico? - perguntam uns, aqueles que mal sabem cantar “Catedral”.
- Ju, como é mesmo o nome daquela música da Zelinha que você falou no outro dia? – perguntam outros.
Outro dia, a Tarsi me contou que um dos momentos mais tristes da sua vida foi o enterro da avó da sua amiga. A velhinha, em vida, gostava muito de uma certa música da qual não me recordo, e havia pedido para que a cantassem durante o seu sepultamento. Num determinado momento, alguém entoou a tal música, deixando todos com um imenso nó na garganta. E então, eu tive a grande idéia: quando eu morrer, vou querer que entoem uma música também. Claro, terá que ser uma música da Zelinha. E continuei: a música mais propícia para a ocasião será “Alma”. Imagine eu sendo enterrada e, ao fundo, a voz da Zelinha dizendo “Alma, deixa eu ver sua alma”? Muita gente quase morreu de rir, mas a idéia foi tão na brincadeira assim.
Todas essas passagens fizeram com que eu buscasse dentro dessa minha idolatria algo que justifique a normalidade colocada em xeque pela Tarsi. Não encontrei nada de muito surpreendente. Gostar de Zélia Duncan não é a mesma coisa que ser fã número um da Angelina Jolie ou do Brad Pitt. Eu não sou fã da Zélia Duncan porque ela é gostosa, dita moda, apareceu no Faustão ou por qualquer outro motivo fútil que justifica, tristemente, a idolatria de muitos outros fãs com seus respectivos ídolos mundo afora. A grande verdade é que eu sou fã da Zélia Duncan porque ela fala de mim, das coisas que me tornam feliz, das que me afligem, das minhas ambições, minhas buscas.
Ninguém entende que quando eu ouço “Benditas”, me aprofundo tanto nas minhas crenças que a música me cai como uma oração, a qual tomo a audácia de comparar seu efeito com o de rezar um Pai Nosso.
Ninguém entende que quando eu ouço “Distração” meu coração se enche de esperança em relação à vida e eu pareço escutar vozes dizendo siga em frente, não desista!
Ninguém entende que quando eu ouço “Hóspede do Tempo” me sinto tão responsável pelas coisas boas e ruins que acontecem ao meu redor, que, sem querer, me humanizo e me conscientizo de que, mesmo diante de tantos deslizes, tenho que me concentrar no bem acima de tudo.
Ninguém entende que quando eu ouço “O Meu Lugar”, acabo enxergando possibilidades à minha volta e entendendo que tudo na vida é uma questão de tempo, desde que eu não desista de prosseguir.
A minha relação de fã com a artista Zélia Duncan talvez ocorra por uma feliz coincidência que nós duas temos em comum: ela canta as coisas nas quais acredita e o seu cantar é uma forma de mostrar para as pessoas que é assim que ela se entende e encara o mundo; eu por minha vez, ouço na voz dela as coisas, as quais eu acredito. O meu ouvir, igualmente ao seu cantar, também é uma forma de me entender e encarar o mundo.
A grande responsável por isso é a música. E só. O que também não desqualifica Zelinha com o fato de ser uma artista arrebatadoramente completa: canta maravilhosamente bem, manuseia perfeitamente muitos instrumentos musicais, desenvolve a melhor relação fã-artista da qual já ouvi falar, e é uma das mais talentosas poetas viva e em atividade que o Brasil tem hoje.
Quando alguém criticar a minha condição de fã da Zélia Duncan, restará a mim convidar essa pessoa a ouvir Zélia Duncan como ela realmente merece ser ouvida. E estaremos conversados.
novembro 16, 2006
"Enfim meu livro saiu, caramba!" - foi assim que recebi a entusiasmada notícia de lançamento do livro da minha amiga dos tempos de Vega, Ari.
Estava ela dando bandeira por aí num belo dia, quando seu editor pediu que enviasse duas crônicas para uma conferida. Assim, despretensiosamente, ela mandou e deu nisso! Uma coletânea muito bem estruturada por vinte cronistas para o nosso deleite.
Quer saber mais? Vai lá, oras!
Onde: Bar e Restaurante Santa Zoé - R. Cotoxó, 522 - Perdizes - SP.
Quando: 22/11/2006 - quarta, das 19h às 23h.
Soltando o Verbo - Uma eclética reunião de crônicas - dentre muitos, também por Ariett Gouveia.
novembro 02, 2006
O que me incomoda é a voz do mundo
Fundo de certezas impensadas
Mente que vê
E acha que crê
Naquela humanidade desenhada
O que me estranha é a voz do coração
Aquele que sente a pureza descrente
Amor desumano
Nas notas da canção
A vida em gotas d’água
Sem certezas, só estradas
Caminhos certos na contramão
outubro 26, 2006
"O meu corpo e as minhas sensações estavam explodindo num consentimento coletivo de que aquele era o momento de me transbordar, a minha terapia favorita do ato de compreender a vida sem pensar nos acontecimentos. Simplesmente deixando a música me levar, chacoalhando e misturando meus motivos interiores – que são muitos – ao teor alcoólico que circulava pelo meu sangue. A questão ali não era solucionar problemas e tampouco buscar mais. Bastava eu fingir acreditar na crença de que a força que havia me levado até aquele lugar era a mesma que havia levado todas aquelas pessoas, de modo que a nossa aliança era o compartilhamento de suor que saltava dos poros e se confundiam na tentativa de entender se eram meus ou se eram deles. Estava eu absorto por aquela energia, entregue a uma sensação desconhecida que me parecia tão cúmplice, até que avistei aqueles olhos. Aquele brilho parecia dizer um “sim, eu te entendo”, um “está tudo bem agora porque eu estou aqui”. Foi então que eu entreguei minha bebida a um barman que acabara de passar e decidi sair da minha inércia, voltando à lucidez. Sorri. E foi a melhor resposta em sorrisos que eu já tive, a promessa de que o céu existia e esperava por mim. Por nós. Como se uma bolha tivesse sido criada à nossa volta, e a música fosse o único elemento externo que permitíamos entrar, criamos nós o nosso momento de nirvana. Agora era uma terapia em conjunto, limitada a duas almas, formada apenas pelo remexer do corpo e o bater do coração. Não precisávamos de palavras, até mesmo porque, se as buscássemos, certamente não as encontraríamos. A música era a nossa oração, daquelas tão intensas e tão profundas, que não se tem a necessidade de pensá-las e refleti-las para que fiquem mais fortes. Era uma reza brava. De repente, a música começou a baixar de volume e eu comecei a achar que não tinha apenas dois membros superiores. Naquele momento eram quatro, eram oito, eram muitos. Meus olhos ganharam vontade própria e fecharam-se por si. Quando dei por mim, sua língua estava conhecendo a intimidade da minha. Não hvia a necessidade de palavras, os nossos olhos queriam conhecer o nosso interior e a minha alma reconhecia aquela alma como se a nossa cumplicidade existisse de anos, de séculos, outras vidas."
outubro 15, 2006
Itamar Assumpção
Cansei de ouvir abobrinhas
vou consultar escarolas
prefiro escutar salsinhas
pedir consolo às papoulas
e às carambolas
pedir um help ao repolho
indagar umas espigas
aprender com pés de alho
ouvir dicas das urtigas
e dessas tulipas
um toque pro miosótis
um palpite do alpiste
uma luz da flor de lótus
pedir alento ao cipreste
e pra dama da noite
pedir conselho à serralha
sugestão pro almeirão
idéias para azaléias
opinião para o limão, pimentão
abobrinhas não
setembro 29, 2006
(Por Sandra Nishida - Tia San - após comentários de um e-mail cômico)
oi amiga Juju!
é hilário né, eu dava risada lendo.
como vai vc? como estão as aulas, o emprego, a vida, as obrigações e os hobbies?
cada instante, aproveitado? olhar o dia, a noite, o transcorrer das horas?
tô meio poeta hoje! ontem dei aula até as 22:45, fui pra casa e meu pai estava acordado, fiquei vendo o debate dos candidatos na TV.
politica é algo que nao me atrai. nem um pouco, pq na teoria tudo é muito bacana, e numa mesa de bar a gente resolve tudo, mesmo nao bebendo...mas daí pra colocar em prática é complicado sim, o pior: vira retórica. Diz que diz, desmentido, acusação, querer fazer o adversario cair em contradição etc etc.
eles são nossos funcionários. programa de governo. candidato entra. e toda a sua horda. têm que mostrar resultado. se enrolar muito, cai fora. demitido. aí entra outro pra fazer o trabalho. com um adendo: se roubar, vai em cana. sem mais delongas.
nenhuma novidade pensar assim. é, reflexões de uma mesinha de lanchonete comendo pão-de-queijo e café, mas não em minas. aqui mesmo. sampa city.
saudade!!!!!!! precisamos combinar algo legal, light e cultural. eu tô louca pra ver o "retrato de dorian gray", lá no teatro popular do sesi. vamos combinar, num domingão??
bjão!
San
p.s.: desculpa os devaneios, eu tava querendo escrever sem pensar muito, saiu... ops!
setembro 25, 2006
setembro 18, 2006
Alguém aí está afim de trocar os lirismos literários por sangue?! Mas, ó, é sangue dos bons, tem que ter peito pra encarar. Vai fundo. Falo do Mirisola. Sim, o Marcelo. Ele tem um blogue agora, o Herói Devolvido. Encare aí: http://heroidevolvido.zip.net.
Oh, sim. Uma camisa de linho gasta, não combinando com a calça jeans envelhecida. Uma sacola de plástico na mão esquerda e, na mesma mão, uma vareta de uns trinta centímetros. Na cabeça, praticamente todos os fios brancos. Na outra mão, um cigarro. No fundo dos olhos, a produção de um longa de quase setenta anos. No coração, muitas esperanças idas e as últimas escapando na fumaça enviada pelo pulmão. Nos pés, ah sim, nos pés um bom e velho All Star surrado. E talvez esta seja a essência do que eu gostaria de me tornar daqui a alguns anos. Não apenas uma imagem. Uma essência lapidada. Coisa de quem não está nem aí para os medos da vida. Coisa de quem é inconformado com o mundo. De quem é inquieto. Coisa de quem busca revolução.
Depois que você vira adulto, passa a entender muitos aspectos da vida. E deixa de compreender muitos outros também. O mundo prossegue e você tem que escolher. Está tudo numa prateleira de supermercado. Você segue escolhendo entre rótulos, marcas e embalagens, até que o coletivo escolhe por você. Quando pára pra ver, dá nisso: uma geração movida pela inércia. Pergunto: aonde está "o futuro do país"? Cadê aquela sede de se libertar? Cadê a herança dos famosos anos 60 e 70? Cadê a moçada na rua dizendo não para a política suja? Cadê a produção cultural focada no coletivo? Cadê quem se veste com a armadura da coragem e vai lutar pelo todo? Cadê aquela movimentação acadêmica? A música falando pela gente? Cadê? Cadê?
Cusiosamente, isso tudo não está na TV nem no cinema. Mal dá pra dizer que isso é coisa de filme ou de novela. Porque o Brasil deu a luz a uma geração burra e irracional. Uma geração umbiguista, é verdade. Uma geração emotiva demais e apolitizada. Sem manifestos. Sem argumentações de um mundo melhor. Uma geração acometida pela síndrome do "deixa a vida me levar". E a vida leva sim: do nada a lugar nenhum. E quando a crise é enfatizada, vai todo mundo pro analista.
Uma camisa de linho gasta, não combinando com a calça jeans envelhecida, e um bom e velho All Star nos pés. E fim.
setembro 12, 2006
Sei quando e mais ou menos onde. Sei que não gostei. Não me lembro quem ou exatamente de onde. Mas sei que não deveria. Até promoveria um protesto direto na fonte. Mas sem informações precisas, registro minha indignação aqui mesmo. E ponto.
Foi ontem, por volta das 21h20, no Canal Brasil. Assim, fugindo do horário político. Ele era idoso e pediatra. Foi dito que era um dos fundadores da Associação Brasileira de Pediatria ou coisa parecida. E foi convidado a comentar o filme "Anjos do Sol". Justo. Foi bem sucedido, afirmando que a criança não movimenta a prostituição. Não é uma prostituta, mas sim prostituída porque existem ações de terceiros imperando sobre ela. Comentário inteligente. Afirmou também que o pedófilo não consegue entender o mal que causa à criança e à sociedade. Bom observador. Mas dizer que a pedofilia culminará como a homossexualidade? Que não duvida nada de, daqui a algum tempo, a pedofilia ser aceita, assim como a homossexualidade???
O que diabos acontece com a cabeça deste senhor?!
Tudo bem que nem mesmo o Papa é a favor de ambas as coisas. Mas, até aí, quem foi que disse que o Papa é um ser racional? Tudo bem, tudo bem. Deixemos a religião fora disso tudo. A comparação de um crime a uma essência humana é que não dá pra deixar de lado. Gostaria apenas que este senhor fizesse jus a todas as coisas inteligentes que, certamente, ele deve ter proferido até hoje, e se amparasse aos seus vários anos de estudos para refletir sobre a frase infeliz que foi capaz de liberar. Sinceramente, não acredito que ele seja crente de tal afirmação. Não. Não é.
setembro 04, 2006
Vez ou outra paro de ouvir música, de ler um livro, de acessar a Internet e de assistir à TV. Só de vez em quando. Então, uma explosão de sentimentos estranhos tomam conta de mim. Ora vergonha. Ora medo. Ora solidão. Ora confusão. Ora prazer amórfico. De repente, eu fico sem saber o que aliena mais: o fazer ou o não fazer. Então eu faço. E quando me arrependo, deixo de fazer. E me arrependo de novo.
Há pouco tempo eu quis ser uma estante de livros. Agora, eu quero ser uma flor. Daquelas que faz rir e chorar e nem por isso deixa de ser apreciada. Porque toda mulher é uma máquina de fazer rir e chorar, mas nenhuma é compreendida como se compreende uma flor. Só de olhar. Mesmo havendo vários manuais de instruções por aí. Agora eu queria ser uma flor e ter a vida simples e definida. Viver brevemente para todos os estágios do amor.
agosto 31, 2006
(Andrea Teixeira Ladário)
E se o tempo voltasse
E me encontrasse
Entre as fragrâncias femininas
Que te enfeitiçaram
Pelos caminhos perdidos
Que cruzaram
Teus olhares
E se eu ali te segurasse
No conforto de um abraço
E entre os pares
Nos bailes da vida, mares
Dançasse contigo a Valsa
Naquela noite derradeira
Onde lançaste
Ao vento minha própria sorte?
E se o tempo avançasse
E soubesse
Que a dança daquela noite
Findaria
Sem conhecer a razão,
O instante, mas sendo certo
Calaria
A voz que lhe canta amores
E os laços que envolvem
De considerações e favores
O que faria?
Da minha vida sem a sua
Fosse morte?
E se o tempo parasse
hoje
E a única certeza fosse
Que nada mais mudaria
Daquilo que agora tem
Que do meu amor que recebe
Manso, doce
Nenhuma fome mataria
Nem doença afetaria
Nem sombra...
Nem infortúnio...
Nem desgraça...
nem ninguém?
agosto 20, 2006
E então, como num susto e meio que de súbito, chegou a Primavera. Em 2006, mais cedo, no mês de agosto. Aconteceu aonde deveria (e irá, espero!) acontecer todos os anos, no Centro Cultural Vergueiro. Falo, claro, da Primavera dos Livros.
Teve programação boa,viu? Na verdade, ainda hoje, coisas interessantes acontecerão por lá. Vale a pena.
Saí com coisas bacanas. E saí antes que meus impulsos literários falassem mais alto que os financeiros. Trouxe na mochila poesias maravilhosas de Leminski em O Ex-Estranho – preciosidades organizadas por Alice Ruiz e Áurea Leminski, e publicadas pela Editora Iluminuras, em sua Coleção Catatau de 1996.
Muito inspirada, trouxe pra casa também o meu Angu de Sangue, autografado com muita simpatia pelo ilustríssimo Marcelino Freire, após leituras deliciosas de Manuel Bandeira e contos próprios.
Amparada pelo meu instinto “nasci-na-época-errada”, trouxe também uma obra muito interessante sobre o movimento estudantil paulista na década de 70 – o Cale-se, de Caio Túlio Costa. Este, tenho certeza, me inspirará e muito em futuras idéias. Na verdade, já me inspirou. Junto com ele veio um pôster (adquirido separadamente), com o Manifesto do Partido Comunista – 1848 – 1998. Fascinante!
Para concluir, não resisti e botei na mochila o livro Arc, o Marciano – As aventuras do tresolhudo publicadas na revista Veja. São publicações de 1999 a 2003. Com esse título, não resisti.
É isso aí. A Primavera voltou a ser realizada no Centro Cultural Vergueiro, a ter o seu público velho de guerra, atrações pra lá de interessantes e a oferecer uma diversidade incrível de livros com preços bem acessíveis. Confira mais no www.primaveradoslivros.com.br.
agosto 17, 2006
julho 04, 2006
julho 01, 2006
junho 29, 2006
junho 26, 2006
junho 21, 2006
Ninguém escreve para não ser lido. Pelo menos é este um dos motivos por haver tantos blogues flutuando no cyber espaço. Assim como ninguém faz parte do Orkut senão pela necessidade de se mostrar. Exceto aqueles tomados pela ânsia indescritível de saber da vida dos outros. Mas essa é uma outra história.
Refletindo sobre a existência do Proseando um dia desses, concluí que a idéia de escrever para ser lida e ser ouvida é realmente muito forte. Desde o início, eu segui postando aqui algumas teorias e pensamentos daqueles que, facilmente, poderiam ter sido deferidos num almoço qualquer, num bate papo na calçada ou numa conversa de bar. Sabe aquelas reflexões que a maioria das pessoas não está interessada e, quando gentilmente ouvem você, apenas o fazem para não parecer indelicadeza? E você vai falando, falando e o seu ouvinte tentando encontrar brechas para mudar de assunto e você prosseguindo num raciocínio freqüente, quase que praticamente impondo atenção ao seu discurso. A diferença é que eu sou uma pessoa muito persistente e, quando fico frente a frente com este canal, toda a criatividade acumulada já foi imposta para algum interlocutor não lá muito interessado. É uma pena. Mas prometo que tentarei não desperdiçar tantas argumentações desta forma daqui pra frente.
Pois bem, uma viagem interior ao gosto de escrever, o interesse prazeroso pela literatura e a necessidade de se auto-entender. É justamente por isso que o Proseando existe. Ele prossegue desde 2004 entre um post e outro, sobrevivendo a longos intervalos sem acesso, a algum comentário carinhoso e sem nenhuma comemoração específica.
Mas hoje é diferente. Tenho o orgulho de postar aqui que, graças a este blogue e, especialmente ao blogue da Clarah e do Marcelino (que, involuntariamente, me inseriram neste meio), existem olhares mais que interessados nos escritos que aqui descansam. Algumas crônicas acabaram caindo nas graças do meu ilustre professor de Língua Portuguesa e Produção Textual da Universidade do Grande ABC, Sergio Simka, coordenador do Grupo de Escritores da Uniabc, do qual faço parte (vide blogue bem aliao lado), e também autor de alguns livros.
Adianto desde já que uma crônica minha fará parte da Antologia dos Escritores da Uniabc e, de antemão, ohhhhh!, surgiu, como diria o próprio Simkão, a proposta indecente do lançamento de um livro de crônicas exclusivo. Como diria o Marcelino: eta danado!
Tudo isso aqui só pra dizer que o Proseando está em festa e vamo que vamo!
junho 16, 2006
Não sei o que sou, mas tenho um leve palpite do que gostaria de ser. Agora, por exemplo, gostaria de ser uma estante cheia de livros. Possivelmente eu seria um ser bem sábio e jamais viveria sozinha ou subestimada. Ainda assim não gostaria de ser mãe, mas trataria todos os meus livros com singelos atos maternos. E eu também não viveria sem respostas. Caso as dúvidas aparecessem, eu poderia esclarecê-las em prateleiras superiores ou inferiores, todas bem próximas a mim. Tolos os que pensam que uma estante de livros é um ser inanimado. Por mais que me esquecessem num cômodo qualquer e eu ganhasse algumas partículas de poeiras de vez em quando, eu teria ao menos um visitante fiel. Em todo lugar existe um aficionado. Por mais livros que eu tivesse e fosse a base de sustentação de todos eles, não seria uma interina responsável. Eu seria apenas e explendorosamente uma estante de livros.
junho 13, 2006
junho 12, 2006
Uma das coisas mais comuns desde que o mundo é mundo é a habitual troca de informações que as mulheres desempenham no banheiro. Um banheiro feminino proporciona um pouco de tudo. Desde reflexões filosóficas até firulas das mais superficiais futilidades humanas.
Mas quando você trabalha num ambiente em que a maioria das pessoas é formada por mulheres e o toallete não passa de um “dois pra quarenta coletivo”, você começa a não fazer muita questão dessa prática comunicacional. A complexidade feminina somada ao famoso jeitinho brasileiro acaba fazendo, quase que involuntariamente, com que você saia em busca de uma reflexão, digamos, mais introspectiva, na paz dos azulejos. Foi então que me dei conta de que a solução estava exatamente na porta à frente do “diário de bordo da empresa”. Um espaço com pouco luxo, com, vai lá, uns três (no máximo quatro) metros quadrados, um pitoresco chuveiro alocado exatamente em cima do vaso sanitário (???), cujo espaço entre um objeto e outro é arquitetonicamente dividido por um, sim, é verdade!, cabo de vassoura, que vai de uma extremidade e outra da parede. Mas para este eu sei a finalidade! Funciona precisamente como um varal para os panos de chão, louça e de tirar pó após suas respectivas higienizações.
Senhoras e senhores, com vocês, o Banheiro da Maria!
O ambiente ideal para dar um tempo do caos da vida pessoal ou corporativa por uns momentos, longe de interrupções, constrangimentos ou qualquer artifício que um banheiro coletivo venha a oferecer. E, mesmo que solitária, se houver a estranha necessidade de uma fofoquinha ou uma profunda reflexão, o Banheiro da Maria continua sendo a melhor solução. Entre produtos de limpezas, vassouras, rodos, estoque de papéis higiênicos e toalhas descartáveis, é possível encontrar edições recentes de Caras, Veja, Capricho, Minha Novela e, pasmem!, exemplares exímios de renomados escritores nacionais e internacionais.
Ninguém entendeu ainda porque respondo que “fui refletir” quando largo meu e-mail bombando, meu telefone esgoelando e o chefe arrepiando os cabelos e me refugio no Banheiro da Maria. Sem querer, me pego brincando com Drummond, dialogando com Clarice, ficando cega com Saramago ou conhecendo um pouco mais sobre a vida da Oprah numa revista qualquer. Muitas vezes, acabo refletindo sobre o fato de que, por alguns momentos, não importa você ganhar trezentos Reais por mês, ter cinco filhos, fazer supletivo na comunidade católica perto da sua casa e, uma vez por semana, visitar um advogado do Estado para saber como anda o processo do emprego antigo. Por alguns momentos não importa. Porque, mesmo fazendo parte do sistema, você pode sair da sua realidade em quatro metros quadrados e se deparar com um mundo real e fantasioso bem ao alcance dos seus olhos, entre páginas de revistas e livros que, provavelmente, nem mesmo o presidente da empresa aonde você limpa o banheiro e serve o café tem conhecimento.
Viva o Banheiro da Maria!
junho 09, 2006
O tempo passou e agora estou aqui, com meus entendimentos retardatários. Sem meus fones de ouvido e um roque ambiente ao fundo. Neste veículo com quase total ausência de espaço livre, você me aparece entre o relato do dia de um grupo de operárias. Talvez costureiras. Queria que suas lembranças viessem num momento mais poético. Longe da asma deste idoso. Mas você apareceu na minha mente como aparecem os bons pensamentos. As boas idéias. Iluminadas. Entre pensamentos e desejos, sorrio com minhas constatações. Com o fato de você estar bem, feliz e correndo atrás. Igual a todos nós que também corremos. Você tem um amor. Não é novo. É renovável. E eu estou incrivelmente feliz por você. Porque isso me basta. Assim como você me bastou um dia. O tempo passou.
junho 08, 2006
Ela voltou e agora alguma coisa que me prendeu por um tempão voltou junto. Ela voltou e eu posso de novo parar o meu trabalho no meio do nada e acessar o blogue dela para reaprender a dizer tudo e nada, assim, de repente. Parecia até que era um incentivo, um empurrãozinho, um combustível. E eu acho que láaaaa no fundo é isso mesmo. E agora eu vejo que estou mergulhada de novo naqueles momentos psicodélicos que costumavam fazer de mim o que eu gostaria de ser. E estou ouvindo Mutantes, o que me arranca umas gargalhadas de vez em quando, assim, do nada novamente. O que tenta me mostrar uma pontinha do que eu realmente sou, mas, como sempre, sem certeza de nada. Mas não importa, ela voltou: Adiós Lounge!
maio 16, 2006
O ar condicionado na potência máxima, como se o intuito de todas essas pessoas fosse uma visita longa à Era Glacial. Mas não. É só uma tentativa exagerada de fugir do calor em pleno outono. Mania estranha essa que paulistano tem de ligar o ar condicionado por qualquer razão. Está no carro e quer fugir do barulho urbano, pronto, fecha tudo e liga o ar condicionado. Está no escritório, o sol raiando lá fora, não dá outra, trava as janelas e bota esse ar pra funcionar. Por que é que em fila de banco deveria ser diferente? E ainda, para ajudar, essa fila quilométrica.
Sorte daquele moço todo engravatado. Pelo menos a camisa de mangas compridas dele segura a onda fria. O coitado chegou atrás de mim pingando suor e deve estar achando tudo uma maravilha. Queria só ver ele agüentar os quarenta minutos em pé que nem eu com essa frente-única. Para ajudar, a nervosinha aqui da frente esfregando esse boleto na minha cara. Mocinhaaaa, estamos no mesmo barco, dá pra entender? Está nervosinha, não quer ficar aqui, dê meia volta e vai embora. Só com as balançadas desse boleto, já entendi que você estuda na São Judas e que paga R$ 835,00 de faculdade. Como a data de vencimento é do dia 10 e, deixe me ver, estamos no dia 15, você tem uns bons reaizinhos de multa a pagar aí. Já sei. Seu pai obrigou você vir até aqui para pagar a faculdade, assim como a obriga a ir pra aula todas as noites. Hmmm... mas com essa saia gigante que você está vestindo, esses óculos by Dior na cabeça e essa imitaçãozinha barata de Louis Vutton, você é daquelas que senta mesmo, mas no banco do bar da frente da faculdade, né? No colo... ah, deixa pra lá!
E aquela guria encostada no divisor de filas? O glamour em pessoa e, ora essa, ela usa All Star! Sério, qualquer pessoa com All Star tem o mínimo do fashion no sangue, vai dizer que não? Para mim, quem usa All Star tem conteúdo, ideologia e merece respeito. E a guria é corajosa. Olha só aquele piercing no nariz e aquela tattoo no braço. A senhorinha atrás dela nem tem coragem de levantar os olhos, coitada. Uma faz cara de brava e a outra, cara de medo. Surreal, isso. Mas juro que vou fazer cara de terrorista se os TRÊS motoboys que ocupam os únicos TRÊS caixas que estão funcionando permanecerem lá nos próximos três segundos. Senhoras e senhores, tem caixinha de sugestão nesse banco? Vou sugerir agora mesmo um novo procedimento: os motoboys têm das dez ao meio-dia para realizarem seus serviços. Depois disso, só os brasileiros normais, aqueles com contas vencidas que não podem ser pagas nem via internet e nem via telefone, podem usufruir dos serviços bancários nas agências. Não é uma boa idéia?
Brasileiro é assim mesmo. Tem de agüentar todas essas caras e bocas até chegar a sua vez. Mas quando chega a sua vez - que novidade! -, o sistema sai do ar. E você ainda tem que se conformar, chegar em casa, ligar a TV e ouvir que o seu banco é o mais completo do país.
março 22, 2006
Tudo o que eu queria era ter em mim ausência total de alguns sentimentos e presença constante de outros, de modo que tudo que eu faça não seja egocêntrico demais, a ponto de satisfazer somente a mim, e nem egoísta demais, a ponto de satisfazer somente aos outros.
Tudo o que eu queria era fugir desse triângulo, mesmo que a minha condenação fosse superficial demais e a minha pena fosse jamais desenvolver algo que seria tão bonito enquanto durasse.
Tudo o que eu quero é que minhas palavras soem genuinamente sinceras, ao passo que a força e verdade que em nelas há, faça com que minha dignidade se fortaleça a cada olhar lançado sobre o que eu digo.
Estou de volta ao meu mundo. Saúde!
março 20, 2006
Ao mestre com carinho (ele, o tempo!)
A subjetividade tem falado em meu nome ultimamente. Fazia tempo que não me sentia assim. É paradoxal, mas estes momentos são os que mais me proporcionam um auto-conhecimento. A vida me faz professora e aluna ao mesmo tempo e eu fico pra cima e pra baixo com um caderninho nas mãos, anotando as observações mais importantes. É como seu eu saísse do estágio de aprender com os erros dos outros e passasse a aprender com os meus próprios erros. Sim, eu os reconheço aqui e ali, às vezes, de mãos dados erros alheios. Mas isso não importa mais.
Eu me acerto
(Zélia Duncan)
Não pensa mais nada
No final dá tudo certo de algum jeito
Eu me acerto, eu tropeço
E não passo do chão
Pode ir que eu agüento, eu suporto a colisão
Da verdade na contramão
Eu sobrevivo
E atinjo algum ponto
Eu me apronto pro dia seguinte
Escovo os dentes
Abro a porta da frente
Evito a foto sobre a mesa
E ninguém aqui vai notar
Que eu jamais serei a mesma
dezembro 23, 2005
Há doze meses, defini o Natal como tempo de pensar o bem, desejar o bem e praticar o bem. Propus um renascimento coletivo e, meio que nas entrelinhas, uma renovação de espírito.
Há vinte e quatro meses, refleti sobre o espírito natalino. Abri meu coração para cada mensagem de Natal, cada abraço, pensamento ou atitude natalina.
Hoje, estou aqui tentando não cair na redundância, escapar dela e inovar. Tudo em vão porque os desejos continuam os mesmos, a necessidade de paz continua a mesma, as pessoas continuam precisando se espiritualizar cada vez mais e o significado do 25 de dezembro é o mesmo de há 2006 anos.
Por isso, agora não quero desejar. Quero propor, você aí se compromete? Quero propor mudanças, experiências, atitudes do bem: uma mudança de hábito, alguns sorrisos a mais no rosto, uma nova idéia na cabeça, um pensamento positivo, um “eu te amo” inesperado, qualquer coisa que cause efeito nessa pessoa aí do seu lado.
Quero propor que você, meu amigo do peito, acenda a sua estrelinha e entenda que o brilho próprio dela é você. Lute pela sua causa, pelo seu mundo melhor, para ser a diferença nele. O Irmão lá de cima vai te ajudar, mas não se esqueça de que você é responsável por traçar a estratégia.
A minha proposta é que você alcance o seu sucesso; que você conquiste novos amigos, que você descubra novos amores; que você torne-se saudável.
O seu 2006 poderá ser diferente, depende de você.
Aqui, a minha proposta de um FELIZ NATAL e de um 2006 MÁGICO.
novembro 16, 2005
(Fred Martins/Zélia Duncan)
Sou hóspede do tempo
Da minha casa
Das minhas palavras
Das coisas que eu declaro minhas
Inquilina da vida que me foi dada
Portanto nada
Ficou na minha bagagem
Do velho brinquedo
Que já não me ilude
O que eu tenho é minha atitude
O que eu levo é minha atitude
O que pesa é minha atitude
Minha porção maior
setembro 25, 2005
Passaste por mim e deixaste lembranças. Sim, eu ainda as tenho – lembranças. Esquecida que sou, me esqueci de esquecer-te. E querer-te ainda está nos meus planos. Se tenho tuas lembranças, ainda tenho tu.
E tu, beleza encantadora, ainda és minha. Não tenho apenas lembranças. Mais que isso: tenho esperanças. Tudo o que preciso agora.
setembro 21, 2005
Fecho os olhos e me enxergo melhor. Assim como Malte Laurids Brigge, que começou a ver aos vinte e oito anos, também eu comecei a ver já crescida, aos vinte e três. Fecho os olhos e deixo a lógica conduzir meus pensamentos. Logo eu, que jamais permiti ao meu lado humano transcender as barreiras do real e absoluto. Vejo melhor agora, sim, mas ainda de olhos fechados. Talvez algum dia eu os abra. Quando a minha visão míope não me incomodar mais. Aos trinta e três, será? Agora, preciso agora! Alguém me ensina a sentir?
setembro 20, 2005
Agora que você veio, não quero mais. Pode ir, pode ir. Vá! Não te quero aqui. Não consigo. Não posso. Quero. Quero minha paz de volta. Minha cabeça no lugar de sempre. Quero minhas dúvidas comigo. Não essas, as outras. Quero meu coração inteiro,
batendo Zélia Duncan e não Maria Bethânia. Isso aqui não tem serventia, me diz? Leve tudo: meu desejo, meus óculos, meus sapatos. As canções. Deixe apenas meu sorriso - aquele que te cumprimentou pela primeira vez - e a linda imagem de canto do olho.
setembro 19, 2005
Como expor certas coisas sem parecer clichê? Dizer e redizer tudo o que já foi dito pelos outros sobre esse tipo de coisa que poderia ser tão bem dita por você mesma? Nessas horas, se arrepender é fácil e quase imprescindível. Rever certos conceitos também. Mas é inevitável não ser hipócrita e não enxergar a covardia que brota dos poros. Milagres existem? Estão por aí? Ofereço tudo o que tenho por um deles. Aceito empréstimo, consignação, permuta ou qualquer outra proposta que faça isso acontecer de uma vez. Que faça ser tão perfeito como espero que seja, que, assim como estas palavras que saem facilmente, simplesmente aconteça. Aconteça e faça brilhar essa mágica que me faz desligar do mundo e esquecer de certas importâncias. É forte, muito forte. E está começando a doer. Meu medo é que isso vá além do que parece possível. E se não for possível eu suportar? Não suportar também é clichê? Danem-se os clichês! Aos diabos com os medos! Uma gota de coragem e é tudo. Tudo para trazer sol às trevas. E eu só gostaria de saber como isso aconteceu. Veio assim, sem avisar. Do nada! E não está me levando à nada senão às expectativas de quem espera sentada. De quem em sua espiritualidade ainda acredita em milagres. De quem, mesmo diante de toda grandiosidade, insiste em não aceitar. De quem nunca sentira isso antes. De quem nunca mais vai rir ou duvidar ou julgar. Será que isso é? E agora?
setembro 11, 2005
(trecho de "Os Cadernos de Malte Laurids Brigge", de Rainer Maria Rilke)
agosto 28, 2005
Voltar à minha subjetividade me faz bem. Permite que eu mesma toque o ritmo da minha vida, sem liberdades concedidas. Aproxima as minhas respostas e torna os meus anseios compreensíveis. E eu fico assim, “lispectoriana”, enquanto as pessoas se perdem em seus porquês. Afundada num egoísmo merecido e bom, eu consigo fazer poesia sem pretensão. Consigo até um tempo que é só meu, mesmo com o mundo à volta prosseguindo em seu percurso. E me cubro de uma espiritualidade em evolução. As minhas expectativas me acalmam porque, mesmo ainda não sendo fatos, são expectativas. Tudo devidamente mensurável, coberto de uma “trilha sonora duncaniana”. E basta.
julho 27, 2005
Sabe de uma coisa? Lembro-me como se fosse hoje, de pessoas olhando sério para mim e dizendo que não votariam num cara que mal sabe falar o bom e velho Português. Engoli um seco qualquer que encontrei na região da garganta e fiquei em silêncio. Não pude deixar de enxergar uma certa opinião do contra nos olhos de quem discursava. A questão ali estava óbvia: não era o Português que incomodava, era o Lula.
Pois bem. Como bem reza a nossa política desde os primórdios até hoje em dia, para entender suas verdades e mentiras, dê uma zapeada na Globo. Para seguir o fluxo, deixei as minhas super séries favoritas de lado ontem e coloquei-me a assistir ao Jornal Nacional. Antes, permita-me um adendo: você não acha que o Jornal Nacional, ao menos neste período, deveria chamar-se "Jornal da CPI"? Ahan, eu também acho. O noticiário inteiro foi sobre o escândalo político, exceto pela queimada criminosa que ocorreu lá nas matas da região do Pará. O responsável, já identificado, poderá pegar de 3 meses a 1 ano de prisão, além de ter sido multado em 20 milhões de Reais. Não, eu não entendi errado. Fiquei pensando no que poderá acontecer com ele, além de perder sua fazenda, todos os seus bens, suas economias, suas roupas e até sua cueca. Fui mais além: será que sua dívida se estenderá para seus filhos, netos, bisnetos, tataranetos, etc.? Sério, o homem foi errado. Criminoso mesmo. Mas por que multá-lo com um montante deste sendo que é óbvio que ele nunca conseguirá pagar? Isso se transformaria numa "Dívida Interna Familiar". Bizarro! Ops. Acho que acabei fazendo dois adendos.
Continuando: na minha empreitada, assistindo ao Jornal Nacional, lembro-me bem de um episódio: um dos integrantes da CPI questionava o Presidente da Comissão quanto à dificuldade de acesso aos documentos de investigação dos envolvidos, criticando os métodos de apuração dos fatos. O moço estava bravo com a senhora esposa do empresário Marcos Valério, e aproveitou seu momento de fúria para despejar umas verdades aos superiores. Ou ele tinha razão. Ou ele estava querendo alguma espécie de promoção. Ou tudo fazia parte do script. Isso sim é uma genuína comédia. Hollyood não chega aos pés do circo político brasileiro, vai por mim. O então Presidente, com um olhar furioso, fitou-o seriamente e lançou: "Recebo estas afirmações com uma grande indgnidade". Indignidade? Indignidade?? A gente sabe que indgnidade ampara 99% das pessoas ali presentes, mas... Indignidade??? Só faltaram aquelas gargalhadas artificiais de fundo, sabe? Aquelas que a gente ouve quando assiste Chaves. Pois é.
Voltando ao meu primeiro parágrafo, que Lula, que nada! O bom e o velho Português não é sabido por ninguém. Falta mais construção em nossos argumentos e ainda mais atenção nas nossas escolhas políticas. Atenção naquilo que é colocado como prioridade, manja? Está a fim de saber a verdadeira verdade? Mesmo?! Educação deixou de ser prestígio da elite há muito tempo. Quer prestígio? Arrume um mensalão e comece a fazer os seus desejos.
julho 26, 2005
julho 13, 2005
(Desabafo concedido ao amigo Marcelino)
Não. Não vou falar aqui hoje da viagem a Paraty, da festa literária, essas coisas. Novidades e fofocas e graças outras que eu terei, juro, prazer em contar a partir de quinta-feira e saravá.
Falarei do Jerônimo, o Matador. Nada a ver com o Jerônimo, o Herói do Sertão, série que passou na televisão na década de 60 e 70 e 80. Esse, o nosso primeiro herói brazuca, pândego, à luta.
Falo de um outro. Cabreiro, sorrateiro e que me entrevistou (eu e o Ademir Assunção - leia também o que falou Ademir clicando aqui) para a revista Veja desta semana. Falando acerca do Movimento Literatura Urgente, do qual sou um dos "membros de primeira hora", como noticiou ele e eta!
O olhar do Jerônimo (de sobrenome Teixeira) era frio, longínquo. Como se tivesse me raptado, eu no cativeiro. "Cativeiro", isso mesmo. Jerônimo me ligou para marcar um papo sobre dois assuntos, segundo ele: o Literatura Urgente e os meus Contos Negreiros.
Estranhei: o que tem a ver o cu com a cara da carranca? Respondeu-me, cheio de artimanha: você é um dos "líderes" do Movimento. E mais: farei uma lincagem, na reportagem, com o lançamento do seu novo trabalho. Não acreditei. Não pode ser verdade. Comentei com o Ademir. Mas vamos lá. Não fujo dos meus algozes. Até espero que eles gozem primeiro.
E foi no que deu: o cara perguntou tudo e molecou as respostas, minhas e as do Ademir, a serviço do seu discurso. Seu não, o da revista. Não é à toa que lá, ao lado da matéria de uma página inteira, note, há uma outra, assinada também por ele, sobre outro nazista, o Adolfo Hitler. Confira, se puder. Mas não compre a revista.
Sigamos.
Falei para ele que nós, sobretudo, nos organizamos, assim, porque nunca nos sentimos representados pelas instituições que, digamos, estão aí para nos "representar". Entendam: são elas que são procuradas quando o assunto é Fundo, Feiras e Falecimentos. Falo da ABL, por exemplo. E da UBE. Essa última, simpatica e simpatizantemente presente nas duas últimas reuniões que tivemos. E onde o Jerônimo também esteve, me disse. Infiltrado, ele, no Movimento.
Por que não aproveitou, então, a ocasião para levantar as questões a todos os presentes? Colaborar para o amadurecimento das nossas reivindicações, sempre abertas à discussão? Não. Jerônimo é um assassino eficaz. Acompanha as vítimas, anota, estuda cada uma, passo a passo. É pago para espionar. O negócio é cortar as cabeças.
Estamos ou não estamos no tempo de cuecas e malas? Daqui a pouco, veremos escritores comprando terrenos e casas. Fugindo para Frankfurt etc. e tal. Conhecendo tudo que é paraíso fiscal. Não. A revista Veja não vai deixar. Logo ela que, desde a época da ditadura, zela pela nossa conduta exemplar.
Até falei: não entendo as perguntas que você me pergunta, pá, pá, pá. Parece que a gente é um bando de corrupto. Falcatrua na literatura. Porra! Não é nada disso. É essa, apenas, a primeira vez em que os escritores se sentam para confabular. Avançar em algumas questões. Clamar por algumas responsabilidades. Por exemplo: como melhor utilizar a estrutura já montada das universidades. O escritor ir para discutir a sua obra com os alunos por aí. Como acontece em outros países. Até nos mais pobres que o nosso, a exemplo de Cuba.
E os nossos consulados pelo mundo, falei para ele. Por que não realizam nenhum intercâmbio, Jerônimo? É coisa fácil e não carece de muito dinheiro. E o Jerônimo entendia, matreiro: câmbio. Eu dizia intercâmbio. E ele: câmbio, câmbio, câmbio. Não, não estou falando de dólares. Estou falando de um projeto básico. De bolsas de criação, como a extinta Vitae. Jerônimo, você é muito novo para esse olhar incrédulo. Repito: hitlerista.
Jerônimo não quer ouvir. Mandaram o cara atirar. E ele foi lá, fazer o serviço. Tudo bem, mas por que não ouvir humana e honestamente os nossos argumentos? As nossas falhas estampadas? Disse eu: cara, a gente não está dizendo que é o dono da verdade. A gente só quer saber por que o escritor nunca é ouvido nesses casos. Não somos, a maioria, tratados com dignidade. Que é isso? O nosso trem não é da "alegria", cara. É do fracasso.
Por isso muita gente tem se organizado. Em Belo Horizonte, Santos, Londrina, Curitiba. Porra, ninguém vive aqui com a bunda na cadeira, esperando (do imortal) a morte alheia. A gente quer ir à labuta, é isso. Ninguém é, escreve aí: filho da puta. Enumerei tantos trabalhos importantes (encontros, livros, antologias, festivais) que fizeram tantos autores que estão na lista do Movimento. Sem nunca esperarem por nada. Alguns dos quais a sua revista é doida para jogar no esquecimento.
Jerônimo ficava em silêncio. Vendo a minha agonia. Sem dominar um vocabulário político. Era outra, ali, a minha energia. Indagações e angústias que me levaram ao Movimento. Não como um dos líderes, discordei. Mas como um dos mais inconformados.
Jerônimo, é bem verdade, perguntou sobre os meus Contos Negreiros. Mas já era tarde. Não conseguiu dissimular o desinteresse. Tocou no tema, forçosamente. A saber: por que você trata sempre de personagens miseráveis e trabalha em um dos prédios mais chiques de São Paulo (próximo do café onde a entrevista foi feita)?
"Quanto mais miserável o escritor melhor", parecia dizer Jerônimo, o Matador.
E disse e atirou.
Pensando ele que nos matou.
Marcelino Freire
junho 28, 2005
Questionamentos.
próximos, distantes;
comuns, insensatos;
sutis, paralelos;
incertos, exatos.
Paradoxais.
Tal qual a incompreensão da música de fundo.
Tal qual o objetivo que nasce em minh'alma
E morre por tanto querer ser objetivo.
À minha frente, gente.
Ao meu lado, gente.
Em minha vontade de fuga, gente.
O querer ficar, gente.
Questionamentos afoitos.
Daqueles de querer arrancar o que está bem aqui.
O que jamais se teve certeza de que realmente esteve ali.
De querer destruir o auto-falante de onde ecoa
Essa voz concentrada
Que insiste em me desconcentrar.
Daqui pra frente, amanhã.
Vontade de dormir, amanhã.
Sede de seguir, amanhã.
Despedir, talvez, amanhã.
Questionamentos aspirantes.
Iguais aos botões de rosas do jardim -
Aqueles que pensaste ser azuis.
Iguais, sim, à música que toca agora.
Bendito seja o som que nunca ouvi
E que me trará todas as respostas.
Revelar o que se vê, amor.
Sustentar o que se sente, amor.
Desvendar o desconhecido, amor.
Ser o que se é, amor.
junho 14, 2005
Certos momentos da vida, você pára, olha pra cima, dá aquela coçadinha na cabeça e sutilmente olha pra trás. Assim, disfarçadamente, com uma certa timidez, como quem não quer acordar nenhum fantasma. Então, você percebe que nem sempre olhar pra frente ou pra trás causa algum efeito substancial pra quem simplesmente caminha. A vida está aí na maratona, do seu ladinho. Às vezes, ultrapassa com um sorrisinho irônico e você nem percebe. Outras, passa como um furacão e quando você se dá conta, já foi.
Tem gente que chega aos vinte e três anos e fica se perguntando o que há de tão especial nisso. Tem gente que se desespera e finge que não está vendo. Tem gente que fica saudosista. Tem gente que não percebe que está lá. E tem gente que comemora, chuta o pau da barraca e continua levando. Acho que, no meu caso, coloco tudo isso aí num liqüidificador, faço uma vitamina daquelas e vou ingerindo em pequenas doses, day after day.
Mas olhar pra trás é inevitável. É a única viagem que você realmente consegue realizar só e com apreensão. Você pega uma nave espacial, vai até os cinco anos de idade, quando andava na rua segurando forte a mão do seu pai, como se o simples fato de segurar sua mão criasse um campo de força que o protegeria contra todas as forças do mal. Você retorna para a nave e vai uns dois anos adiante, quando pergunta pra sua mãe o que sigifica motel, porque viu escrito em letras garrafais num muro qualquer. E, lógico, acredita quando ela responde que é um lugar aonde vende madeira. Você segue na nave, num período bem confuso da sua vida, quando esquece o diário debaixo da carteira na escola, o que faz com ele pare nas mãos daquela professora que deixa bem claro que ele foi lido. Ainda queimando de vergonha, você entra na nave rapidinho e pára num período não muito distante, quando consegue o primeiro emprego e entra na faculdade. Então, você saca que todas aquelas estradas que ficaram lá atrás, momentos de afetos com irmãos, de diversão com os amigos da rua, de saborear o doce de leite da avó, de ter a redação lida na sala de aula, o primeiro show, o primeiro beijo, momentos que compuseram a pessoa que você se tornou hoje, não ficaram lá atrás. Momentos assim não passam. O ser humano é um quebra-cabeça de momentos. De infinitos momentos e é por isso que as pessoas não conseguem se entender e se decifrar verdadeiramente. Todos esses momentos não somem, não passam, não ficam no meio do caminho. Os momentos vão com a gente aonde quer que pensemos em ir.
Chegar aos vinte e três me fez perceber que não é tão ruim assim. Me permitiu perceber que nem sempre os melhores arquitetos assinam os melhores momentos. E que os melhores momentos nem sempre estão nos lugares mais bonitos. Mas me abriu os olhos. Me fez entender que entre ter vinte e três e oitenta e dois anos não há a menor diferença. Porque nunca é tarde para se criar bons momentos.
Quero agradecer aos meus amigos e todos que me acompanham e torcem por mim, por contribuírem com seus tijolinhos para a construção de momentos tão especiais na minha vida.
maio 28, 2005
Feriados prolongados passados em casa, caminhando pra lá e pra cá, oscilando entre a TV e a Internet, com uma ou duas páginas de um livro qualquer lidas, em que as músicas tristes deixam você triste e as alegres também – afinal, está em casa - , dias assim faz com que você tenha algumas idéias. Nada original, vou logo avisando. Vi isso uma vez no blogue do Tony. Para completar, a entrevista alguns posts abaixo que, cá entre nós, me transformou num ser deveras fútil, fez com que viesse uma luzinha meio cor-de-rosa na minha pobre cabeça. Seguinte: vou entrevistar os meus amigos. Os poucos que visitam este blogue e os da vida real. É isso. Nos próximos posts, vocês saberão o que pensam os amigos dessa que vos escreve. E, baseados naquele ditado “diga-me com quem andas que lhe direis que és”, vocês terão certeza sobre o que realmente sou. Ou penso ser. Ou tento ser. Ou sei lá o quê. Aguardem!
maio 26, 2005
Algumas autodenominações podem fazer jus à pessoa, mas nem sempre ao momento pelo qual essa mesma pessoa passa. Repensando a minha saga de pobre consumidora pop, devo dizer que este é um título que me remete a uma triste realidade. Gasto muito e me sobra pouco.
Peraí, vocês não estão entendendo nada. Calma aí, minha gente. Explico: estamos em pleno feriadão prolongado e o fato é que estou sem grana. Zerada. Durinha Marciano da Silva. Irei contra todos os meus instintos - e eu tenho vários, acreditem -, e ficarei em casa vendo novela e todas as minhas super séries favoritas. Vou aproveitar para dormir bastante e para fazer todas as minhas lições de inglês, pois minha teacher disse que se eu não entregar tudo o que devo na próxima aula serei reprovada. Cá entre nós, eu NUNCA entrego. Imaginem uma coisa dessas.
Isso aí em cima eu escrevi ontem, quando comecei este texto. Mentira. Não é um texto exclusivo para o Proseando. Trata-se de uma adaptação a uma resposta minha a uns amigos querendo combinar o feriado comigo. Então percebi que a resposta daria um belo post. Como vocês tem percebido, não tenho sido nada criativa ultimamente. A vida tem me consumido muito rápido e nem mesmo observadora eu sou mais. O post está meio sem pé nem cabeça, tal qual os meus propósitos, mas dá pra ser postado.
Hoje é o aniversário da Clarah Averbuck. Mandei um e-mail pra ela. Ei, Clarah, parabéns pra você! Não vou à sua festa “do caralho”. Se bem que rock na cabeça é tudo o que preciso no momento. Claro, com algo bem forte pra beber e fazer tudo girar e as palavras escaparem da boca pra nunca mais voltarem. Aí, eu até fumaria um ou dois cigarros, mesmo que me deixassem com ânsia de vômito depois. Mas não vai dar. Então, voltarei pra minha solidão. Vou nessa. Vai começar a 11ª temporada de E.R.. Até a próxima. Prometo que volto mais sóbria.
maio 05, 2005
“Espero continuar dando tudo de mim”
“Não pretendo casar e nem ter um filho”
“Gasto em tudo. Sou consumidora Pop”
Juliana Marciano, 23 anos, gosta muito de escrever e mais ainda de falar. Muito comuni-cativa, ela concede entrevista contando tudo nos mínimos detalhes e, assim, revela sua vida, suas preferências e seus planos para o futuro, que se baseiam em ser uma grande escritora famosa. Ju, como é seu apelido, mora no bairro Jardim Rey, em Diadema. Do signo de gêmeos, ela mora com a mãe Isa e tem o pai Antônio morando no mesmo quintal com outra esposa, história essa que Ju relata ao decorrer da entrevista, assim como outros fatos a seguir.
Comida: Gosto muito de massas, comida japonesa, e também gosto muito de comer “porcarias”. Às vezes vou no Mc’Donalds e como um Mc Lanche Feliz só para ver a surpresa, sou uma consumidora Pop.
Música: É minha paixão. Eu gosto de MPB, clássicos como Elis Regina, Tom Jobim, Chico Buarque. Mas o que eu prefiro mesmo são de cantoras que nunca ninguém ouviu falar, assim como Isabella Tavani, Marcela Biasi e Renata Gebara. Elas são do Rio de Janeiro e ficam sem espaço para cantar em outros Estados, isso porque no Rio o movimento musical é mais forte. Mas, no momento, estou gostando muito da Zélia Duncan porque a acho uma artista completa. Para cantora internacional não tenho muita preferência porque tenho difi-culdades com inglês então fico sem entender algumas letras. Gosto muito de música italiana, por isso quinta-feira fui no Show da Laura Pauzini, no Credicard Hall.
Time de Futebol: Não gosto de futebol, mas eu dizia que era torcedora do São Paulo. Acho futebol uma coisa estranha, vários homens correndo atrás de uma bola (risos).
Animais de estimação: Eu tinha dois peixinhos, o Tom e a Elis (em homenagem aos cantores). O Tom morreu primeiro e depois a Elis morreu porque a tampa do aquário caiu em cima dela. Agora eu tenho um outro peixinho chamado Luz, que foi minha mãe que deu esse nome.
Sonho: Não tenho sonhos. Acho que a gente vive de momentos, é o que eu almejo hoje. Não tenho um sonho de ter um carro, de casar, ter uma família. Ah, não...não...eu tenho um sonho sim, eu sonho em ser uma escritora famosa e fazer o lançamento do meu livro com muitos amigos e regado a vinho barato. Minha amiga sugeriu de fazer o lançamento do meu livro com pipoca, porque é barato e bem moderno (risos).
Mora com quem: Olha só, moro com minha mãe mas meu pai mora no mesmo quintal com a esposa dele. É uma longa história, vou contar. Era uma vez um mocinho que se apaixonou por uma mocinha e casou-se com ela e teve 3 filhos, o Ivan, o Fábio e a Neide. Aí, em um belo dia, aconteceu uma coisa muito triste. A mocinha ficou doente e faleceu. Meu pai ficou parado por um tempo, depois encontrou outra mocinha e com ela teve 2 filhas, a Juliana e a Ana Cláudia. Aí o casamento desse mocinho com essa mo-cinha também não deu certo e, passou-se um tempo, eles se separaram. Então meu pai encontrou uma outra mocinha e com ela teve mais uma filhinha, que é a Bia. Resumindo eu tenho uma irmão de 33 anos e uma irmãzinha que vai fazer 3 aninhos.
Atividades Preferidas: Gosto muito de sair com meus amigos e tenho ido bastante em baladas. Gostamos de cantar no Karaokê, promover almoços e jantares na casa de um e de outro, vou muito a shows, teatros, cinema. Costumo também ouvir meus cds em casa e escrever sobre bastante coisa, principalmente sobre o cotidiano das pessoas (ao lado encontra-se um de seus textos)
Graduação e Cursos: Sou formada em letras pela UniABC. Este ano quase fiz pós em Jornalismo Cultural, mas meu amigo disse que não era muito a minha cara. Aí eu ia fazer pós de Criação na Comu-nicação, mas não formou turma, então vou deixar para o ano que vem. E curso eu faço de inglês, mas não me dou muito bem. Todo mundo na classe me chama de risadinha porque eu só dou risada. Na verdade, eu sou mais de literatura, gosto de ir em Workshops, manter contato com escritores.
Empresas que trabalhou: Oficialmente eu comecei minha carreira na Teletrim e fiquei uma no lá até que vim para a Dotz, onde estou há uns quatro anos. Lá na Teletrim eu também trabalhava em atendimento, por-que o atendimento da Dotz era feito por eles.
Como entrou na Dotz: Eu entrei aqui convidada. Na Teletrim o Rylson era meu supervisor gerenciado pela Helen. Um dia eu fui trabalhar e os computadores não estavam na mesa, então me disseram que a Dotz não tinha renovado contrato com eles. Isso porque a Dotz estava em crescimento e com a equipe de tecnologia formada. Portanto eles desen-volveram uma plataforma própria e trouxeram o atendi-mento para dentro de casa. Na época eu fiquei bem triste, até quando fui convidada para trabalhar aqui pelo Rylson.
O que esperava e o que espera da Dotz: Eu cresci muito aqui. Alcancei todos os graus, até a posição máxima. Fui atendente, assistente e cheguei a supervisora. Eu espero que a Dotz dê a virada que tanto está buscando e seja bem conhecida. Quero dizer aos outros que trabalho na Dotz e que eles a conheçam.
E o que você fará para isso: Poxa, eu espero continuar dando tudo de mim, acompanhando o ritmo, fazendo com que o atendimento Dotz alcance o grau máximo de eficiência e encantamento, que é o que todos esperam.
Nota 10: Dou nota 10 para o amor, toda forma de amar é bem-vinda e merece ser percebida.
Nota 0: Ao ódio, detesto odiar as pessoas.
No que mais gasta o seu dinheiro: Gasto em tudo o que eu ver. Livros, cds, presentes. Se estou com vontade de alguma coisa vou lá e compro.
Planos pessoais e profissionais para o futuro: Ser uma profissional na área da comunicação, não importa o quê. Mas quando eu falo que quero ser uma escritora tiro um pouco meus pés do chão, porque isso não dá dinheiro. E nos planos pessoais eu não sei porque não pretendo me casar e nem ter filhos. Então, minha área profissional completa a pessoal.
O que você seria capaz de fazer para realizar um sonho: Qualquer coisa que não preju-dicasse ninguém.
Frase predileta: Pode ser um “poeminha” sacana? É do Bukovski, escritor que gosto muito.
“A gente bebe quando está feliz
Pra comemorar
Quando está triste,
Pra esquecer
E quando não tem nada acontecendo,
Pra acontecer.”
Jornalista Responsável: Lílian Munhoz
abril 24, 2005
(Carlos Drummond de Andrade)
É preciso casar João,
é preciso suportar, Antônio,
é preciso odiar Melquíades
é preciso substituir nós todos.
É preciso salvar o país,
é preciso crer em Deus,
é preciso pagar as dívidas,
é preciso comprar um rádio,é
preciso esquecer fulana.
É preciso estudar volapuque,
é preciso estar sempre bêbado,
é preciso ler Baudelaire,
é preciso colher as flores
de que rezam velhos autores.
É preciso viver com os homens
é preciso não assassiná-los,
é preciso ter mãos pálidas
e anunciar O FIM DO MUNDO.
abril 11, 2005
Uma ótima forma de vencer o cansaço pode ser uma cama quentinha, um lindo sorriso no rosto da pessoa amada quando você chega em casa, uma ducha bem demorada, zapear na TV com o controle remoto e com as almofadas do sofá em meio às pernas e elas, as pernas, beeeeeem esticadas sobre a mesa de centro.
Mas a melhor forma de vencer o cansaço, aquele de caminhar quatro quilômetros e meio com uma mochila pesada nas costas, um baita sol quente brilhando lá em cima e incontáveis subidas íngremes, daquelas que faz qualquer ser normal neste mundo pensar em não encarar, a melhor forma de vencer todo esse cansaço é uma só: a companhia.
Companhia como a San, ligadona no 220 V, rindo e fazendo graça o tempo todo, variando de vez em quando com um papo-cabeça sobre a arte e suas interferências na vida das pessoas, amparada pelos mais inesperados neologismos-tentaculásticos-nishídicos, marcando o caminho com o carisma inexplicável, daquele que somente quem a conhece pode compreender.
Companhia como a Polly, mostrando o tempo todo que a recompensa sempre vem depois do sacrifício, que o topo é o único local de chegada e que vale a pena continuar e ser perseverante. Sempre generosa com todos à sua volta, feliz, e pronta para um sorriso necessário ou para um inesperado "vamu todu mundo dumi" pra quebrar o gelo. Com seus amigos, encara tudo - até mesmo o "filhote de monstro" - que nos ajudou a voltar pra casa com a mochila menos pesada.
Companhia como o Rei, o único entre as mulheres, sempre disposto e solícito para o que precisarem. O protetor da ala feminina, o guardião das amigas, aquele que se preocupa o tempo todo, que se previne, que se dispõe, mas que detesta tirar fotos, ou melhor, sair nelas. O Sansão da turma, cuja força não está nos cabelos, mas nas costas, não importando o tamanho ou peso da mochila. Esse é o nosso Rei!
Comapanhia como a Paulinha, sempre risonha e solidária para com os caminhantes perseverantes. Grande motivadora e articuladora dos momentos de descontração da galera. Sem se preocupar com o que virá depois, está sempre pronta para o que der e vier: uma, duas, três, quatro batidas. E desce mais! Brincando de ser criança no Balanço de Pneus, jura pra todo mundo que não existe fórmula para a sua juventude estampada no rosto. Mas que eu ainda vou descobrir o caminho da Terra do Nunca, ah, isso eu vou.
Companhia como a Marininha, que provou que quem fala pouco anda mais e sua menos. Muito bem prevenida e com um baita espírito aventureiro, salvou a gente das picadas dos insetos e levou seu estoque de ban-daid, caso não aguentássemos a caminhada. Ainda bem que não foi preciso. Eita, mulher guerreira!
Companhia como a nossa Diva que, desta vez, não nos consagrou com sua bela voz, mas contribuiu de montão para o astral da galera. Mostrou-se também bastante comovida com a morte do Papa e, amparada pelo espírito humanista de paz e confraternização no mundo, aproveitou o momento para alimentar os famintos da região - os peixes jurássicos e o "filhote de monstro".
Companhia como a Ana, mestre das artes e do bom português - deixa qualquer analfabeto da língua com UM DÓ por não saber, que vou te contar! Mesmo em estado de choque com a caminhada de uma hora calculada pelo Rei, aproveitou muito bem o momento para exercitar os braços e as pernas nas descidas, enquanto esta que vos escreve capturava imagens pitorescas para refletir o seu olhar. Ohhh! Foi também responsável por preencher o caminho da volta com todo o seu conhecimento e interesse pelas artes plásticas, cinematográficas e literárias.
Por fim, a lembrança dos amigos que não foram também é responsável pela garantia da nossa alegria e cumprimento da nossa meta. Companhias ausentes, presentes nas nossas lembranças. Se estivessem lá, teriam tornado o nosso passeio ainda mais agradável e as subidas menos íngremes.
Viram como comecei minha semana inspirada? Quero que a de vocês também seja assim.
EU AMO O RYL E OS AMIGOS DO RYL!!!!!!!!!!
março 17, 2005
Marco Literário
"Oração das Donas do Inferno". Foi esse o conto que Clarah Averbuck leu no início do seu pronunciamento. O motivo desta leitura? Ela teria que ler algo e, ao tomar emprestado o meu exemplar de "Das coisas esquecidas atrás da estante", era justamente a página deste conto que estava demarcada. Clarah gostou da coincidência e resolveu lê-lo, justificando que provavelmente também o teria escolhido, caso assim tivesse que fazer. Lady Averbuck leu seu conto ferozmente, entonando em sua voz exatamente o que sua linguagem escrita faz sentir.
Ao seu lado estava Marcia Denser - Clarah Averbuck amanhã -, que se emocionou com a performance teatral de um dos seus contos. Marcia leu uma crônica inédita, escrita para alguma antologia que participou, das várias que fez em comemoração aos 450 anos de São Paulo. Como definiu Marcelino Freire, "um encontro a quatro mãos", já que, sucedendo Clarah e Marcia, encontraram-se Marcelo Mirisola e Reinaldo Moraes. Os quatro escritores são estigmatizados como "malditos" e marcaram época porque possuem uma linguagem visceral, revolucionária, chocante.
De quem foi a idéia deste encontro? Só poderia ter sido dele, Marcelino Freire, que também foi curador do "Encontros de Interrogação", promovido em novembro passado no Itaú Cultural, cuja repercussão foi tão boa que teremos segunda edição em 2005. Seguindo a mesma linhagem deste, que objetivava reunir escritores da Novíssima Geração e discutir seu processo criativo, sua literatura e suas referências, o "Marco Literário" também contou com a valorização dos novos escritores, além da organização de oficinas literárias. Aconteceu para reunir escritores de mesmos estilos de uma geração anterior a ícones contemporâneos. Bem à altura de Marcelino Freire, a idéia não poderia ter sido mais criativamente feliz.
O próprio Grande Marça me explicou no restaurante do Sesc Consolação que o "Encontros de Interrogação" foi um imenso passo para se chegar ao "Marco Literário". Mais que eventos literários, tanto um quanto outro tiveram o grande papel de promover a literatura brasileira, aproximar o escritor do leitor e afirmar um cenário literário que, cada vez mais, aparece em constante criação e evolução.
Eventos como esses têm também a responsabilidade de "quebrar" o saudosismo literário nas universidades. Existem novos escritores em cena, a literatura mudou, inovou, está aí para quem quiser ver. A crítica está fazendo o seu papel e os estudantes precisam conhecer a nova literatura na escola e não por acaso, como vem ocorrendo.
O evento ainda não acabou. Hoje, 18 de março às 20h, Joca Reiners Terron, escritor mato-grossense radicado em São Paulo e autor do livro de contos "Curva do Rio Sujo" e do romance "Não há nada lá", encontra pela primeira vez Milton Hatoum, amazonense radicado em São Paulo e um dos principais nomes da literatura contemporânea, autor dos romances "Relato de um certo oriente" e "Dois irmãos".
Amanhã, 18 de março, também às 20h, Luiz Rufato, autor do premiado romance "Eles eram muitos cavalos", encontra pela primeira vez Evandro Affonso Ferreira, que também surgiu nos anos 90 e é autor dos romances "Erefuê" e "Araã!", este finalista do Prêmio Jabuti 2004.
Vai lá:
Sesc Consolação
R. Dr. Vila Nova, 245 - V. Buarque - São Paulo - SP
Tel.: 3234-3009 / 3011-3252
março 13, 2005
O fluxo da vida e suas modernidades -
Perda total do ritmo
Pessoas não reconhecem os passos
Não percebem os caminhos
Não observam as paisagens
Modernidades que retardam o sentir
A percepção só vem depois que a luz se apaga
E novamente encontra dificuldades quando reacende
A subjetividade sobrepõe-se a qualquer grau de percepção
E a vida vai soar numa sinfonia diferente da que se conhece
Sempre incompleta
A luz do mundo vai piscar
De repente, tudo vai ser ainda menos familiar
As portas estarão abertas
Mas a entrada continuará sendo proibida
A linha de chegada é a linha do horizonte
fevereiro 10, 2005
Cheguei com dificuldades para entrar. Cinco, sete, quinze adolescentes obstruindo a passagem. Por que será que decidiram não entrar? Com licença daqui, com licença dali, uma segurada para não escapar a cara feia, uma leve torcida no nariz e, ufa, entrei. A indagação permaneceu sem resposta: o que será que não atraiu a moçada para dentro da livraria? Será que eles não gostam de best sellers e não entraram em menção de protesto? Será que a sobreposição dos livros não atrai muito a atenção? Ou será que o ar estava frio demais para permanecer lá dentro? Não sei. Sei apenas que entrei e todos aqueles livros pareciam música para os meus olhos e como se eles - os olhos - absorvessem o restante dos sentidos humanos. As mães ajudando os pequeninos a escolher um título parecia a visão do paraíso, uma forma promissora de acreditar no futuro, de não dizer em vão "o Brasil tem jeito".
Olhei à minha volta e existiam apenas três mesas com duas cadeiras cada. Todas elas ocupadas. Fui até a seção de "Literatura Nacional" e peguei com cuidado um livro da Cinthia Moscovitch. Tornei a observar as mesas e ainda estavam ocupadas. Decidi ir até a seção de revistas e a circulei com os olhos, como se buscasse uma maçã bonita em meio a muitas maçãs bonitas. Peguei uma maçã que tinha uma atriz em ascendência na capa. Gosto daquelas edições e já sei de cór o formato do discurso de cada jornalista, podendo, sobretudo, escolher a minha preferida. Assunto fútil com um toque de intelectualidade. É complicado, mas ainda dá pra selecionar bem as futilidades da mídia. Comecei ler a revista em pé mesmo. Folhear não, ler mesmo, desde o editorial até as propagandas mais drásticas. Vou lendo as partes menos envolventes, deixando o melhor pro final, igual criança que come o doce devagarinho, para o gosto bom durar mais tempo na boca.
Olhei em volta novamente e, bem ali, uma cadeira vazia. Fui até lá num passo apressado, torcendo para que aquele moço que vem em minha direção não sente na cadeira antes de mim. Consegui. Cheguei perto da mesa e ele estava sentado, concentrado. Olhei pra ele e pedi licença baixinho, para não incomodar sua leitura. Elegantemente, ele sorriu e fez que sim com a cabeça. Sentei com cuidado, abri a revista novamente e continuei de onde havia parado. De vez em quando, eu sorria ou então me controlava para não comentar em voz alta. Estava compenetrada na minha leitura e em meus pensamentos, quando ele me olhou e aproximou o livro aberto do meu rosto, apontando com o dedo indicador e perguntando: "você concorda com isso?" Fiquei assustada, mas decidi dar-lhe atenção. "Não concordo" - respondi sorrindo. "Isso é truque comercial para alavancar as vendas do livro, e não é a toa que este autor está fazendo fortuna" - concluí. Ele recolheu o livro e, me fitando, respondeu que era isso mesmo. Continuei observando-o e ele se afundou na leitura novamente. Concentrei-me na minha.
Os depoimentos de mulheres que realizaram aborto estavam interessantes, a ponto de eu rever os meus próprios conceitos. Estava dividida entre meus dogmas religiosos e a lei da sobrevivência, quando ele novamente resolveu me abordar: "estamos no princípio do fim e as coisas estão acontecendo exatamente como está na Bíblia. Estava lendo numa revista esses dias e o Brasil possui quatro mil e quinhentas religiões. Isso só no Brasil. Aquele Edir Macedo é a figura dos falsos profetas que a Bíblia ensina. Como é que as pessoas acreditam nisso?"
O que fiz foi fitar aquele homem e apenas observá-lo. Ele continuou: "o mundo capitalista não leva as pessoas a lugar nenhum. Fala pra mim se na época dos militares existia desemprego. O indivíduo somente não trabalhava se era vagabundo. E hoje? Quem é que acredita nessa filosofia enganadora do PT? Se tem alguém que ganha com isso são os banqueiros. Eles emprestam dinheiro às empresas que estão falindo e ganham em cima dos juros. Sabe de quem é o dinheiro que eles emprestam? Meu e seu. Eles têm uma doutrina própria. Coitada da empresa que não se unir a outra. É falência na certa. Observe as empresas de ônibus de São Paulo. Hoje, é tudo consórcio disso, consórcio daquilo. E o país fica aí parado. Eles lançam para o povo a teoria da política do crescimento e é tudo teoria. Tudo enganação pra distrair o povo."
Aquele homem que, quem olhasse, só poderia imaginá-lo alimentando os pombos, estava ali na minha frente lançando o desabafo de milhões de brasileiros com tamanha lucidez. Talvez, qualquer outra pessoa no meu lugar se levantasse da mesa, sem mesmo pedir licença e fosse procurar um canto qualquer para concluir sua leitura. Ou permanecesse com a cabeça baixa, ignorando o pobre homem. Eu, ao contrário, decidi erguer a minha cabeça e ouvi-lo. Simplesmente ouvi-lo. Abosorvi cada palavra como se fosse uma aula acadêmica. Sua teoria sobre a máfia no futebol, a continuidade da sua visão político-social do mundo, a defasagem educacional do brasileiro, a verdade sobre o Carnaval, o Oriente Médio, o Bush, o começo do fim. Para aquele homem, o problema do Brasil se resume em uma única coisa: na falta de patriotismo, algo que vai muito além de conceitos de esquerda ou de direita. Aquele homem que nunca mais verei, que não sei o nome e nem de onde veio. Nem mesmo se era de carne ou osso. O homem da livraria.
fevereiro 05, 2005
A primeira vez que ouvi este poema foi num programa de televisão. A pessoa que o arrancou da cabeça em forma de voz nem sequer parecia gostar dessas coisas. Mas, de alguma forma, ficou um pouco do poema nela. E ficou um pouco em mim. E não adianta fugir, porque vai ficar um pouco em você que está lendo estas palavras agora.
RESÍDUO
(Carlos Drummond de Andrade)
De tudo ficou um pouco.
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco.
Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).
Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficam poucas
roupas, poucos véus rotos,
pouco, pouco, muito pouco.
Mas tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
- vazio - de cigarros, ficou um pouco.
Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
de teu áspero silêncio
um pouco ficou um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.
Ficou um pouco de tudo
nos pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.
Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
em pouco de mim algures?
no consoante?
no poço
Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.
De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil...
De tudo fica um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
do vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver...de aspirina.
De tudo ficou um pouco.
E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.
Mas tudo, terrível, fica um pouco.
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço do cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte de escarlate
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.
janeiro 29, 2005
janeiro 27, 2005
Responsabilidade, hoje em dia, está muito aliada à questão de maturidade que alcançamos com o passar dos anos. Está, ainda, estigmatizada à função histórica do ser homem e ser mulher, mesmo com suas controversas.
A mulher, por si só, já amadurece primeiro; a menstruação e o crescimento dos pêlos púbicos acabam antecedendo o crescimento dos pêlos faciais e o engrossamento da voz no homem. Depois, vem a questão da maioridade: até há pouco tempo, o homem se tornava maior aos 18 anos; a mulher, aos 21. Hoje, talvez pela afirmação do papel feminino na sociedade, a questão da maioridade está padronizada. O homem e a mulher assumem sua maioridade cívica aos 18 anos.
Historicamente, socialmente e até logicamente falando, deveria ser assim. Mas como não "entrar em parafuso" quando ligamos a televisão e vemos crianças de 8 e 9 anos de idade cuidando dos irmãos menores e dos afazeres domésticos, enquanto a mãe trabalha fora? Ou, então, trabalhando em zonas rurais, carvoarias e lixões paragarantir o sustento da família? Sim, crianças iguais as que você tem na família e que deveriam estar na escola, atribuindo a sua maturidade ao ato de simplesmente ser criança.
E o Brasil, você e eu nessa história toda? Às vezes, fico pensando naquele adolescente que freqüenta uma escola pública e que não se dá conta das oportunidades que tem em mãos. Penso nos pais destes adolescentes, que não atribuem a devida responsabilidade para o problema. E lamento pelos educadores que vêem seus aprendizados acadêmicos se escoarem pelos vidros quebrados das escolas aonde lecionam.
Há pouco tempo, falei neste espaço da questão da revolução e reafirmo: os jovens de antigamente sabiam detectar os problemas e correr atrás da solução, mesmo que esra se tornasse um problema ainda maior. As pessoas sabiam pensar coletivamente.
Hoje, no entanto, vejo uma juventude com visões míopes. Diante dos meus olhos, o Brasil - um gigante adormecido e imaturo.
janeiro 10, 2005
Quem canta seus males espanta
(Itamar Assumpção)
Entro em transe se canto, desgraça vira encanto
Meu coração bate tanto, sinto tremores no corpo
Direto e reto, suando, gemendo, resfolegando
Eu me transformo em outras, determinados momentos
Cubro com as mãos meu rosto, sozinha no apartamento
Às vezes eu choro tanto, já logo quando levanto
Tem dias fico com medo, invoco tudo que é santo
E clamo em italiano ó Dio come ti amo
Eu me transmuto em outras, determinados momentos
Cubro com as mão meu rosto, sozinha no apartamento
Vivo voando, voando, não passo de louca mansa
Cheia de tesão por dentro, se rola na face o pranto
Deixo que role e pronto, meus males eu mesma espanto
Eu me transbordo em outras, determinados momentos
Cubro com as mãos meu rosto, sozinha no apartamento
É pelos palcos que vivo, seguindo o meu destino
É tudo desde menina, é muito mais do que isso
É bem maior que aquilo , sereia eis minha sina
Eu me descubro em outras, determinados momentos
Cubro com as mãos meu rosto, sozinha no apartamento
dezembro 24, 2004
Natal é Tempo
Luzes iluminando nossas vidas. Muitas pessoas nas ruas. Crianças correndo. Pessoas rindo. Uns entregando presentes. Outros ganhando. Alguns sonhando. Um cheiro diferente no ar. É NATAL!
NATAL é tempo de balanço: quantas vezes rimos, quantas vezes choramos, os amigos que perdemos, aqueles que ganhamos, as metas que não conseguimos alcançar, quantos quilos engordamos, quantas loucuras cometemos, quantas vezes nos lamentamos, quanto gastamos com coisas fúteis, quantas vezes deixamos de ser úteis.
NATAL é tempo de reflexão: de pensar naquele que está ao nosso lado e naquele que não está mais. De esquecer as desavenças, de encontrar a paz. De buscar no fundo do coração um sentimento que não precisa ser expresso em palavras, apenas com o olhar. Olhar de Feliz Natal. É o tempo certo de esquecer as desavenças para sempre. É o tempo preciso para pensar na miséria. É o tempo que não encontramos durante o ano inteiro para PENSAR o bem, DESEJAR o bem, PRATICAR o bem.
NATAL é tempo de conscientização: de entender que a perfeição é do tamanho da pretensão que cada um tem de ser perfeito. De aceitar que o belo não é um conceito padrão, mas sim que se encaixa à essência de cada pessoa. De compreender que a individualidade às vezes é necessária, mas que só a união faz a força. De afirmar que o único caminho para o sucesso é o foco nos objetivos, buscando sempre pensamentos positivos.
NATAL é tempo de mudança: de descobrir o que falta para sermos pessoas melhores. De entender que o mundo precisa ser diferente e que cada um PODE dar a sua contribuição para isso. É tempo de entender que a opinião alheia é importante sim e aceitá-la faz da gente pessoas menos egoístas. É tempo de crescer, de amadurecer.
De todos os tempos, NATAL é o tempo que Deus nos deu de presente para sermos filhos melhores, amigos melhores, pais melhores, PESSOAS melhores. É o tempo que Deus escolheu para nascer em nossos corações e nos fazer REFLETIR, CONSICIENTIZAR e MUDAR.
Que neste Natal, Deus nasça mais uma vez no seu coração e faça de você uma pessoa AINDA MELHOR.
FELIZ NASCIMENTO!
FELIZ NATAL!
dezembro 13, 2004
Uma das grandes frustrações com a geração a qual pertenço é justamente a ausência de argumentos construtivos para se fazer uma revolução, não para mudar o mundo, mas para fazer a diferença nele. Seja qual for o objetivo de fazer a diferença no mundo, no seu trabalho, na faculdade, em qualquer lugar, esse objetivo deve vir amparado pelo respeito às classes sociais, às essências sexuais, às diversidades raciais e também às diferenças de opiniões.
A verdade é que ninguém está de fato preocupado com isso. Talvez, nem mesma eu esteja. As pessoas não estão preocupadas em ser diferentes ou em fazer a diferença. Todo mundo pensa igual, como se a razão tivesse sido padronizada, restrita a um singelo pensamento coletivo: vamos seguir o fluxo que a sobrevivência vem por conseqüência. É isso, a preocupação deve ser com a morte e não com a vida.
Esse fulano aí do seu lado provavelmente não esteja vivo. Essa que vos escreve pode estar proferindo essas palavras do além. Do além da indignação humana. Do além da impossibilidade de compreensão. Do além das nossas dúvidas remetidas à miséria da condição humana. Há tanta coisa pra se lamentar. Pra duvidar. Pra conspirar. Quem está preocupado com o respeito?
Quem aqui se reconhece humano o suficiente para proliferar o perdão? Quem aqui se reconhece puro suficiente para chorar? Não existem lágrimas. Não há sorrisos. O ar que respiramos chama-se melancolia e a vida que bate em nossos corações está isenta de qualquer significado. O desrespeito nos governa.
A vida que se finge viva nos apodrece diariamente. Minuto a minuto. O amor é inatingível e a solidão não está só. Está acompanhada pelo desespero de abrir os olhos e entoar a voz. Estamos todos mortos pelo desrespeito. E a minha última palavra é BASTA.
dezembro 08, 2004
Depois do Perigo
(Lucina e Zélia Duncan)
Não, não me aqueça
Hoje eu quero o frio
O vazio
Que a sorte deixou aqui
Quero sentir a altura do abismo
Pra eu poder subir depois do perigo
Não, não me acalme com silabas doces
Hoje eu quero o açoite das palavras rudes
Pra que eu possa me defender em atitudes
Não, por favor hoje não me proteja
Para que eu finalmente veja
O que a vida reservou pra mim
Quero sentir a altura do abismo
Pra eu poder subir depois do perigo
novembro 29, 2004
Segunda-feira muito louca
Detestar as segundas-feiras nunca esteve no meu rol de detestações diárias. Segunda-feira é, antes de mais nada, uma quebra de rotina e, para quem vive em função de inconstâncias, vem a ser um ótimo aperitivo para o início da semana. Vá lá que tal otimismo dura, no máximo, até a terça-feira, mas aí é uma outra história.
Minha segunda-feira começou bem. Ignorei o despertador. Repeti mais de cinco vezes em pensamento "só mais alguns minutinhos". Acordei no banho. Não bebi meu café na xícara de sempre. Troquei os "Anos Incríveis" pela centésima transmissão do "Prêmio Multishow". Saí atrasada de casa pra não contrariar a ordem natural das coisas. Peguei um coletivo lotado. Ouvi duas vezes seguidas a fita da Zélia Duncan no meu walkman, cantando todas as músicas e repetindo todas as falas dos seus comentários. Ignorei os olhares curiosos. Cheguei ao escritório e, como sempre, me dirigi ao toalete para lavar as mãos e pentear meus cabelos rebeldes. Peguei o café-da-maria e um copo com água. Bati um papo matinal com a Cris. Sentei na frente do meu computador. Selecionei algumas músicas que não ouvia há tempos. Baixei meus e-mails. E o telefone tocou.
Tem horas que o simples tocar do telefone faz com que você deseje ser qualquer outra pessoa, atuar em qualquer outra área ou estar em qualquer outro lugar. Tenho a impressão de que, quando o telefone toca, junto com as ondas sonoras vem uma espécie de vibração que precede o assunto a ser tratado. Sei lá se é o meu sexto sentido em ação ou algum poder marciano, mas há momentos que o toque do telefone me dá vontade de sair correndo. O problema é que eu nunca saio.
O infeliz do outro lado da linha decidiu quebrar a seqüência da minha segunda-feira normal e jogar nas minhas costas todos os rezíduos maléficos do seu final de semana frustrado. Por pouco, quase esqueci da ética e moral que movem minha profissão e mandei o elemento se dirigir ao banheiro mais próximo e enfiar a cabeça na privada. Eu, que mal enxergo a ponta do meu pavio de tão curto que ele tem estado, tive que manter a compustura. Até tentei não ser irônica. Até tentei não ser redundante. Esgotei a minha capacidade de dizer a mesma coisa por um milhão e trezentas e setenta e sete mil formas diferentes. E a conversa com o fulano se prolongou em duradouros quase oitenta minutos. Dá pra acreditar? Um dia bonito, os passarinhos cantando, o Natal chegando e o fulano gastando o telefone da empresa em que trabalha, só para ESTAR COM A RAZÃO! E eu lá quero saber dessa tal de razão? Sério. Ultimamente estou mais para a sensibilidade do que para outra coisa qualquer.
Ei, alguém aí tem um chiclete?
novembro 17, 2004
Saudades de mim
Do mistério da minha essência
Do que me faz doce a amarga
Líquida, homogênea
Ingredientes da vida
Medo de mim
Da ousadia de ser
Da audácia de falar
Pensamentos silenciosos
Verdades inquietas
Raiva de mim
De tudo o que não sinto
Da simplicidade difícil
Do que falo e não digo
Quando paro para refletir
Pena de mim
Da covardia disfarçada
Do frio que me apetece
Desconhecido que me conhece
Da felicidade amargurada