Eu me transformo em outras
Muitas vezes, acabo pagando um preço alto por não ser boa observadora. Mas percebo também que, quando observo demais, o desconto não é nada merecedor de algum reparo. É triste, muito triste, você ver um grande ícone da mídia brasileira se mostrar só um pouquinho nada convencional, para as pessoas caírem matando. E olha que eu nem falo da massa crítica profissional. Falo dos verdadeiros críticos mesmo, o povo. Aquele mesmo povo que surpreende quando mostra uma opinião produtivamente formada e que também surpreende, com impacto não menos intenso, quando decide não processar o raciocínio de forma construtiva para denegrir a imagem de alguém. Se é que se pode denegrir a imagem de alguém construtivamente.
Ao sair do show “Eu me transformo em outras” da Zélia Duncan, neste último sábado, o burburinho que se ouvia parecia coletivo. A maioria das pessoas não tinha gostado do show. Se a maioria das pessoas não tivesse gostado do show porque não houve muito investimento na produção ou porque o show atrasou um pouco ou, ainda, porque a cantora não interagiu muito com o público, vá lá. Mas, não. A maioria não curtiu o show por causa do estilo das músicas cantadas e pelo fato de não ter havido espaço para os “Clássicos da Zélia Duncan”.
Posso tecer aí algumas teorias: grande parte das pessoas foi ao show sem conhecer o projeto “Eu me transformo em outras” e acabou se surpreendendo com o que ouviu. Se isso é verdade, posso dizer também que a falta de investimento de material publicitário também teve sua parcela de culpa, logo, esta grande parte das pessoas não é e não pode ser tão ferozmente criticada neste texto. Uma outra possibilidade pode ser o fato de que todas essas pessoas tenham ido ao show porque não tinham nada melhor para a noite de sábado. Está bem, essa possibilidade é bastante razoável. Mas a possibilidade que mais faz sentido em todo este processo crítico é que, infelizmente, a massa social apreciadora de música está corrompida. E digo isso com grande pesar, pois se incluem nesta categoria até mesmo a parte desta massa que aprecia a boa música. Na verdade, não só a boa música, mas também os bons cantores.
Sim, diga aí o que está pensando neste momento. Deixe-me ajudá-lo: “mas que menininha petulante, que não se digna a, sequer, respeitar o gosto alheio. Vem aí, com esse textinho moralista e não tem capacidade de perceber que está se manchando com o próprio veneno. Menininha prepotente, essa!”
Era justamente isso o que se passava pela sua cabeça, né? Pode falar, eu não ligo. Você pode até não acreditar, mas a minha inflexibilidade está bastante controlada. Explico: pode sim ser questão de gosto. Aliás, seria estranho se não fosse, porque eu não iria ao show de um artista que não estimo. Não mesmo. E não me venha dizer também que sou uma tiete simplista e sem noção. Tudo isso faz parte de uma teoria que costumo adotar: não comente sobre aquilo que você não possui um mínimo de conhecimento. E, quando eu digo que gosto de música, eu simplesmente gosto. E tenho a mania de estudar aquilo que gosto, à minha maneira. Para mim, a atitude das pessoas que criticaram o show foi uma atitude superficial, sem conhecimento de causa. Falar por falar, apenas para gerar uma opinião, entende? Eu, particularmente, prefiro ser taxada de “sem opinião” do que de “superficial”.
Se você aí gosta de música, de boa música, se não tem preconceito contra os clássicos e se amarra ver o clássico sendo abordado por um contemporâneo, não perca o show de Zélia. Escute o CD e aprecie. Boa música faz bem à alma. Já a superficialidade, esta me transforma em outra pessoa. Nada agradável, lhes garanto.