maio 28, 2004

Curriculum Vitae

Sou do tipo que adora um papo-cabeça, discutir a relação e ter o dom da discórdia. Não consigo ler em ônibus nem que a vaca tussa, detesto que sequer olhem para as minhas coisas em casa e não tô nem aí para os vizinhos que me chamam de metida porque eu gosto de economizar bons-dias pela manhã.

Até um tempo atrás, não admitia que falassem obscenidades na minha presença e levava qualquer briguinha aos extremos. Sou craque em interferir na educação do meu sobrinho-afilhado, mas sei que não sou um bom exemplo. Sou taxativa até o ponto de ter que liberar qualquer eletrodoméstico que ele queira fazer de brinquedo, para não ouvir pela centésima vez a Lala falando naquela fita: "de novo! de novo!". Urg! A "fita da Lala" é o efeito paralizante dele, mas eu prefiro mil vezes o Vitinho na sua versão original.

Tiro meus óculos para todas as refeições e não vivo sem meu walkman na bolsa. Deixo os meninos da tecnologia com os cabelos em pé quando meu Media Player apresenta qualquer sintoma de desconforto, e arranco inúmeras risadas no escritório quando penso que estou cantando em italiano.

Adoro quando as pessoas vêm ao meu lado perguntar sobre os personagens dos desenhos da Disney que ficam na minha mesa ou pedir qualquer indicação de leitura. Ou quando o Ryl me manda um texto incrivelmente interessante, perguntando minha opinião, só para gerar alguma argumentação inicial para o seu trabalho de faculdade.

Amo ir ao cinema sozinha em dia de semana, comprar pipoca para comer com sachê de pimenta e coca-cola, e ficar observando aquelas poucas pessoas presentes e a sala imensamente vazia. E depois, sentar na cafeteria do shopping para escrever após o filme. E no dia seguinte, comentar o filme e descobrir que minha opinião é diferente da de todo mundo, ignorando o fato de que os filmes que eu gosto não faz o gênero da maioria das pessoas que conheço.

Brigo com o Jackes todos os dias por e-mail e me descontrolo quando ele vem com o papo de que não vai me acompanhar a algum lugar porque não conhece as pessoas que estarão presentes. Mas morro de rir quando ele fica os shows inteiros identificando os artistas e seus acompanhantes, tentando me lembrar de seus personagens nas novelas. Acho que ele seria um ótimo "fofoqueiro".

Já tentei gostar de futebol, mas não levo jeito. Quando um menininho de cinco anos tentou me explicar o fenômeno do escanteio outro dia, fiquei fascinada, agarrei ele e tasquei-lhe um beijo. Aquela criaturinha que entendia de futebol tanto quanto o Pelé era simplesmente incrível. Igualmente fascinada fico quando um bando de marmanjão começa a discutir com o juíz (como se ele fosse ouvi-los lá de dentro da tela plana, 29"), dizendo que o tal fenômeno ocorreu, quando o homem de preto insiste em dizer o contrário. Fato esse que eu teria dificuldades para entender mesmo por meio de uma análise digital minuciosamente representada por gráficos e com a certeza de acontecimento assinada pelo Papa.

E ainda assim, sou obrigada a ouvir de certas pessoas o quão chata que sou. Alguma vez eu disse o contrário? Faça bom uso do meu currículo aquele que decidir me encarar.

maio 27, 2004

Ela por Ela mesma

O frio lá fora continua. E é bom porque se você estiver com a cabeça quente, basta abrir a janela.

O horóscopo diário insiste em afirmar a tal da racionalidade, que até agora eu não tive paciência para compreender. Paciência! Porque até agora eu também não entendi o porquê de ler essas palavras todos os dias, assim, como uma religião. Espera aí, mas não é uma religião? Talvez seja. Mas no fundo, no fundo é uma tentativa de prever o futuro, de saber o que os astros reservam e essas baboseiras todas. E eu, tão racional, como ele diz - o horóscopo - ignoro o fato de como um astrólogo lança algumas palavrinhas e essas palavrinhas servem para traçar, desvendar, ou seja lá o que for, o destino de milhares e milhares de pessoas do mesmo signo, dizendo o que acontecerá ou como elas estão se sentindo, assim, tudo ao mesmo tempo, como se todas as pessoas fossem iguais.

Um tanto quanto curioso, não? Tudo bem, nem posso falar muito porque sou rendida a essas palavras todos os dias e, não sei se verdade ou coincidência, sempre acabo relacionando algum fato ou acontecimento da minha vida a elas. É impressionante, mas elas sempre acabam desvendando meu estado de espírito. Vai ver são palavrinhas estratégicas. Ops! Acho que acabo de descobrir a minha tal racionalidade.

Quer saber? Acho que eu sou racional mesmo. Sou do tipo que acorda de manhã e antes mesmo de sair de casa já consigo saber se o meu estado de espírito será chato ou chatíssimo. Peraí, você também deve fazer isso. Tá, mas duvido que logo cedo você mande um e-mail ao seu melhor amigo avisando-o para não encher a sua paciência porque você não está num bom dia. Tudo bem, isso pode simplesmente não ser racional e sim um sintoma da sua chatisse incontrolável. Ou melhor, da minha.

Você aí deve estar pensando que estou assinando minha sentença de monstro, insensível e destruidora de corações. Não, meu amigo, não é nada disso. Sou até sentimental demais, se você quer saber. Choro até com final de novela e, dependendo do dia, meus olhinhos enchem-se de lágrimas ao ver um cachorrinho largado na rua. E eu nem gosto tanto de cachorrinhos assim. Isso é sinal de inconstância, aliás, característica também identificada pelo horóscopo. Se você for um bom observador, deve ter percebido essa falta de ritmo aqui no Proseando. E então, agora você quer falar de quê?

maio 22, 2004

Arrumação

A atenção que este blogue merece demora a chegar. Não, ainda não chegou. Eis apenas uma tentativa. Declaro inauguradas duas novas seções: a primeira, "Falando em Prosear...", foi criada há algumas semanas. No índice, vocês encontrarão alguns sites que falam de literatura cientificamente. Tenho uma nova listagem a inserir, mas está no computador do escritório. Prometo que disponibilizo em breve. A outra seção, "Prosas Musicais", traz sites oficiais de uma galerinha nova que vem surgindo por aí, promessa de sucesso. Destaque para o Vega que vocês já conhecem e para a Danyela Gato, que eu já acompanho há um tempinho, especialmente em suas apresentações no Pão com Manteiga, um simpático bar da região da Paulista. Com o passar do tempo, pretendo disponibilizar outros sites de pessoas que admiro, sim, pois assim como a literatura, a música também é uma grande paixão. Para finalizar, criei vergonha na cara e inseri mais alguns blogues amigos e outros que ainda não são. Espero que gostem e apreciem!
Domingo

Domingo,
Tristeza ao contrário
Dia Fútil
Dia útil

(caso alguém conheça o autor, fique à vontade para mencioná-lo)

maio 19, 2004

Eu vi, eu fui

A rá, eu estava lá!

E presenciei muitas coisas engraçadas. Vi a Camila se declarando para o Bruno de Luca, dizendo que ele era o ídolo dela desde a época da Malhação e quase morri de rir. Como se não bastasse isso, vi ainda a pentelha da Camila pentelhando os pentelhos do Pânico na TV, que não se continham em suas pentelhices. Vi também meu diretor abordando, e deixo bem claro que no bom sentido, a Maryeva, quando ela passou pela gente a caminho do camarim. Sim, vi as figuras mais esdrúxulas do meio artístico transitando pela Via Funchal. Lembram-se do Fly, dançarino da Xuxa, integrante do You Can Dance? É, ele não fez nenhuma performance, mas marcou presença. Fora algumas modelos loiras e peitudas que, nem mesmo se minha memória funcionasse corretamente, eu lembraria os nomes.

Sim, eu compareci à cerimônia de premiação iBest 2004 e ainda estou sob efeito do excesso de prosseco ingerido, o qual levou os mais sãos dos meus sentidos. Por isso, não liguem caso esse texto também comece a não fazer sentido algum.

A empresa em que trabalho concorreu à categoria fidelização pela academia e pelo júri popular. Não, não ganhamos. E nem vou adentrar no universo do "tudo muito estranho", para não nos estressarmos, ok? Sim, muito estranho como o maior site de fidelização da América Latina não leva, e a patrocinadora do evento abraça todos os prêmios que concorreram, inclusive o de fidelização. E nas duas categorias! Oh, não vou me adentrar.

Um ponto interessante que, particularmente, considerei um dos mais altos foi a premiação na categoria blogues. Peraí, não é empolgação demais. Afinal, estamos falando de um dos maiores prêmios de internet no Brasil. Vá lá que pode ter as suas particularidades, mas merece o nosso apreço. O blogue "Garotas que dizem Ni", que está aí ao lado, era um dos concorrentes e o meu favorito desde a época do Top 10. Foi o máximo ver suas criadoras, Clara McFly, Vivi Griswold e Fla Wonka, ao vivo e a cores. Pena que também não levaram, mas o reconhecimento que receberam com a indicação e tudo o mais foi válido, com certeza. Além disso, o fato de colaborarem para firmar ainda mais a categoria blogueira é um prêmio para todos nós, que prezamos por coisa de qualidade nessa internet de meu Deus. Parece papo de feminista, petista, ista, ista. Mas que mereciam a vitória, isso mereciam!

Mas tudo bem, ano que vem tem mais. Quem sabe o nosso humilde Proseando não marque presença? E quem sabe ainda, esta que vos fala saia de lá num estado, digamos, menos acoolizado? Tudo é possível.

maio 17, 2004

Notas

O frio resolveu aparecer aqui na Metrópole Desvairada. Não que isso seja um grande problema para os paulistanos. Muito menos para aqueles que passam 80% do dia dentro de um escritório, geralmente na parte mais alta de algum edifício, onde a vista para o lado externo dá a impressão de que é sempre noite e, claro, o ar condicionado na temperatura dos 18 graus suportáveis.

Não é nada incomum você sair na rua em plena manhã de verão e flagrar pessoas com blusas de frio entre seus pertences e, lógico, um guarda-chuva. Porque assim como o trânsito, nessa cidade o tempo também é imprevisível. Mas desta vez a culpa não é da imprevisão. E nem mesmo estamos no verão. Ouvi dizer que é reflexo do tal ciclone que apareceu lá pelas bandas do sul do país. Para pessoas como eu, que curtem um friozinho na espinha, é maravilhoso. Mas, para aquelas que fazem jus às belas praias do Brasilzão e, claro, do astro-rei brilhando lindão lá em cima, vou te contar. Deve ser um martírio. Mas o bom de tudo mesmo é que vivemos num país tropical e que o clima agrada igualmente a todos, não é verdade?


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Três comadres resolvem sair de casa na tarde de um domingo qualquer com destino ao teatro. Em decorrência da super lotação não prevista, os planos passam por uma pequena adaptação e o destino as levam a uma mega exposição fotográfica. De repente, as três, que não entendem nadinha de fotografia (uma delas tem dificuldade até de se auto-reconhecer num retrato), se vêem nas principais ruas de Sampa em pleno século XIX. Sob a vertente iconográfica introduzida pela ótica de grandes fotógrafos, elas realizam um passeio por São Paulo desde a época em que era um tímido vilarejo, captando cada aspecto que fez da Terra da Garoa uma grande metrópole. Cada fator determinante para o crescimento populacional de São Paulo e sua evolução do ponto de vista moderno e social deixou as garotas de queixo caído. De queixo mais caído ficaram, quando saíram daquele universo do tempo dos seus avôs, provavelmente, e se depararam com a Avenida Paulista linda e acolhedora como sempre. Mas vazia, não se esqueçam disso. Era um domingo. Como acabou? Num bar ali perto, num longo bate-papo de comadres, regado a chopp e chocolate quente porque, afinal, os corações ali eram paulistanos. Se você ficou com vontade, as três recomendam: São Paulo, 450 anos - A imagem e a memória da cidade no acervo do Instituto Moreira Sales. (Galeria de Arte do Sesi - Av. Paulista, 1.313 - São Paulo - SP).


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Se você acha que isso aqui está parado demais para o seu gosto, a alma do outro lado do seu monitor, a milhões e milhões de giga bytes luz, adverte: tenha paciência e muita fé, pois uma hora ela conseguirá ter o mínimo de organização possível e pelo menos dar a impressão de que as coisas estão caminhando no ritmo recomendável. Vejam bem: ela disse "recomendável".

maio 09, 2004

Mãe

Nesta data especial, aqui, representando todas as mães do mundo, e em especial a minha: Dona Isa.

A elas:

Amigas. Colegas. Às vezes, desconhecidas. Outras, irmã mais velha...

Mães em todas as ocasiões.

Seres especiais. Pedacinhos do coração de Deus. Presentes do Pai.

Sinônimo de esperança.

Força em pessoa.

Resposta para todas as perguntas.

Em cada lágrima. Em cada olhar. Em cada sorriso.

Amor. Fraternidade. Compreensão.

Nem que eu buscasse todos os adjetivos do mundo,

Nem que eu dominasse de todas a línguas: latinas, ocidentais, orientais,

Nem que eu tivesse a sensibilidade de Maria, mãe de todas as mães e de todos os filhos,

Nem mesmo assim, conseguiria traduzir em palavras o significado de

Mãe, palavra intraduzível.

Que as nossas mães tenham um lindo Feliz Dia das Mães!

maio 07, 2004

Meu lado esquerdo

Meu lado esquerdo do cérebro não funciona muito bem. É essa a justificativa que ofereço às pessoas quando fica explícito o quão avoada que sou. Não é uma justificativa inventada, pode acreditar. Também não sei se é plausível dizer que é aceitável, uma vez que eu não entendo nada de questões cerebrais ou coisa parecida, exceto a parte que justifica a insanidade humana, para a qual eu também contribuo e de forma bastante ativa. Se você, meu caro amigo, está achando isso um tanto esquisito, não ache. Lembre-se daquela velha e sábia frase do Caetano Veloso: "de perto, ninguém é normal" e a normalidade passou longe do meu planeta, tenha a certeza.

Quanto ao lado esquerdo, atribuo a justificativa a uma queda que tive aos três anos de idade, o que me coube uma fratura no lado direito da cabeça. Como existe a teoria de que o lado direito do cérebro comanda o esquerdo e vice-versa, adaptei essa lógica à minha problemática. Vai dizer que não faz sentido?! Se restaram seqüelas? Hmm... você tem alguma dúvida?

Pois bem, eu não tenho nenhuma. Para captar esse meu grau de loucura foi muito simples. Bastou mais uma vez acabar as pilhas do meu walkman para que eu me colocasse a refletir sobre a vida. Como? Simples e, se quiser, você também pode tentar. Pegue um dia da sua vida, apenas um dia, e trace sua trajetória. Tente, vá fundo. O meu dia escolhido rendeu ótimos resultados e muitas, mas muitas trapalhadas. Mas o pior de tudo foi descobrir que minha memória definitivamente não está compatível com meus quase 22 anos de idade. Não, não está mesmo.

Imagine você acordar as cinco da matina, tomar aquela ducha demorada para refrescar o tico e o teco e começar o seu dia com, não um, mas vários esquecimentos. Primeiro, depois do café da mama, peguei meus pertences e, quando cheguei ao portão, com um singelo toque na face percebi que estava sem meus óculos. De início, você até tenta se imaginar no escritório, na frente do computador sem eles e... não, não dá. Então, você sobe as escadas, caminha xingando a si próprio como uma autopunição, chega até a sua escrivaninha pensando no que raios você foi fazer ali mesmo. Ah, sim, os óculos. Apanha sua visão para o mundo exterior e ouve de novo todas aquelas recomendações de mãe. É engraçado porque todo dia é a mesma coisa, sem mudar uma vírgula: “vai com Deus, minha filha, tenha um bom dia, cuidado na rua com esses malucos, não chegue tarde...”.

Quando finalmente você chega ao portão novamente, não consegue passar para o lado de fora porque esqueceu as chaves. Oh, as chaves. Não adianta, desta vez, larga os pertences em cima de qualquer coisa e repete o percurso outra vez. Só não repete os mesmos palavrões pela milésima vez porque quando chega na porta se depara com sua mãe com as danadinhas na mão. Só resta rir da própria desgraça mesmo. Se você acha que este curto período matinal acaba por aí, está redondamente enganado. Depois de sair na rua e chegar ao ponto para pegar o coletivo, você percebe que alguma coisa está estranha. Não, não foi o passe que esqueceu em cima da escrivaninha. Parece ser algo mais importante. Mas, tudo bem, você apanha outro passe na bolsa e finalmente senta-se no banco altão que está lá todos os dias à sua espera.

O astro-rei brilhando e você, compenetrada, testando várias pilhas usadas jogadas na bolsa, tentando adivinhar se conseguirá concluir a viagem mantendo-se a par do noticiário do dia e, claro, daquela bela trilha sonora ou não. Mal sabe. A avenida Interlagos com aquele trânsito que faz qualquer um desejar ter o dom de poder se teletransportar. O coletivo tão lotado que faz você sentir remorso por estar sentado enquanto tantas pessoas estão em pé e as horas, vejam só, as horas voando. Isso sem contar que você ainda tem que enfrentar a avenida Berrini e o mau humor do motorista que nem iniciou o dia e já está estressado com o trânsito da cidade. Você olha para o relógio que, por algum milagre está no seu braço, e percebe então o que de tão importante havia esquecido. Sim, ele mesmo, o celular. Um dia sem celular. E você nem sequer pode dar uma ligadinha básica no escritório para avisar que não chegará trinta ou quarenta minutos atrasada como é de costume, mas sim uma hora. É, uma hora inteirinha, com todos os 60 minutos que lhe cabe. E, quando finalmente chega, percebe que o mocinho que chamou para a entrevista está à sua espera desde as oito horas e lembra-se, que maravilha, que de lá há exatamente 30 minutos tem que estar na avenida São João para um treinamento, cuja apresentação você esqueceu-se de pedir para gravarem em CD. Resta então você liberar um belo sorriso para descontrair e se conformar já que, bom, pontualidade nunca foi o seu forte mesmo.

Se você gostaria que as trapalhadas do dia terminassem por aí, na parte da manhã, fico feliz pela parte que me toca, mas não. Elas continuam durante o dia todo e, partindo dessa minha reflexão, não encontro outro diagnóstico senão, admitir que meu caso de fato é crítico. Então, finalmente começo a entender o porquê daquela franjinha de post it’s amarelos ao redor do meu monitor, sem contar os post it’s virtuais multicoloridos e adaptados com vários alerts na minha área de trabalho. Ah, agora eu também compreendo porque a minha mãe me acompanhou até o quarto outro dia, quando estava me preparando para dormir, só para avisar que eu estava usando óculos, morrendo de medo de que eu fosse dormir com eles e furar a vista com os parafusinhos. E ainda quando eu saio de manhã e, quase sempre, ela me acompanha fazendo um questionário: “está levando guarda-chuva?”, “o cheque do seu irmão?”, “não está esquecendo de nada?”.

Agora, pode falar: você acha que, depois de tudo isso, existe alguma chance do meu lado esquerdo exercer algum auxílio para o direito? Hum, hum, meu amigo. Negativo! O meu lado esquerdo realmente não funciona.

maio 05, 2004

O Jardim da Alienação

Enclausurada. Não apenas naquele lugar, mas dentro de si. Era assim que se sentia. Bem. Todo mundo dizia que aquilo tudo era para o seu próprio bem, a ponto de ela já não saber o que era bom e o que era ruim. O positivo e o negativo já não eram reconhecidos. Aprisionada num mundo desconhecido e tudo porque simplesmente quisera assim. Porque um dia acordou e nada mais fazia sentido. À sua volta, todos com o mesmo olhar. Sem aprovação, mas também sem repreensão. Cada ato, cada procedimento, cada gesto e cada contato era parte de um tratamento imposto. Pré-estabelecido. Necessário.

Longe de si, longe dos outros, de tudo, de todos. Não dominava suas vontades, não mais identificava os seus sentidos. Era escrava de algo desconhecido. Um instinto. Uma dominação que nascia sabe-se lá de onde, sem motivo, sem razão. Uma força que se apoderava assustadoramente partindo das entranhas da sua alma. Sim, uma necessidade sem razão de ser, apenas monstruosa. A condição que, cada vez mais, a afastava de si mesma. O vício. Ela era escrava do vício.

Ali, sentada, ela não enxergava e não ouvia. A única consciência era do que que estava por vir, mas mesmo assim não entendia. Aquilo tudo era forte demais para a sua essência. Não, ela não poderia fugir, mas não hesitava ao tentar. Levantou-se devagar, lançando um olhar insano para todos os lados. Que pena, não tinha noção do belo jardim que estava à sua frente - o jardim das mais belas flores do mundo. De repente, viu-se correndo e não percebia que esmagava as flores, uma a uma. Tentava uma fuga desesperada. O corpo formigava por inteiro, as mãos sobre cabeça, como se aquela dor fosse arrancada junto com cada fio de cabelo vermelho. O olhar, imcompreensível. Os olhos, sim, cobertos de lágrimas de desespero e gritos incontrolados que despertavam a atenção de qualquer um. O pavor no seu rosto parecia contagioso. Corria desnorteada, destruindo casa pétala de flor. Estava ensandecida. Nenhuma explicação plausível. Por um segundo pareceu entender o que acontecia. Mas não. Nada tinha explicação.

Uns cinco seres vestidos de branco em cima dela. A razão controlando a loucura. Na linguagem deles, ela estava sendo imobilizada. Na linguagem dos que pensam entender, estava claro que o líquido injetado nas suas veias era apenas mais uma dose de insanidade. Hipócritas os que pensam ser calmante. O seu corpo recebia agora um aditivo para impulsionar a sua perda de memória recente. Um auxílio para fugir dos problemas. Para continuar não entendendo nada. Para, no dia que encontrar alguma certeza na vida, certificar-se do nada. Perdia os sentidos, de fato, lentamente. Não precisaria sair dali algum dia para encontrar o nada. O nada fora mais rápido.

Quando finalmente abriu os olhos, percebeu-se sozinha no quarto. Serena. Tranqüila. Quem ousasse dizer que acabara de despertar de um pesadelo seria taxado como o maior infame do mundo. O nada ainda estava em sua mente. Levantou-se calma e caminhou cuidadosamente até a janela. Impulsionou a pequena fresta e deparou-se com um majestoso jardim. Lírios brancos em meio a rosas azuis. Cantos variados de pássaros invadiam os seus tímpanos e uma espécie rara de borboleta pousou ali perto. Não, ainda não era a liberdade.

maio 04, 2004

Fútil

Então pra você a homossexualidade é uma questão de contracultura? Sei. Assim como a Aids deve lhe parecer uma tendência comportamental. Ou uma escolha, como preferir. Algo como quando você acorda de manhã e diz "hoje quero ser gay" ou "hoje quero ser aidético". Isso sem a necessidade de afirmar o que realmente você de fato é ao expressar determinados pensamentos. Nem vem, porque determinados pensamentos não são absolvidos pela liberdade de expressão. Se você não entendeu, aqui eu faço as regras. E, só para deixar ainda mais claro, meu senso de defesa não é necessariamente a minha essência.

abril 30, 2004

Os Criadores e a Criatura

Loucos. Descabelados. Solitários. Você reconhece essas características? Hmm... deixe-me ajudá-lo. Você tem ido ao cinema ultimamente? Se sim, deve ter percebido explicitamente a forma como os cieastas vêem os escritores. Sim, até mesmo aqueles que são sucesso de mídia. Todos têm traços de loucura - quando não no porte físico, são facilmente identificados nos aspectos psicológicos das personagens. Todos, em determinado momento, se descabelam por alguma coisa, isso quando não são descabelados visualmente falando mesmo. Chega a dar medo. E todos são solitários, é impressionante. Parece até que é uma taxação prioritária. Quando não são vítimas do divórcio, são figuras focadas no trabalho e não disponíveis para qualquer aventura amorosa (quadro que muda só no final do filme, lógico), ou, são homossexuais do tipo frustrados e desgraçados pela vida.

Além do mais, parece que é moda abordar personagens escritoras nos filmes ultimamente. Não que eu ache ruim, muito pelo contrário, me divirto e muito, mas que isso chama a atenção, ah... chama. E desperta atenção também, além das três características básicas que citei há pouco, os vários perfis de escritores que nos apresentam. Até pouco tempo atrás, minha visão de escritor era um vovozinho ou uma vovozinha de cabelos bem branquinhos, com aqueles óculos redondinhos e com aquela carinha que dá vontade de apertar de tão fofa. Isso, claro, até eu quebrar a bolha que me protegia das coisas boas da vida e conhecer uma rapaze que deixa de cabelo em pé qualquer tipinho simpático dito literato tradicionalista. Hmm... vocês nunca ouviram falar da Geração 90 de escritores, certo? Não sabem o que é o humor bombástico do Marcelino Freire? A visão mais que naturalista da vida pelos olhos de Clarah Averbuck? A "fama transgressora" de Nelson de Oliveira? A criativa linhagem poética de Fabrício Carpinajar? Sem falar nos muitos e muitos talentos que esse texto não comportaria... Se não conhece, nem preciso fazer convite, certo?

Pois bem, o protótipo de escritor abordado pelos cineastas e aquele que o ensino de litetatura na escola nos oferece é completamente diferente, diante do que realmente é o que escreve a história da nossa geração atualmente. Mais do que loucos, descabelados e solitários, temos gente com sede de juventude, de criar novas frentes de discussões, de admitir que estamos em pleno século XXI e que temos que escrever a realidade nessa nova linguagem, falar de geração para geração. Não falo aqui de transgredir regras gramaticais, de transformar a língua materna numa linguagem chula. Falo língua materna porque essa evolução de que trato não é apenas brasileira. A literatura possui um elo mundial globalizado. E, acreditem, não falo somente de adolescentes de classe média com piercings and tatoos que decidem embrulhar pra presente suas aventuras sexuais e narcóticas e oferecerem à mídia para, então, transformar-se naquilo que todos nós já sabemos.

Certo, não é novidade que cinema e mundo real não são a mesma coisa. O cinema trata os escritores com certo diferencial, mas não está acompanhando nem de longe essa evolução. O tipo louco psicótico que sofre de distúrbio de personalidade múltipla, vivido por Johnny Depp em "A Janela Secreta", é caótico, caricato. De fato, cômico, mas não real. O solitário e mega confuso Alex, vivido por Luke Wilson em "Alex e Emma" é até normalzinho, mas não passa de um tipinho cômico limitado. Sim, às vezes, eles dão umas dentro. Em "Encontrando Forrester", Sean Conery, apesar de esquisito por tratar-se de um ser recluso não só em seu apartamento, mas em seu inconsciente, não está tão distante do que seria um escritor experiente nos dias de hoje. Só para não me estender muito, vale citar Diane Keaton em "Alguém tem que ceder". Sim, o filme arranca ótimas gargalhadas, apresenta as nuances cômicas das personagens, mas a escritora teatral vivida por Diane parece ser bem situada em seu mundo, em sua realidade, principalmente quando adapta sua própria realidade.

E, falando em realidade, a literatura não possui só um aspecto imaginário, como a maioria das pessoas pensam. Principalmente, quando lemos um escritor situado em nosso tempo. Conhecer a literatura e seus criadores nas telonas é ótimo, mas muito mais interessante é conhecê-los por meio das suas próprias obras, através delas. Tente e me conte depois.

abril 27, 2004

Texto crítico

Okay, okay. É fato que tudo nessa vida é concebido partindo de uma opinião pré-esatabelecida sobre algo ou alguém. E é fato também que essa tal opinião não precisa simplesmente nascer, viver e comer muito arroz com feijão para ser notada. Não, não, ela já nasce com força tamanha, com capacidade total para destruir ou alavancar qualquer coisa. Exatamente, eu disse qualquer coisa.

Sim, sim, falo dela mesma: a CRÍTICA. Essa palavrinha trissilábica tão comum, tão conhecida por todos, tão presente em cada fio de pensamento, tem um poder tão grande que ninguém, absolutamente ninguém, é capaz de deter. Muito mais que um poder ou uma conduta comportamental, a crítica é uma necessidade. E nós somos absorvidos pelo ato de criticar de forma tão fluente, a ponto de nos perdermos e afundarmos na grande confusão que se cria quando não se consegue perceber a diferença entre criticar e julgar.

Julgar. Criar opinião. Dizer o que se pensa no ímpeto do momento. Essas características fazem de nós simplesmente seres humanos e desconhecedores do significado de sermos seres críticos. Eis a grande diferença e o motivo pelo qual vemos nossos semelhantes tornarem-se, de um segundo para outro, seres monstruosos, mesquinhos e, por muitas vezes, inconseqüentes.

Mas, como dizemos no nosso dia-a-dia quando algo está longe de uma conclusão sensata, "é a vida". E de fato é mesmo porque a vida também é movida pela crítica. O governo de nenhum país terá rumo decidido senão por meio da opinião crítica de alguém - seja de uma população ou de uma cúpula; nenhum escritor, por mais que isso possa parecer desconfortável em determinados momentos, terá sua obra firmada senão pela opinião crítica de alguém; idem para os músicos, artistas plásticos e toda variada categoria artística; nenhum filho assume determinada conduta ética e moral na vida senão pela opinião dos pais ou de quem o criou ou de quem interferiu diretamente no seu crescimento e amadurecimento - aqui, entenda-se amigos de infância, colegas de escola, professores, chefes et cetera. E assim, reforço mais uma vez, "é a vida".

Ah, mas ela está focada somente em único lado dessa tal de crítica, vocês devem estar pensando. Não, claro que não. Eu não me esqueci que existem as críticas construtivas e as críticas destrutivas. E também não descarto a possibilidade de uma crítica destrutiva ter lá o seu quê de positiva. Estou errada? Ao menos para identificar que o crítico é, no mínimo, um precipitado ao formar determinada opinião destrutiva sobre algo, esse tipo de crítica serve. Daí, dependendo da perspectiva, muitos outros aspectos positivos podem ser extraídos. Pode tentar se quiser, mas cuidado para não correr o risco de ser considerado também um mesquinho, ao tentar combater uma mesquinharia com outra.

É justamente aí que mora o xis da questão. A grande proeza que faz da gente "pessoas críticas" e "pessoas críticas" está na diferenciação entre ser um bom observador e ser um oportunista de plantão, registrando nas pessoas apenas os seus deslizes. E mais uma coisinha: saber relevar, filtrar o que realmente é importante e faz a diferença. Saber ser um bom observador e registrador dos fatos e não um paparazzi do mundo real.

Isso, esse será meu exercício daqui pra frente.

abril 26, 2004

Verdadeiro ou Falso?

Viver - insanidade indomável.
Não se importar com as verdades
E abusar das mentiras.
Desistir? - eu pergunto.
Jogar para o alto?- eu insisto.
Jogar para o alto, talvez.
Desistir, jamais.
Jogar para o alto
E viver um segundo por vez.
O que importa o dinheiro,
Tesouro falso?
E a fama, necessidade de auto-afirmação?
Simplesmente não importam.
Importa sim a luz do sol,
Astro-rei soberano.
Ou ainda, os pingos da chuva,
Tentativas de recomeço.
Importa de fato o brilho nos olhos.
Se os olhos brilham, o sentimento é verdadeiro.
Mas o que é a verdade? - busco entender.
É a mentira para uns, travestida de fada-madrinha.
É o ímpeto que se sente
Quando as necessidades são manifestadas.
É a nossa razão, oras!
É a miséria das condutas.
Seres Desumanos.
A verdade pode não ser o que escrevo agora.

abril 22, 2004

Entender é preciso

Chiclete mascando
Uma mordida inesperada na língua
Não é sinal de tagarelice
O trabalho exposto na sua frente
E João Gilberto falando baixinho ao seu ouvido
Uma intimidade falsa?
A vida fugindo da lembrança
Porque ainda é preciso deixar o pensamento livre
Irresponsabilidade também cabe aos ocupados
E também a vontade de transgredir aos politicamente corretos
E aos falsos intelectuais
A ânsia de envelhecer para acabar mais rápido
A esperança de manter-se jovem porque a confusão é inevitável
Tudo parece mágica
Quando qualquer palavra parece fazer sentido
Enfatiza os caminhos errados
E apaga só um pouquinho a neblina do que parece ser certo
Porque acreditar ainda é possível

abril 19, 2004

A arte de não expandir

O que você quer? Que eu me converta em off para o mundo? Que eu me tranque no fundo do seu quintal? Que eu me esconda para sempre atrás da sua cortina? Que nunca mais na vida ligue a televisão? Que eu afogue meu radinho à pilha no seu vaso sanitário? Na sua presença, para não restar dúvidas? Ah, então você quer que eu desacredite na índole da multidão? Que eu pense que o azul não é mais azul? E que o arco-íris nunca foi colorido? Quer que eu acredite no seu conceito de inteligência? Na sua unilateralidade? Você acha mesmo que o mundo foi escrito em uma só língua? Ah, sei, você acha mesmo que isso que faz é literatura? E que eu sou mesmo tão santa como você havia previsto? Nunca ouviu falar em transgredir, não? Acha mesmo que essa sua vidinha regrada me satisfaria? Você sempre duvidou desse meu egoísmo, né? O que você pensa, que a felicidade é eterna, é? Que o gnomo do seu jardim lhe é fiel? Que todas as menininhas nascem virgens? Que o mundo é uma grande bolha rodeada de sexo, drogas e rock'n roll? Você acha mesmo que Freud é o senhor único da psicanálise? Tá, e você nunca ouviu falar em revolução? Que um único filme pode ser dirigido por mais de uma pessoa? E que um escritor nunca escreve um livro sozinho? Que a solidão é boa, sim, muito boa? O seu problema é não enxergar que o mundo é uma grande interrogação.

abril 12, 2004

Mudanças

Agora ele fechou os olhos. Quer ver o mundo com os ouvidos, para que aquilo que captar chegue mais rápido ao coração, assim como aquela canção que faz a gente chorar. Ver o mundo como uma canção. Faz a vida ganhar um sentido mais intenso, mais profundo, sabe? Como notas musicais que se adentram pelos poros, por qualquer orifício disponível.

Ele quer realizar o encontro da imaginação com a vida. Porque ele acha que a imaginação é o princípio da verdade. E eu, honestamente, acho que ele tem razão. Porque a razão é um dos combustíveis da vida. É, eu acho isso. Mas, que droga, ele não quer saber da razão. A razão, para ele, é conotativa. A razão, para ele, não é única e nunca vai ser. A razão têm várias caras, vários donos. Cada um sabe identificar a sua de olhos fechados. E ele permanece lá, se redescobrindo ao som do mundo. Consegue pensar em várias coisas ao mesmo tempo, como um cérebro feminino, como se sua alma fossem duas - uma feminina e outra masculina. E conclui que, de olhos fechados, qualquer homem nesse mundo é capaz de enxergar três mil vezes mais que de olhos bem abertos.

Ora, ora, ele consegue até conter lágrimas e sorrir. Sabe detectar a paisagem pela janela sem ver as suas cores e formas. Consegue até enxergar as várias feições ali presentes. E de olhos fechados. Ele está se redescobrindo, talvez, renascendo. Ainda não sebe quem são seus pais. Ele não deseja saber isso agora. Agora, não. Está provando a liberdade de forma digna. De uma forma não convencional, o que tem tudo a ver com sua personalidade. Sem desgastes, sem males causados, sem perdas, sem danos, sem sofrimento. E de pensar que se é possível renascer em conseqüência de um sofrimento. Chega a dar frio no estômago. Mas é um fenômeno maravilhoso comum a poucos. Igual ao Cometa Halley, que nem todo mundo teve ou terá a oportunidade de ver.

E o alívio? É possível ter noção do tamanho da cruz que foi tirada das suas costas. Por um instante dá a impressão de que ele não tem mais responsabilidades. Mas viver já não é uma grande responsabilidade? Sim, ser dono do próprio nariz, saber o que dizer e para quem dizer, saber pra que lado ir, o que ter, o que jogar fora e a quem recorrer. Ninguém é sozinho no mundo. O mundo é bem menor do que a maioria das pessoas imaginam. Ninguém é sozinho no mundo, nem que a companhia seja a própria consciência. Mas isso sendo radical demais, é claro.

Mas uma coisa é certa: ele ainda não é feliz de fato. Xiii, ser feliz de fato não é nada fácil. Minha vã sabedoria inexperiente diz que ele está no caminho certo. Não importa se de ônibus ou de táxi, mas ele está no caminho certo. Eu vou acompanhá-lo. Talvez não passo a passo, mas estarei junto dele em alguns momentos. No momento certo, eu estarei lá e tenha a certeza de que minha contribuição não terá sido miúda, não. É o que diz minha razão e acredito que a dele também.

abril 08, 2004

O significado da Páscoa
(Por Nova Manhã)

Nesse fim de semana será comemorada a Páscoa.

A Páscoa simboliza a alegria, o recomeço, a nova vida e o sentido do sacrifício.

Para os cristãos, a Páscoa celebra a ressurreição de Jesus Cristo, crucificado numa cruz para liberar os homens do Pecado Original. Por isso, além de símbolo da Páscoa, a cruz é o principal símbolo da religião cristã.

Durante a Semana Santa, ocorrem alguns rituais que representam a Crucificação, a Morte e a Ressurreição de Cristo.

Mas como é que a festa pela celebração da ressurreição de Cristo acabou se misturando com coelhos e ovos? Tudo começou há muito tempo antes de Cristo, com a Deusa da Primavera, Ostara. Os europeus faziam homenagens aos deuses para celebrar a natureza.

Já o povo egípcio, acreditava em um único deus e comemorava a Pessach, páscoa para os judeus. É a celebração do êxodo e a liberação do povo de Israel da escravidão do Egito. É um ritual de passagem, assim como a "passagem" de Jesus Cristo da morte para a vida.

Durante as comemorações da Pessach, Jesus foi preso, crucificado e depois ressuscitou. A Santa Ceia, na qual todos os apostólos se reuniram com Jesus, era um grande banquete de Pessach!

Para os judeus que mudaram de religião e passaram a acreditar em Jesus Cristo, a Pessach passou a ter outro significado: a data não deixava ninguém esquecer o sacrifício e o renascimento de Jesus. Para os cristãos, a celebração então passou a se chamar... Páscoa!

Depois da morte de Jesus Cristo, o cristianismo começou a se espalhar pelo mundo. Na Europa se deparou com os rituais pagãos.

Os cristãos difundiram os ensinamentos de Jesus Cristo aos pagãos, que foram deixando de lado os rituais.

Muitos aspectos das duas religiões acabaram se misturando. E aí, quando os ex-pagãos viraram cristãos, eles deixaram de comemorar a primavera para comemorar a Páscoa, mas levaram para dentro do cristianismo alguns símbolos que eles usavam em seus rituais, como por exemplo, o coelho!

O coelho era um símbolo superimportante nas comemorações pagãs de primavera. Antes de ser o coelho da Páscoa, era mais conhecido como o coelho de Ostara, a Deusa da Primavera. Com seus superpoderes de reprodução ele representava a fertilidade da primavera, que é a estação que mais nascem flores.

O coelho passou a representar a "fertilidade" da Igreja Católica e sua capacidade de "reproduzir" os fiéis e espalhar sua fé pelo mundo.

Assim como os coelhos, os ovos também simbolizavam o renascimento da natureza depois de um longo inverno.

A idéia de renascimento ficou, mas no lugar de "primavera", entrou "Jesus ", e o ovo passou a representar a ressurreição de Cristo.

Uma Feliz Páscoa para todos!

abril 07, 2004

Coisas que emocionam

Não sei como e nem por que me veio à cabeça tais palavras. Estou aprendendo a gostar de poemas agora, já grande. Tenho muito que percorrer. Mas já tenho meus favoritos, acreditam nisso? Sim, é dele mesmo: Mário de Andrade. Um dos melhores poemas já identificados por minhas vistas míopes e sei lá mais o quê. Ah, tenho que compartilhá-lo com vocês! Poema é como música e a gente nunca sabe por onde ele toca nosso coração. Chega por algum caminho. Muitas vezes, as lágrimas também têm motivos desconhecidos. Aconteceu comigo. Não conti minhas emoções quando vi esse poema na minissérie Um só Coração, anunciando a morte do poeta Mário de Andrade há alguns capítulos. Já o conhecia, mas foi diferente. Espero que apreciem. E que se sintam. E que se emocionem.

Poemas da amiga
(Mário de Andrade)

A tarde se deitava nos meus olhos
E a fuga da hora me entregava abril,
Um sabor familiar de até-logo criava
Um ar, e, não sei porque, te percebi.

Voltei-me em flor. Mas era apenas tua lembrança.
Estavas longe doce amiga e só vi no perfil da cidade
O arcanjo forte do arranha-céu cor de rosa,
Mexendo asas azuis dentro da tarde.

Quando eu morrer quero ficar,
Não contem aos meus amigos,
Sepultado em minha cidade,
Saudade.

Meus pés enterrem na rua Aurora,
No Paissandu deixem meu sexo,
Na Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam.

No Pátio do Colégio afundem
O meu coração paulistano:
Um coração vivo e um defunto
Bem juntos.

Escondam no Correio o ouvido
Direito, o esquerdo nos Telégrafos,
Quero saber da vida alheia
Sereia.

O nariz guardem nos rosais,
A língua no alto do Ipiranga
Para cantar a liberdade.
Saudade...

Os olhos lá no Jaraguá
Assistirão ao que há de vir,
O joelho na Universidade,
Saudade...

As mãos atirem por aí,
Que desvivam como viveram,
As tripas atirem pro Diabo,
Que o espírito será de Deus.
Adeus.

abril 06, 2004

Filosofia dos Acontecimentos

Esta sou eu, parada na esquina
Do observatório da vida tentando entender tudo.
Aí está você, olhando pra cima
Sem entender nada.
Lá em em cima, os meus olhos
Bem ao lado da sua boca
Olhando para os seus pés aqui embaixo.
Eles estão na metade do meu caminho.
Ali na frente, nós dois
Atrás do futuro distante,
Bem próximo do que nos é real.
Quem sou eu?
Não sou Mario de Andrade
E também não sou Humberto Gessinger.
Eu sou um ser insistente
Esforço-me para permanecer ativo
Nas pontas do grande coelho de pelugem branca.

março 31, 2004

Começando pelo fim

Mania de começar pelo fim. Quem não tem curiosidade de saber o que vai acontecer no final? Como vai terminar a novela? E aquele filme, será que o mocinho realmente vai levar a melhor?

Essa característica é comum em todas as pessoas. A gente vive premeditando o que poderá vir depois. Vive com aquela curiosidade de saber se o romance vingará, se terminará o ano com dinheiro, se morrerá cedo e muitos outros “se”, que seriam suficientes para estender esse texto por mais umas quinhentas páginas. Tem gente que se rende às crenças de religiões africanas. Tem gente que prefere os costumes ciganos e tem gente até que acredita em dons sobrenaturais. Será que é bom viver correndo atrás do que acontecerá? Vai depender da circunstância, mas não deixa de ser um comportamento inevitável. Eu vejo isso de forma positiva quando nos permite o estabelecimento de metas, quando parte de um planejamento pessoal ou até mesmo profissional. Agora, a partir do momento que há o desprendimento do foco principal, dos verdadeiros objetivos, imaginando apenas o que poderá ser o final, pode sim senhor trazer prejuízos catastróficos. É preciso saber se policiar.

Em muitos momentos, nos atentamos ao final dos fatos e acontecimentos involuntariamente. Eu, por exemplo, tenho uma mania peculiar de, sempre que iniciar a leitura de um novo livro, ir direto à frase final. Se estraga a surpresa? No meu caso, não. Primeiro porque, saber do final desconhecendo o contexto, é irrelevante. E, depois, sempre acabo sendo absorvida pelo contexto e, conseqüentemente, esquecendo do final. Isso quando o destino não decide colaborar e o final acaba sendo o início por conta própria. Acabo de ler o livro 1933 foi um ano ruim, de John Fante, e descobri que ele foi publicado pouco antes de sua morte, no ano de 1983. Como é o segundo livro que leio do autor, não é mentira afirmar que iniciei a trajetória literária a la Jonh Fante pelo final.

Ainda no meio literário, no final do ano passado, ganhei o livro A Ditadura Derrotada, de Elio Gaspari, último livro da trilogia que completa-se com A Ditadura Escancarada e A Ditadura Envergonhada. Tive, claro, a opção de substituí-lo na livraria por qualquer um dos dois primeiros, mas optei por não fazê-lo. Mais uma vez, impulsionada pelo "ímpeto do que ocorrerá no final", resolvi iniciar minha leitura por meio das últimas conclusões do autor em relação à ditadura militar no Brasil. Comecei pelo último ciente de que, neste caso, a ordem dos fatores não iria alterar o produto. De súbito, fui atingida por uma dupla curiosidade: a de conhecer a visão de mais um jornalista a respeito deste drástico período político e a ansiedade de saber como foi que Elio Gaspari finalizou o terceiro fruto após anos de estudos, de coleta de depoimentos, aprendizados, e concepções de amizades, conforme o livro ilustra muito bem. Conclusão: independente de começo, meio ou fim, iniciei uma leitura prazerosa que poderei comentar mais a fundo em uma outra ocasião.

Continuando essa minha reflexão, certa vez, li um texto do ilustre Charles Chaplin que dizia algo sobre como a vida deveria ser iniciada com a velhice, quando já passamos pelas experiências de uma vida inteira, aprendemos, choramos, perdoamos, seguindo pela juventude, quando normalmente desfrutamos o que de melhor a vida nos oferece e sendo finalizada com um belo gozo, o momento da nossa concepção. Trata-se de uma teoria bastante interessante, fruto daquele nosso sentimento de saber antecipadamente no que vai dar a caminhada e em concluí-la em grande estilo.

Mas há algo realmente muito importante nesse pensamento. Existe, nisso tudo uma esperança, um otimismo, uma torcida pelo bem sucedido, seja lá o que ele for. E, se o fim é a felicidade, por que não começar por ele, ou melhor, por ela?