às vezes me convenço
que a amizade
é um estado
quase árabe
de espírito
julho 15, 2007
julho 12, 2007
Sabe, eu gosto de pensar que literatura é a atividade mais solitária que existe. Sabe por quê? Simplesmente porque você escreve pra você. É uma atividade que depende única e exclusivamente de você. Claro que tem lá o desejo de ser lido, compreendido, surpreendido. Mas isso é raro. O verdadeiro lance é achar exatamente o ponto que a literatura te ajuda. Pra mim funciona como uma análise. Meu blogue é como se fosse meu analista. Vou lá, crio coragem, digo um monte de coisas e saio correndo. Eu acho que antigamente as pessoas eram mais sensíveis, sim. A diferença é que naquela época existiam poucos frustrados no mundo. As mudanças não eram vistas a longo prazo e as pessoas não trabalhavam com o tempo escorrendo pelas mãos. Hoje é diferente. Outras épocas. Entendo o que você diz porque sofro do mesmo mal. Exatamente do mesmo mal. Mas você precisa transformar a literatura na sua grande aliada. Escrever desenfreadamente sem a ânsia sufocante de achar que aquilo vai cair como uma luva em alguém. Escreva pra você. Deixe que caia como uma luva em você. E o que vier será lucro. E também é importante que você não force. Deixe que a atividade flua. Na hora que tiver de vir, virá. Com um pensamento, uma cena, uma música. Não desanime. Entenda que a literatura é algo de você para você. E pronto.
julho 10, 2007
Entre umas e outras
Uma anda pelo mundo atrás de respostas. Por quês. Comos. Serás. Todos lançados ao vento desenfreadamente. Tem dias que duvida do feito de suportar e, sabe-se lá como, apenas consegue. Em alguns momentos pensa ter chegado no resultado, mas o minuto seguinte vem e desfaz tudo outra vez. Concluiu que esse é o segredo de viver: dá-se um passo, lança-se um pergunta e pronto - sai correndo atrás das respostas. Quem consegue alcançá-las é feliz. Quem pensa que alcançou passa a vida oscilando entre risadas e lágrimas. E os que ainda estão na busca nutrem-se de esperanças ou simplesmente desistem. Destes é que ela tem medo. Provavelmente, porque sabe exatamente o que sentem e o que não querem, assim, na íntegra.
A outra é dona de si. Guerreira e vítima na medida certa. Entende os contextos porque os constroi com as próprias convicções. Se sente medo e acha que é o momento de recuar, simplesmente recua. Não apresenta justificativas, não pede permissão, não calcula limites e vai. Até onde a sua vontade permite. Vive um dia após o outro. Apaga as decepções como se apaga uma equação que não está certa. Assopra os fiapos e recomeça. Se parasse para refletir o que se passou, talvez desejasse ser outra pessoa. Mas acha que a vida é curta demais e prossegue. Não sabe se tem medo porque não se permite bloquear um impulso. Acredita que a felicidade está nas tentativas. E talvez ela esteja certa.
Entre umas e outras, no fundo, desejo que uma seja a outra.
Uma anda pelo mundo atrás de respostas. Por quês. Comos. Serás. Todos lançados ao vento desenfreadamente. Tem dias que duvida do feito de suportar e, sabe-se lá como, apenas consegue. Em alguns momentos pensa ter chegado no resultado, mas o minuto seguinte vem e desfaz tudo outra vez. Concluiu que esse é o segredo de viver: dá-se um passo, lança-se um pergunta e pronto - sai correndo atrás das respostas. Quem consegue alcançá-las é feliz. Quem pensa que alcançou passa a vida oscilando entre risadas e lágrimas. E os que ainda estão na busca nutrem-se de esperanças ou simplesmente desistem. Destes é que ela tem medo. Provavelmente, porque sabe exatamente o que sentem e o que não querem, assim, na íntegra.
A outra é dona de si. Guerreira e vítima na medida certa. Entende os contextos porque os constroi com as próprias convicções. Se sente medo e acha que é o momento de recuar, simplesmente recua. Não apresenta justificativas, não pede permissão, não calcula limites e vai. Até onde a sua vontade permite. Vive um dia após o outro. Apaga as decepções como se apaga uma equação que não está certa. Assopra os fiapos e recomeça. Se parasse para refletir o que se passou, talvez desejasse ser outra pessoa. Mas acha que a vida é curta demais e prossegue. Não sabe se tem medo porque não se permite bloquear um impulso. Acredita que a felicidade está nas tentativas. E talvez ela esteja certa.
Entre umas e outras, no fundo, desejo que uma seja a outra.
julho 03, 2007
Deixando as Amarras
Sabe que eu descobri que nós temos muitas coisas em comum? O Jazz me fez perceber. Talvez você não saiba quem é a Amy Winehouse e nem a Diana Krall. Talvez você conheça bem a Ella e a Billy Holliday e até poderíamos emendar uma conversa longa falando sobre elas e sobre outras tantas que eu ainda não tive a oportunidade de descobrir. É engraçado porque eu me lembro das nossas brigas no carro pelas músicas que tocavam na rádio. Eu dizia que não queria ouvir música de velho e você arrebatava, dizendo que era música de inteligente. Hoje vejo que você está coberto de razão.
Acho que você adoraria saber que hoje eu lamento muitíssimo por não ter prosseguido com aquelas aulas de órgão em que me matriculou. Aulas que eu detestava porque tinha que deixar minhas amigas brincando nas tardes de sábados ensolarados e suportar o professor chato que, ao invés de dar atenção às alunas, ficava cortejando a minha irmã. Se naquela época eu tivesse o dom da argumentação como tenho hoje, talvez eu o teria convencido a me matricular nas aulas de violão. E enquanto você me falaria sobre os deuses dos teclados, eu lhe falaria sobre Zélia Duncan e Menescal e Gilberto Gil. Seriam papos interessantíssimos.
Engraçado, mas descobri que somos tão iguais. Você não imagina isso, não é mesmo? Mas somos. Não chego a ter o seu gênio, esse foi herdado pelos outros. Mas tenho a sua mania de se indignar perante as coisas. Sabe aquela coisa de falar, falar, falar, se cansar, tomar fôlego e falar de novo? Minha mãe quer morrer quando isso acontece e eu a entendo porque isso deve fazê-la lembrar você. Você deve se lembrar da nossa última discussão. Eu lá em cima e você lá embaixo. Cada um com a sua verdade, meu deus, aquilo não teve um fim. Foi pior do que quando eu disse a você que pela primeira vez que votei no Lula. Aposto que você morre de vontade de olhar na minha cara e despejar um fatídico "não te falei". Ou talvez até despejar outras coisas que não me fariam diferença. Como quando você fez questão de me prometer aquele anel de formatura que eu jamais usaria. Você me vê usando um anel de formatura?
Às vezes tenho vontade de pegar um avião e ir até aí pra te encarar de frente. Quem sabe mostrar minhas tatuagens e falar dos meus amigos gays. Sabe que morro de vontade de saber o que você pensa sobre isso? E se eu te falasse que aquela minha prima, que você tanto gosta, é gay? Juro. Não quer acreditar, não acredite.
Se eu pudesse em algum lugar do passado me encontrar com aquela menininha mimada e pirracenta, cara, não tenha dúvidas de que eu a ensinaria a ser gente. Diria a ela para comer menos e provaria por A+B que ganhar ou não presente no natal não faz a menor diferença. Mas eu bateria palmas toda vez que ela fizesse uma cena para unir a família na mesa. Ah, se bateria. E também faria com que ela lesse muito mais e amadurecesse um pouquinho mais rápido. Assim, quem sabe a sua empresa teria resistido ao tempo e aos avanços da modernidade? Talvez, nossos problemas com dinheiro seriam outros, talvez maiores, e o prazer de ver algo nosso ir pra frente ofuscaria os olhos daqueles dois que não souberam aproveitar o que tinham.
A vida está complicada, não é mesmo? Por aqui, tudo inteiro. Os cachorros continuam latindo, os inquilinos deram um tempo. Ou nós demos, não sei ao certo. Continuo pagando as contas e estudando. De vez em quando dá vontade de falar com você sobre isso, mas não me adiantaria muito. Na maioria das vezes é melhor falar com quem está de fora porque as verdades soam mais realistas, se é que isso é possível. Quero entrar na sua casa qualquer hora dessas para pegar os livros. Eles devem estar carentes de olhares, afinal, estão há tanto tempo esquecidos. Ainda são seus, mas considero meu maior tesouro.
O Jazz me fez dizer tudo isso. E tem um montão de outras coisas que ainda estão aqui e prefiro que aqui fiquem. Você poderia ter sido lembrado por muitos motivos e foi logo me aparecer com o Jazz.
Sabe que eu descobri que nós temos muitas coisas em comum? O Jazz me fez perceber. Talvez você não saiba quem é a Amy Winehouse e nem a Diana Krall. Talvez você conheça bem a Ella e a Billy Holliday e até poderíamos emendar uma conversa longa falando sobre elas e sobre outras tantas que eu ainda não tive a oportunidade de descobrir. É engraçado porque eu me lembro das nossas brigas no carro pelas músicas que tocavam na rádio. Eu dizia que não queria ouvir música de velho e você arrebatava, dizendo que era música de inteligente. Hoje vejo que você está coberto de razão.
Acho que você adoraria saber que hoje eu lamento muitíssimo por não ter prosseguido com aquelas aulas de órgão em que me matriculou. Aulas que eu detestava porque tinha que deixar minhas amigas brincando nas tardes de sábados ensolarados e suportar o professor chato que, ao invés de dar atenção às alunas, ficava cortejando a minha irmã. Se naquela época eu tivesse o dom da argumentação como tenho hoje, talvez eu o teria convencido a me matricular nas aulas de violão. E enquanto você me falaria sobre os deuses dos teclados, eu lhe falaria sobre Zélia Duncan e Menescal e Gilberto Gil. Seriam papos interessantíssimos.
Engraçado, mas descobri que somos tão iguais. Você não imagina isso, não é mesmo? Mas somos. Não chego a ter o seu gênio, esse foi herdado pelos outros. Mas tenho a sua mania de se indignar perante as coisas. Sabe aquela coisa de falar, falar, falar, se cansar, tomar fôlego e falar de novo? Minha mãe quer morrer quando isso acontece e eu a entendo porque isso deve fazê-la lembrar você. Você deve se lembrar da nossa última discussão. Eu lá em cima e você lá embaixo. Cada um com a sua verdade, meu deus, aquilo não teve um fim. Foi pior do que quando eu disse a você que pela primeira vez que votei no Lula. Aposto que você morre de vontade de olhar na minha cara e despejar um fatídico "não te falei". Ou talvez até despejar outras coisas que não me fariam diferença. Como quando você fez questão de me prometer aquele anel de formatura que eu jamais usaria. Você me vê usando um anel de formatura?
Às vezes tenho vontade de pegar um avião e ir até aí pra te encarar de frente. Quem sabe mostrar minhas tatuagens e falar dos meus amigos gays. Sabe que morro de vontade de saber o que você pensa sobre isso? E se eu te falasse que aquela minha prima, que você tanto gosta, é gay? Juro. Não quer acreditar, não acredite.
Se eu pudesse em algum lugar do passado me encontrar com aquela menininha mimada e pirracenta, cara, não tenha dúvidas de que eu a ensinaria a ser gente. Diria a ela para comer menos e provaria por A+B que ganhar ou não presente no natal não faz a menor diferença. Mas eu bateria palmas toda vez que ela fizesse uma cena para unir a família na mesa. Ah, se bateria. E também faria com que ela lesse muito mais e amadurecesse um pouquinho mais rápido. Assim, quem sabe a sua empresa teria resistido ao tempo e aos avanços da modernidade? Talvez, nossos problemas com dinheiro seriam outros, talvez maiores, e o prazer de ver algo nosso ir pra frente ofuscaria os olhos daqueles dois que não souberam aproveitar o que tinham.
A vida está complicada, não é mesmo? Por aqui, tudo inteiro. Os cachorros continuam latindo, os inquilinos deram um tempo. Ou nós demos, não sei ao certo. Continuo pagando as contas e estudando. De vez em quando dá vontade de falar com você sobre isso, mas não me adiantaria muito. Na maioria das vezes é melhor falar com quem está de fora porque as verdades soam mais realistas, se é que isso é possível. Quero entrar na sua casa qualquer hora dessas para pegar os livros. Eles devem estar carentes de olhares, afinal, estão há tanto tempo esquecidos. Ainda são seus, mas considero meu maior tesouro.
O Jazz me fez dizer tudo isso. E tem um montão de outras coisas que ainda estão aqui e prefiro que aqui fiquem. Você poderia ter sido lembrado por muitos motivos e foi logo me aparecer com o Jazz.
junho 25, 2007
Os bons morrem cedo
Os bons morrem cedo. Foi assim com Cazuza e Renato Russo. Foi assim com Elis Regina, e Ayton Senna também entra na lista. Nara Leão, justiça seja feita, não poderia faltar. A lista é extensa, a ponto da minha memória não suportar todas as lembranças e tornar as injustiças incalculáveis. O que me causa menos martírio é o fato destas grandes figuras ter ido cada uma ao seu próprio tempo, deixando frutos suficientes para torná-las lembráveis por muitas gerações que ainda estão por vir.
Mas não tenho tanta certeza se este pensamento se encaixa a um time que, dentre tanta gente igualmente importante e talentosa, destacam-se Arthur Dapieve, Carla Rodrigues, Paulo Roberto Pires, Sergio Rodrigues, Tutty Vasques e Zuenir Ventura. Explico: se estão partindo desta para uma melhor, duvido! Ainda continuam no plano terreno, mas em momento de pré-sepultamento do NoMínimo, triste notícia que me pegou de surpresa neste início de segunda-feira.
O NoMínimo existe desde 2000, dando continuidade ao finado No que também se extinguiu. Trata-se da revista eletrônica de melhor qualidade na Internet Brasileira, que reúne um refinado time da velha (e em forma) guarda jornalística, sem economia de intelegência, bom senso e, claro, o tempero que não pode faltar aos brasileiros: humor. Quem busca na filosofia e na psicanálise explicações para o caos moderno, lamento dizer, mas está indo ao lugar errado. Os verdadeiros pensadores, como oráculos, revelam tudo o que é preciso saber por meio de um charmoso endereço de website. Mas isso somente até o próximo sábado.
Como toda instituição que depende de patrocínio um dia se vai, não poderia ser diferente com o NoMínimo. Uma pena para quem sempre buscou jornalismo sério, sem jabá, sem censura, sem unilateralidade.
Uma homenagem quase póstuma do Proseando à melhor revista eletrônica brasileira.
Tem deus que não sabe o que faz.
Os bons morrem cedo. Foi assim com Cazuza e Renato Russo. Foi assim com Elis Regina, e Ayton Senna também entra na lista. Nara Leão, justiça seja feita, não poderia faltar. A lista é extensa, a ponto da minha memória não suportar todas as lembranças e tornar as injustiças incalculáveis. O que me causa menos martírio é o fato destas grandes figuras ter ido cada uma ao seu próprio tempo, deixando frutos suficientes para torná-las lembráveis por muitas gerações que ainda estão por vir.
Mas não tenho tanta certeza se este pensamento se encaixa a um time que, dentre tanta gente igualmente importante e talentosa, destacam-se Arthur Dapieve, Carla Rodrigues, Paulo Roberto Pires, Sergio Rodrigues, Tutty Vasques e Zuenir Ventura. Explico: se estão partindo desta para uma melhor, duvido! Ainda continuam no plano terreno, mas em momento de pré-sepultamento do NoMínimo, triste notícia que me pegou de surpresa neste início de segunda-feira.
O NoMínimo existe desde 2000, dando continuidade ao finado No que também se extinguiu. Trata-se da revista eletrônica de melhor qualidade na Internet Brasileira, que reúne um refinado time da velha (e em forma) guarda jornalística, sem economia de intelegência, bom senso e, claro, o tempero que não pode faltar aos brasileiros: humor. Quem busca na filosofia e na psicanálise explicações para o caos moderno, lamento dizer, mas está indo ao lugar errado. Os verdadeiros pensadores, como oráculos, revelam tudo o que é preciso saber por meio de um charmoso endereço de website. Mas isso somente até o próximo sábado.
Como toda instituição que depende de patrocínio um dia se vai, não poderia ser diferente com o NoMínimo. Uma pena para quem sempre buscou jornalismo sério, sem jabá, sem censura, sem unilateralidade.
Uma homenagem quase póstuma do Proseando à melhor revista eletrônica brasileira.
Tem deus que não sabe o que faz.
junho 19, 2007
Extra! Extra!
No dia 5 de julho, às 18h30, o Grupo de Escritores da Uniabc se reunirá com o Grupo de Escritores da Casa da Palavra de Santo André para um mega bate-papo. Compareça e conheça os integrantes dos Grupos, as suas inspirações literárias, autografe o seu livro e - por que não? - libere o escritor que há dentro de você.
O encontro será na Casa da Palavra, (Praça do Carmo, 171 - centro de Santo André), e a entrada é franca.
Vejo você lá para uma prosa daquelas!
No dia 5 de julho, às 18h30, o Grupo de Escritores da Uniabc se reunirá com o Grupo de Escritores da Casa da Palavra de Santo André para um mega bate-papo. Compareça e conheça os integrantes dos Grupos, as suas inspirações literárias, autografe o seu livro e - por que não? - libere o escritor que há dentro de você.
O encontro será na Casa da Palavra, (Praça do Carmo, 171 - centro de Santo André), e a entrada é franca.
Vejo você lá para uma prosa daquelas!
junho 14, 2007
Ao acaso
Cheguei por volta das nove da noite no ponto do lotação e decidi, entre cachorros perdidos, bêbados e churrasquinhos, esperar o próximo carro para poder ir sentada. Parei no fundo do veículo com uma voz implorando baixinho no meu ouvido para me sentar no assento à esquerda, mas eu queria algo não convencional e optei por me sentar no centro. Depois de alguns minutos liberando as mais positivas das vibrações para que a partida não demorasse, eu tive a visão. E imediatamente me lembrei de que algum dia alguém havia me perguntado se eu acreditava em amor à primeira vista. Eu disse que não sabia. Já me perguntaram sobre uma série de outras coisas também e eu disse simplesmente que não sabia. Se eu tivesse lido a entrevista do Pedro Cardoso há mais tempo, teria sido malcriada e desabafado sobre essa mania feia que as pessoas tem de achar que eu devo ter opinião sobre tudo. Não sou famosa para carregar esse estigma e também não sou nenhuma multi-intelectual. Não sei nada sobre uma série de baboseiras e sobre outra série de coisas importantes que eu deveria estar correndo atrás nesse momento. Sei sobre os dez gigas de músicas que meu computador abriga e do fato de que nenhuma delas é a que eu quero escutar nesse momento. Sei de pessoas que eu gostei tanto, tanto e que hoje já não gosto mais e não tenho coragem de assumir. Sei que eu gostaria que houvesse uma porta no meu quarto, que me separasse de todo ruído mundano porque o barulho da panela de pressão está me enlouquecendo. Sei que eu gostaria de dar uma surra no infeliz que achou o meu celular e não atendeu nenhuma das dez milhões de vezes que eu tentei ligar pra ele até fazer parecer que acabou a bateria.
Não, eu não sabia se acreditava em amor à primeira vista. Até aquele momento. Como é possível você sentir atração por uma pessoa, à qual sequer ouviu a voz, não sabe o nome, aonde mora, o que faz da vida, o que pensa sobre o mundo? Quem me conhece sabe que esse tipo de coisa jamais aconteceria comigo. Mas eu fiquei lá, deslumbrada com a combinação da roupa, a composição do estilo. Tudo. Do corte de cabelo ao all star nos pés. A postura ereta na minha frente e as covinhas com a risada sincera ao entregar seus pertences à gentil pessoa que estava à sua frente. E esta poderia ter sido eu, se meus instintos tivessem sido ouvidos. Isso não era tudo: a leitura, ainda que em pé, de um livro com capa vermelha clássica. Não havia dúvidas de que o havia adquirido em um sebo. Lembrei-me imediatamente do meu exemplar de “O Retrato de Dorian Gray” porque pertenciam à mesma coleção. E traziam na bagagem um histórico longo de muitos olhos que por ali passaram. Porque a leitura de um livro adquirido em sebos é sempre mais prazerosa do que os comprados intactos numa mega store. Além da história do livro, traz consigo as inúmeras histórias de quem o leu. Isso não me foi dito em palavras, mas não foi preciso para saber que temos a mesma opinião. Quando esse tipo de coisa acontece com você, muitos são os pensamentos que afloram. Tenho certeza de que aquilo fora um sinal divino, destes que sempre invoco sem perceber. E foi impossível não se reprimir desde já, por deixar a oportunidade passar em vinte minutos que formam o percurso do coletivo. Algumas idéias deram o ar da graça: caso saltasse antes de mim, eu iria atrás para tentar alguma mágica que fizesse com que ao menos nossos olhos se encontrassem. Se saltasse depois, eu permaneceria lá, apreciando por mais um tempo aquele momento. Ou poderia escrever meu telefone num pedaço de papel e entregar, assim, sem mais nem menos. Pelo menos ficaria a esperança de uma ligação inesperada num momento qualquer. Mas isso pareceria imensamente clichê e seria o tipo de coisa que eu mesma não toleraria se acontecesse comigo. Além do mais, seria chamada a atenção de todos os presentes. Então, restou-me ficar lá entregue ao grau máximo da observação e invocando o milagre como se eu fosse a mais devota das religiosas. Mas chegou o momento e nada aconteceu. Suspirei fundo, levantei, olhei à minha volta e veio a oportunidade. Tocando em seu braço num primeiro encontro de olhar, pedi:
- Você pode dar o sinal, por favor?
Com o sorriso metálico mais charmoso com qual já me deparei, disse que sim e assim o fez.
Saltei do veículo e ainda houve tempo de notar que ocupara o meu lugar. A porta se fechou e nos separamos mantendo um olhar fixo no outro até que isso não fosse mais possível.
Cheguei por volta das nove da noite no ponto do lotação e decidi, entre cachorros perdidos, bêbados e churrasquinhos, esperar o próximo carro para poder ir sentada. Parei no fundo do veículo com uma voz implorando baixinho no meu ouvido para me sentar no assento à esquerda, mas eu queria algo não convencional e optei por me sentar no centro. Depois de alguns minutos liberando as mais positivas das vibrações para que a partida não demorasse, eu tive a visão. E imediatamente me lembrei de que algum dia alguém havia me perguntado se eu acreditava em amor à primeira vista. Eu disse que não sabia. Já me perguntaram sobre uma série de outras coisas também e eu disse simplesmente que não sabia. Se eu tivesse lido a entrevista do Pedro Cardoso há mais tempo, teria sido malcriada e desabafado sobre essa mania feia que as pessoas tem de achar que eu devo ter opinião sobre tudo. Não sou famosa para carregar esse estigma e também não sou nenhuma multi-intelectual. Não sei nada sobre uma série de baboseiras e sobre outra série de coisas importantes que eu deveria estar correndo atrás nesse momento. Sei sobre os dez gigas de músicas que meu computador abriga e do fato de que nenhuma delas é a que eu quero escutar nesse momento. Sei de pessoas que eu gostei tanto, tanto e que hoje já não gosto mais e não tenho coragem de assumir. Sei que eu gostaria que houvesse uma porta no meu quarto, que me separasse de todo ruído mundano porque o barulho da panela de pressão está me enlouquecendo. Sei que eu gostaria de dar uma surra no infeliz que achou o meu celular e não atendeu nenhuma das dez milhões de vezes que eu tentei ligar pra ele até fazer parecer que acabou a bateria.
Não, eu não sabia se acreditava em amor à primeira vista. Até aquele momento. Como é possível você sentir atração por uma pessoa, à qual sequer ouviu a voz, não sabe o nome, aonde mora, o que faz da vida, o que pensa sobre o mundo? Quem me conhece sabe que esse tipo de coisa jamais aconteceria comigo. Mas eu fiquei lá, deslumbrada com a combinação da roupa, a composição do estilo. Tudo. Do corte de cabelo ao all star nos pés. A postura ereta na minha frente e as covinhas com a risada sincera ao entregar seus pertences à gentil pessoa que estava à sua frente. E esta poderia ter sido eu, se meus instintos tivessem sido ouvidos. Isso não era tudo: a leitura, ainda que em pé, de um livro com capa vermelha clássica. Não havia dúvidas de que o havia adquirido em um sebo. Lembrei-me imediatamente do meu exemplar de “O Retrato de Dorian Gray” porque pertenciam à mesma coleção. E traziam na bagagem um histórico longo de muitos olhos que por ali passaram. Porque a leitura de um livro adquirido em sebos é sempre mais prazerosa do que os comprados intactos numa mega store. Além da história do livro, traz consigo as inúmeras histórias de quem o leu. Isso não me foi dito em palavras, mas não foi preciso para saber que temos a mesma opinião. Quando esse tipo de coisa acontece com você, muitos são os pensamentos que afloram. Tenho certeza de que aquilo fora um sinal divino, destes que sempre invoco sem perceber. E foi impossível não se reprimir desde já, por deixar a oportunidade passar em vinte minutos que formam o percurso do coletivo. Algumas idéias deram o ar da graça: caso saltasse antes de mim, eu iria atrás para tentar alguma mágica que fizesse com que ao menos nossos olhos se encontrassem. Se saltasse depois, eu permaneceria lá, apreciando por mais um tempo aquele momento. Ou poderia escrever meu telefone num pedaço de papel e entregar, assim, sem mais nem menos. Pelo menos ficaria a esperança de uma ligação inesperada num momento qualquer. Mas isso pareceria imensamente clichê e seria o tipo de coisa que eu mesma não toleraria se acontecesse comigo. Além do mais, seria chamada a atenção de todos os presentes. Então, restou-me ficar lá entregue ao grau máximo da observação e invocando o milagre como se eu fosse a mais devota das religiosas. Mas chegou o momento e nada aconteceu. Suspirei fundo, levantei, olhei à minha volta e veio a oportunidade. Tocando em seu braço num primeiro encontro de olhar, pedi:
- Você pode dar o sinal, por favor?
Com o sorriso metálico mais charmoso com qual já me deparei, disse que sim e assim o fez.
Saltei do veículo e ainda houve tempo de notar que ocupara o meu lugar. A porta se fechou e nos separamos mantendo um olhar fixo no outro até que isso não fosse mais possível.
maio 23, 2007
Verde
As pessoas no seu silêncio conseguem mostrar o que há de mais verdadeiro dentro de si. O aspecto de dor fatalmente é revelado num semblante triste, ausente de palavras e rico de olhares perdidos. Pensamentos embaralhados tentando responder questões sem um pingo de concentração. Então você se esforça para encontrar um fiapo de alegria num rosto irreconhecível, mas não adianta. Nem mesmo aguçando a mais fértil das imaginações. E de repente tudo pode ficar pior com a presença de um ser de branco. Não sei porquê, mas dizem que isso faz amadurecer. Você só fica aguardando o momento. Tenta uma revista. Uma música. As pessoas olham pra você e, graças a alguma coisa, você permanece lá.
Verde, por enquanto.
As pessoas no seu silêncio conseguem mostrar o que há de mais verdadeiro dentro de si. O aspecto de dor fatalmente é revelado num semblante triste, ausente de palavras e rico de olhares perdidos. Pensamentos embaralhados tentando responder questões sem um pingo de concentração. Então você se esforça para encontrar um fiapo de alegria num rosto irreconhecível, mas não adianta. Nem mesmo aguçando a mais fértil das imaginações. E de repente tudo pode ficar pior com a presença de um ser de branco. Não sei porquê, mas dizem que isso faz amadurecer. Você só fica aguardando o momento. Tenta uma revista. Uma música. As pessoas olham pra você e, graças a alguma coisa, você permanece lá.
Verde, por enquanto.
maio 07, 2007
brasileiros são seres inconseqüentes. há não muito tempo, cerca de cinqüenta anos, talvez, essa inconseqüência era semeada para o bem. o resultado está aí: toda a evolução no cenário político, social e cultural que temos hoje. em alguns pontos, precária, diga-se de passagem. mas, na maioria deles, memorável. foi com esse espírito de possibilidades e de um saudosismo platônico por não ter vivido uma época tão rica, que acompanhei o espetáculo "cara e coração", com moraes moreira e armandinho. um espetáculo de 1.977, época em que os jovens eram diferentes e direcionavam a sua, bem, a sua racionalidade, não para apologias à violência ou rotulações de bicho-papão aos policiais. havia luta por uma vida melhor, por um cenário político melhor. uma supervalorização da cultura. os frutos da minha geração sabem o que é isso? a arma mais poderosa eram as palavras, as canções. não os murros e pontapés e destruição de bens alheios.
com o coração roxo. foi assim que deixei a minha casa hoje cedo, ao ver pela televisão o bangue-bangue que os jornais mostraram desde a madrugada de domingo, quando a polícia se confrontou com pseudos-apreciadores-de-música, vulgo vândalos, no meio da apresentação dos racionais mcs. ou seriam irracionais? depende do seu ponto de vista.
toda forma de amor vale a pena, disse pessoa. e eu digo que toda forma de cultura também. e foi essa a proposta da virada cultural deste ano - um coquetel de muita música brasileira, valorizando todos os estilos - dança, ópera, teatro, música e teatro, assim, tudo junto, e muitas pessoas que normalmente não se interessam por esses temas, lá, embriagadas do melhor que uma cidade do tamanho de são paulo pode oferecer. e você liga a tevê e se depara com uma proposta que deveria ser unicamente cultural, misturada à pancadaria. isso faz a gente esmorecer. mas só por um momento. porque, repito: toda forma de cultura vale a pena.
espero que os bons apreciadores das artes e suas manifestações continuem criando propostas como estas. propostas para o povão. sim, aqueles que não tem dinheiro para ver um show numa casa de espetáculos, mas aqueles mesmos que, no meio de gente, suor e euforia, sabe emanar uma energia que dinheiro nenhum nesse mundo pode comprar. porque as artes estão aonde o povo está. e enquanto existirem propostas assim, a minha indignação será vencida por um fio de esperança!
como lindamente cantou zelinha:
"na medida do impossível tá dando pra se viver. na cidade de são paulo, o amor é imprevisível..."
com o coração roxo. foi assim que deixei a minha casa hoje cedo, ao ver pela televisão o bangue-bangue que os jornais mostraram desde a madrugada de domingo, quando a polícia se confrontou com pseudos-apreciadores-de-música, vulgo vândalos, no meio da apresentação dos racionais mcs. ou seriam irracionais? depende do seu ponto de vista.
toda forma de amor vale a pena, disse pessoa. e eu digo que toda forma de cultura também. e foi essa a proposta da virada cultural deste ano - um coquetel de muita música brasileira, valorizando todos os estilos - dança, ópera, teatro, música e teatro, assim, tudo junto, e muitas pessoas que normalmente não se interessam por esses temas, lá, embriagadas do melhor que uma cidade do tamanho de são paulo pode oferecer. e você liga a tevê e se depara com uma proposta que deveria ser unicamente cultural, misturada à pancadaria. isso faz a gente esmorecer. mas só por um momento. porque, repito: toda forma de cultura vale a pena.
espero que os bons apreciadores das artes e suas manifestações continuem criando propostas como estas. propostas para o povão. sim, aqueles que não tem dinheiro para ver um show numa casa de espetáculos, mas aqueles mesmos que, no meio de gente, suor e euforia, sabe emanar uma energia que dinheiro nenhum nesse mundo pode comprar. porque as artes estão aonde o povo está. e enquanto existirem propostas assim, a minha indignação será vencida por um fio de esperança!
como lindamente cantou zelinha:
"na medida do impossível tá dando pra se viver. na cidade de são paulo, o amor é imprevisível..."
abril 18, 2007
então. quando a minha vida cansa de ser mansa e minha trilha sonora cansa de ser comportada, a raíz da essência dá o ar da graça e de repente tudo continua fazendo sentido aqui dentro.
pareço lispectoriana, mas na verdade estou é psicodélica. fazer o quê? a gente fica assim quando nasce nos anos 80 e perde a fase hippie do mundo. depois a fase yuppie. e depois, oh, a fase mutantes.
aí a zelinha aparece e faz o velho ser novo de novo, assim, como mágica.
e quando, mutante, a gente volta do show dos mutantes, fica assim, ó:
“meu sangue é de gasolina
correndo não tenho mágoa
meu peito é de sal de fruta
fervendo no copo d'água.”
pareço lispectoriana, mas na verdade estou é psicodélica. fazer o quê? a gente fica assim quando nasce nos anos 80 e perde a fase hippie do mundo. depois a fase yuppie. e depois, oh, a fase mutantes.
aí a zelinha aparece e faz o velho ser novo de novo, assim, como mágica.
e quando, mutante, a gente volta do show dos mutantes, fica assim, ó:
“meu sangue é de gasolina
correndo não tenho mágoa
meu peito é de sal de fruta
fervendo no copo d'água.”
abril 03, 2007
Cíntia Moscovich? Minha ídala. Não é porque foi mencionada pela Marcia Tiburi, não. Sei dela de tempos, ó! Desde o "Duas Iguais". Mas digo o que digo por isso aqui, a respeito dos "Amores Expressos". Toma:
"(...) E vamos acabar com isso que literatura é a mais barata das formas de expressão, que caneta e papel é tudo o que basta, como diria o Jerônimo Teixeira na matéria da Veja que acaba de chegar. O sujeito que escreve demora um tempão escrevendo com caneta e papel. E tempo é dinheiro. Literatura não é baratinho, não senhor. Dá úlcera e depressão (custa remédios). E custa um tempo enorme de reflexão e de refazer tudo de novo. Mesmo que alguns jornalistas digam que é balela e que escrevam no rabo das horas sobradas da redação, a realidade não é bem assim. Literatura se faz queimando pestana em cima do texto. Não é com qualquer cartão de crédito que se compra dedicação deste tamanho.Na próxima, me convidem. Não esqueçam."
"(...) E vamos acabar com isso que literatura é a mais barata das formas de expressão, que caneta e papel é tudo o que basta, como diria o Jerônimo Teixeira na matéria da Veja que acaba de chegar. O sujeito que escreve demora um tempão escrevendo com caneta e papel. E tempo é dinheiro. Literatura não é baratinho, não senhor. Dá úlcera e depressão (custa remédios). E custa um tempo enorme de reflexão e de refazer tudo de novo. Mesmo que alguns jornalistas digam que é balela e que escrevam no rabo das horas sobradas da redação, a realidade não é bem assim. Literatura se faz queimando pestana em cima do texto. Não é com qualquer cartão de crédito que se compra dedicação deste tamanho.Na próxima, me convidem. Não esqueçam."
abril 02, 2007
estou aqui tentando ser mais séria, mas está difícil.
posso ser séria, desde que meus cabelos continuem vernelhos.
desde que eu possa exibir minha tatuagem.
e desde que eu possa calçar meu all star.
posso ser séria, desde que eu possa continuar fazendo as pessoas rirem
do que elas consideram sério.
desde que eu possa conversar com meus cachorros
e desenhar carinhas engraçadas com mostarda e catchup.
posso ser séria, desde que eu possa assistir ao super pop
e ao tv fama, ao invés do jornal nacional.
desde que possa brincar no chão com o vitinho
e colecionar brinquedinhos do mc lanche feliz.
sei que posso ser séria, desde que não me coloquem para falar inglês com um alemão
e desde que eu não precise dar maiores explicações sobre meu sobrenome.
desde que eu não tenha que negociar valores
e, sério,
desde que eu não tenha que passar por uma crise numa sala de reunião.
posso muito bem ser séria, desde que eu não tenha que conter meu riso
nas situações que, para mim, forem naturais.
porque a seriedade nada mais é do que uma certa presença de espírito -
e se ela não atinge a alma é sinal de que permeamos a felicidade.
posso ser séria, desde que meus cabelos continuem vernelhos.
desde que eu possa exibir minha tatuagem.
e desde que eu possa calçar meu all star.
posso ser séria, desde que eu possa continuar fazendo as pessoas rirem
do que elas consideram sério.
desde que eu possa conversar com meus cachorros
e desenhar carinhas engraçadas com mostarda e catchup.
posso ser séria, desde que eu possa assistir ao super pop
e ao tv fama, ao invés do jornal nacional.
desde que possa brincar no chão com o vitinho
e colecionar brinquedinhos do mc lanche feliz.
sei que posso ser séria, desde que não me coloquem para falar inglês com um alemão
e desde que eu não precise dar maiores explicações sobre meu sobrenome.
desde que eu não tenha que negociar valores
e, sério,
desde que eu não tenha que passar por uma crise numa sala de reunião.
posso muito bem ser séria, desde que eu não tenha que conter meu riso
nas situações que, para mim, forem naturais.
porque a seriedade nada mais é do que uma certa presença de espírito -
e se ela não atinge a alma é sinal de que permeamos a felicidade.
março 29, 2007
observação 1: sim. isso aqui está parecendo "meu querido diário".
observação 2: falo tanto de bar e de cerveja que daqui a pouco vão me obrigar a inserir o seguinte aviso: "o ministério da saúde adverte: leia o proseando com moderação".
observação 3: estou escrevendo minha vida num parágrafo só. percebeu?
observação 2: falo tanto de bar e de cerveja que daqui a pouco vão me obrigar a inserir o seguinte aviso: "o ministério da saúde adverte: leia o proseando com moderação".
observação 3: estou escrevendo minha vida num parágrafo só. percebeu?
conversando com uma amiga outro dia, perguntei eufórica: "cara, você viu o saia justa da última quarta?". ela, com aquele olhar de quem libera pensamentos do tipo "só a juliana mesmo, pra vir com esses assuntos", lançou enoooormes explicações dizendo que até assiste ao programa, mas somente quando a mulherada se dá ao sensato trabalho de ao menos ouvir o que a outra está falando, sem prosear ao mesmo tempo. poxa vida, mas não é esse o verdadeiro lance do programa? - pensei. e então eu descobri porque gosto tanto do dito: sou mulher. sou igualzinha a todas elas. tenho um quê ridículo de beth lago. tenho aquele ar de surreal da marcia tiburi. sou provida, vez ou outra, de momentos sérios como a mônica. e sou meio pseudo-intelectual igual à maitê. okay, me falta um pouco de modéstia também, mas aí já estou falando do lado juliana mesmo. ocorre que o saia justa, na minha opinião, é um dos melhores programas que a tevê exibe ultimamente. tem muita babaquice, é verdade, mas também há um super interfone ligado ao mundo. você se sente na sala da sua casa, falando com suas amigas. ou numa mesa de bar. discute-se política, sociedade, literatura, música, mulherices, etc etc etc. e não tem nada melhor do que falar de tudo isso munida de um certo pesar, mas ainda assim com humor. ultimamente tem sido assim: eu choro com os telejornais, limpo as lágrimas, espero a noite chegar, ligo a tevê e morro de rir com o saia justa.
março 28, 2007
acordei meio reflexiva hoje. parece coisa de "meu querido diário", mas não é não. fui de ana carolina no coletivo, mas não deu muito certo e voltei à pink mesmo. foi uma maneira que encontrei de me manter acordada. levei uma encarada sinistra da cobradora e pensei "é, as coisas não devem estar fáceis pra ela", e foi então que me ative às questões do mundo. seguinte: você pára e pensa "god, como eu cheguei até aqui?". pensa bem: pode ter sido escolha - sua ou dos seus pais, não importa -, pode ter sido um fatídico "deixa a vida me levar e a gente vê aonde se chega", pode ter sido a conspiração de alguma unidade mor ou sei lá o quê. culpa da cobradora. pensei no seu olhar, na sua posição um tanto corcunda no assento do coletivo e em todas aquelas centenas de pessoas subindo e descendo. pela janela, fiquei rente a um caminhão - de mudança, acho - e não pude deixar de observar seus dois ocupantes. o fulano sentado no lugar do passageiro estava meio cabisbaixo e, do nada, pensei na sua hipotética família: sua hipotética mulher levantando cedo para preparar o café preto e sua marmita, seu hipotético filho fazendo corpo mole para não ir à escola e na sua preocupação por pagar a conta de luz até o fim da semana. pensei de novo na cobradora. e na minha teoria de que tudo na vida é uma questão de escolha. será que a cobradora gosta de ser cobradora? e o cara do caminhão gosta de ser ajudante? e eu gosto de estar onde estou agora? o mundo é da classe A, alguns brasileiros consolados diriam. o mundo é dos espertos, eu diria. e, diante de muitos outros questionamentos, fico me perguntando como é que a gente cai tão facilmente na indiferença? não digo em relação à sociedade em geral, mas em relação a si próprio. pensa de novo: você morre de vontade de sair de casa pra morar na sua própria casa. por que é que não sai? você morre de vontade de escrever um livro. por que não escreve? você morre de vontade de ajudar o velhinho a atressar a rua. por que não ajuda? a gente sempre acaba caindo no velho discurso reclamante com a bunda sentada na cadeira. vez ou outra, com um copo de cerveja na mão. mas não sai disso. não se nota que a indiferença propriamente dita, muitas vezes, não está no não refletir. está, pura e simplesmente, no não fazer. a gente até assiste ao telejornal pra se atualizar um pouco, mas eles ajudam mais na alimentação do nosso desconsolo do que numa saída prática para essas questões. a gente até tenta ler um bom livro, mas a coisa acaba ficando só pra você mesmo porque a maioria das pessoas não busca soluções em livros. às vezes, você até consegue desabafar com alguns corpos presentes, mas, em outras vezes, você cria um blogue, abusa da mania de falar sozinha, e despensa as suas frustrações nele. não é fácil para a cobradora e também não é fácil pra mim.
março 27, 2007
falando em falar sozinha, quando eu mudei meu template, os comments sumiram. bau bau! caput! desapareceram. e, não sei se notaram, mas o contador de visitas também. aí eu até pensei em ir atrás e fazer tudo reaparecer. mas quer saber? vou nada. porque eu gosto de falar sozinha. sofro dessa maldita síndrome do individualismo. e olha que nem filha única eu sou. volta e meia ela vai embora e eu fico meio pop, mas a verdade é que a minha verdadeira essência depende um pouco do ser só. não me importo se tem alguém ouvindo quando estou cantando. nem mesmo se alguém vem se aproximando quando estou vendo alguma série erótica. estou no meu espaço e, se alguém tem que se sentir envergonhado por alguma coisa, que seja quem se aproxima. é a arte de criar a sua própria bolha e então fazer o mundo parecer mais fácil. estou tentando aprender a arte do despudor também. mas vai ser muito difícil eu expor as minhas gorduronas pra fora da calça, por exemplo. ou fazer sóbria o que eu faço quando estou bêbada. aliás, bom assunto esse. que mania, essa que as pessoas tem de julgar. tudo bem, tudo bem, eu detesto indiferença, mas sair julgando atos e pensamentos alheios? ora, bolas! olhar para o próprio umbigo de vez em quando é enriquecedor. as pessoas deveriam tentar. quem, eu? estou tentando, meu caro. estou tentando.
março 26, 2007
porque eu converso com a tevê, sabe como é? é, sim. os caras ficam lá falando e eu falo de volta. tem dia de manhã que eu me emociono até com o jornal. com a porra dos cinqüenta anos da união européia. pode isso? e mando o chavez pra putaquepariu porque ele decidiu reintegrar terras pra criar gados. okay. cada povo tem o presidente que merece e eu tenho o lula. deveria guardar minhas lágrimas para o meu povo, né não? mas tá bom, tem lágrimas pra todo mundo. e comentário pra tudo também. porque eu estou voltando ao estranho estado de ter a resposta na ponta da língua pra quem quer que seja. falar com a tevê e sozinha no coletivo é coisa de doido. de marciano mesmo. daqui a pouco vou conversar comigo mesma sobre meus segredos e todo mundo vai ficar sabendo. quando era pequena e sentia que estava crescendo - essa coisa de adolescente, sabe? -, eu tinha o estranho medo de que as pessoas ouvissem o que eu pensava. e outras coisas do tipo "será que o amarelo pra mim não é verde pra ele?". pois é. só depois eu fui perceber que não adiantava ter esse tipo de medo porque os pensamentos eram audíveis sim, senhora. e a certeza da vez é: tenho medo de mim.
hoje me sinto um pouco perdida nos labirintos das minhas dúvidas. coloco as esperanças todas no tempo - essa minha arte de buscar esperança! - e ouço o calm down na minha cabeça com a mesma freqüência que entôo o será?!
aí eu venho até aqui, escrevo isso aí em cima e novamente não me reconheço. antes que eu apague tudo, toma!
aí eu venho até aqui, escrevo isso aí em cima e novamente não me reconheço. antes que eu apague tudo, toma!
março 08, 2007
descobri que sou uma negadora nata, daquelas que negam a essência, os problemas, as alegrias, os anseios.
em relação a você, muita coisa deixou de ser negada. só você teve o dom de me causar certas sensações. jamais neguei que passar madrugadas ao seu lado, filosofando sobre a vida e rindo das nossas histórias com nossos amigos foram momentos impagáveis.
jamais neguei que minha vida cheia de gente hoje foi desenvolvida me espelhando em você.
jamais neguei que minha paixão musical nasceu por sua causa, ainda quando falávamos de bossa nova, da dany gato e da zelinha.
jamais neguei que a profissional juliana hoje foi inicialmente idealizada por você, graças ao seu feeling de sacar pessoas e aproveitá-las - não se aproveitar delas. não entendo bem o porquê, mas não me sinto aproveitada negativamente por você. porque o amor é capaz de justificar até o injustificável.
jamais neguei que você sempre foi uma boa pessoa. até hoje insisto em acreditar que os nossos desvios ocorreram por conta de um coração deixado de lado - o seu.
jamais neguei que sempre quis o seu bem, mesmo quando você jogou na minha cara que minhas reais intenções eram outras, bem outras. mesmo não encontrando fundamento, decidi não invocar qualquer espécie de explicação. prossegui jamais negando que você deu alguma espécie de sentido à minha vida, me abrindo os olhos e os fechando de vez em quando.
jamais neguei que enxergava uma importância tremenda quando, trabalhando, você me despertava com um "oi" do outro lado da linha. ou quando eu ouvia pelo celular "alô alô marciano", carinhosamente dedicada a mim.
jamais neguei que encontrei verdade nas suas palavras - das primeiras às últimas - e por isso estou aqui te libertando do meu coração. e acredite, também não nego que minhas decisões tenham sido impróprias.
de tudo, hoje percebo que você foi a minha única não negação. e esse tipo de coisa somente acontece quando há amor, aquele amor parecido com o maior do mundo. não o de mãe ou o de filho - quase isso, o de amigo.
não nego aqui que jamais senti saudades. que jamais senti vontade de pegar no telefone e te contar sobre o beijo que eu dei, o livro que eu li, o show que eu fui. ou de sair por aí perguntando de você, mesmo sem haver necessidade porque todo mundo me traz notícias suas. não me atrevo negar que fico desesperada quando a notícia que chega é que você está aflito com alguma coisa.
não nego em circunstância alguma que o nosso fim fez em mim um estrondo horrível.
assumo e não nego que passei os últimos doze meses engolindo o choro e que a minha técnica de espairecer foi por água abaixo, libertando soluços sofrridos, logo depois que o avistei vindo na minha direção e eu levantei a cabeça e apressei o passo.
não nego você porque, como diz Drummond:
"de tudo fica um pouco
às vezes um botão
às vezes um rato."
não acho que seja possível pôr um fim no fim. novidade de espírito não tem nada a ver com espírito evoluído. não acho que mudei muita coisa ou que esta situação deva ser mudada. também não busquei em nenhum momento o "dizem por aí", mas acho que você tem o direito de saber como eu me senti durante todo esse tempo. como eu me sinto agora.
apenas isso.
como não tenho culhão pra dizer tudo isso pessoalmente, lanço minhas palavras ao cyberespaço.
em relação a você, muita coisa deixou de ser negada. só você teve o dom de me causar certas sensações. jamais neguei que passar madrugadas ao seu lado, filosofando sobre a vida e rindo das nossas histórias com nossos amigos foram momentos impagáveis.
jamais neguei que minha vida cheia de gente hoje foi desenvolvida me espelhando em você.
jamais neguei que minha paixão musical nasceu por sua causa, ainda quando falávamos de bossa nova, da dany gato e da zelinha.
jamais neguei que a profissional juliana hoje foi inicialmente idealizada por você, graças ao seu feeling de sacar pessoas e aproveitá-las - não se aproveitar delas. não entendo bem o porquê, mas não me sinto aproveitada negativamente por você. porque o amor é capaz de justificar até o injustificável.
jamais neguei que você sempre foi uma boa pessoa. até hoje insisto em acreditar que os nossos desvios ocorreram por conta de um coração deixado de lado - o seu.
jamais neguei que sempre quis o seu bem, mesmo quando você jogou na minha cara que minhas reais intenções eram outras, bem outras. mesmo não encontrando fundamento, decidi não invocar qualquer espécie de explicação. prossegui jamais negando que você deu alguma espécie de sentido à minha vida, me abrindo os olhos e os fechando de vez em quando.
jamais neguei que enxergava uma importância tremenda quando, trabalhando, você me despertava com um "oi" do outro lado da linha. ou quando eu ouvia pelo celular "alô alô marciano", carinhosamente dedicada a mim.
jamais neguei que encontrei verdade nas suas palavras - das primeiras às últimas - e por isso estou aqui te libertando do meu coração. e acredite, também não nego que minhas decisões tenham sido impróprias.
de tudo, hoje percebo que você foi a minha única não negação. e esse tipo de coisa somente acontece quando há amor, aquele amor parecido com o maior do mundo. não o de mãe ou o de filho - quase isso, o de amigo.
não nego aqui que jamais senti saudades. que jamais senti vontade de pegar no telefone e te contar sobre o beijo que eu dei, o livro que eu li, o show que eu fui. ou de sair por aí perguntando de você, mesmo sem haver necessidade porque todo mundo me traz notícias suas. não me atrevo negar que fico desesperada quando a notícia que chega é que você está aflito com alguma coisa.
não nego em circunstância alguma que o nosso fim fez em mim um estrondo horrível.
assumo e não nego que passei os últimos doze meses engolindo o choro e que a minha técnica de espairecer foi por água abaixo, libertando soluços sofrridos, logo depois que o avistei vindo na minha direção e eu levantei a cabeça e apressei o passo.
não nego você porque, como diz Drummond:
"de tudo fica um pouco
às vezes um botão
às vezes um rato."
não acho que seja possível pôr um fim no fim. novidade de espírito não tem nada a ver com espírito evoluído. não acho que mudei muita coisa ou que esta situação deva ser mudada. também não busquei em nenhum momento o "dizem por aí", mas acho que você tem o direito de saber como eu me senti durante todo esse tempo. como eu me sinto agora.
apenas isso.
como não tenho culhão pra dizer tudo isso pessoalmente, lanço minhas palavras ao cyberespaço.
março 06, 2007
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