abril 18, 2007

então. quando a minha vida cansa de ser mansa e minha trilha sonora cansa de ser comportada, a raíz da essência dá o ar da graça e de repente tudo continua fazendo sentido aqui dentro.

pareço lispectoriana, mas na verdade estou é psicodélica. fazer o quê? a gente fica assim quando nasce nos anos 80 e perde a fase hippie do mundo. depois a fase yuppie. e depois, oh, a fase mutantes.

aí a zelinha aparece e faz o velho ser novo de novo, assim, como mágica.

e quando, mutante, a gente volta do show dos mutantes, fica assim, ó:

“meu sangue é de gasolina
correndo não tenho mágoa
meu peito é de sal de fruta
fervendo no copo d'água.”

abril 03, 2007

Cíntia Moscovich? Minha ídala. Não é porque foi mencionada pela Marcia Tiburi, não. Sei dela de tempos, ó! Desde o "Duas Iguais". Mas digo o que digo por isso aqui, a respeito dos "Amores Expressos". Toma:

"(...) E vamos acabar com isso que literatura é a mais barata das formas de expressão, que caneta e papel é tudo o que basta, como diria o Jerônimo Teixeira na matéria da Veja que acaba de chegar. O sujeito que escreve demora um tempão escrevendo com caneta e papel. E tempo é dinheiro. Literatura não é baratinho, não senhor. Dá úlcera e depressão (custa remédios). E custa um tempo enorme de reflexão e de refazer tudo de novo. Mesmo que alguns jornalistas digam que é balela e que escrevam no rabo das horas sobradas da redação, a realidade não é bem assim. Literatura se faz queimando pestana em cima do texto. Não é com qualquer cartão de crédito que se compra dedicação deste tamanho.Na próxima, me convidem. Não esqueçam."

abril 02, 2007

estou aqui tentando ser mais séria, mas está difícil.

posso ser séria, desde que meus cabelos continuem vernelhos.
desde que eu possa exibir minha tatuagem.
e desde que eu possa calçar meu all star.

posso ser séria, desde que eu possa continuar fazendo as pessoas rirem
do que elas consideram sério.
desde que eu possa conversar com meus cachorros
e desenhar carinhas engraçadas com mostarda e catchup.

posso ser séria, desde que eu possa assistir ao super pop
e ao tv fama, ao invés do jornal nacional.
desde que possa brincar no chão com o vitinho
e colecionar brinquedinhos do mc lanche feliz.

sei que posso ser séria, desde que não me coloquem para falar inglês com um alemão
e desde que eu não precise dar maiores explicações sobre meu sobrenome.
desde que eu não tenha que negociar valores
e, sério,
desde que eu não tenha que passar por uma crise numa sala de reunião.

posso muito bem ser séria, desde que eu não tenha que conter meu riso
nas situações que, para mim, forem naturais.
porque a seriedade nada mais é do que uma certa presença de espírito -
e se ela não atinge a alma é sinal de que permeamos a felicidade.

março 29, 2007

observação 1: sim. isso aqui está parecendo "meu querido diário".

observação 2: falo tanto de bar e de cerveja que daqui a pouco vão me obrigar a inserir o seguinte aviso: "o ministério da saúde adverte: leia o proseando com moderação".

observação 3: estou escrevendo minha vida num parágrafo só. percebeu?
conversando com uma amiga outro dia, perguntei eufórica: "cara, você viu o saia justa da última quarta?". ela, com aquele olhar de quem libera pensamentos do tipo "só a juliana mesmo, pra vir com esses assuntos", lançou enoooormes explicações dizendo que até assiste ao programa, mas somente quando a mulherada se dá ao sensato trabalho de ao menos ouvir o que a outra está falando, sem prosear ao mesmo tempo. poxa vida, mas não é esse o verdadeiro lance do programa? - pensei. e então eu descobri porque gosto tanto do dito: sou mulher. sou igualzinha a todas elas. tenho um quê ridículo de beth lago. tenho aquele ar de surreal da marcia tiburi. sou provida, vez ou outra, de momentos sérios como a mônica. e sou meio pseudo-intelectual igual à maitê. okay, me falta um pouco de modéstia também, mas aí já estou falando do lado juliana mesmo. ocorre que o saia justa, na minha opinião, é um dos melhores programas que a tevê exibe ultimamente. tem muita babaquice, é verdade, mas também há um super interfone ligado ao mundo. você se sente na sala da sua casa, falando com suas amigas. ou numa mesa de bar. discute-se política, sociedade, literatura, música, mulherices, etc etc etc. e não tem nada melhor do que falar de tudo isso munida de um certo pesar, mas ainda assim com humor. ultimamente tem sido assim: eu choro com os telejornais, limpo as lágrimas, espero a noite chegar, ligo a tevê e morro de rir com o saia justa.

março 28, 2007

acordei meio reflexiva hoje. parece coisa de "meu querido diário", mas não é não. fui de ana carolina no coletivo, mas não deu muito certo e voltei à pink mesmo. foi uma maneira que encontrei de me manter acordada. levei uma encarada sinistra da cobradora e pensei "é, as coisas não devem estar fáceis pra ela", e foi então que me ative às questões do mundo. seguinte: você pára e pensa "god, como eu cheguei até aqui?". pensa bem: pode ter sido escolha - sua ou dos seus pais, não importa -, pode ter sido um fatídico "deixa a vida me levar e a gente vê aonde se chega", pode ter sido a conspiração de alguma unidade mor ou sei lá o quê. culpa da cobradora. pensei no seu olhar, na sua posição um tanto corcunda no assento do coletivo e em todas aquelas centenas de pessoas subindo e descendo. pela janela, fiquei rente a um caminhão - de mudança, acho - e não pude deixar de observar seus dois ocupantes. o fulano sentado no lugar do passageiro estava meio cabisbaixo e, do nada, pensei na sua hipotética família: sua hipotética mulher levantando cedo para preparar o café preto e sua marmita, seu hipotético filho fazendo corpo mole para não ir à escola e na sua preocupação por pagar a conta de luz até o fim da semana. pensei de novo na cobradora. e na minha teoria de que tudo na vida é uma questão de escolha. será que a cobradora gosta de ser cobradora? e o cara do caminhão gosta de ser ajudante? e eu gosto de estar onde estou agora? o mundo é da classe A, alguns brasileiros consolados diriam. o mundo é dos espertos, eu diria. e, diante de muitos outros questionamentos, fico me perguntando como é que a gente cai tão facilmente na indiferença? não digo em relação à sociedade em geral, mas em relação a si próprio. pensa de novo: você morre de vontade de sair de casa pra morar na sua própria casa. por que é que não sai? você morre de vontade de escrever um livro. por que não escreve? você morre de vontade de ajudar o velhinho a atressar a rua. por que não ajuda? a gente sempre acaba caindo no velho discurso reclamante com a bunda sentada na cadeira. vez ou outra, com um copo de cerveja na mão. mas não sai disso. não se nota que a indiferença propriamente dita, muitas vezes, não está no não refletir. está, pura e simplesmente, no não fazer. a gente até assiste ao telejornal pra se atualizar um pouco, mas eles ajudam mais na alimentação do nosso desconsolo do que numa saída prática para essas questões. a gente até tenta ler um bom livro, mas a coisa acaba ficando só pra você mesmo porque a maioria das pessoas não busca soluções em livros. às vezes, você até consegue desabafar com alguns corpos presentes, mas, em outras vezes, você cria um blogue, abusa da mania de falar sozinha, e despensa as suas frustrações nele. não é fácil para a cobradora e também não é fácil pra mim.

março 27, 2007

falando em falar sozinha, quando eu mudei meu template, os comments sumiram. bau bau! caput! desapareceram. e, não sei se notaram, mas o contador de visitas também. aí eu até pensei em ir atrás e fazer tudo reaparecer. mas quer saber? vou nada. porque eu gosto de falar sozinha. sofro dessa maldita síndrome do individualismo. e olha que nem filha única eu sou. volta e meia ela vai embora e eu fico meio pop, mas a verdade é que a minha verdadeira essência depende um pouco do ser só. não me importo se tem alguém ouvindo quando estou cantando. nem mesmo se alguém vem se aproximando quando estou vendo alguma série erótica. estou no meu espaço e, se alguém tem que se sentir envergonhado por alguma coisa, que seja quem se aproxima. é a arte de criar a sua própria bolha e então fazer o mundo parecer mais fácil. estou tentando aprender a arte do despudor também. mas vai ser muito difícil eu expor as minhas gorduronas pra fora da calça, por exemplo. ou fazer sóbria o que eu faço quando estou bêbada. aliás, bom assunto esse. que mania, essa que as pessoas tem de julgar. tudo bem, tudo bem, eu detesto indiferença, mas sair julgando atos e pensamentos alheios? ora, bolas! olhar para o próprio umbigo de vez em quando é enriquecedor. as pessoas deveriam tentar. quem, eu? estou tentando, meu caro. estou tentando.

março 26, 2007

porque eu converso com a tevê, sabe como é? é, sim. os caras ficam lá falando e eu falo de volta. tem dia de manhã que eu me emociono até com o jornal. com a porra dos cinqüenta anos da união européia. pode isso? e mando o chavez pra putaquepariu porque ele decidiu reintegrar terras pra criar gados. okay. cada povo tem o presidente que merece e eu tenho o lula. deveria guardar minhas lágrimas para o meu povo, né não? mas tá bom, tem lágrimas pra todo mundo. e comentário pra tudo também. porque eu estou voltando ao estranho estado de ter a resposta na ponta da língua pra quem quer que seja. falar com a tevê e sozinha no coletivo é coisa de doido. de marciano mesmo. daqui a pouco vou conversar comigo mesma sobre meus segredos e todo mundo vai ficar sabendo. quando era pequena e sentia que estava crescendo - essa coisa de adolescente, sabe? -, eu tinha o estranho medo de que as pessoas ouvissem o que eu pensava. e outras coisas do tipo "será que o amarelo pra mim não é verde pra ele?". pois é. só depois eu fui perceber que não adiantava ter esse tipo de medo porque os pensamentos eram audíveis sim, senhora. e a certeza da vez é: tenho medo de mim.
hoje me sinto um pouco perdida nos labirintos das minhas dúvidas. coloco as esperanças todas no tempo - essa minha arte de buscar esperança! - e ouço o calm down na minha cabeça com a mesma freqüência que entôo o será?!

aí eu venho até aqui, escrevo isso aí em cima e novamente não me reconheço. antes que eu apague tudo, toma!

março 08, 2007

descobri que sou uma negadora nata, daquelas que negam a essência, os problemas, as alegrias, os anseios.

em relação a você, muita coisa deixou de ser negada. só você teve o dom de me causar certas sensações. jamais neguei que passar madrugadas ao seu lado, filosofando sobre a vida e rindo das nossas histórias com nossos amigos foram momentos impagáveis.

jamais neguei que minha vida cheia de gente hoje foi desenvolvida me espelhando em você.

jamais neguei que minha paixão musical nasceu por sua causa, ainda quando falávamos de bossa nova, da dany gato e da zelinha.

jamais neguei que a profissional juliana hoje foi inicialmente idealizada por você, graças ao seu feeling de sacar pessoas e aproveitá-las - não se aproveitar delas. não entendo bem o porquê, mas não me sinto aproveitada negativamente por você. porque o amor é capaz de justificar até o injustificável.

jamais neguei que você sempre foi uma boa pessoa. até hoje insisto em acreditar que os nossos desvios ocorreram por conta de um coração deixado de lado - o seu.

jamais neguei que sempre quis o seu bem, mesmo quando você jogou na minha cara que minhas reais intenções eram outras, bem outras. mesmo não encontrando fundamento, decidi não invocar qualquer espécie de explicação. prossegui jamais negando que você deu alguma espécie de sentido à minha vida, me abrindo os olhos e os fechando de vez em quando.

jamais neguei que enxergava uma importância tremenda quando, trabalhando, você me despertava com um "oi" do outro lado da linha. ou quando eu ouvia pelo celular "alô alô marciano", carinhosamente dedicada a mim.

jamais neguei que encontrei verdade nas suas palavras - das primeiras às últimas - e por isso estou aqui te libertando do meu coração. e acredite, também não nego que minhas decisões tenham sido impróprias.

de tudo, hoje percebo que você foi a minha única não negação. e esse tipo de coisa somente acontece quando há amor, aquele amor parecido com o maior do mundo. não o de mãe ou o de filho - quase isso, o de amigo.

não nego aqui que jamais senti saudades. que jamais senti vontade de pegar no telefone e te contar sobre o beijo que eu dei, o livro que eu li, o show que eu fui. ou de sair por aí perguntando de você, mesmo sem haver necessidade porque todo mundo me traz notícias suas. não me atrevo negar que fico desesperada quando a notícia que chega é que você está aflito com alguma coisa.

não nego em circunstância alguma que o nosso fim fez em mim um estrondo horrível.

assumo e não nego que passei os últimos doze meses engolindo o choro e que a minha técnica de espairecer foi por água abaixo, libertando soluços sofrridos, logo depois que o avistei vindo na minha direção e eu levantei a cabeça e apressei o passo.

não nego você porque, como diz Drummond:

"de tudo fica um pouco
às vezes um botão
às vezes um rato."

não acho que seja possível pôr um fim no fim. novidade de espírito não tem nada a ver com espírito evoluído. não acho que mudei muita coisa ou que esta situação deva ser mudada. também não busquei em nenhum momento o "dizem por aí", mas acho que você tem o direito de saber como eu me senti durante todo esse tempo. como eu me sinto agora.

apenas isso.

como não tenho culhão pra dizer tudo isso pessoalmente, lanço minhas palavras ao cyberespaço.

março 06, 2007

porque é assim: eu não sou pessoa de uma pessoa só.
de um amigo só, de um ídolo só,
de uma música só ou de um livro só.
minhas, são muitas as teorias.
sou de todo mundo - uma condição quase tribalista.
dificilmente sei eleger o melhor,
o mais bonito, o mais inteligente.
meu negócio, ó, é gente.

fevereiro 12, 2007

Okay. Acho que a estas alturas, vocês devem estar pensando que era tudo uma brincadeira. Ou alguma alucinação. Hein? Mas não. Não mesmo. Minha notícia já tem formato. Tem uma carinha linda. E foi escrita a 18 mãos. Taí: duas crônicas na 1ª Antologia Literária do Grupo de Escritores da Uniabc:



Além da dedicação dos 18 escritores, este trabalho apenas foi possível graças e tão somente ao engajamento do Simkão. Sim, ele mesmo, o Sergio Simka. O cara que também me ofereceu oxigênio para mergulhar de volta e bem fundo no mundo da escrita. O meu eterno agradecimento a você, Simkão.

Mais novidades sobre este ilustre lançamento no blogue oficial do Grupo de Escritores da Uniabc, bem aqui.

Como diria o Simkão: "saudações literárias"!

fevereiro 09, 2007

Após cervejas, lamentos e muitos risos, a vida parece que fica mais leve. Não leve no sentido de que o álcool seja um grande brutamontes afastador de problemas perigosos que a gente tem quando normalmente está sóbria. Mas no sentido de deixar a mente predisposta a entender o mundo interior, refletido como num espelho no mundo exterior. Ou vice-versa, não sei ao certo. A questão é que aquelas cervejas entraram em mim com o ilustre objetivo de me trazer de volta ao meu mundo, aquele que eu quis, depois não quis mais e que agora quero de novo. Não importa. É o meu mundo. Com oxigênio do bom, mergulhei num passado do qual eu tinha me esquecido. No tempo que eu escrevia melhor, tinha idéias bacanas e não tinha medo de sair escrevendo. Tempo que a Clarah era minha ídala e a Maria Rita ocupava um lugar semelhante ao da Zelinha. Tempo que eu era mais crítica e tinha as idéias melhor organizadas. Tempo que eu me recusava sofrer do coração e não levava a vida tão a sério. Tempo que eu conquistava amigos com uma facilidade inenarrável. Tempo que eu não tinha uma montanha de contas a pagar e via meu empreogo como o maior desafio da minha vida. Tempo que eu dizia que escreveria um livro e me jogava de corpo e alma nessa idéia. Tempo que eu surpreendia facilmente. Tempo que este blogue sequer existia. Agora eu vejo o tempo atual e não consigo entender como congelei desta forma. Tenho que sair à procura do meu idealismo político, do meu ritmo literário. Tenho que encontrar novos ídolos, absorver mais experiências. Espera aí, acho que estou me achando. Será?

fevereiro 05, 2007

Um dia ela foi boa pra mim. Um dia eu decidi não ouvir o que tinham a me dizer a seu respeito e durante muito tempo isso foi decididamente muito bom. Eu e a minha opinião - a gente costuma se dar bem. Não existiam julgamentos. Não existiam preocupações do que se era dito ou do que se ouvia. O deslumbre em relação a mim alimentava o meu ego e tudo era cômodo. Até que o jogo virou. E eu vi um falso moralismo imperar sob o que eu achava ser suficiente. E eu vi algum tipo de interesse ainda não decifrado se aproximar sorrateiramente. Isso tudo am partir do memento que ela reaproximou aquela pessoa de mim, ciente de que eu não queria. Então eu deixei de ficar à vontade com ela. Mais uma que se vai como uma nuvem que passa e deixa o alívio da tempestade que também se foi.

Hoje estou só, acompanhada de mim.

"É assim:basta eu ter muita certeza. Aí ela vai lá e se joga. As minhas certezas são suicidas." (Clarah Averbuck)

janeiro 28, 2007

O menino é homem

Tum. Tum. É preciso ser muito homem. Tum. Tum. E vai ser até o final dessa semana. Tum. Tum. Está decidido.

De pouquinho em pouquinho não dá, tem que ser de uma vez. Esta é a essência. Direto e sem meias palavras. Pra quê rodeios? Poderia ser depois, mas pode ser agora. A essência manda e assim será.

Pai de um lado. Mãe do outro. Irmãs no meio da confusão interna. O menino não é mais criança, alguém poderia justificar. E a vergonha?, talvez a maioria perguntaria. E a minha felicidade?, o menino justificaria.

Começa o discurso. O menino é valente. É muito é homem. O menino está nervoso e inquieto. O menino começa.

Todo mundo desconfiava, mas ninguém tinha o mérito da valentia do menino. O pai simula um sorriso. Pode ser de nervoso. Pode ser de orgulho. O menino desanda a falar por cerca de dez minutos, marejando os olhos do pai.

A mãe diz que o menino é seu filho e que sempre o amará. A irmã diz que o menino sempre terá seu apoio. A outra não precisa dizer nada. O pai esconde a face por entre as mãos.
O menino permanece seguro, tirando das suas costas o peso da omissão, a iminência da rejeição. Certifica-se a cada instante de que aquela era a decisão mais honrosa dos seus dezoito anos. O menino, o segundo homem da família.

O pai pergunta sobre mulheres. O menino não tem as respostas satisfatórias ao pai. O pai fala da vergonha. O menino fala do respeito à família e da sua felicidade. A mãe murmura um cômico e inesperado comentário de alívio. O pai pergunta o porquê de ser com ele. O menino prefere não se aprofundar.

O pai e o menino ficam sozinhos. O pai, chorando feito criança. O menino dizendo que ama o pai. O abraço acontece.

O menino que gosta das meninas, mas o seu conhecer a fundo não é o ditado como certo pela sociedade.

O menino que é homem por assumir que gosta de outro homem.

Tum. Tum. E o assunto está consumado.

janeiro 08, 2007

e agora? entrei aqui e poderia despejar tudo o que escrevi no papel e na minha mente inquieta desde meu último post. gostaria até de ser mais prolixa. mas este teclado minúsculo não me permite. estou de férias numa casa que não é a minha, numa cidade que não é a minha, num estado que não é o meu e num computador que não me pertence. minhas, somente as lembranças. justamente estas, às quais gostaria que não fossem. ok. o ano promete e acho que a semana também. vou nessa lavar o corpo, já que ainda não encontrei a melhor maneira de lavar a alma.

muito prazer, dois mil e sete. eu sou a juliana.

novembro 20, 2006

O Poder da Música

Pronto, comprei para os três dias, comentei feliz da vida com a Tarsi. Sorrindo, ela me olhou e comentou que isso não era lá muito normal. Normal? – pensei comigo. É, normal, foi isso mesmo o que ela disse. Foi então que parei para refletir sobre este aspecto de normalidade. Três dias curtindo o mesmo show que vi um milhão de vezes. Três dias ouvindo ao vivo as músicas da cantora que ouço pelo menos uma vez ao dia. Três dias num compromisso inadiável em prol de um relacionamento entre fã e artista. Tudo isso sem falar na marca registrada: Zélia Duncan para o resto do mundo e “Zelinha” para a Juliana e os amigos da Juliana, inserida de forma tão natural no dia-a-dia:

- Ju, você viu que a Zelinha vai passar no Fantástico? - perguntam uns, aqueles que mal sabem cantar “Catedral”.

- Ju, como é mesmo o nome daquela música da Zelinha que você falou no outro dia? – perguntam outros.

Outro dia, a Tarsi me contou que um dos momentos mais tristes da sua vida foi o enterro da avó da sua amiga. A velhinha, em vida, gostava muito de uma certa música da qual não me recordo, e havia pedido para que a cantassem durante o seu sepultamento. Num determinado momento, alguém entoou a tal música, deixando todos com um imenso nó na garganta. E então, eu tive a grande idéia: quando eu morrer, vou querer que entoem uma música também. Claro, terá que ser uma música da Zelinha. E continuei: a música mais propícia para a ocasião será “Alma”. Imagine eu sendo enterrada e, ao fundo, a voz da Zelinha dizendo “Alma, deixa eu ver sua alma”? Muita gente quase morreu de rir, mas a idéia foi tão na brincadeira assim.

Todas essas passagens fizeram com que eu buscasse dentro dessa minha idolatria algo que justifique a normalidade colocada em xeque pela Tarsi. Não encontrei nada de muito surpreendente. Gostar de Zélia Duncan não é a mesma coisa que ser fã número um da Angelina Jolie ou do Brad Pitt. Eu não sou fã da Zélia Duncan porque ela é gostosa, dita moda, apareceu no Faustão ou por qualquer outro motivo fútil que justifica, tristemente, a idolatria de muitos outros fãs com seus respectivos ídolos mundo afora. A grande verdade é que eu sou fã da Zélia Duncan porque ela fala de mim, das coisas que me tornam feliz, das que me afligem, das minhas ambições, minhas buscas.

Ninguém entende que quando eu ouço “Benditas”, me aprofundo tanto nas minhas crenças que a música me cai como uma oração, a qual tomo a audácia de comparar seu efeito com o de rezar um Pai Nosso.

Ninguém entende que quando eu ouço “Distração” meu coração se enche de esperança em relação à vida e eu pareço escutar vozes dizendo siga em frente, não desista!

Ninguém entende que quando eu ouço “Hóspede do Tempo” me sinto tão responsável pelas coisas boas e ruins que acontecem ao meu redor, que, sem querer, me humanizo e me conscientizo de que, mesmo diante de tantos deslizes, tenho que me concentrar no bem acima de tudo.

Ninguém entende que quando eu ouço “O Meu Lugar”, acabo enxergando possibilidades à minha volta e entendendo que tudo na vida é uma questão de tempo, desde que eu não desista de prosseguir.

A minha relação de fã com a artista Zélia Duncan talvez ocorra por uma feliz coincidência que nós duas temos em comum: ela canta as coisas nas quais acredita e o seu cantar é uma forma de mostrar para as pessoas que é assim que ela se entende e encara o mundo; eu por minha vez, ouço na voz dela as coisas, as quais eu acredito. O meu ouvir, igualmente ao seu cantar, também é uma forma de me entender e encarar o mundo.

A grande responsável por isso é a música. E só. O que também não desqualifica Zelinha com o fato de ser uma artista arrebatadoramente completa: canta maravilhosamente bem, manuseia perfeitamente muitos instrumentos musicais, desenvolve a melhor relação fã-artista da qual já ouvi falar, e é uma das mais talentosas poetas viva e em atividade que o Brasil tem hoje.

Quando alguém criticar a minha condição de fã da Zélia Duncan, restará a mim convidar essa pessoa a ouvir Zélia Duncan como ela realmente merece ser ouvida. E estaremos conversados.

novembro 16, 2006

Soltando o Verbo - Uma eclética reunião de crônicas

"Enfim meu livro saiu, caramba!" - foi assim que recebi a entusiasmada notícia de lançamento do livro da minha amiga dos tempos de Vega, Ari.

Estava ela dando bandeira por aí num belo dia, quando seu editor pediu que enviasse duas crônicas para uma conferida. Assim, despretensiosamente, ela mandou e deu nisso! Uma coletânea muito bem estruturada por vinte cronistas para o nosso deleite.

Quer saber mais? Vai lá, oras!

Onde: Bar e Restaurante Santa Zoé - R. Cotoxó, 522 - Perdizes - SP.
Quando: 22/11/2006 - quarta, das 19h às 23h.

Soltando o Verbo - Uma eclética reunião de crônicas - dentre muitos, também por Ariett Gouveia.

novembro 02, 2006

Contramão

O que me incomoda é a voz do mundo
Fundo de certezas impensadas
Mente que vê
E acha que crê
Naquela humanidade desenhada

O que me estranha é a voz do coração
Aquele que sente a pureza descrente
Amor desumano
Nas notas da canção

A vida em gotas d’água
Sem certezas, só estradas
Caminhos certos na contramão

outubro 26, 2006

O trecho a seguir faz parte de um projeto que talvez seja o verdadeiro motivo da minha diferença nesse mundo indiferente. Encontrei sem querer e considero conveniente compartilhá-lo em primeira e única mão, antes do definitivo, aqui e agora.

"O meu corpo e as minhas sensações estavam explodindo num consentimento coletivo de que aquele era o momento de me transbordar, a minha terapia favorita do ato de compreender a vida sem pensar nos acontecimentos. Simplesmente deixando a música me levar, chacoalhando e misturando meus motivos interiores – que são muitos – ao teor alcoólico que circulava pelo meu sangue. A questão ali não era solucionar problemas e tampouco buscar mais. Bastava eu fingir acreditar na crença de que a força que havia me levado até aquele lugar era a mesma que havia levado todas aquelas pessoas, de modo que a nossa aliança era o compartilhamento de suor que saltava dos poros e se confundiam na tentativa de entender se eram meus ou se eram deles. Estava eu absorto por aquela energia, entregue a uma sensação desconhecida que me parecia tão cúmplice, até que avistei aqueles olhos. Aquele brilho parecia dizer um “sim, eu te entendo”, um “está tudo bem agora porque eu estou aqui”. Foi então que eu entreguei minha bebida a um barman que acabara de passar e decidi sair da minha inércia, voltando à lucidez. Sorri. E foi a melhor resposta em sorrisos que eu já tive, a promessa de que o céu existia e esperava por mim. Por nós. Como se uma bolha tivesse sido criada à nossa volta, e a música fosse o único elemento externo que permitíamos entrar, criamos nós o nosso momento de nirvana. Agora era uma terapia em conjunto, limitada a duas almas, formada apenas pelo remexer do corpo e o bater do coração. Não precisávamos de palavras, até mesmo porque, se as buscássemos, certamente não as encontraríamos. A música era a nossa oração, daquelas tão intensas e tão profundas, que não se tem a necessidade de pensá-las e refleti-las para que fiquem mais fortes. Era uma reza brava. De repente, a música começou a baixar de volume e eu comecei a achar que não tinha apenas dois membros superiores. Naquele momento eram quatro, eram oito, eram muitos. Meus olhos ganharam vontade própria e fecharam-se por si. Quando dei por mim, sua língua estava conhecendo a intimidade da minha. Não hvia a necessidade de palavras, os nossos olhos queriam conhecer o nosso interior e a minha alma reconhecia aquela alma como se a nossa cumplicidade existisse de anos, de séculos, outras vidas."