maio 05, 2005

Entrevista concedida à Dotz para a Coluna Social da Semana

“Espero continuar dando tudo de mim”

“Não pretendo casar e nem ter um filho”

“Gasto em tudo. Sou consumidora Pop”

Juliana Marciano, 23 anos, gosta muito de escrever e mais ainda de falar. Muito comuni-cativa, ela concede entrevista contando tudo nos mínimos detalhes e, assim, revela sua vida, suas preferências e seus planos para o futuro, que se baseiam em ser uma grande escritora famosa. Ju, como é seu apelido, mora no bairro Jardim Rey, em Diadema. Do signo de gêmeos, ela mora com a mãe Isa e tem o pai Antônio morando no mesmo quintal com outra esposa, história essa que Ju relata ao decorrer da entrevista, assim como outros fatos a seguir.

Comida: Gosto muito de massas, comida japonesa, e também gosto muito de comer “porcarias”. Às vezes vou no Mc’Donalds e como um Mc Lanche Feliz só para ver a surpresa, sou uma consumidora Pop.

Música: É minha paixão. Eu gosto de MPB, clássicos como Elis Regina, Tom Jobim, Chico Buarque. Mas o que eu prefiro mesmo são de cantoras que nunca ninguém ouviu falar, assim como Isabella Tavani, Marcela Biasi e Renata Gebara. Elas são do Rio de Janeiro e ficam sem espaço para cantar em outros Estados, isso porque no Rio o movimento musical é mais forte. Mas, no momento, estou gostando muito da Zélia Duncan porque a acho uma artista completa. Para cantora internacional não tenho muita preferência porque tenho difi-culdades com inglês então fico sem entender algumas letras. Gosto muito de música italiana, por isso quinta-feira fui no Show da Laura Pauzini, no Credicard Hall.

Time de Futebol: Não gosto de futebol, mas eu dizia que era torcedora do São Paulo. Acho futebol uma coisa estranha, vários homens correndo atrás de uma bola (risos).

Animais de estimação: Eu tinha dois peixinhos, o Tom e a Elis (em homenagem aos cantores). O Tom morreu primeiro e depois a Elis morreu porque a tampa do aquário caiu em cima dela. Agora eu tenho um outro peixinho chamado Luz, que foi minha mãe que deu esse nome.

Sonho: Não tenho sonhos. Acho que a gente vive de momentos, é o que eu almejo hoje. Não tenho um sonho de ter um carro, de casar, ter uma família. Ah, não...não...eu tenho um sonho sim, eu sonho em ser uma escritora famosa e fazer o lançamento do meu livro com muitos amigos e regado a vinho barato. Minha amiga sugeriu de fazer o lançamento do meu livro com pipoca, porque é barato e bem moderno (risos).

Mora com quem: Olha só, moro com minha mãe mas meu pai mora no mesmo quintal com a esposa dele. É uma longa história, vou contar. Era uma vez um mocinho que se apaixonou por uma mocinha e casou-se com ela e teve 3 filhos, o Ivan, o Fábio e a Neide. Aí, em um belo dia, aconteceu uma coisa muito triste. A mocinha ficou doente e faleceu. Meu pai ficou parado por um tempo, depois encontrou outra mocinha e com ela teve 2 filhas, a Juliana e a Ana Cláudia. Aí o casamento desse mocinho com essa mo-cinha também não deu certo e, passou-se um tempo, eles se separaram. Então meu pai encontrou uma outra mocinha e com ela teve mais uma filhinha, que é a Bia. Resumindo eu tenho uma irmão de 33 anos e uma irmãzinha que vai fazer 3 aninhos.

Atividades Preferidas: Gosto muito de sair com meus amigos e tenho ido bastante em baladas. Gostamos de cantar no Karaokê, promover almoços e jantares na casa de um e de outro, vou muito a shows, teatros, cinema. Costumo também ouvir meus cds em casa e escrever sobre bastante coisa, principalmente sobre o cotidiano das pessoas (ao lado encontra-se um de seus textos)

Graduação e Cursos: Sou formada em letras pela UniABC. Este ano quase fiz pós em Jornalismo Cultural, mas meu amigo disse que não era muito a minha cara. Aí eu ia fazer pós de Criação na Comu-nicação, mas não formou turma, então vou deixar para o ano que vem. E curso eu faço de inglês, mas não me dou muito bem. Todo mundo na classe me chama de risadinha porque eu só dou risada. Na verdade, eu sou mais de literatura, gosto de ir em Workshops, manter contato com escritores.

Empresas que trabalhou: Oficialmente eu comecei minha carreira na Teletrim e fiquei uma no lá até que vim para a Dotz, onde estou há uns quatro anos. Lá na Teletrim eu também trabalhava em atendimento, por-que o atendimento da Dotz era feito por eles.

Como entrou na Dotz: Eu entrei aqui convidada. Na Teletrim o Rylson era meu supervisor gerenciado pela Helen. Um dia eu fui trabalhar e os computadores não estavam na mesa, então me disseram que a Dotz não tinha renovado contrato com eles. Isso porque a Dotz estava em crescimento e com a equipe de tecnologia formada. Portanto eles desen-volveram uma plataforma própria e trouxeram o atendi-mento para dentro de casa. Na época eu fiquei bem triste, até quando fui convidada para trabalhar aqui pelo Rylson.

O que esperava e o que espera da Dotz: Eu cresci muito aqui. Alcancei todos os graus, até a posição máxima. Fui atendente, assistente e cheguei a supervisora. Eu espero que a Dotz dê a virada que tanto está buscando e seja bem conhecida. Quero dizer aos outros que trabalho na Dotz e que eles a conheçam.

E o que você fará para isso: Poxa, eu espero continuar dando tudo de mim, acompanhando o ritmo, fazendo com que o atendimento Dotz alcance o grau máximo de eficiência e encantamento, que é o que todos esperam.

Nota 10: Dou nota 10 para o amor, toda forma de amar é bem-vinda e merece ser percebida.

Nota 0: Ao ódio, detesto odiar as pessoas.

No que mais gasta o seu dinheiro: Gasto em tudo o que eu ver. Livros, cds, presentes. Se estou com vontade de alguma coisa vou lá e compro.

Planos pessoais e profissionais para o futuro: Ser uma profissional na área da comunicação, não importa o quê. Mas quando eu falo que quero ser uma escritora tiro um pouco meus pés do chão, porque isso não dá dinheiro. E nos planos pessoais eu não sei porque não pretendo me casar e nem ter filhos. Então, minha área profissional completa a pessoal.

O que você seria capaz de fazer para realizar um sonho: Qualquer coisa que não preju-dicasse ninguém.

Frase predileta: Pode ser um “poeminha” sacana? É do Bukovski, escritor que gosto muito.

“A gente bebe quando está feliz
Pra comemorar
Quando está triste,
Pra esquecer
E quando não tem nada acontecendo,
Pra acontecer.”
Charles Bukovski

Jornalista Responsável: Lílian Munhoz

abril 24, 2005

Poema da necessidade
(Carlos Drummond de Andrade)


É preciso casar João,
é preciso suportar, Antônio,
é preciso odiar Melquíades
é preciso substituir nós todos.

É preciso salvar o país,
é preciso crer em Deus,
é preciso pagar as dívidas,
é preciso comprar um rádio,é
preciso esquecer fulana.

É preciso estudar volapuque,
é preciso estar sempre bêbado,
é preciso ler Baudelaire,
é preciso colher as flores
de que rezam velhos autores.

É preciso viver com os homens
é preciso não assassiná-los,
é preciso ter mãos pálidas
e anunciar O FIM DO MUNDO.

abril 11, 2005

Caminhantes Perseverantes na Cantareira

Uma ótima forma de vencer o cansaço pode ser uma cama quentinha, um lindo sorriso no rosto da pessoa amada quando você chega em casa, uma ducha bem demorada, zapear na TV com o controle remoto e com as almofadas do sofá em meio às pernas e elas, as pernas, beeeeeem esticadas sobre a mesa de centro.

Mas a melhor forma de vencer o cansaço, aquele de caminhar quatro quilômetros e meio com uma mochila pesada nas costas, um baita sol quente brilhando lá em cima e incontáveis subidas íngremes, daquelas que faz qualquer ser normal neste mundo pensar em não encarar, a melhor forma de vencer todo esse cansaço é uma só: a companhia.

Companhia como a San, ligadona no 220 V, rindo e fazendo graça o tempo todo, variando de vez em quando com um papo-cabeça sobre a arte e suas interferências na vida das pessoas, amparada pelos mais inesperados neologismos-tentaculásticos-nishídicos, marcando o caminho com o carisma inexplicável, daquele que somente quem a conhece pode compreender.

Companhia como a Polly, mostrando o tempo todo que a recompensa sempre vem depois do sacrifício, que o topo é o único local de chegada e que vale a pena continuar e ser perseverante. Sempre generosa com todos à sua volta, feliz, e pronta para um sorriso necessário ou para um inesperado "vamu todu mundo dumi" pra quebrar o gelo. Com seus amigos, encara tudo - até mesmo o "filhote de monstro" - que nos ajudou a voltar pra casa com a mochila menos pesada.

Companhia como o Rei, o único entre as mulheres, sempre disposto e solícito para o que precisarem. O protetor da ala feminina, o guardião das amigas, aquele que se preocupa o tempo todo, que se previne, que se dispõe, mas que detesta tirar fotos, ou melhor, sair nelas. O Sansão da turma, cuja força não está nos cabelos, mas nas costas, não importando o tamanho ou peso da mochila. Esse é o nosso Rei!

Comapanhia como a Paulinha, sempre risonha e solidária para com os caminhantes perseverantes. Grande motivadora e articuladora dos momentos de descontração da galera. Sem se preocupar com o que virá depois, está sempre pronta para o que der e vier: uma, duas, três, quatro batidas. E desce mais! Brincando de ser criança no Balanço de Pneus, jura pra todo mundo que não existe fórmula para a sua juventude estampada no rosto. Mas que eu ainda vou descobrir o caminho da Terra do Nunca, ah, isso eu vou.

Companhia como a Marininha, que provou que quem fala pouco anda mais e sua menos. Muito bem prevenida e com um baita espírito aventureiro, salvou a gente das picadas dos insetos e levou seu estoque de ban-daid, caso não aguentássemos a caminhada. Ainda bem que não foi preciso. Eita, mulher guerreira!

Companhia como a nossa Diva que, desta vez, não nos consagrou com sua bela voz, mas contribuiu de montão para o astral da galera. Mostrou-se também bastante comovida com a morte do Papa e, amparada pelo espírito humanista de paz e confraternização no mundo, aproveitou o momento para alimentar os famintos da região - os peixes jurássicos e o "filhote de monstro".

Companhia como a Ana, mestre das artes e do bom português - deixa qualquer analfabeto da língua com UM DÓ por não saber, que vou te contar! Mesmo em estado de choque com a caminhada de uma hora calculada pelo Rei, aproveitou muito bem o momento para exercitar os braços e as pernas nas descidas, enquanto esta que vos escreve capturava imagens pitorescas para refletir o seu olhar. Ohhh! Foi também responsável por preencher o caminho da volta com todo o seu conhecimento e interesse pelas artes plásticas, cinematográficas e literárias.

Por fim, a lembrança dos amigos que não foram também é responsável pela garantia da nossa alegria e cumprimento da nossa meta. Companhias ausentes, presentes nas nossas lembranças. Se estivessem lá, teriam tornado o nosso passeio ainda mais agradável e as subidas menos íngremes.

Viram como comecei minha semana inspirada? Quero que a de vocês também seja assim.

EU AMO O RYL E OS AMIGOS DO RYL!!!!!!!!!!

março 17, 2005

Marco Literário

"Oração das Donas do Inferno". Foi esse o conto que Clarah Averbuck leu no início do seu pronunciamento. O motivo desta leitura? Ela teria que ler algo e, ao tomar emprestado o meu exemplar de "Das coisas esquecidas atrás da estante", era justamente a página deste conto que estava demarcada. Clarah gostou da coincidência e resolveu lê-lo, justificando que provavelmente também o teria escolhido, caso assim tivesse que fazer. Lady Averbuck leu seu conto ferozmente, entonando em sua voz exatamente o que sua linguagem escrita faz sentir.

Ao seu lado estava Marcia Denser - Clarah Averbuck amanhã -, que se emocionou com a performance teatral de um dos seus contos. Marcia leu uma crônica inédita, escrita para alguma antologia que participou, das várias que fez em comemoração aos 450 anos de São Paulo. Como definiu Marcelino Freire, "um encontro a quatro mãos", já que, sucedendo Clarah e Marcia, encontraram-se Marcelo Mirisola e Reinaldo Moraes. Os quatro escritores são estigmatizados como "malditos" e marcaram época porque possuem uma linguagem visceral, revolucionária, chocante.

De quem foi a idéia deste encontro? Só poderia ter sido dele, Marcelino Freire, que também foi curador do "Encontros de Interrogação", promovido em novembro passado no Itaú Cultural, cuja repercussão foi tão boa que teremos segunda edição em 2005. Seguindo a mesma linhagem deste, que objetivava reunir escritores da Novíssima Geração e discutir seu processo criativo, sua literatura e suas referências, o "Marco Literário" também contou com a valorização dos novos escritores, além da organização de oficinas literárias. Aconteceu para reunir escritores de mesmos estilos de uma geração anterior a ícones contemporâneos. Bem à altura de Marcelino Freire, a idéia não poderia ter sido mais criativamente feliz.

O próprio Grande Marça me explicou no restaurante do Sesc Consolação que o "Encontros de Interrogação" foi um imenso passo para se chegar ao "Marco Literário". Mais que eventos literários, tanto um quanto outro tiveram o grande papel de promover a literatura brasileira, aproximar o escritor do leitor e afirmar um cenário literário que, cada vez mais, aparece em constante criação e evolução.

Eventos como esses têm também a responsabilidade de "quebrar" o saudosismo literário nas universidades. Existem novos escritores em cena, a literatura mudou, inovou, está aí para quem quiser ver. A crítica está fazendo o seu papel e os estudantes precisam conhecer a nova literatura na escola e não por acaso, como vem ocorrendo.

O evento ainda não acabou. Hoje, 18 de março às 20h, Joca Reiners Terron, escritor mato-grossense radicado em São Paulo e autor do livro de contos "Curva do Rio Sujo" e do romance "Não há nada lá", encontra pela primeira vez Milton Hatoum, amazonense radicado em São Paulo e um dos principais nomes da literatura contemporânea, autor dos romances "Relato de um certo oriente" e "Dois irmãos".

Amanhã, 18 de março, também às 20h, Luiz Rufato, autor do premiado romance "Eles eram muitos cavalos", encontra pela primeira vez Evandro Affonso Ferreira, que também surgiu nos anos 90 e é autor dos romances "Erefuê" e "Araã!", este finalista do Prêmio Jabuti 2004.

Vai lá:

Sesc Consolação
R. Dr. Vila Nova, 245 - V. Buarque - São Paulo - SP
Tel.: 3234-3009 / 3011-3252

março 13, 2005

Desesperança

O fluxo da vida e suas modernidades -
Perda total do ritmo
Pessoas não reconhecem os passos
Não percebem os caminhos
Não observam as paisagens
Modernidades que retardam o sentir
A percepção só vem depois que a luz se apaga
E novamente encontra dificuldades quando reacende
A subjetividade sobrepõe-se a qualquer grau de percepção
E a vida vai soar numa sinfonia diferente da que se conhece
Sempre incompleta
A luz do mundo vai piscar
De repente, tudo vai ser ainda menos familiar
As portas estarão abertas
Mas a entrada continuará sendo proibida
A linha de chegada é a linha do horizonte

fevereiro 10, 2005

O Homem da Livraria

Cheguei com dificuldades para entrar. Cinco, sete, quinze adolescentes obstruindo a passagem. Por que será que decidiram não entrar? Com licença daqui, com licença dali, uma segurada para não escapar a cara feia, uma leve torcida no nariz e, ufa, entrei. A indagação permaneceu sem resposta: o que será que não atraiu a moçada para dentro da livraria? Será que eles não gostam de best sellers e não entraram em menção de protesto? Será que a sobreposição dos livros não atrai muito a atenção? Ou será que o ar estava frio demais para permanecer lá dentro? Não sei. Sei apenas que entrei e todos aqueles livros pareciam música para os meus olhos e como se eles - os olhos - absorvessem o restante dos sentidos humanos. As mães ajudando os pequeninos a escolher um título parecia a visão do paraíso, uma forma promissora de acreditar no futuro, de não dizer em vão "o Brasil tem jeito".

Olhei à minha volta e existiam apenas três mesas com duas cadeiras cada. Todas elas ocupadas. Fui até a seção de "Literatura Nacional" e peguei com cuidado um livro da Cinthia Moscovitch. Tornei a observar as mesas e ainda estavam ocupadas. Decidi ir até a seção de revistas e a circulei com os olhos, como se buscasse uma maçã bonita em meio a muitas maçãs bonitas. Peguei uma maçã que tinha uma atriz em ascendência na capa. Gosto daquelas edições e já sei de cór o formato do discurso de cada jornalista, podendo, sobretudo, escolher a minha preferida. Assunto fútil com um toque de intelectualidade. É complicado, mas ainda dá pra selecionar bem as futilidades da mídia. Comecei ler a revista em pé mesmo. Folhear não, ler mesmo, desde o editorial até as propagandas mais drásticas. Vou lendo as partes menos envolventes, deixando o melhor pro final, igual criança que come o doce devagarinho, para o gosto bom durar mais tempo na boca.

Olhei em volta novamente e, bem ali, uma cadeira vazia. Fui até lá num passo apressado, torcendo para que aquele moço que vem em minha direção não sente na cadeira antes de mim. Consegui. Cheguei perto da mesa e ele estava sentado, concentrado. Olhei pra ele e pedi licença baixinho, para não incomodar sua leitura. Elegantemente, ele sorriu e fez que sim com a cabeça. Sentei com cuidado, abri a revista novamente e continuei de onde havia parado. De vez em quando, eu sorria ou então me controlava para não comentar em voz alta. Estava compenetrada na minha leitura e em meus pensamentos, quando ele me olhou e aproximou o livro aberto do meu rosto, apontando com o dedo indicador e perguntando: "você concorda com isso?" Fiquei assustada, mas decidi dar-lhe atenção. "Não concordo" - respondi sorrindo. "Isso é truque comercial para alavancar as vendas do livro, e não é a toa que este autor está fazendo fortuna" - concluí. Ele recolheu o livro e, me fitando, respondeu que era isso mesmo. Continuei observando-o e ele se afundou na leitura novamente. Concentrei-me na minha.

Os depoimentos de mulheres que realizaram aborto estavam interessantes, a ponto de eu rever os meus próprios conceitos. Estava dividida entre meus dogmas religiosos e a lei da sobrevivência, quando ele novamente resolveu me abordar: "estamos no princípio do fim e as coisas estão acontecendo exatamente como está na Bíblia. Estava lendo numa revista esses dias e o Brasil possui quatro mil e quinhentas religiões. Isso só no Brasil. Aquele Edir Macedo é a figura dos falsos profetas que a Bíblia ensina. Como é que as pessoas acreditam nisso?"

O que fiz foi fitar aquele homem e apenas observá-lo. Ele continuou: "o mundo capitalista não leva as pessoas a lugar nenhum. Fala pra mim se na época dos militares existia desemprego. O indivíduo somente não trabalhava se era vagabundo. E hoje? Quem é que acredita nessa filosofia enganadora do PT? Se tem alguém que ganha com isso são os banqueiros. Eles emprestam dinheiro às empresas que estão falindo e ganham em cima dos juros. Sabe de quem é o dinheiro que eles emprestam? Meu e seu. Eles têm uma doutrina própria. Coitada da empresa que não se unir a outra. É falência na certa. Observe as empresas de ônibus de São Paulo. Hoje, é tudo consórcio disso, consórcio daquilo. E o país fica aí parado. Eles lançam para o povo a teoria da política do crescimento e é tudo teoria. Tudo enganação pra distrair o povo."

Aquele homem que, quem olhasse, só poderia imaginá-lo alimentando os pombos, estava ali na minha frente lançando o desabafo de milhões de brasileiros com tamanha lucidez. Talvez, qualquer outra pessoa no meu lugar se levantasse da mesa, sem mesmo pedir licença e fosse procurar um canto qualquer para concluir sua leitura. Ou permanecesse com a cabeça baixa, ignorando o pobre homem. Eu, ao contrário, decidi erguer a minha cabeça e ouvi-lo. Simplesmente ouvi-lo. Abosorvi cada palavra como se fosse uma aula acadêmica. Sua teoria sobre a máfia no futebol, a continuidade da sua visão político-social do mundo, a defasagem educacional do brasileiro, a verdade sobre o Carnaval, o Oriente Médio, o Bush, o começo do fim. Para aquele homem, o problema do Brasil se resume em uma única coisa: na falta de patriotismo, algo que vai muito além de conceitos de esquerda ou de direita. Aquele homem que nunca mais verei, que não sei o nome e nem de onde veio. Nem mesmo se era de carne ou osso. O homem da livraria.

fevereiro 05, 2005

Acabo de descobrir uma coisa. Poemas, a gente ouve. Isso mesmo, do verbo ouvir. As belas composições de palavras ficam ecoando na nossa cabeça e a gente fica ouvindo aquela voz lá no fundo. Às vezes é uma voz sutil, daquelas que a gente ouve apenas se prestar muita atenção. Mas às vezes, não. Ela é tão forte que os gritos nos faz ensurdecer. E, de tão forte, a gente precisa colocá-la pra fora, pra ver se, compartilhando, o volume fica mais baixo. Mesmo assim, é um risco. Risco de virar epidemia. Mas eu não me importo e não quero saber de vacina.

A primeira vez que ouvi este poema foi num programa de televisão. A pessoa que o arrancou da cabeça em forma de voz nem sequer parecia gostar dessas coisas. Mas, de alguma forma, ficou um pouco do poema nela. E ficou um pouco em mim. E não adianta fugir, porque vai ficar um pouco em você que está lendo estas palavras agora.

RESÍDUO
(Carlos Drummond de Andrade)

De tudo ficou um pouco.
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco.

Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).

Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficam poucas
roupas, poucos véus rotos,
pouco, pouco, muito pouco.

Mas tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
- vazio - de cigarros, ficou um pouco.

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
de teu áspero silêncio
um pouco ficou um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
nos pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.

Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
em pouco de mim algures?
no consoante?
no poço

Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.
De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil...

De tudo fica um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
do vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver...de aspirina.
De tudo ficou um pouco.

E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.

Mas tudo, terrível, fica um pouco.
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço do cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte de escarlate
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.

janeiro 29, 2005

Alguém aí me ouve? Eu queria falar. Queria falar dos erros que desconheço, aqueles que, se soubesse da existência, jamais teria libertado da prisão. Daqueles que até ouvi gritar meu nome como uma sinfonia sombria, bem ao longe, mas que eu fingi não ouvir e confundi com uma desgraça qualquer que não estava ao meu alcance. Aqueles erros que chegam sem bater, entram sem pedir licença, colocam o pé no seu sofá e ri da sua cara, como se você fosse de fato uma piada, como se rir fosse um seriado engraçado daqueles que continuam no dia seguinte e no dia seguinte e que chegam até a encher, tendo um fim inesperado, num momento jamais imaginado, talvez, encoberto por outro erro. Erros que te deixam com vontade de chorar, de sair correndo, de ignorar a melancolia, que nem um beijo molhado te faz esquecer. Erros que, como o próprio nome já diz, são erros. Erros... Erros.. Erros...

janeiro 27, 2005

A quantas anda a maturidade do Brasil?

Responsabilidade, hoje em dia, está muito aliada à questão de maturidade que alcançamos com o passar dos anos. Está, ainda, estigmatizada à função histórica do ser homem e ser mulher, mesmo com suas controversas.

A mulher, por si só, já amadurece primeiro; a menstruação e o crescimento dos pêlos púbicos acabam antecedendo o crescimento dos pêlos faciais e o engrossamento da voz no homem. Depois, vem a questão da maioridade: até há pouco tempo, o homem se tornava maior aos 18 anos; a mulher, aos 21. Hoje, talvez pela afirmação do papel feminino na sociedade, a questão da maioridade está padronizada. O homem e a mulher assumem sua maioridade cívica aos 18 anos.

Historicamente, socialmente e até logicamente falando, deveria ser assim. Mas como não "entrar em parafuso" quando ligamos a televisão e vemos crianças de 8 e 9 anos de idade cuidando dos irmãos menores e dos afazeres domésticos, enquanto a mãe trabalha fora? Ou, então, trabalhando em zonas rurais, carvoarias e lixões paragarantir o sustento da família? Sim, crianças iguais as que você tem na família e que deveriam estar na escola, atribuindo a sua maturidade ao ato de simplesmente ser criança.

E o Brasil, você e eu nessa história toda? Às vezes, fico pensando naquele adolescente que freqüenta uma escola pública e que não se dá conta das oportunidades que tem em mãos. Penso nos pais destes adolescentes, que não atribuem a devida responsabilidade para o problema. E lamento pelos educadores que vêem seus aprendizados acadêmicos se escoarem pelos vidros quebrados das escolas aonde lecionam.

Há pouco tempo, falei neste espaço da questão da revolução e reafirmo: os jovens de antigamente sabiam detectar os problemas e correr atrás da solução, mesmo que esra se tornasse um problema ainda maior. As pessoas sabiam pensar coletivamente.

Hoje, no entanto, vejo uma juventude com visões míopes. Diante dos meus olhos, o Brasil - um gigante adormecido e imaturo.

janeiro 10, 2005

Dizem que quem canta, seus males espanta. Eu digo mais: quem canta, seus males compatilha e com eles, também a sua alegria, a sua essência, o seu melhor e pior. Não é só isso: quem canta muda a vida de quem ouve. E quem sabe ouvir, tem o dom de proliferar sentimentos. Quem sabe ouvir torna aquele que sabe cantar imortal. E tudo vira música. E tudo vira poesia. E tudo começa a fazer sentido. Assim disse o eterno Itamar Assumpção:

Quem canta seus males espanta
(Itamar Assumpção)

Entro em transe se canto, desgraça vira encanto
Meu coração bate tanto, sinto tremores no corpo
Direto e reto, suando, gemendo, resfolegando
Eu me transformo em outras, determinados momentos
Cubro com as mãos meu rosto, sozinha no apartamento
Às vezes eu choro tanto, já logo quando levanto
Tem dias fico com medo, invoco tudo que é santo
E clamo em italiano ó Dio come ti amo
Eu me transmuto em outras, determinados momentos
Cubro com as mão meu rosto, sozinha no apartamento
Vivo voando, voando, não passo de louca mansa
Cheia de tesão por dentro, se rola na face o pranto
Deixo que role e pronto, meus males eu mesma espanto
Eu me transbordo em outras, determinados momentos
Cubro com as mãos meu rosto, sozinha no apartamento
É pelos palcos que vivo, seguindo o meu destino
É tudo desde menina, é muito mais do que isso
É bem maior que aquilo , sereia eis minha sina
Eu me descubro em outras, determinados momentos
Cubro com as mãos meu rosto, sozinha no apartamento

dezembro 24, 2004

Natal é Tempo

Luzes iluminando nossas vidas. Muitas pessoas nas ruas. Crianças correndo. Pessoas rindo. Uns entregando presentes. Outros ganhando. Alguns sonhando. Um cheiro diferente no ar. É NATAL!

NATAL é tempo de balanço: quantas vezes rimos, quantas vezes choramos, os amigos que perdemos, aqueles que ganhamos, as metas que não conseguimos alcançar, quantos quilos engordamos, quantas loucuras cometemos, quantas vezes nos lamentamos, quanto gastamos com coisas fúteis, quantas vezes deixamos de ser úteis.

NATAL é tempo de reflexão: de pensar naquele que está ao nosso lado e naquele que não está mais. De esquecer as desavenças, de encontrar a paz. De buscar no fundo do coração um sentimento que não precisa ser expresso em palavras, apenas com o olhar. Olhar de Feliz Natal. É o tempo certo de esquecer as desavenças para sempre. É o tempo preciso para pensar na miséria. É o tempo que não encontramos durante o ano inteiro para PENSAR o bem, DESEJAR o bem, PRATICAR o bem.

NATAL é tempo de conscientização: de entender que a perfeição é do tamanho da pretensão que cada um tem de ser perfeito. De aceitar que o belo não é um conceito padrão, mas sim que se encaixa à essência de cada pessoa. De compreender que a individualidade às vezes é necessária, mas que só a união faz a força. De afirmar que o único caminho para o sucesso é o foco nos objetivos, buscando sempre pensamentos positivos.

NATAL é tempo de mudança: de descobrir o que falta para sermos pessoas melhores. De entender que o mundo precisa ser diferente e que cada um PODE dar a sua contribuição para isso. É tempo de entender que a opinião alheia é importante sim e aceitá-la faz da gente pessoas menos egoístas. É tempo de crescer, de amadurecer.

De todos os tempos, NATAL é o tempo que Deus nos deu de presente para sermos filhos melhores, amigos melhores, pais melhores, PESSOAS melhores. É o tempo que Deus escolheu para nascer em nossos corações e nos fazer REFLETIR, CONSICIENTIZAR e MUDAR.

Que neste Natal, Deus nasça mais uma vez no seu coração e faça de você uma pessoa AINDA MELHOR.

FELIZ NASCIMENTO!

FELIZ NATAL!

dezembro 13, 2004

???

Uma das grandes frustrações com a geração a qual pertenço é justamente a ausência de argumentos construtivos para se fazer uma revolução, não para mudar o mundo, mas para fazer a diferença nele. Seja qual for o objetivo de fazer a diferença no mundo, no seu trabalho, na faculdade, em qualquer lugar, esse objetivo deve vir amparado pelo respeito às classes sociais, às essências sexuais, às diversidades raciais e também às diferenças de opiniões.

A verdade é que ninguém está de fato preocupado com isso. Talvez, nem mesma eu esteja. As pessoas não estão preocupadas em ser diferentes ou em fazer a diferença. Todo mundo pensa igual, como se a razão tivesse sido padronizada, restrita a um singelo pensamento coletivo: vamos seguir o fluxo que a sobrevivência vem por conseqüência. É isso, a preocupação deve ser com a morte e não com a vida.

Esse fulano aí do seu lado provavelmente não esteja vivo. Essa que vos escreve pode estar proferindo essas palavras do além. Do além da indignação humana. Do além da impossibilidade de compreensão. Do além das nossas dúvidas remetidas à miséria da condição humana. Há tanta coisa pra se lamentar. Pra duvidar. Pra conspirar. Quem está preocupado com o respeito?

Quem aqui se reconhece humano o suficiente para proliferar o perdão? Quem aqui se reconhece puro suficiente para chorar? Não existem lágrimas. Não há sorrisos. O ar que respiramos chama-se melancolia e a vida que bate em nossos corações está isenta de qualquer significado. O desrespeito nos governa.

A vida que se finge viva nos apodrece diariamente. Minuto a minuto. O amor é inatingível e a solidão não está só. Está acompanhada pelo desespero de abrir os olhos e entoar a voz. Estamos todos mortos pelo desrespeito. E a minha última palavra é BASTA.

dezembro 08, 2004

Depois do Perigo

(Lucina e Zélia Duncan)

Não, não me aqueça
Hoje eu quero o frio
O vazio
Que a sorte deixou aqui
Quero sentir a altura do abismo
Pra eu poder subir depois do perigo
Não, não me acalme com silabas doces
Hoje eu quero o açoite das palavras rudes
Pra que eu possa me defender em atitudes
Não, por favor hoje não me proteja
Para que eu finalmente veja
O que a vida reservou pra mim
Quero sentir a altura do abismo
Pra eu poder subir depois do perigo

novembro 29, 2004

Segunda-feira muito louca

Detestar as segundas-feiras nunca esteve no meu rol de detestações diárias. Segunda-feira é, antes de mais nada, uma quebra de rotina e, para quem vive em função de inconstâncias, vem a ser um ótimo aperitivo para o início da semana. Vá lá que tal otimismo dura, no máximo, até a terça-feira, mas aí é uma outra história.

Minha segunda-feira começou bem. Ignorei o despertador. Repeti mais de cinco vezes em pensamento "só mais alguns minutinhos". Acordei no banho. Não bebi meu café na xícara de sempre. Troquei os "Anos Incríveis" pela centésima transmissão do "Prêmio Multishow". Saí atrasada de casa pra não contrariar a ordem natural das coisas. Peguei um coletivo lotado. Ouvi duas vezes seguidas a fita da Zélia Duncan no meu walkman, cantando todas as músicas e repetindo todas as falas dos seus comentários. Ignorei os olhares curiosos. Cheguei ao escritório e, como sempre, me dirigi ao toalete para lavar as mãos e pentear meus cabelos rebeldes. Peguei o café-da-maria e um copo com água. Bati um papo matinal com a Cris. Sentei na frente do meu computador. Selecionei algumas músicas que não ouvia há tempos. Baixei meus e-mails. E o telefone tocou.

Tem horas que o simples tocar do telefone faz com que você deseje ser qualquer outra pessoa, atuar em qualquer outra área ou estar em qualquer outro lugar. Tenho a impressão de que, quando o telefone toca, junto com as ondas sonoras vem uma espécie de vibração que precede o assunto a ser tratado. Sei lá se é o meu sexto sentido em ação ou algum poder marciano, mas há momentos que o toque do telefone me dá vontade de sair correndo. O problema é que eu nunca saio.

O infeliz do outro lado da linha decidiu quebrar a seqüência da minha segunda-feira normal e jogar nas minhas costas todos os rezíduos maléficos do seu final de semana frustrado. Por pouco, quase esqueci da ética e moral que movem minha profissão e mandei o elemento se dirigir ao banheiro mais próximo e enfiar a cabeça na privada. Eu, que mal enxergo a ponta do meu pavio de tão curto que ele tem estado, tive que manter a compustura. Até tentei não ser irônica. Até tentei não ser redundante. Esgotei a minha capacidade de dizer a mesma coisa por um milhão e trezentas e setenta e sete mil formas diferentes. E a conversa com o fulano se prolongou em duradouros quase oitenta minutos. Dá pra acreditar? Um dia bonito, os passarinhos cantando, o Natal chegando e o fulano gastando o telefone da empresa em que trabalha, só para ESTAR COM A RAZÃO! E eu lá quero saber dessa tal de razão? Sério. Ultimamente estou mais para a sensibilidade do que para outra coisa qualquer.

Ei, alguém aí tem um chiclete?

novembro 17, 2004

O pior de mim I

Saudades de mim
Do mistério da minha essência
Do que me faz doce a amarga
Líquida, homogênea
Ingredientes da vida

Medo de mim
Da ousadia de ser
Da audácia de falar
Pensamentos silenciosos
Verdades inquietas

Raiva de mim
De tudo o que não sinto
Da simplicidade difícil
Do que falo e não digo
Quando paro para refletir

Pena de mim
Da covardia disfarçada
Do frio que me apetece
Desconhecido que me conhece
Da felicidade amargurada

novembro 09, 2004

A sorte vem por e-mail e ondas sonoras

Tá legal, tá legal. Prometo que nunca mais reclamo de falta de sorte na vida. Não digo isso porque estou viva. Também não digo porque estou empregada (ops, melhor não tocar neste assunto). E digo menos ainda por ter um teto e não precisar dormir na rua. Sim, claro, são motivos suficientes para eu viver feliz para todo o sempre, amém. Afinal, muitos são felizes por menos, oras. Então tá. Ei, Papai do Céu, tá me escutando? Valeuzão por tudo, viu! Papai Noeeeel, fui uma boa menina o ano inteiro. Muito obrigada pelas suas antecipações.

Calma, não ganhei na mega-sena. Mas desperdicei uma boa chance, pode acreditar. Algumas pessoas são céticas com relação a promoções, mas eu certamente quebrei umas boas barreiras há cerca de dois meses. E foram com estes argumentos que acalmei uma grande amiga por ter recebido um e-mail promocional indicado por mim.

Imagine você com uma enorme vontade de conferir o super show de uma cantora que curte muito. Agora, imagine a sua enorme vontade atrelada ao fato de você não ter dinheiro. Você, evidentemente, buscará algumas saídas. Recorrer à sua mãe é uma delas. Mas a sua mãe já encerrou a cota de "quebra-galhos" do mês e resolve não ceder desta vez. Você tem seu irmão, mas ele também não pode quebrar esta. Você imagina algumas situações: talvez vender alguns objetos de casa, mas isso traria conseqüências drásticas. Não valeria a pena. Um empréstimo, talvez. Hmmm... melhor não. Então você parte para o "se":

Se não tivesse gastado seu dinheiro com coisas supérfluas...

Se tivesse um namorado rico...

Se não tivesse zerado o cartão de crédito...

Se houvesse algum milagre...

Ops! Milagres acontecem. Quando eu já estava mais que conformada, continuei dando o rumo normal à minha vida. Nada de baladas até o próximo mês. Nada de cinema. Nada de compras. Nada de lanche com os amigos. Tive que optar pelo "curtindo a vida adoidado na Internet", manja? É, dá para se divertir às vezes. E foi no Orkut que os anjinhos disseram amém. Lá mesmo, na comunidade da Zélia Duncan. Explico: alguém mencionou que o fã-clube estaria sorteando alguns convites para o show da Rita Lee, que a Zélia faria uma participação especial. Seria apenas uma participação, mas era também a gravação do DVD da Rita. Já era alguma coisa, né? Pois bem. Fui até o site do fã-clube, registrei a minha inscrição na promoção e desencanei total. Numa hora dessas, a melhor coisa é dispersar. E assim tentei fazer.

Em determinados momentos, por mais que você tente, não consegue. Quem disse que havia forma de dispersar? No dia seguinte, a caminho do escritório, a Nova anunciava a promoção para o tão sonhado show no Directv. Bastaria ligar para a rádio e informar o nome e documento de identidade. Ah, sim! Antes, eu teria que decorar o telefone da rádio que ouço todos os dias, cujo número é repetido zilhões de vezes e eu sequer saberia informar o primeiro dígito se me perguntassem. Até aí, valeria o sacrifício.

Cheguei ao escritório e disquei. Fui atendida no primeiro toque. Começamos bem, pensei. Fiz o que tinha de ser feito e esperei pelo resultado que seria divulgado na programação em vinte minutos. Liguei meu PC, continuei ouvindo meu walkman e fingi que nada estava acontecendo. De repente, alguém me chama. Tiro os fones e olho para trás. Quando me volto e recoloco os fones, ouço apenas: Parabéns, Juliana! Aguarde o contato da nossa produção". Venhamos e convenhamos que "Parabéns, Juliana!" não significa absolutamente nada. Você já parou pra pensar em quantas Julianas existem no mundo? Eu já. E não são poucas. Fiquei com vontade de brigar com a outra Juliana que havia me desconcentrado na missão, mas procurei me acalmar. Quase uma hora depois, eu lá, me corroendo em dúvidas, e o telefone toca. Era a moça da rádio. Sim, eu era a Juliana sortuda. Eu havia ganhado um par de ingressos para ver Zélia Duncan no Directv.

Como era de se esperar, não me cabia em mim de tanta felicidade. E todo mundo com aquela cara de surpresa de "Sim, as promoções funcionam". Quando volto do meu almoço, tal não foi minha supresa ao ver a mensagem que estava em minha caixa-postal. Era a resposta do fã-clube. Eu tinha sido uma das premiadas para ir à gravação do DVD da Rita Lee. Ah! E na sexta recebi a resposta dizendo que também ganhei dois ingressos para ver "Mulher Gato" no cinema + 1 walkman. A minha frase foi uma das vencedoras, em resposta à seguinte pergunta: "O que você faria se recebesse os poderes da Mulher Gato?".

Naquela semana acontecia o maior acúmulo da mega-sena dos últimos tempos. Pergunte se eu joguei.

outubro 21, 2004

Arte Filosofal

Como assim "este era o objetivo"? Quem disse que a arte tem objetivo específico? Cada um entende como a sensibilidade permite. Se eu levei para o lado racional, também não estou errada. Quem disse que o conjunto é irrelevante? Não basta tocar, tem que convencer. E não me convenceu.

outubro 20, 2004

Beije-me!
Quantos beijos você quer?
Hmm... Todos.
Olha que eles são infinitos.
O que importa, se temos todo o tempo do mundo?

outubro 14, 2004

O Cinema Brasileiro

O cinema é cultura. O cinema é arte. O cinema também é filosofia. As sensações cinematográficas podem ser comparadas às sensações literárias e é justamente por isso que vivo repetindo que, assim como acontece quando lemos um livro, jamais terminamos de ver um filme sem um mero grau de transformação. O cinema transforma.

Hoje, quando pensamos em cinema nacional, já estamos, automaticamente (por questão de cultura ou de maturidade social), nos distanciando do tabu que este assunto nos remete. Sim, o nosso cinema possui novas caras e arranca novas sensações. Não penso que isto ocorra em função da queda do favoritismo norte-americano e nem mesmo por uma epidemia patriótica que se infiltrou nos brasileiros de última hora. A questão é muito mais positiva do que se pensa. O conceito de qualidade está mudando. E mais: não só o conceito de qualidade estética, mas, sobretudo, intelectual.

É óbvio que o nosso humilde cinema não transcende as superproduções dos filhos de Bush. Não cabe aqui tirar-lhes este mérito. Mas as pessoas estão cada vez mais buscando o cinema-cabeça. Aquele que toca, que arrepia, que faz chorar e refletir. É este o ângulo que os nossos cineastas têm buscado e alcançado com êxito, seja no contexto documentário, como foi com Carandiru e recentemente com Olga, ou no contexto filosófico-reflexivo, como está sendo com A Dona da História.

Este último, ainda traz o conceito da arte gerada pela arte, a concepção (em seu verdadeiro sentido), de uma nova tendência: o cinema brotado do teatro, técnica feliz e bem sucedida, experimentada pela segunda vez por Daniel Filho. Não há investimentos de grandes proporções, mas há um refinamento na escolha do elenco e na adaptação do roteiro. O expectador se encontra, se identifica, reflete. E tudo isso acontece sem a necessidade de gastos milionários. O resultado pode ser visto nas estatísticas das bilheterias. As pessoas estão indo mais ao cinema, as crianças, assim como acontecia no passado antes das atuais tecnologias, estão pegando gosto pela sétima arte.

Naturalmente, ocorre o incentivo a talentos desconhecidos ou reprimidos e desperta-se a atenção das autoridades governamentais para esta nova fonte de lucro financeiro e intelectual que se revela o Cinema Brasileiro. Há lazer mais lucrativo do que apreciar a sétima arte?

outubro 13, 2004

Fale aí

Por acaso, o filho quer saber se a mãe está cansada quando deseja seu peito desesperadamente? Não. Assim também é a minha ansiedade por não postar nada aqui desde o dia 27 de setembro. Resolvi então dar um drible no tempo de que (sério), não disponho, e mandar um sinal de vida do meu planeta conturbado. Eu poderia falar do Dia das Crianças, do Programa da Xuxa, da correria que foi com o Vitinho no Shopping e no Paique Piigoso. Poderia falar ainda do Dia da Padroeira do Brasil e da vela que queima lá em casa em sua homenagem. Poderia falar também da minha vida profissional que não está muito diferente da vida pessoal. Aliás, que vida pessoal? Ah, sim! Eu esqueci que as minhas vidas são, na verdade, uma só. Simples, não? Tenho vontade também de falar do filme que vi na sexta com meus amigos, mas este ficará para um outro post. Só uma sugestão: não encare isso como promessa, okay? Se eu ousasse falar da minha não-ida a Curitiba, programada dois meses antes do feriadão, combinadíssima com uns amigos super que me acompanhariam, a graça que já não existe se perderia de vez. Para segurar a graça, só se eu falasse do show que pretendo ir no próximo final de semana. Como corro o risco de não ir, melhor não falar mesmo. Bom, disse que o tempo era curto, certo? Então, posso falar que passei aqui só pra dar um Oi!. Pronto, falei.