abril 30, 2004

Os Criadores e a Criatura

Loucos. Descabelados. Solitários. Você reconhece essas características? Hmm... deixe-me ajudá-lo. Você tem ido ao cinema ultimamente? Se sim, deve ter percebido explicitamente a forma como os cieastas vêem os escritores. Sim, até mesmo aqueles que são sucesso de mídia. Todos têm traços de loucura - quando não no porte físico, são facilmente identificados nos aspectos psicológicos das personagens. Todos, em determinado momento, se descabelam por alguma coisa, isso quando não são descabelados visualmente falando mesmo. Chega a dar medo. E todos são solitários, é impressionante. Parece até que é uma taxação prioritária. Quando não são vítimas do divórcio, são figuras focadas no trabalho e não disponíveis para qualquer aventura amorosa (quadro que muda só no final do filme, lógico), ou, são homossexuais do tipo frustrados e desgraçados pela vida.

Além do mais, parece que é moda abordar personagens escritoras nos filmes ultimamente. Não que eu ache ruim, muito pelo contrário, me divirto e muito, mas que isso chama a atenção, ah... chama. E desperta atenção também, além das três características básicas que citei há pouco, os vários perfis de escritores que nos apresentam. Até pouco tempo atrás, minha visão de escritor era um vovozinho ou uma vovozinha de cabelos bem branquinhos, com aqueles óculos redondinhos e com aquela carinha que dá vontade de apertar de tão fofa. Isso, claro, até eu quebrar a bolha que me protegia das coisas boas da vida e conhecer uma rapaze que deixa de cabelo em pé qualquer tipinho simpático dito literato tradicionalista. Hmm... vocês nunca ouviram falar da Geração 90 de escritores, certo? Não sabem o que é o humor bombástico do Marcelino Freire? A visão mais que naturalista da vida pelos olhos de Clarah Averbuck? A "fama transgressora" de Nelson de Oliveira? A criativa linhagem poética de Fabrício Carpinajar? Sem falar nos muitos e muitos talentos que esse texto não comportaria... Se não conhece, nem preciso fazer convite, certo?

Pois bem, o protótipo de escritor abordado pelos cineastas e aquele que o ensino de litetatura na escola nos oferece é completamente diferente, diante do que realmente é o que escreve a história da nossa geração atualmente. Mais do que loucos, descabelados e solitários, temos gente com sede de juventude, de criar novas frentes de discussões, de admitir que estamos em pleno século XXI e que temos que escrever a realidade nessa nova linguagem, falar de geração para geração. Não falo aqui de transgredir regras gramaticais, de transformar a língua materna numa linguagem chula. Falo língua materna porque essa evolução de que trato não é apenas brasileira. A literatura possui um elo mundial globalizado. E, acreditem, não falo somente de adolescentes de classe média com piercings and tatoos que decidem embrulhar pra presente suas aventuras sexuais e narcóticas e oferecerem à mídia para, então, transformar-se naquilo que todos nós já sabemos.

Certo, não é novidade que cinema e mundo real não são a mesma coisa. O cinema trata os escritores com certo diferencial, mas não está acompanhando nem de longe essa evolução. O tipo louco psicótico que sofre de distúrbio de personalidade múltipla, vivido por Johnny Depp em "A Janela Secreta", é caótico, caricato. De fato, cômico, mas não real. O solitário e mega confuso Alex, vivido por Luke Wilson em "Alex e Emma" é até normalzinho, mas não passa de um tipinho cômico limitado. Sim, às vezes, eles dão umas dentro. Em "Encontrando Forrester", Sean Conery, apesar de esquisito por tratar-se de um ser recluso não só em seu apartamento, mas em seu inconsciente, não está tão distante do que seria um escritor experiente nos dias de hoje. Só para não me estender muito, vale citar Diane Keaton em "Alguém tem que ceder". Sim, o filme arranca ótimas gargalhadas, apresenta as nuances cômicas das personagens, mas a escritora teatral vivida por Diane parece ser bem situada em seu mundo, em sua realidade, principalmente quando adapta sua própria realidade.

E, falando em realidade, a literatura não possui só um aspecto imaginário, como a maioria das pessoas pensam. Principalmente, quando lemos um escritor situado em nosso tempo. Conhecer a literatura e seus criadores nas telonas é ótimo, mas muito mais interessante é conhecê-los por meio das suas próprias obras, através delas. Tente e me conte depois.

abril 27, 2004

Texto crítico

Okay, okay. É fato que tudo nessa vida é concebido partindo de uma opinião pré-esatabelecida sobre algo ou alguém. E é fato também que essa tal opinião não precisa simplesmente nascer, viver e comer muito arroz com feijão para ser notada. Não, não, ela já nasce com força tamanha, com capacidade total para destruir ou alavancar qualquer coisa. Exatamente, eu disse qualquer coisa.

Sim, sim, falo dela mesma: a CRÍTICA. Essa palavrinha trissilábica tão comum, tão conhecida por todos, tão presente em cada fio de pensamento, tem um poder tão grande que ninguém, absolutamente ninguém, é capaz de deter. Muito mais que um poder ou uma conduta comportamental, a crítica é uma necessidade. E nós somos absorvidos pelo ato de criticar de forma tão fluente, a ponto de nos perdermos e afundarmos na grande confusão que se cria quando não se consegue perceber a diferença entre criticar e julgar.

Julgar. Criar opinião. Dizer o que se pensa no ímpeto do momento. Essas características fazem de nós simplesmente seres humanos e desconhecedores do significado de sermos seres críticos. Eis a grande diferença e o motivo pelo qual vemos nossos semelhantes tornarem-se, de um segundo para outro, seres monstruosos, mesquinhos e, por muitas vezes, inconseqüentes.

Mas, como dizemos no nosso dia-a-dia quando algo está longe de uma conclusão sensata, "é a vida". E de fato é mesmo porque a vida também é movida pela crítica. O governo de nenhum país terá rumo decidido senão por meio da opinião crítica de alguém - seja de uma população ou de uma cúpula; nenhum escritor, por mais que isso possa parecer desconfortável em determinados momentos, terá sua obra firmada senão pela opinião crítica de alguém; idem para os músicos, artistas plásticos e toda variada categoria artística; nenhum filho assume determinada conduta ética e moral na vida senão pela opinião dos pais ou de quem o criou ou de quem interferiu diretamente no seu crescimento e amadurecimento - aqui, entenda-se amigos de infância, colegas de escola, professores, chefes et cetera. E assim, reforço mais uma vez, "é a vida".

Ah, mas ela está focada somente em único lado dessa tal de crítica, vocês devem estar pensando. Não, claro que não. Eu não me esqueci que existem as críticas construtivas e as críticas destrutivas. E também não descarto a possibilidade de uma crítica destrutiva ter lá o seu quê de positiva. Estou errada? Ao menos para identificar que o crítico é, no mínimo, um precipitado ao formar determinada opinião destrutiva sobre algo, esse tipo de crítica serve. Daí, dependendo da perspectiva, muitos outros aspectos positivos podem ser extraídos. Pode tentar se quiser, mas cuidado para não correr o risco de ser considerado também um mesquinho, ao tentar combater uma mesquinharia com outra.

É justamente aí que mora o xis da questão. A grande proeza que faz da gente "pessoas críticas" e "pessoas críticas" está na diferenciação entre ser um bom observador e ser um oportunista de plantão, registrando nas pessoas apenas os seus deslizes. E mais uma coisinha: saber relevar, filtrar o que realmente é importante e faz a diferença. Saber ser um bom observador e registrador dos fatos e não um paparazzi do mundo real.

Isso, esse será meu exercício daqui pra frente.

abril 26, 2004

Verdadeiro ou Falso?

Viver - insanidade indomável.
Não se importar com as verdades
E abusar das mentiras.
Desistir? - eu pergunto.
Jogar para o alto?- eu insisto.
Jogar para o alto, talvez.
Desistir, jamais.
Jogar para o alto
E viver um segundo por vez.
O que importa o dinheiro,
Tesouro falso?
E a fama, necessidade de auto-afirmação?
Simplesmente não importam.
Importa sim a luz do sol,
Astro-rei soberano.
Ou ainda, os pingos da chuva,
Tentativas de recomeço.
Importa de fato o brilho nos olhos.
Se os olhos brilham, o sentimento é verdadeiro.
Mas o que é a verdade? - busco entender.
É a mentira para uns, travestida de fada-madrinha.
É o ímpeto que se sente
Quando as necessidades são manifestadas.
É a nossa razão, oras!
É a miséria das condutas.
Seres Desumanos.
A verdade pode não ser o que escrevo agora.

abril 22, 2004

Entender é preciso

Chiclete mascando
Uma mordida inesperada na língua
Não é sinal de tagarelice
O trabalho exposto na sua frente
E João Gilberto falando baixinho ao seu ouvido
Uma intimidade falsa?
A vida fugindo da lembrança
Porque ainda é preciso deixar o pensamento livre
Irresponsabilidade também cabe aos ocupados
E também a vontade de transgredir aos politicamente corretos
E aos falsos intelectuais
A ânsia de envelhecer para acabar mais rápido
A esperança de manter-se jovem porque a confusão é inevitável
Tudo parece mágica
Quando qualquer palavra parece fazer sentido
Enfatiza os caminhos errados
E apaga só um pouquinho a neblina do que parece ser certo
Porque acreditar ainda é possível

abril 19, 2004

A arte de não expandir

O que você quer? Que eu me converta em off para o mundo? Que eu me tranque no fundo do seu quintal? Que eu me esconda para sempre atrás da sua cortina? Que nunca mais na vida ligue a televisão? Que eu afogue meu radinho à pilha no seu vaso sanitário? Na sua presença, para não restar dúvidas? Ah, então você quer que eu desacredite na índole da multidão? Que eu pense que o azul não é mais azul? E que o arco-íris nunca foi colorido? Quer que eu acredite no seu conceito de inteligência? Na sua unilateralidade? Você acha mesmo que o mundo foi escrito em uma só língua? Ah, sei, você acha mesmo que isso que faz é literatura? E que eu sou mesmo tão santa como você havia previsto? Nunca ouviu falar em transgredir, não? Acha mesmo que essa sua vidinha regrada me satisfaria? Você sempre duvidou desse meu egoísmo, né? O que você pensa, que a felicidade é eterna, é? Que o gnomo do seu jardim lhe é fiel? Que todas as menininhas nascem virgens? Que o mundo é uma grande bolha rodeada de sexo, drogas e rock'n roll? Você acha mesmo que Freud é o senhor único da psicanálise? Tá, e você nunca ouviu falar em revolução? Que um único filme pode ser dirigido por mais de uma pessoa? E que um escritor nunca escreve um livro sozinho? Que a solidão é boa, sim, muito boa? O seu problema é não enxergar que o mundo é uma grande interrogação.

abril 12, 2004

Mudanças

Agora ele fechou os olhos. Quer ver o mundo com os ouvidos, para que aquilo que captar chegue mais rápido ao coração, assim como aquela canção que faz a gente chorar. Ver o mundo como uma canção. Faz a vida ganhar um sentido mais intenso, mais profundo, sabe? Como notas musicais que se adentram pelos poros, por qualquer orifício disponível.

Ele quer realizar o encontro da imaginação com a vida. Porque ele acha que a imaginação é o princípio da verdade. E eu, honestamente, acho que ele tem razão. Porque a razão é um dos combustíveis da vida. É, eu acho isso. Mas, que droga, ele não quer saber da razão. A razão, para ele, é conotativa. A razão, para ele, não é única e nunca vai ser. A razão têm várias caras, vários donos. Cada um sabe identificar a sua de olhos fechados. E ele permanece lá, se redescobrindo ao som do mundo. Consegue pensar em várias coisas ao mesmo tempo, como um cérebro feminino, como se sua alma fossem duas - uma feminina e outra masculina. E conclui que, de olhos fechados, qualquer homem nesse mundo é capaz de enxergar três mil vezes mais que de olhos bem abertos.

Ora, ora, ele consegue até conter lágrimas e sorrir. Sabe detectar a paisagem pela janela sem ver as suas cores e formas. Consegue até enxergar as várias feições ali presentes. E de olhos fechados. Ele está se redescobrindo, talvez, renascendo. Ainda não sebe quem são seus pais. Ele não deseja saber isso agora. Agora, não. Está provando a liberdade de forma digna. De uma forma não convencional, o que tem tudo a ver com sua personalidade. Sem desgastes, sem males causados, sem perdas, sem danos, sem sofrimento. E de pensar que se é possível renascer em conseqüência de um sofrimento. Chega a dar frio no estômago. Mas é um fenômeno maravilhoso comum a poucos. Igual ao Cometa Halley, que nem todo mundo teve ou terá a oportunidade de ver.

E o alívio? É possível ter noção do tamanho da cruz que foi tirada das suas costas. Por um instante dá a impressão de que ele não tem mais responsabilidades. Mas viver já não é uma grande responsabilidade? Sim, ser dono do próprio nariz, saber o que dizer e para quem dizer, saber pra que lado ir, o que ter, o que jogar fora e a quem recorrer. Ninguém é sozinho no mundo. O mundo é bem menor do que a maioria das pessoas imaginam. Ninguém é sozinho no mundo, nem que a companhia seja a própria consciência. Mas isso sendo radical demais, é claro.

Mas uma coisa é certa: ele ainda não é feliz de fato. Xiii, ser feliz de fato não é nada fácil. Minha vã sabedoria inexperiente diz que ele está no caminho certo. Não importa se de ônibus ou de táxi, mas ele está no caminho certo. Eu vou acompanhá-lo. Talvez não passo a passo, mas estarei junto dele em alguns momentos. No momento certo, eu estarei lá e tenha a certeza de que minha contribuição não terá sido miúda, não. É o que diz minha razão e acredito que a dele também.

abril 08, 2004

O significado da Páscoa
(Por Nova Manhã)

Nesse fim de semana será comemorada a Páscoa.

A Páscoa simboliza a alegria, o recomeço, a nova vida e o sentido do sacrifício.

Para os cristãos, a Páscoa celebra a ressurreição de Jesus Cristo, crucificado numa cruz para liberar os homens do Pecado Original. Por isso, além de símbolo da Páscoa, a cruz é o principal símbolo da religião cristã.

Durante a Semana Santa, ocorrem alguns rituais que representam a Crucificação, a Morte e a Ressurreição de Cristo.

Mas como é que a festa pela celebração da ressurreição de Cristo acabou se misturando com coelhos e ovos? Tudo começou há muito tempo antes de Cristo, com a Deusa da Primavera, Ostara. Os europeus faziam homenagens aos deuses para celebrar a natureza.

Já o povo egípcio, acreditava em um único deus e comemorava a Pessach, páscoa para os judeus. É a celebração do êxodo e a liberação do povo de Israel da escravidão do Egito. É um ritual de passagem, assim como a "passagem" de Jesus Cristo da morte para a vida.

Durante as comemorações da Pessach, Jesus foi preso, crucificado e depois ressuscitou. A Santa Ceia, na qual todos os apostólos se reuniram com Jesus, era um grande banquete de Pessach!

Para os judeus que mudaram de religião e passaram a acreditar em Jesus Cristo, a Pessach passou a ter outro significado: a data não deixava ninguém esquecer o sacrifício e o renascimento de Jesus. Para os cristãos, a celebração então passou a se chamar... Páscoa!

Depois da morte de Jesus Cristo, o cristianismo começou a se espalhar pelo mundo. Na Europa se deparou com os rituais pagãos.

Os cristãos difundiram os ensinamentos de Jesus Cristo aos pagãos, que foram deixando de lado os rituais.

Muitos aspectos das duas religiões acabaram se misturando. E aí, quando os ex-pagãos viraram cristãos, eles deixaram de comemorar a primavera para comemorar a Páscoa, mas levaram para dentro do cristianismo alguns símbolos que eles usavam em seus rituais, como por exemplo, o coelho!

O coelho era um símbolo superimportante nas comemorações pagãs de primavera. Antes de ser o coelho da Páscoa, era mais conhecido como o coelho de Ostara, a Deusa da Primavera. Com seus superpoderes de reprodução ele representava a fertilidade da primavera, que é a estação que mais nascem flores.

O coelho passou a representar a "fertilidade" da Igreja Católica e sua capacidade de "reproduzir" os fiéis e espalhar sua fé pelo mundo.

Assim como os coelhos, os ovos também simbolizavam o renascimento da natureza depois de um longo inverno.

A idéia de renascimento ficou, mas no lugar de "primavera", entrou "Jesus ", e o ovo passou a representar a ressurreição de Cristo.

Uma Feliz Páscoa para todos!

abril 07, 2004

Coisas que emocionam

Não sei como e nem por que me veio à cabeça tais palavras. Estou aprendendo a gostar de poemas agora, já grande. Tenho muito que percorrer. Mas já tenho meus favoritos, acreditam nisso? Sim, é dele mesmo: Mário de Andrade. Um dos melhores poemas já identificados por minhas vistas míopes e sei lá mais o quê. Ah, tenho que compartilhá-lo com vocês! Poema é como música e a gente nunca sabe por onde ele toca nosso coração. Chega por algum caminho. Muitas vezes, as lágrimas também têm motivos desconhecidos. Aconteceu comigo. Não conti minhas emoções quando vi esse poema na minissérie Um só Coração, anunciando a morte do poeta Mário de Andrade há alguns capítulos. Já o conhecia, mas foi diferente. Espero que apreciem. E que se sintam. E que se emocionem.

Poemas da amiga
(Mário de Andrade)

A tarde se deitava nos meus olhos
E a fuga da hora me entregava abril,
Um sabor familiar de até-logo criava
Um ar, e, não sei porque, te percebi.

Voltei-me em flor. Mas era apenas tua lembrança.
Estavas longe doce amiga e só vi no perfil da cidade
O arcanjo forte do arranha-céu cor de rosa,
Mexendo asas azuis dentro da tarde.

Quando eu morrer quero ficar,
Não contem aos meus amigos,
Sepultado em minha cidade,
Saudade.

Meus pés enterrem na rua Aurora,
No Paissandu deixem meu sexo,
Na Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam.

No Pátio do Colégio afundem
O meu coração paulistano:
Um coração vivo e um defunto
Bem juntos.

Escondam no Correio o ouvido
Direito, o esquerdo nos Telégrafos,
Quero saber da vida alheia
Sereia.

O nariz guardem nos rosais,
A língua no alto do Ipiranga
Para cantar a liberdade.
Saudade...

Os olhos lá no Jaraguá
Assistirão ao que há de vir,
O joelho na Universidade,
Saudade...

As mãos atirem por aí,
Que desvivam como viveram,
As tripas atirem pro Diabo,
Que o espírito será de Deus.
Adeus.

abril 06, 2004

Filosofia dos Acontecimentos

Esta sou eu, parada na esquina
Do observatório da vida tentando entender tudo.
Aí está você, olhando pra cima
Sem entender nada.
Lá em em cima, os meus olhos
Bem ao lado da sua boca
Olhando para os seus pés aqui embaixo.
Eles estão na metade do meu caminho.
Ali na frente, nós dois
Atrás do futuro distante,
Bem próximo do que nos é real.
Quem sou eu?
Não sou Mario de Andrade
E também não sou Humberto Gessinger.
Eu sou um ser insistente
Esforço-me para permanecer ativo
Nas pontas do grande coelho de pelugem branca.

março 31, 2004

Começando pelo fim

Mania de começar pelo fim. Quem não tem curiosidade de saber o que vai acontecer no final? Como vai terminar a novela? E aquele filme, será que o mocinho realmente vai levar a melhor?

Essa característica é comum em todas as pessoas. A gente vive premeditando o que poderá vir depois. Vive com aquela curiosidade de saber se o romance vingará, se terminará o ano com dinheiro, se morrerá cedo e muitos outros “se”, que seriam suficientes para estender esse texto por mais umas quinhentas páginas. Tem gente que se rende às crenças de religiões africanas. Tem gente que prefere os costumes ciganos e tem gente até que acredita em dons sobrenaturais. Será que é bom viver correndo atrás do que acontecerá? Vai depender da circunstância, mas não deixa de ser um comportamento inevitável. Eu vejo isso de forma positiva quando nos permite o estabelecimento de metas, quando parte de um planejamento pessoal ou até mesmo profissional. Agora, a partir do momento que há o desprendimento do foco principal, dos verdadeiros objetivos, imaginando apenas o que poderá ser o final, pode sim senhor trazer prejuízos catastróficos. É preciso saber se policiar.

Em muitos momentos, nos atentamos ao final dos fatos e acontecimentos involuntariamente. Eu, por exemplo, tenho uma mania peculiar de, sempre que iniciar a leitura de um novo livro, ir direto à frase final. Se estraga a surpresa? No meu caso, não. Primeiro porque, saber do final desconhecendo o contexto, é irrelevante. E, depois, sempre acabo sendo absorvida pelo contexto e, conseqüentemente, esquecendo do final. Isso quando o destino não decide colaborar e o final acaba sendo o início por conta própria. Acabo de ler o livro 1933 foi um ano ruim, de John Fante, e descobri que ele foi publicado pouco antes de sua morte, no ano de 1983. Como é o segundo livro que leio do autor, não é mentira afirmar que iniciei a trajetória literária a la Jonh Fante pelo final.

Ainda no meio literário, no final do ano passado, ganhei o livro A Ditadura Derrotada, de Elio Gaspari, último livro da trilogia que completa-se com A Ditadura Escancarada e A Ditadura Envergonhada. Tive, claro, a opção de substituí-lo na livraria por qualquer um dos dois primeiros, mas optei por não fazê-lo. Mais uma vez, impulsionada pelo "ímpeto do que ocorrerá no final", resolvi iniciar minha leitura por meio das últimas conclusões do autor em relação à ditadura militar no Brasil. Comecei pelo último ciente de que, neste caso, a ordem dos fatores não iria alterar o produto. De súbito, fui atingida por uma dupla curiosidade: a de conhecer a visão de mais um jornalista a respeito deste drástico período político e a ansiedade de saber como foi que Elio Gaspari finalizou o terceiro fruto após anos de estudos, de coleta de depoimentos, aprendizados, e concepções de amizades, conforme o livro ilustra muito bem. Conclusão: independente de começo, meio ou fim, iniciei uma leitura prazerosa que poderei comentar mais a fundo em uma outra ocasião.

Continuando essa minha reflexão, certa vez, li um texto do ilustre Charles Chaplin que dizia algo sobre como a vida deveria ser iniciada com a velhice, quando já passamos pelas experiências de uma vida inteira, aprendemos, choramos, perdoamos, seguindo pela juventude, quando normalmente desfrutamos o que de melhor a vida nos oferece e sendo finalizada com um belo gozo, o momento da nossa concepção. Trata-se de uma teoria bastante interessante, fruto daquele nosso sentimento de saber antecipadamente no que vai dar a caminhada e em concluí-la em grande estilo.

Mas há algo realmente muito importante nesse pensamento. Existe, nisso tudo uma esperança, um otimismo, uma torcida pelo bem sucedido, seja lá o que ele for. E, se o fim é a felicidade, por que não começar por ele, ou melhor, por ela?

março 29, 2004

Por favor, aceite!

Você me viu sorrir e me disse para não sonhar. Disse que aquilo era aquilo, o ali, o agora e que de nada adiantaria eu viver de ilusão. Eu entendi, sério, entendi.

Então, você me ofereceu a sua verdade e eu aceitei. Todos os seus planos, os seus projetos . Vesti-me dos seus objetivos e não me importei se estava na moda ou não.

Aceitei a sua falta de possibilidades e até mesmo quando sem querer você não disse nada, nem que sim nem que não, eu aceitei.

Você me puxou para dentro do seu mundo e eu tirei os sapatos para entrar em você.

Eu conheci o Natal e aprendi a esperar e a prosperar. Entendi quem vinha primeiro e não me importei – respeitei as suas satisfações e ignorei o seu passado. Mais que isso: eu aceitei.

Engoli o tédio, inventei domingos, encontrei minha fé.

Chorei ao seu lado, lamentei as dores do mundo e não medi sacrilégios.

Compreendi o meu destino e resolvi encarar os seus desafios. Como recompensa, desvendei o enigma e aceitei. Simplesmente aceitei.

Aprendi a destruir o mal, a apreciar a vida e a amar as pessoas. Descobri que precisava delas, das suas felicidades e exaltações.

Deixei que você me conduzisse, fosse o meu guia, a minha bússola em mar aberto, em plena tempestade.

Aceitei tudo o que você me ofereceu, sem me preocupar se aquilo me deixaria pobre ou não.

Aceitei você, a sua pretensão e não me importei. Seus desejos foram os meus desejos e seu suor era formado pelas minhas lágrimas, que se escondiam em meio às suas alegrias. Não me importei.

Mas isso eu não aceito. Sério, pode levar. Leva, leva embora com cuidado. Não deixe cair, não deixe transbordar porque isso é perigoso. Sei que não é secreto e eu vejo isso. Mas não quero e queria que você entendesse. Eu aceitei você e só queria que você me aceitasse.

(Letra "proseada" da música Virtude de autoria do Francisco Lima, conforme desafio proposto em uma discussão sobre a aproximação da música com a literatura)

março 24, 2004

Quem nunca causou na vida?

Andei causando, sabe? Sim, causando, do verbo causar. Provoquei. Sempre faço isso. Hum, por quê? Ah, porque é assim que sou. Em casa, no escritório, na rua e na internet. Sim, na internet. Tenho causado bastante por aqui. Tem um montão de gente querendo me pegar de jeito. Por que causei? Nada demais, fui defender Caetano e Gil, só isso. Não, não me interessa a conta bancária deles, se andam embolsando do governo, se colocam no mundo filhos inúteis, nada disso. Não agora. Interessa sim sua herança musical. Se não são tão bons quanto antes também não me interessa. As pessoas mudam, sabia? Umas para melhor e outras para pior. Ninguém passa mais que vinte e quatro horas exatamente igual. Não, não passa. Brasileiro tem memória curta, esse é o meu problema com as pessoas. Se já fiz isso antes? O que, causar na internet? Sim, sim, já fiz. Há um tempo atrás arrumei uma puta confusão com um pessoal aí. Fui defender a Clarah Averbuck no blogue da GNT. O que eu estava fazendo lá? Lendo a crônica da Clarah, lógico. Um montão de gente não entendeu nadica de nada do que ela escreveu e lá fui eu, pintando de advogada e professora ao mesmo tempo. Professora eu sou e, involuntariamente, estou apresentando grandes sintomas de advogada. O que a Clarah disse? Ah, ela disse que blogueiros não são escritores e que, nem sempre, escritores são blogueiros. Sim, escritores têm blogues. Conheço um montão. Mas blogue é um espaço particular e cada um faz dele o que quiser. Não é exclusivo da literatura, entendeu? Tudo bem, não quero discutir isso de novo. Sim, a Clarah é polêmica. Todo mundo é quando defende sua causa. Estou mentindo? Não é todo mundo que gosta dela. Não é todo mundo que gosta de mim também. O que ela acha das críticas? Nada. Ela não opina sobre isso. Faz bem ela. Sim, ela me disse isso uma vez. O que ela achou da minha opinião? Não achou muito, não. Deve ter caído da cadeira de tanto rir das asneiras que escrevi. Sim, escrevo asneiras, sabia? Nunca percebeu, não? Você precisa rever seus conceitos. Eu revejo os meus todos os dias. O Alê que fica nervoso quando não consegue mudar minha opinião. E ele quase nunca consegue. E eu também não mudo a dele, exceto em assuntos profissionais. Aí, não sei se por ética ou por ele realmente concordar. Ontem, mandei uma crônica do Zuenir Ventura pra ele e você tinha que ver, ficou uma fera. Não, comigo não. Com o Zuenir. O Alê não gosta dele. Ele não gosta dos colaboradores, só dos jornalistas por formação acadêmica. O que o Zuenir fez? Nada demais. Só criticou o despreparo de certos estudantes de jornalismo, ilustrando com um fato que ocorreu com ele. Mas não agiu ilicitamente, imagine. Ele não citou o nome do estudante que o entrevistou, apenas citou trechos da entrevista. Ele criticou a instituição e não o estudante. O Alê disse que ele não tem o direito de fazê-lo porque não é jornalista. Só os jornalistas podem falar de jornalistas? Disse ainda que a crônica foi plágio de idéia da Raquel de Queiróz. Até me mandou a crônica dela, a qual ele se referia. Muito bem escrita. Mas não, não foi plágio. Na literatura e na comunidade jornalística não existe plágio de idéias. Imagine se só o Drummond pudesse falar de amor. E o Vinícius, o que seria dele? O que seria de todos nós? Eu, hein. É, o Alê não gosta mesmo do Zuenir. É o jornalista mais parcial que já conheci na vida. O Alê, não o Zuenir. Ele gosta da Ana Paula Padrão. Até tem a foto dela no papel de parede do computador dele. O que eu acho dela? Nada. Nunca consigo ver o Jornal da Globo. Acordo às cinco, sabia? O Alê é um cara sério e leva as coisas muito a sério. A gente briga muito, sabe? Mas eu gosto dele e de todos meus amigos jornalistas. Até tenho intenção de me tornar uma algum dia desses. Essa discussão foi verbal, em pleno escritório. A gente sempre faz isso. Não, não falo baixo. Nem ao telefone. Se tento falar baixo ao telefone, não dá certo. Sim, sempre fui assim. Uma vez fiz um escândalo na rua por causa de uma abelha. Odeio abelhas. Eu era uma criança comedora de hambúrgueres, sabe? Ainda sou. Estava na ladeira da granja com minha mãe, lá em Diadema. Era perto da minha casa e estávamos cansadas. Tínhamos passeado bastante pelo centro e estava um calor infernal. Detesto calor infernal também. Sabe criança que, quando se vê nessa situação, anda rapidinho na frente da mãe só para esperá-la sentadinha logo mais adiante? Então, cheguei na metade da ladeira e sentei esperando minha mãe, lá embaixo. De repente, senti uma picada. Uma picadinha mínima. Quando vi a abelha, ah, foi um escândalo só. Nunca subi uma ladeira tão rápido em toda a minha vida. Quando fui ver, tinham umas três vizinhas no portão. Uma tinha levado até um vidro de álcool para passar na minha perna. Abelhas! Sempre acontece isso comigo. Já contei que aprendi a andar de bicicleta por causa de uma abelha? Sim, foi na Praça da Moça lá em Diadema. Era uma Monark rosa. Nem era minha. Estava tentando quando, de repente, pousa uma abelha americana no meu anti-braço esquerdo. Foi terrível. Pedalava e assoprava ao mesmo tempo, tentando espantá-la. Ela lá, concentrada fazendo seu trabalho. Entrei em desespero total. Quando vi, tinha aprendido a andar de bicicleta e, oh, mal tinha aprendido e já estava pedalando sem as duas mãos. Cometi um assassinato abelhudo, não tenha dúvidas. De recompensa, fiquei com um calombo enorme no meu braço. Mas aprendi a andar de bicicleta. Sim, continuo tendo pavor de abelhas. Até o Vitinho ri de mim, acredita? Outro dia fomos ao Zoológico, um mês antes de começarem a matar os animaizinhos. Estávamos na praça de alimentação, só nós dois, sem as minhas duas irmãs para nos acudir. O Vitinho lá, concentrado na batatinha e eu mal conseguia olhar para o lado em meio a tanta abelha. Sem mais nem menos, aquela abelha intrusa resolveu invadir o meu suco passando sabe por onde? Pelo buraco do canudo. Ah, perdi as estribeiras. Saí derrubando tudo. O vitinho? Não, ele ficou lá, achando que eu estava fazendo graça pra ele rir. Depois disso, a mãe dele percebeu que não pode nos deixar sozinhos em um ambiente em que sobrevoam abelhas. Não, não pode. Se eu não trabalho? Sim, claro que trabalho. Tá vendo! Por que foi tocar nesse assunto? Estou sendo convocada para uma reunião. Deixe eu ir causar por lá também. Tchau.

março 20, 2004

Família

Eram três. Pequenos, com idade não muito diferente entre um e outro. Sete, oito e nove, talvez. É possível que seja menos também. Suas idades somadas e multiplicadas por três totalizam a intensidade do sofrimento que carregavam pelo corpo. Mas eram fortes. E eram crianças. E sabiam sorrir.

Não estavam sós. Caminhavam pela noite escura e fria a caminho de casa. Sim, certamente, tinham um lar. Os dois menores vinham um pouco atrás, comentando sobre o susto que tinham acabado de levar com os latidos fortes da fera presa. Feras que pegam de surpresa aqueles que dificilmente se surpreendem.

O mais velho ia à frente, pela direita, acompanhado pelo Grande Líder Destituído que vinha à esquerda. No centro, uma Grande Causadora. Tinha o triplo de sofrimento que os garotos e parecia que trocara os papéis: responsabilidade com eles e inconseqüência com ela.

Era carregada pelos braços dos que a acompanhavam, que garantiam seu andar descompassado em zigue-zague. Parecia que estava inventando uma coreografia. Mas a sua dança era feia. Despudorada. E assustava os espectadores. Os corações ali presentes enchiam-se de angústia, de milhares de questionamentos, os quais não dizem respeito a ninguém. Ou dizem?

Estava calada, a Causadora. O único som que se ouvia era do sorriso das crianças. E das lágrimas que pingavam dos corações ali presentes. Do desespero que não se podia calar.

Eram crianças. Sim, crianças. Quando chegassem em casa, não receberiam o jantar materno. Não receberiam ordem para tomar banho e nem para apresentar o dever de casa. Também não receberiam o beijo de boa-noite.

Mas eram crianças e sonhariam com os anjinhos e teriam para sempre a proteção divina.

março 17, 2004

Ler

Ler um livro é viver uma grande história de amor. Você convive dias (ou horas) com uma ou mais personagens, presencia os seus anseios, identifica-se com seus problemas, almeja suas alegrias, diverte-se com seu senso de humor, questiona sua chatice, chora por seus dramas e, muitas vezes, vê-se diante de um espelho. É uma relação profunda de entrega. Às vezes vicia e outras faz a relação ficar chata, monótona. Às vezes, desperta curiosidade e outras faz parecer apenas um dever, uma obrigação. Às vezes, faz você entrar em crise, ficar de mal. Então, a relação pode ser mais duradoura, porém, não muito freqüente. Mas sempre há um aprendizado.

Terminar de ler um livro nos remete a um imenso vazio. Depois de você se aprofundar na história e de sentir-se parte dela vem o momento da despedida. Você se sente como se houvessem mais aventuras a viver, mais o que aprender, rir e chorar. Sempre há. Vem aquela sensação de abandono, de solidão e de esperança, assim como os amores que chegam ao fim. E então, você corre atrás de outros amores, outros livros. E é tudo um círculo vicioso. E sempre há garantia de prazer, com mais ou menos intensidade. Fica a seu critério.

Ler um livro é tornar esse prazer eterno e ao seu alcance sempre. É eterno como os amores verdadeiros.
O Caso da Borboleta Dentuça

E também: cobra com patas, brocos (uma espécie de brócoles suprimido), nariz de peixe (ou seria peixe com nariz?), personal tremmmmmm e outros. Ah, você não assiste ao Big Brother? Então, tá! Quer saber? Sorte a sua.

março 12, 2004

A Loucura como uma tendência não indicada

Antigamente, taxavam as pessoas de loucas por motivo pouco. Bastava transgredir alguma regra e pronto: a justificativa era loucura. Hoje, as coisas não mudaram muito de rumo. Os loucos continuam nascendo, porém, para serem percebidos, são necessárias algumas certas estravagâncias. Loucura virou moda. Os grandões ditam e os pequenos acham bonito e mandam ver.

A moda mais louca do momento é matar. Sim, matar mesmo, mas em vez de matarem o preconceito, a fome e as desgraças em geral, preferem matar pessoas. PESSOAS. E essa moda, pasme, possui algumas tendências e tanto: é filho matando pais, pais matando filho, namorado matando namorada, neto matando avó e por aí vai. Mas tem uma tendência, meu amigo, que vou lhe falar! É a mais acentuada de todas as que citei até aqui e outras tantas que devem ter passado pela sua cabeça. Na verdade, essa tendência vem sendo ditada já há algum tempo, mas desde a última estação, a de onze de setembro, lembra? Então, desde esta estação, essa tendência ganhou força total e está aí, fazendo muitas cabeças e arrancando outras tantas. Louco, não? Que isso, loucura pouca é bobagem!

Dá para imaginar a força que uma tendência dessas tem, né? Lá no Oriente, tinha um certo reflexo mundial, mas apenas um reflexo, nada muito além disso. De repente, invade aqui, o Ocidente e deixa todos os resquícios de que será uma temporada, no mínimo, bombástica. Nova York como palco deixou os espectadores polvorosos e repercurtiu no mundo inteiro. Sim, foi marcante, até mesmo para os incrédulos e aqueles que nunca entenderam nadica de nada disso tudo.

Mas, como o berço da moda é a Europa, a próxima temporada não poderia oferecer essa desfeita. Desta vez, a passarela foi montada no dia 11 de março na Espanha. E, como era de se esperar, o mundo inteiro está comentando novamente. As pessoas, aquelas que criam seu próprio estilo de vida e que não gostam de seguir a moda estão chocadas. Eu estou chocada e você, certamente, também está.

Lamentos atrelados a convicções políticas e religiosas, indignações e perdas, muitas perdas. A loucura está falando mais alto que tudo isso e o prêmio oferecido é o medo. Eu disse oferecido? Mentira. É um prêmio imposto, entregue inesperadamente a milhares de famílias espalhadas pelo mundo. Essa tendência de que falo está mais que globalizada e parece que, quanto mais choca, mais ela cresce. Perdeu o controle. A loucura perdeu o controle e o rumo da razão. Essa loucura somente poderá ser vencida com outras loucuras: a esperança e a coragem. Essa moda maluca, definitivamente, não pode continuar roubando a cena. Eis aqui a minha proposta para mudarmos de estação e derrotar esse manicômio. Você vem comigo?

março 10, 2004

Fraquezas

Assumir fraquezas parece uma atitude um tanto quanto bucólica, né? É mais ou menos como assumir um grande pecado ou talvez um crime mal feito. Então, de repente, você se vê refém do mundo, das pessoas, das coisas, da sua própria vida. E, meio que sem perceber, você começa a subestimar os próprios conceitos, a desconfiar da capacidade de fazer, de ser, de fazer ser. E a vida parece fútil, injusta, reveladora de coisas jamais imaginadas e as pessoas, ora, as pessoas parecem monstros que tramam o tempo todo contra tudo e contra todos, contra você e, no primeiro momento de descuido, o espelho não mostra mais aquela velha imagem conhecida. Você não é você. A sua vida não é mais sua e passa a ser fruto de mãe e pai desconhecidos e você começa a acreditar que a sua vida jamais foi sua e nem de ninguém. A vida. Que vida? Tudo ao redor parece conspirar, tudo é do contra. O inesperado, o não desejado. Tudo o que você gostaria de mudar, de entender, de não mais crer. Esse “tudo” é manipulador, incontrolável. Não é ingênuo. Não é perfeito nem imperfeito. Tudo é errado, desesperador, incompreensível. Tudo, tudo, tudo não passou de um pesadelo. Não de conseqüências. Tudo foi um pesadelo, uma dramatização barata da sua mente perseguida. Talvez, algo que poderia ser, mas não é e não foi. Tudo pode ser resgatado, positivo, remodelado. A sintonia encontra a freqüência certa e a música passa a ser entendida. Nem cantada nem dançada. Apenas compreendida. E, mesmo com os cabelos bagunçados, com um gosto desconhecido na boca, com o cérebro disputando lugar com o coração, mesmo com aquele velho pijama que você tanto gosta, mesmo com excesso de claridade na face, você consegue abrir os olhos. E, devagar, começa a reconhecer o ritmo, o verde, o rosa, o azul e o branco.

março 08, 2004

Ser Mulher

Ser mulher hoje em dia é correr atrás, é ser (assim como o sertanejo), antes de tudo, forte. Ser mulher é ser fonte de prazer. É ser a peça chave para esse quebra-cabeça que é o mundo. Ser mulher é ter o dom de gerar vida, outras mulheres. Não, caros, não estou soando feminista demais. É impressão. Mulheres não existiriam se não fossem os homens e estes também não, se não fossem as mulheres. Homem e mulher formam um só e geram juntos a essência da vida, o alimento da alma: o amor.

Todo ser humano, independente do sexo, traz dentro de si uma essência feminina. Sim, todo mundo tem o seu lado mulher de ser e, por isso, desejo a todas as mulheres e a todos os lados femininos que circulam por aí, mundo afora, um Feliz Dia Internacional da Mulher!

março 03, 2004

A índole das criancinhas

- Sempre me guarde, me proteja, me ilumine, amém.

- Amém!

Houve um olhar repreensivo para a pequena Giulia ao pé da cama, que imediatamente completou:

- Amém, Papai do Céu!

As duas correram para debaixo das cobertas, com o acompanhamento da mãe, que ajeitou suas garotinhas acolhedoramente, com um leve beijo de boa-noite na testa de cada uma.

A mãe, por um simples comportamento de mãe, sentou-se na cadeira que estava ao lado e ficou por um instante observando suas crias, assim, com olhar de mãe, sem dizer nada. Foi interrompida pela curiosidade incontrolável de Nicole:

- O que foi, mamãe?

- Nada. Estava aqui pensando... Estive em Santo Amaro hoje e, na porta de uma loja havia uma família com um monte de criancinhas. Tinha uma, que estava no colo da mamãe dela, que chorava, chorava...

O olhos arregalados da Nicole, não apenas por curiosidade, mas, sobretudo, por sua essência infantil, virgem das maldades do mundo, precederam sua pergunta:

- Mas por quê?

- Ah, ela não tinha chupeta e a mãe dela não tinha dinheiro para comprar.

O siêncio tomou conta do quarto naquele momento, quando, inesperadamente, num ato terno e atípico nos dia de hoje, Nicole levou a mão à sua boca, pegou sua chupeta e entregou à mãe, em silêncio, sem a mínima necessidade de palavras. O silêncio permaneceu, até que a mãe o interrompeu:

- O bebezinho que estava chorando tinha mais cinco irmãozinhos. Assim, um pouquinho maior que ele...

Não precisou continuar. A pequena Giulia, sem muita certeza de sua decisão, porém, guiada pelo seu bondoso coraçãozinho, levou a mão até a chupeta, hesitou por um momento e entregou à sua mãe.

No meio daquela noite, a mãe teve seu sono interrompido com alguns leves chacoalhões. Abriu o olho lentamente e viu a pequena Giulia, que disse, meio sonolenta:

- Mamãe, você pode devolver a minha chupeta, por favor? A mãe do menininho que trabalhe para comprar uma chupeta pra ele, assim como a minha faz.

(adaptação de uma história narrada por um dos oitenta passageiros de um coletivo lotado, às sete horas da manhã de uma terça-feira ensolarada)

março 01, 2004

Vega no Centro Cultural

Mágica, assim é a música, quando toca o nosso coração.

De forma não menos mágica, sim, precedida por um belo espetáculo de magia, a banda Vega apresentou o seu incrível repertório, embalado pelo carisma e talento da vocalista, Claudia Gomes, acompanhada pelo profissionalismo mais que apaixonado da sua banda, domingo, 29 de março, no Centro Cultural de São Paulo.

Hoje, num momento em que a música deixou de ser protesto, deixou de ser paixão, deixou de ser música, são poucas as pessoas que resgatam o verdadeiro sentido de uma sonoridade harmoniosa, de cantar por talento e não por fama ou marketing camuflado. O Vega veio para nos dizer isso: que talento não se compra na esquina nem se pede emprestado ao titio, diretor de qualquer gravadora famosa. Talento vem da alma, do coração e só é revelado verdadeiramente se acompanhado por uma certa humildade e dignidade. Se não, não dura. Se não dura, não é talento.

Mas não é só talento que acompanha essa super banda. Acima de tudo, criatividade. Seus shows começam sempre de forma inesperada e peculiar. Quer ir ao show do Vega? Então, relaxe e vá porque, certamente, além da voz maravilhosa da Claudinha, que nos surpreende cada vez mais, sempre haverá outras surpresas nos aguardando. A desta vez, acreditem, resgataram o cantor Leo Jaime, que, em meio a tantos jovens, mostrou-se mais imortal que nunca.

E, em meio a um clima jovial, a uma união mais que perfeita do hoje com o ontem, a uma explosão de carisma, talento e criatividade, o Vega concluiu mais um super show, que ficará na memória dos que estiveram presentes para todo o sempre. E viva à nossa boa música nacional!