agosto 16, 2004

Por que as pessoas vão ao cinema?

Pelo mesmo motivo que as impulsionam a ouvir uma música, você pode dizer.

Por ser um hobby tecnicamente construtivo, capaz de abstrair as futilidades da vida ou de transformá-las, dependendo do ponto de vista.

As pessoas também podem ir ao cinema para se ver sozinhas. Para fugir do mundo que as cerca. Ou para fugir de algumas pessoas. Ou ainda, para fugir com uma pessoa. Uma só.

Para sonhar, sem se importar com a realização. Fechar os olhos e se imaginar caminhando num belo campo coberto de flores silvestres, livres de pensamentos ruins, das maldades que nos cercam, dos espíritos corrompidos. Ou nuas, numa cama forrada com lençóis brancos, acompanhadas pela Nicole Kidman ou pelo Gael Garcia Bernal.

Talvez as pessoas entram na sala escura e sentam-se em frente à grande tela com a intenção única de se transformar. E ninguém termina de ver um filme sem um mero grau de transformação.

Respostas. As pessoas também podem ir ao cinema em busca de respostas. Significados. Justificativas. Elas desejam compreender o amor, explorar o amor, absorver a visão dos cineastas. Compreender a guerra também é outra possibilidade. Talvez as pessoas queiram encontrar culpados. Ou se descobrir culpadas. Existem boas almas que se preocupam com isso.

Projeções. Sim, o cinema também permite ao indivíduo projetar a sua vida. Desenvolver um objetivo. Oferece um ponto de partida, um apoio para o primeiro passo.

O principal motivo que leva as pessoas ao cinema é o auto-conhecimento. O estado de meditação a que recorrem entre uma cena e outra. Entre uma pipoca e outra. A reflexão de um sorriso inesperado, de um comentário baixinho entre o casal do lado. De analisar uma história para poder comentá-la depois. Para recomendar a uma pessoa querida.

As pessoas vão ao cinema porque o cinema é arte. Para quem faz e para quem aprecia. Porque, ao contrário do medo social, a juventude não está corrompida por completo. O cinema salva, assim como a música. Assim como os livros.

agosto 12, 2004

Hein?

A soma dos preconceitos é igual ao quadrado da ignorância multiplicado pela hipocrisia da sociedade. Seria o preconceito uma questão de cultura? Ou será que seria apenas uma complicada questão de educação de berço? Ou, ainda, um distúrbio psicológico, daqueles que nem Freud explica? Hein??

agosto 03, 2004

Criticando a Crítica

Em épocas como a nossa, com toda uma expansão tecnológica, uma diversidade cultural cada vez mais em evidência, com uma forma de pensamento muito diferenciada do convencional, do clássico, do politicamente correto, surgem conceitos no mínimo interessantes sobre a forma de se ver a vida e, sobretudo, sobre a forma do gostar e não gostar, do aceitar e não aceitar, do querer e do não querer, do ser e do não ser.

As pessoas tornam-se críticas umas das outras sem ao menos entenderem o verdadeiro significado de ser crítico. Mas isso é bom? Não, senhoras e senhores. Definitivamente, não é. Hoje em dia, fala-se muito e desconhece-se este muito de que se fala. Não existe relação entre a crítica e o assunto criticado e, por mais que esta minha idéia se designe a uma visão unilateral, insisto em dizer que não é.

O que é muito comum hoje em dia é ver a crítica tecida afastar o crítico do assunto principal e aproximá-lo da sua essência. Conseqüentemente, descobrimos uma sociedade fútil, superficial. Vivemos num mundo de plástico. E se você não está captando esta minha mensagem, tenho algumas dicas que facilitará a sua compreensão: acesse alguma comunidade do tão falado Orkut, dê uma navegada em alguns muitos blogues por aí, leia aqueles e-mails que circulam por nossas caixas-postais em formato de correntes, ouça um pouco a conversa do fulano de trás no coletivo, assista um capítulo de uma novela qualquer.

Não adianta, não há como fugir. Críticas superficiais já fazem parte da nossa cultura e caminhamos cada vez mais para dentro dessa cultura imprópria. Estamos nos afogando em detalhes sórdidos. Alguém precisa resgatar certos valores, certos comportamentos. Aceitar o novo, mas não ignorar o velho, manja? Aprender com o velho. Aprimorar o velho. Precisamos colocar propriedade em nossos argumentos. Precisamos merecer ser ouvidos. Senão, os nossos gritos serão em vão. A nossa juventude não vai ficar como ficou as juventudes passadas. Não seremos lembrados por bons motivos, por grandes feitos. Precisamos intelectualizar os nossos jovens. Alguém aí me ouve? Façam eco deste meu lamento.

julho 27, 2004

Jaburu neles

Extra! Extra! Extra! Dizem as boas línguas que o Marcelino reinstituiu o PRÊMIO JABURU DE PROSA E POESIA!

Quer fazer um bem para o meio literário? Quer mesmo? Então, clique bem aqui e não faça cerimônias para indicar a pior obra literária que você leu nos últimos tempos.

Não tenha dó. Indique o nome da obra e seu criador que os leitores encarecidamente agradecem.


Li-te-ra-tu-ra

Literatura. Literatura. Literatura. Há assunto mais envolvente que Literatura? É pauta em todas as rodas de amigos, em sala de aula, nas boates, na fila do banco, em tudo. Ah, você duvida? Tudo é literatura, my darling. Tudinhô. Você abriu a boca, pronto: virou história.

Música é literatura. Sim, sim, literatura em movimento, é verdade. Mas é literatura sim. Pensamento também é e, se não foi escrito ou mencionado, é literatura não revelada. Mas é.

Tudo nessa vida tem um desfecho. Tudo tem começo. Tá bom, eu confesso, nem tudo tem um fim. Mas eu não ia dizer isso. Sério! A literatura, monsenhor, está aonde você quer que ela esteja. Pode ser aí ao seu lado ou aqui, na minha mente perturbada. Ela não larga do nosso pé e isso não tem nada a ver com gostar ou não de ler. Se você esquece dela, ela lembra de você. E pronto.

É um ciclo. Vicioso não. A literatura é um ciclo virtuoso.

julho 23, 2004

Terráqueos com a cabeça em... Marte

Muito prazer, Guaíba!

No elevador panorâmico...

- Você já foi apresentado ao Guaíba? - perguntou a moça que o recepcionava.
Zé, que além de bom profissional era educado na presença de desconhecidos, dirigiu-se ao ascensorista do elevador:
- Muito prazer, José!
A moça, que também era muito educada, mas não contendo a risada explicou:
- Ah, sim, este é o Sr. João. E à sua frente, temos o Rio Guaíba.

***

Viciada em literatura

Julio liga para Isabela...

- Oi, Isa, tudo bem?
- Tudo. O que manda?
- Meu, aqui está uma correria. Os alunos estão organizando a participação nos jogos universitários e estão atrás de patrocínio. Sabe quem irá patrociná-los?
- Não faço idéia...
- Daslu.
- Caraca, que legal!
- Sabe quem é, né?
- Ai, claro que sei. Daslu - grande poeta!

***

Ingenuidade estantil

Marcelo e suas amigas combinando um cineminha...

- E então, pessoal, já decidiram qual filme veremos?
- Ah, eu só vou ao cinema pra pagar meia.
- Se for assim, não contem comigo!
- Por quê?
- Que isso! Ir ao cinema, assistir meio filme e ir embora!? Ah, não...

***

Balde de água fria

Numa mesa de bar...

- Nossa, já são oito horas. Preciso ir. Meu chuveiro queimou e preciso providenciar um urgentemente.
- Relaxa, fica mais. Sabe o que você pode fazer?
- O quê?
- Pega o seu carro, vai no posto da rua de cima e enche o tanque. Eles estão com uma promoção assim: "Encha o tanque e ganhe uma ducha!"

julho 20, 2004

Seção Publicidade

1. Quase amiga de Clarah Averbuck

Eis parte da dedicatória que Clarah deixou no meu "Vida de Gato", no lançamento oficial, ontem, na Fun House. Muito simpática e descontraída, ela recebeu amigos e amigos dos seus amigos, para uma noite de autógrafos e muita cerveja, vinho e afins. E, quem compareceu, também teve a oportunidade de ver a performance de Catarina, a Pequena que revelou-se, transformando-se em Catarina, a Pequena Dançante.

"Vida de Gato" é o terceiro livro de Clarah Averbuck, publicado pela Editora Planeta. Foi gerado em cerca de três meses, ainda na época em que o falecido Brazileira!Preta fazia acontecer na blogsfera. Logo no começo da obra, você já adentra no universo teen conturbado e contra-indicado em caso de preconceitos vários que você possa vir a ter contra jovens-mães-escritoras-tatuadas.

Em seu "Vida de Gato", Clarah Averbuck atesta mais uma vez que estilo e personalidade também são fatores cruciais para uma boa literatura e, sobretudo, para a descoberta da nova literatura. Clarah é, atualmente, a escritora que mais atinge o público jovem no Brasil e, conseqüentemente, o arrasta para o universo literário, coisa que seus piores críticos não conseguem enxergar. Ou não querem enxergar, amparados por um tradicionalismo idiota. Não. Você me entenderá mal apenas se quiser. Não estou renegando os clássicos. Viva os clássicos! Viva os contemporâneos!

Quer entender tudo isso que eu disse aí em cima? Leia Clarah Averbuck.

2. Paralelo de Luiz Esposto

Sim, ele mesmo. O cara que mais pisou no meu pé na faculdade. O cara que me tirava do sério quando ousava interromper as minhas prosas em sala de aula. O cara responsável por um dos momentos mais engraçados na Uniabc, quando confundiu insulfilme com tarde de temporal. O cara que quase me convenceu a ser professora de verdade (e que, inconscientemente, continua tentando). O cara que tem a paixão como educação e educação como paixão.

Luis Esposto resolveu compartilhar com a gente suas experiências e expectativas na área educacional, vividas dentro e fora da sala de aula. Decidiu compartilhar teorias, suas ou não, e seu intelectualismo refinado. Tenho o orgulho de lhes apresentar o Paralelo. Espero que gostem!

julho 19, 2004

Os filhos da gota

Corre, moleque! Olha lá, tem lugar na janela. Cuidado com a moça, ô filho da gota serena!

Ai, não abre. Está tudo emperrado.

Se fizer barulho, desce todo mundo. Tô avisando!

Podexá, ô fio do chico! O motô tá estressado, tá vendo?

Noooossa, tô até vendo minha mãe quando eu chegar em casa: "Aonde você estava até agora, Derrota?" "Mas é um desgraçado, um fio da moléstia mesmo!"

Caramba, você fala igualzinho. E meu pai? Vai querer me arrancar o couro...

Nem sei aonde eu vou dormir. A v... da minha irmã já deve ter pegado minha cama. Se eu não tô lá na hora de dormir, já era.

Mas também, ô gota serena, você tem um monte de irmão!

Eu tenho SEIS irmãs!

Vixi, a mãe dele é uma parideira!

Fica quieto aí, ô mané. Você não sabe de nada. Meu pai tem duas mulheres, né?

E mora com as duas??

Daarrrd!! Claro que não, só com minha mãe.

Olha a batida! Caramba, como é que o carro foi parar daquele lado?

Olha ali o bombeiro!

Ai, mas é um burro mesmo. Como o carro foi parar daquele lado? Com a mão, né, estrupício!

Ah, sim, com a mão. Mas como tu é burro, moleque!

Se continuar o barulho, desce todo mundo. Tô avisando!

Cala a boca aí, ô Derrota!

Ei, vamos descer em Diadema?

Pra quê?

Xiii, a menininha tá morrendo de medo.

Vamos aí. Dá o sinal!

- Valeu, motô!
- Tchau, fio do chico!
- Valeu, ô filho da gota!

julho 13, 2004

O encontro marcado

Melancolia. Deve ser porque acabei de ler mais um livro. Talvez o melhor que tenha lido até hoje. Aquele que condiz com as incertezas humanas, que oferece familiaridade com nossos conflitos, que aplica justificativas para o que você queira justificar. Devo estar sendo exagerada como sempre, mas talvez a história de Eduardo Marciano seja a minha biografia, a sua e a desse infeliz aí do seu lado.

O livro partiu das melhores indicações que eu poderia receber - Olá, tudo bem? Conheci você por meio do fulano de tal, do blogue tal, do texto tal. Parabéns! - geralmente, minhas palavras são bem mais entusiastas, mais sensíveis e geram um efeito muito mais verdadeiro, como de fato o é pra ser. E o retorno também é produzido por efeito semelhante. Às vezes, nem pelas minhas palavras, mas por ele mesmo, o sobrenome - Oi, Juliana! Obrigada pelas palavras et cetera e tal. Marciano é o nome do personagem que mais gosto do Sabino. Você já o leu? Se ainda não, vale a pena.

Marciano. Eduardo Marciano. Dúvida-procura-busca-encontro. O encontro Marcado. Até a quinta recomendação eu ainda não havia lido, mesmo tendo decidido ler na primeira, aliás, recomendação gerada por uma paixão. Fazia tempo que não via alguém tão empolgada com um escritor. E se é em Fernando Sabino que Cecília busca suas influências, puta que pariu, por que esperei tanto tempo?

Pensando bem, melancolia não é exatamente o que sinto agora. Sinto-me surpresa. Um escavador que encontra um grande tesouro. Que não sabe ao certo o que fará com ele. Talvez observá-lo por algum tempo. Apenas observá-lo. Depois, compartilhá-lo. Em vão. Não há como compartilhá-lo, mas é possível mostrar o caminho para a descoberta desse tesouro que está sob os pés de todos nós. Não adianta, tem que ser uma descoberta individual e nada do que eu pense ou diga fará sentido. Vá fundo. Então, eis a chave, mas com uma condição: conte-me tim tim por tim tim da sua escavação. Cuide dela com carinho!

julho 12, 2004

Uh, cadê, a Juliana sumiu!

Não, pessoal, não sumi não. Ainda não! O Proseando continua. Tem que continuar, com o ritmo que satisfaça a todo mundo, claro. A questão é que a proseadora aqui está meio sem ritmo. Mas continuo observando a vida por aí, nos coletivos, nos shows, bares e nos mundos protegidos pelas páginas de bons livros. Tem um montão de coisas às quais gostaria de comentar: novas amizades, novas trilhas sonoroas, novas cabeçadas, enfim, aguardem! Uma hora, essa minha inconstância deixa de ser uma constante. Amanhã, quem sabe?

Beijo grande,

Ju

julho 01, 2004

Incenso Fosse Música
(Paulo Leminsk)

isso de querer
ser exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além

junho 28, 2004

A Revolução da Comunicação

Mas que coisa! Quando você acha que entende tudo de Internet, que está super antenado com as últimas novidades virtuais, que o homem já superou toda sua capacidade de criação, que não, você não vive mais no passado, pronto! Bastam algumas horas para a novidade deixar de ser novidade.

Até pouco tempo atrás, você cansava de escrever folhas e mais folhas à caneta esferográfica, anexava a um envelope, selava, colocava no correio e aguardava alguns bons dias para chegar ao destino e gerar uma resposta. Então, inventaram o e-mail. Bastam alguns cliques e a mensagem chega ao destinatário em questão de segundos. E com recursos pra lá de sofisticados: se quiser, pode mandar a mesma mensagem para uma leva de destinatários num mesmo clique; pode também mandar algo confidencial a um, com o outro no campo oculto, sem medo ou receio de quebrar o sigilo entre um e outro; pode, ainda, requerer a certeza de recebimento ou leitura da mensagem. Tudo isso, sem a necessidade de comprar envelopes e selos, escrever a carta, ir até o correio para postá-la e ainda esperar pela resposta por, no mínimo, uma semana.

Mas eis que surgem as facilidades do dia-a-dia. Hoje, qual alma não possui um endereço eletrônico? Explorando ainda mais a capacidade humana e firmando a revolução tecnológica que, sabe-se lá se algum dia terminará (espero que não!), o e-mail deixou de ser novidade, cedendo espaço ao chat. Mensagens espontâneas trocadas entre duas ou mais pessoas, a amplitude de tudo quanto é tipo de relacionamento, tudo simultaneamente, subestimando limites e expandindo cada vez mais o mercado virtual e abrindo novas possibilidades. Das salas de bate-papo ao ambiente familiar do MSN ou do ICQ. Novamente, a Internet provando que nem mesmo o universo (virtual) é o limite.

Você dorme, acorda e, de repente, e-mail, MSN, ICQ, tudo o que fora criado, revelam-se simples acessórios. Ferramentas que são partes de algo que ainda não satisfez os limites humanos. Passam a ser simples adequações à vida das pessoas, ao trabalho, à escola, ao meio social. São peças necessárias e indispensáveis a qualquer atividade. Você se vê entrosado e nem cogita a possibilidade do "algo mais". Tudo bem se parou por aí.

Mas não, a coisa não pára. Surge então, uma outra forma de comunicação – o blogue. Sites pessoais, aonde é possível encontrar informação de qualquer gênero, sobretudo, o literário. Um local para divulgação de trabalhos, pensamentos e, inclusive, um espaço para formação de ciclos de amizades. Milhares e milhares de pessoas conectadas a mais esta novidade. Novas adequações e horizontes ampliados.

Quando pensei que já tivesse visto o suficiente, pimba! Surge algo extremamente inovador, extravagante e, aparentemente, insuperável - o Orkut – uma comunidade dentro de muitas outras comunidades - um lugar aonde os relacionamentos são, propriamente ditos, como ciclos. Você entra, convidado por alguém, e, por mais que duvide, vai acabar encontrando um fulano que não vê há anos, com quem estudou algum dia, teve uma affair ou qualquer coisa parecida. De comunidade em comunidade, você percebe que a solidão não passa de um substantivo prepotente que alguém lá atrás inventou e que o mundo é muito, mas muito menor do que você algum dia chegou a imaginar.

Então, inevitavelmente, você vai olhar pra trás e perceber que, quando descobre a novidade, ela já é antiga. Vai descobrir que a cada piscar de olhos tem alguém que pisca mais rápido que você e que, enquanto a gente pensa que o homem ainda está pensando em criar seres robóticos, um outro homem feito do mesmo material que você e, provavelmente, nascido na mesma década que você, já está séculos à sua frente. E, como num despertar religioso, vai descobrir, ainda, que de tudo você pode duvidar, mas nunca da capacidade de criação da mente humana.

Nesse desenvolvimento todo, você se encontrará obrigado (será questão de sobrevivência) a mudar o seu conceito sobre a solidão. Somente estará sozinho aquele que renegar os avanços tecnológicos – a revolução da comunicação.

Não vejo nenhum solitário daqui do outro lado da tela.

junho 25, 2004

The garden and me

Tudo ao seu redor girava como um carrossel. Na sua mente, os pensamentos subiam e desciam, mas não eram delicados e engraçadinhos como os cavalinhos que não sabem relinchar. Eram sim impertinentes e chatos como aquelas crianças que não respeitam o término da brincadeira, que não entendem o olhar de cansaço do pai por não agüentar ficar ali nem mais um ninuto vendo aquele negócio girar e girar e girar e girar.

Era o início de mais um dia e nem sequer havia a possibilidade de dar um "atualizar" e fazer a coisa ficar mais comportada, assim como página na internet que estaciona e fica cheia de "xis" e sem imagem nenhuma, carregada pela metade. Não tinha como.

Não tinha saída. O afastamento da normalidade não era incômodo. O trabalho nas mãos dos outros, fluindo sabe-se lá como também não era problema. Estavam lhe proporcionando uma lavagem cerebral, com a espuma que ela mesma disponibilizara. E ninguém perguntou se aquele banho realmente a deixaria limpa. Mas estava lá, novamente sentada no banco do jardim. Sozinha. As mãos apoiando a cabeça sobre as pernas e os olhos cobertos de lágrimas. Estática. Um corpo sem ação. Os sentidos dominados por estranhos. E as lágrimas escorrendo pelo rosto ininterruptamente. Sem qualquer controle. Uma a uma. Gota por gota.

Alguém não identificado chega ao seu lado. De branco, mas não era um anjo. Pega em seu braço sem dizer nada e a conduz para longe do jardim. O único gesto que faz, para o qual entende a finalidade, é passar a mão no rosto, enxugando as lágrimas. No mais, se deixa ser guiada pela criatura de branco. O destino ela já descobrira - o quarto. Aquele lugar morto, vazio, frio. Uma cama, uma mesa redonda com uma cadeira e um armário sem gavetas. Só. Nenhum objeto como companhia. Um comprimido como alimento e pronto. Acordaria no dia seguinte e veria o trajeto do dia repetir-se novamente: os mesmos donos da verdade, os mesmos comprimidos, a cabeça girando e o jardim. O único que a compreendia de fato, que não dizia que ela estava errada e que não a incomodava. Belo - o jardim das mais belas flores do mundo.

junho 21, 2004

Mudando

Olho para um lado e... caixas. Olho pra outro e... caixas. Dou um passo e... mais caixas. Tudo encaixotado, tudo perdido em meio à bagunça. Guardados que não se acham. Coisas que encontrarei somente quando não estiver procurando. Sim, mudança é o caos concretizado.

Por um momento, pensei que mudaria apenas de casa. Que ingenuidade a minha. A gente muda de casa e muda de caminho e muda de hábito e muda de opinião. Quando cai em si, você já não é mais a mesma pessoa. Está mudada. No coração, um sentimento estranho. O que é? Não sei. Eu gosto de ter respostas para tudo, mas não tenho medo de dizer que não sei. Talvez seja medo, talvez seja receio, o sexto sentido querendo se manifestar, me prevenir para alguma coisa, falar do retorno àquele lugar onde vivi grande parte da minha vida. Lugar onde cresci, fiz amigos, mantive amigos, escrevi histórias com eles. Talvez sejam apenas sintomas de mudanças. Talvez isso seja a normalidade com que não estou acostumada. Talvez seja eu crescendo ou simplesmente, sendo eu mesma.

Assim como eu, aquele lugar também mudou. Não encontro mais todos os meus amigos. Meus vizinhos não são mais os mesmos. O cachorro que furava as minhas bolas não está mais lá. O terreno enorme que tinha em frente a casa transformou-se num belo sobrado. As menininhas que brincavam de boneca no quintal agora caminham de mãos dadas, com os mesmos menininhos que jogavam futebol na rua. Nem mesmo a festa junina que ocorria todos os anos é a mesma. Não é mais feita com a mesma alegria e o mesmo entusiasmo de antes. Apenas acontece. Como uma tradição boba.

Um retorno com gosto de mudança e, ao mesmo tempo, de coisas que não mudaram. As mesmas escadas, facilmente reconhecidas pelas minhas pernas. Nas paredes, as mãos, minhas e da minha irmã. Marcas de treze anos. Tão singelas, ingênuas, que nem sequer mereceram uma repreensão por desperdiçar tinta e carimbar a parede com uma lembrança que lá permanecerá, enquanto a casa estiver em pé. No quintal, o mesmo suporte do balanço, cenário de muitas risadas, briguinhas e festinhas. A piscina dos ganços transformou-se num mini-jardim mal cuidado. É difícil olhar lá de cima e não ver os doze ganços querendo pegar o Salomé, que também corria da Pombosa, a galinha. Seria o papagaio chinês confundido com um pedaço de couve verde? Ah, sim, o Negão correndo pelo quintal, arrastando enormes ursos de pelúcia que pegava escondido. Seriam os ursos confundidos com a espécie do canino? O coqueiro continua lá, agora, com suas folhas menores e sem cocos. À noite, uma iluminação melhor, diferente da época que brincávamos de polícia e ladrão, esconde-esconde, casa do terror.

Na casa, novos habitantes que, certamente, assim como eu, também terão saudades de algum tempo. De outras marcas. De outros animais. De outras brincadeiras. Talvez eu também tenha novas saudades daqui a algum tempo. Mas de uma coisa eu não tenho dúvidas: serei outra, estarei mudada. Porque a mudança é uma constante em nossas vidas.

junho 18, 2004

Engavete o diploma e desengavete a proatividade

Quando falo para as pessoas que fiz Letras, a primeira coisa que me perguntam é sobre onde leciono. Então, quando digo que simplesmente não leciono, o olhar que me lançam é de “Como não?”. Pior do que não ter curso universitário hoje em dia é ser subestimado pelo que as pessoas pensam ser o curso que você fez. Posso ler os pensamentos, exibidos em suas testas: “taí mais uma que engavetou o diploma!”.

Seria muito mais fácil relacionar o fato de eu não lecionar com a crise do desemprego, crise econômica, crise de choro ou qualquer outra crise que se ouve por aí. Mas não. Chego a ouvir coisas do tipo “é por isso que eu não estudo, assim, não jogo meu dinheiro fora”.

Espera aí. Quem foi que disse que eu joguei o meu dinheiro fora? Pior: quem foi que disse que o fato de eu não lecionar tem alguma coisa a ver com o suposto fato de eu ter dedicado anos a um curso cuja profissão principal não me agrada? Pelo menos não agora. E quem disse, ainda, que o indivíduo que cursou Letras tem somente a área da educação para atuar?

As respostas para todos esses questionamentos foram os argumentos que me impulsionaram a dar este passo na minha vida, ignorando, sobretudo, a convicção que sempre me acompanhou, repetindo muitas e muitas vezes que jamais seria professora. Tudo bem, isso pode acontecer nos momentos mais confusos da sua vida. Então, um dia você cresce, amadurece e é obrigada a encarar os fatos. O que é melhor?

1. Terminar o Ensino Médio e esperar seu pai ganhar na mega-sena para ingressar no curso que te agrada, formar-se na profissão que, por ora, sempre sonhou? ou

2. Encarar a realidade, ingressar no curso que tem condições de bancar e ao menos ter um objetivo traçado facilmente de ser alcançado?

Quando eu era pequena, dizia que seria veterinária. Qual a criança que nunca disse disso? Mais tarde, pintam outras possibilidades: Biologia ou Matemática? As ciências exatas estão bem moldadas no mercado de trabalho atualmente. Matemática agora, Administração depois, já com um emprego consolidado, e um futuro brilhante. Puff! Desfaz-se a nuvenzinha. Que matemática, que nada! Você sempre foi péssima nessa disciplina e até hoje não se entende com a calculadora. Vamos com calma! Você adora ler. Se amarra em escrever. Todo mundo diz que tem uma boa redação. Letras!

Meses depois do ingresso na faculdade, um emprego de estagiária. Oh, ela já não faz mais parte do grupo dos desempregados! Função? Ah, sim. Responder mensagens via e-mail. Atendimento ao Cliente com textos de autoria própria. A façanha de seguir padrões, implementando, construindo, transformando. Pronto: o padrão agora é criar. Mais tarde, o desenvolvimento de um programa de qualidade para aprimorar o desempenho da equipe. Idéias e mais idéias surgindo e fluindo. O resultado? Um atendimento ao cliente por meio da linguagem escrita, embasado na eficiência e encantamento.

Um ano após o término da faculdade, a literatura como paixão e nada de lecionar. Está vendo? Não basta ter um diploma, é necessário ser proativa. Diploma engavetado, né? Sei...

junho 15, 2004

Uma só palavra nem sempre basta

Se tem uma coisa que eu detesto é censura. Tudo bem, eu vivo dizendo por aí que gostaria de ter nascido umas duas ou três décadas antes da de 80, mas é só pra ter podido combater esse mal como ele realmente mereceu. Naquela época teria um gostinho especial, manja?

Olha só, eu nunca me entitulei escritora. Eu não tenho livro em meu nome, nem casa e nem carro. NÃO SOU ESCRITORA, deu pra entender? Certo. Este espaço tem muito de mim, mas também NÃO É UM DIÁRIO, ouviu bem?

Este aqui é o MEU espaço, aonde eu escrevo o que EU quiser e sobre quem eu quiser. Se não tiver vontade de ler, não leia. O endereço já não é muito fácil mesmo e além do mais, sempre pinta a dúvida se é com "s" ou com "z", o que não torna muito difícil esquecê-lo pra todo o sempre e sempre, amém.

Ah, já ia me esquecendo: não escrevo mentiras. Se você não vê um fundo de verdade, encare como ficção. Mas eu, meu amigo, NÃO ESCREVO MENTIRAS. Um escritor, talvez. Mas eu não sou escritora.

E, só para fixar bem: eu sou meio tribalista, sabe? Não sou de ninguém. Portanto, não venha me dizer o que eu devo ou não fazer. Muito menos como fazer. Eu faço o que eu quero e escrevo o que sou. Você não me lê, você não me conhece.

junho 13, 2004

A visão do mundo exterior

Alguém aí viu a visão do mundo exterior?
Aquela cúpula de pessoas decadentes na calçada,
embaçada aos meus olhos.
A tela da tevê está destorcida e a do cinema também.
Somente os meus ouvidos escutam a música sórdida que toca ao meu redor.
E as palavras imundas e sem nexo que saem das várias bocas que eu não vejo.
O que eu não vejo mesmo, com grande esforço, é a visão do mundo exterior.
O juízo talvez esteja ao alcance das minhas vistas.
O bom senso, apenas a alguns metros adiante.
Mas ela, a cura do mal, a compreensão do bem, não consigo enxergar.
Será o mau vítima do próprio mal?
Ou será a singularidade a concretude do mal?
A visão do invisível é ela, aquilo que não vejo.
A visão do mundo exterior – a busca dos que não entendem o que devem buscar.
Precisam buscar.

junho 12, 2004

Fases

Analisar as fases do crescimento humano é uma tarefa bastante curiosa. Todo mundo convive com isso. Se ainda não chegou lá, certamente tem um irmão ou um primo no meio do trajeto. Ou então, cansa de ouvir um adulto sabichão repetindo “mas aquele menino. Que idade difícil, meu Deus!”.

É, meu amigo, a coisa não é nada fácil. Há algum tempo era super bacana sair mais cedo do colégio (sem uma dispensa oficial), e juntar a galera toda pra comer pizza na casa de um ou outro. Ou andar em bando no shopping center, sem pais ou irmão mais velho, provando da tão sonhada tal liberdade. Então, bastam dois, no máximo três anos mais tarde, pra você descobrir que a vida não era tão supimpa assim. É só ter a responsabilidade de bancar a conta telefônica pra descobrir que é muito mais lucrativo atravessar a rua e bater aquele papo pessoalmente do que passar horas falando ao telefone. Tem também aquela calça ou aquele tênis da grife não sei das quantas. Pensando bem, nem são tão legais assim.

Sei, tem muita mãe lendo isso aqui e não se cabendo em si com o fatídico “Eu não disse!”. Tá bom, é engraçado. Mas vocês, mães, devem entender que isso tudo é uma questão de fase. E, como bem é de conhecimento de todas, as fases passam e ficam as experiências. Sim, sim, e as experiências se vivenciam. Não tem como pegar emprestado, sacaram?

Se você aí está num momento complicado com a sua menina ou o seu moleque, dê tempo ao tempo porque as pessoas crescem e amadurecem (costuma acontecer com a maioria, pode acreditar). Nada como um futuro próspero.

junho 07, 2004

Falando com estranhos

- Bom-dia!
- Bom-dia! Pra onde vamos?
- Alphaville, por favor.
- Alphaville? Longe, né?
- É...
- Algum caminho em especial?
- O mais rápido, por favor. Preciso estar lá até o meio-dia.
- Sem problemas. Vou pegar a Bandeirantes e não vai ter atraso. Nesta hora, o tráfego não é tão ruim.
- Ótimo.

***

- Você trabalha numa empresa de informática?
- Não.
- Então, em uma construtora?
- Hum, hum.
- O que você faz?
- Marketing. Trabalho numa empresa de marketing.
- Ah, tá.

***

- Está um dia bonito hoje, né?
- É...
- Você tem celular?
- Como??
- Eu perguntei se você tem celular?
- ...
- Você acredita que eu esqueci todos os meus documentos em casa? E, pra ajudar, meu celular está sem créditos. Então, se você puder me ajudar e ligar para o celular da minha cunhada...
- ...
- Não precisa nem atender, não. É só discar. Então, ela retornaria para você, que pediria para ela me ligar.
- Sei. Estou sem créditos.
- Seu celular é Tim ou Vivo?
- Tim, moço...
- Então, faz ligação a cobrar...
- Não. O meu não.
- Ah, então tá.

***

- Você torce para qual time?
- Não torço.
- Ah, que isso! Você deve ter simpatia por algum, vai...
- Não gosto de futebol.
- Tá com vergonha de dizer que torce para o Corinthians, né?
- ...

***

- Xii, vamos ter que pagar pedágio, né?
- Não sei.
- É, vamos sim. Será que eu tenho dinheiro? Quanto está o pedágio, hein?
- Deixe eu ver se entendi. Você está cumprindo seu expediente dentro de um táxi sem documento nenhum e sem dinheiro para o pedágio?
- Ah, não. Sei de um caminho que não será preciso.
- ...

***

- O que você vai fazer em Alphaville?
- Como?
- Não, é que se você não for demorar, posso te esperar. Sem cobrar pela espera, claro. É que a corrida é boa.
- Vou demorar.
- É uma reunião?
- Aqui, entre à direita, por favor. Pode seguir.
- Então...
- Faça o retorno ali, à esquerda, e pare ali naquela segunda entrada.
- Será que eles deixam eu esperar aqui dentro?
- Assine aqui, por favor e, olha, não precisa me esperar. Vou demorar.
- Está bem, então. Boa reunião!
- Tchau.

junho 02, 2004

ARRASTANDO MARAVILHAS
(Kali C. / Alexandre Lemos) - Setembro / EMI

Eu não tenho muito, quase nada
Só a sombra do meu corpo sobre a estrada
Misturada a galhos secos
Eu só tenho becos e perguntas
Minha alma e minha culpa dormem juntas

Eu não tenho frio nos meus versos
Mas também não sei dos outros universos
Que carrego paralelos
Eu não tenho elos, nem correntes
Meus fantasmas sempre foram diferentes

Eu não tenho ilhas no tesouro
Nem lugar em casa para desaforo
Nem espaço pra lamento
Eu não tenho vento que me pegue
Nem diabo que me agüente ou me carregue

Eu tenho convites e te chamo
Minha natureza está no que eu te amo
Mesmo nesse mundo louco
Eu só tenho pouco tempo agora
Posso esperar, mas não demora

No silêncio do vazio
Arrastando maravilhas
Nem vertigem, nem limites
Daqui a pouco é outro dia.