abril 23, 2008

Dando um tempo

Todos os dias da minha vida sou condicionada a acordar e seguir em frente, fazendo jus ao fatídico carpe diem. Mas como instinto a gente vive e não condiciona, há algum tempo tenho sido involuntariamente acometida pela arte do dar um tempo. Acredite, dar um tempo é um dom, portanto, arte. Você não aprende, simplesmente desenvolve.

Estou dando um tempo de quem desistiu de ser ajudado e guardando a dose de ajuda para a minha insanidade porque, convenhamos, insanidade coletiva dá choque. E, convenhamos novamente, dar choque é muito diferente de chocar quando buscamos as entrelinhas do entendimento.

Daniel Daibem vive dizendo que "o jazz é sempre a mesma coisa, mas nunca do mesmo jeito". Me aprofundei nessa prévia e decidi dar um tempo também de vagar por aí me condenando pela mesmice nossa de cada dia. Porque não é preciso ser poeta ou filósofo para entender que buscamos alternativas movidos pelo instinto, e que o novo nos aparece do nada e do tudo, por conseqüência.

Estou dando um tempo da euforia. De todas elas: desde esperar ansiosa pela hora do almoço até aguardar pela brecha de beijar aqueles lábios. Decidi levar a vida com calma porque tem gente que se incomoda com a intensidade de determinados sentimentos.

Tenho preferido não ser do contra com tanta freqüência e tenho dado um tempo de mostrar para as pessoas sempre os dois lados da moeda. Porque dar um tempo sempre é melhor e mais heróico do que desistir. Tomara que elas sejam sensíveis a isso.

março 24, 2008

Ai daqueles
(Paulo Leminski)

ai daqueles
que se amaram sem nenhuma briga
aqueles que deixaram que a mágoa nova
virasse chaga antiga
ai daqueles que se amaram
sem saber que amar é feito pão em casa
e que a pedra só não voa
porque não quer
não por que não tem asa.

março 14, 2008

"cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é".

está certo. não tem nada mais demodê que ficar citando caetano veloso em blogs, mas preciso começar este discurso com exatamente esta frase. aos que se incomodarem, o meu sincero 'sinto muito' e, aos que se apresentarem sensíveis aos dizeres universais, meus sensíveis cumprimentos.

acordei meio perceptiva hoje. poderia seguir os caminhos convencionais e ir atrás de um horóscopo qualquer. mas como não me considero uma pessoa de práticas e pensamentos convencionais, recorro aos meus próprios devaneios para, assim, tentar me entender. e tentar também não despensá-los em pessoas que possam por ventura não merecer os reflexos dos meus pensares impulsivos. sim, estou na TPM. e como é de costume nestes momentos, me permito certas práticas anti-juliana, incluindo a utilização deste espaço para momentos de 'meu querido diário'. estamos no segundo parágrafro. se está achando monótono demais, sugiro que pare sua leitura por aqui. isso não é um pedido de ajuda, pelo contrário, estou apenas liberando alguns... seja lá o que for isso. no fim, apenas eu me satisfarei, estamos entendidos?

ok, não estou dizendo nada com nada. veja o histórico dos meus escritos e os períodos com que eles tem aparecido e verficará que ultimamente não tenho tido muita coisa a dizer mesmo. acho que preciso de um momento comigo mesma ou acho que definitivamente eu não tenha nascido para socializar. ou pode ser o contrário: quando você socializa demais, acaba cometendo excesso e escassês, tudo ao mesmo tempo.

toda essa introdução foi pra dizer que isso aqui é uma libertação. menti o tempo todo dizendo que não era hipócrita. ouçam todos: MENTIRA! eu era hipócrita, sim. saía por aí aconselhando a torto e à direita, como se fosse um padre, uma psiquiatra e uma mãe-de-santo - tudo no mesmo corpo. não era nada disso. eram apenas as minhas convicções camufladas. sei que alguns sabem do que estou dizendo e são justamente para estes alguns que estou escrevendo. odeio a ausência de coletividade dentro do cenário coletivo, mas é assim que está funcionando. escrevo para mim e para alguns. devem ser as minhas referências literárias. estou em momento de rever valores e talvez inclua estes também, pode deixar. não sou mais hipócrita, lembra? portanto, se alguém decidir acordar e tirar o dia para me encher o saco, esqueça. vá atrás da grama do outro vizinho porque as minhas verdades não estão mais sendo pensadas. estão sendi ditas. isso mesmo, não tenho guardado muitos desaforos ultimamente.

ninguém entendeu nada, não é mesmo? não tem problema, estamos no mesmo barco. vou praticar ali minhas decisões sem pensar nos estragos e nos acertos. obrigada por chegar até aqui.

janeiro 15, 2008

coisas acontecem. o tempo todo, acontecem. faz você morder a língua, perder a memória e prosseguir como se não tivesse pensando antes na possibilidade delas acontecerem. sempre vai ter alguém pra lhe soltar um "não te disse" cem por cento pretensioso e mais outro alguém para lembrar que você não precisa se censurar só porque decidiu permitir acontecimentos. coisas acontecendo podem fazer parte de um processo humildificante. sim, licencinha aqui pros meus neologismos. então, você anda por aí não se sentindo vazia porque a novidade de espírito é real. as músicas se encaixam e, mesmo quando não é o caso, ainda assim são bonitas. e, como num passo de mágica, você se reconhece na arte da abstração. nenhuma energia ruim se apodera de você. e os pássaros cantam, pessoas prosseguem e, ainda que complicada, a vida parece mais fácil.

dezembro 21, 2007

Queridos,

Para mim, o Natal sempre foi a época propícia para desejar e semear o bem. O ar fica diferente, as ruas e lojas enfeitadas, e as pessoas, como mágica, ficam todas boazinhas. A gente sai por aí despejando "feliz natal" pra todo mundo, sorri pras criancinhas no ônibus e até tenta falar menos palavrão. É como se fosse o tal do juízo final dando o ar da graça anualmente: a gente se embala nas retrospectivas, faz o balanço e conclui o que pode ser mudado. No final, todo mundo é perdoado e recebe uma nova chance.

Sempre encarei tudo isso com bom coração, fazendo vista grossa pra todas as teorias clichezadas que cruzavam o meu caminho. Afinal, clichê ou não e demagogias à parte, se é o momento que finalmente as pessoas param de olhar pro próprio umbigo, por que sair mundo afora criticando essas práticas?

Acontece que ultimamente tenho estado enfezada demais e quando isso acontece, sempre lanço um segundo olhar pras coisas.
Por conta disso, este ano decidi não me embalar no espírito natalino. Se vocês estão pensando que chegaram até aqui para se deparar com um FELIZ NATAL, PAZ E SUCESSO, estão enganadíssimos. Mas fiquem tranqüilos porque não estou cuspindo os votos de coisas boas que me mandaram. Aliás, permitam-me um parênteses para um BIG OBRIGADA. Afinal, ultimamente, energia positiva tem sido o melhor combustível para a humanidade.

Acertaram. Estou aqui para desejar-lhes ENERGIA POSITIVA. Façam de conta que não estamos nas vésperas do Natal. Façam de conta que a cor vermelha está apenas no cabelo e nas unhas desta que vos fala e que as pessoas não decidiram fazer doações e comer panetone de uma hora pra outra - pensem que tudo isso faz parte de uma corrente do bem, praticada o ano inteiro, que ganhou ênfase neste momento apenas porque o ano está indo embora. Estão se sentindo melhor agora?

Minha intenção aqui era não ser clichê. Só que o simples fato de você se levantar da cama durante o mês de dezembro já é por si só um clichê natural. Olhem eu aqui querendo classificar os clichês da vida, como se isso fosse minimizar alguma coisa. Okay, me rendo! Mas sem jamais sair do salto do meu all star. Façam o seguinte: já que não há como fugir disso, usem toda a Energia Positiva do mundo para não mais idealizar o bem nessa época do ano. Minha proposta é:

PRODUZAM ENERGIA POSITIVA, EMANEM PELOS POROS E PRATIQUEM O BEM TODOS OS DIAS DAS SUAS VIDAS!

Depois que fizerem tudo isso, escolham um bar bem legal e me convidem para compartilharmos as nossas boas experiências.

Um beijo!

Ju Marciano

setembro 20, 2007

eu falo. o simkão é demais. é sim. saca só:

O Grupo de Escritores da UniABC recebe Prêmio Desempenho Cultural

O salão nobre do Primeiro de Maio Futebol Clube, em Santo André, ficou lotado na noite da terça-feira (17/9), para aplaudir os Destaques do Ano da 14.ª edição do Prêmio Desempenho Cultural, em que 39 organizações relacionadas às áreas de entretenimento, lazer e ensino cultural foram homenageadas pela revista LivreMercado, uma das mais importantes publicações regionais do Brasil.

O Grupo de Escritores da UniABC, cujo patrono é o reitor Azurem Ferreira Pinto, foi agraciado com um troféu e automaticamente passa a concorrer ao prêmio dos Melhores do Ano de 2007.

O 14.º Prêmio Desempenho Cultural teve seus vencedores chamados em blocos. Em seu discurso, quase ao final da noite festiva, o editor da LivreMercado, Daniel Lima, ressaltou que “Cultura é essencial para o povo, assim como a Educação e a Saúde”.

Com o auditório completamente lotado, o editor fez questão de afirmar que “este é um evento da classe média que trabalha duro, mas também da elite que tem preocupações sociais”.

Em 13 de novembro serão anunciados os Melhores do Ano, os Melhores dos Melhores e o Melhor dos Melhores, entre cases corporativos de organizações privadas, governamentais e não-governamentais.Também serão entregues os troféus individuais aos Imortais e aos Imortais in Memoriam do Grande ABC.

O Prêmio Desempenho Cultural realizado na noite de terça-feira foi a terceira etapa do evento. Em maio foram entregues os troféus do Prêmio Desempenho Social e em julho do Prêmio Desempenho Empresarial.

Cases de todos os municípios do Grande ABC estão entre os Destaques do Ano do Prêmio Desempenho, situação que confirma o espectro de regionalidade da revista LivreMercado. Os 173 Destaques do Ano de 2007 são um recorde na história do Prêmio Desempenho e decorrem da segmentação da fase classificatória do evento em três categorias. A etapa final, em novembro, conduzirá os representantes das organizações homenageadas ao que o jornalista Daniel Lima, coordenador-geral da premiação, chama de "capital social".

Veja a relação dos Destaques do Ano do Prêmio Desempenho Cultural:


setembro 18, 2007

okay, babe, isso não é da sua conta, mas você venceu. vai ver eu sou hipócrita mesmo. daquelas que diz o que se tem de fazer, mas que não faz. mas se você também não faz essas coisas, então, a marciana aqui é você. é sim. você mexeu com meu brio e isso só reforça a minha antiga prática de guardar o que é meu só pra mim. esqueça. continue aí nas suas conspirações porque de mim você não terá mais motivos. aprendi, sim. coisa que eu deveria ter assimilado há mais tempo. o que sou por fora ou por dentro não é da sua conta. você jogou todos os meus esforços no lixo.

setembro 17, 2007

um adeus

assim, tem dias que eu acordo e percebo a dor sem a delícia de envelhecer. tem o contrário também - a dor com a delícia -, mas esta não me aflige no momento. abro o olho, levanto, vou lá, sento na frente do mesmo computador e, olhando pro mesmo monitor, digito aquele endereço que é diferente, mas que é igual. e hoje eu não acho legal. não mais como há cinco anos. isso me deprime porque eu queria ler tudo isso, dar um suspiro e soltar um "caralho, como ela é foda". mas não dá. porque eu não acho mais isso. e fico me martirizando porque eu não sei se eu mudei ou se foi ela quem mudou. e arranco os pêlos dos meus braços só de pensar que pode ter sido nós duas. é. no fundo, eu sei que foi isso. mas por que é tão estranho você constatar o que não gostaria? as coisas chegam, são contra tudo o que você tem aí na bagagem e pronto. é assim. será que eu fiquei brega? eu ainda concordo que ela é visceral, mas acho que se alimentou de mais da marra de viver. hoje, isso não faz sentido aqui, não. e sabe qual é o meu medo? que isso não faça mais sentido pra um montão de gente. sim. porque é agora que ela vai dar o que falar. deus, ela já está temendo isso. mas eu lhe desejo sucesso, seja lá por qual meio ou essência isso se dê. só quero que ela cause na meninada tudo o que causou em mim. não só a mania de escrever sem dinstinção de maiúsculas, mas a desvergonha (isso mesmo), de sair por aí se virando do avesso e mostrando pros outros o que você é por dentro. sem medo. sem pudor. sem nada. simplesmente fazer, guiada pelo impulsivo espírito de ser o que se é. às vezes, isso faz tão bem que eu sou incapaz de traduzir em palavras essa significância. e eu apenas gostaria que ela soubesse o quanto eu sou grata por tê-la encontrado neste cyberespaço. se eu tivesse a oportunidade, diria que, mesmo não me identificando mais, jamais cairia no mal gosto de criticar sua essência. a todos, me ouçam bem: essência não se critica! ouviram bem? ou você se identifica ou você abstrai. é isso. hoje estou abstraindo. não quero ficar mal por isso. e, se algum dia eu estiver na condição de citar referências, não tenha dúvidas, querida, você será a primeira. e não me importa se você está ou não cagando pra isso. porque eu também não estou.

good lucky!

agosto 30, 2007

cortei.

sempre quis fazer isso. cheguei perto outras vezes, mas nunca a ponto de fazer acontecer. fui lá. perguntei. imaginei. introduzi inúmeras pesquisas de campo. arrisquei o software. convenci uma amiga íntima do photoshop a fazer uma montagem. pensei. desisti. pensei de novo. me convenci e larguei de mão.

eu precisava de uma novidade de espírito. na ausência de alguém pra dizer que eu amo e de limite no cartão de crédito, não pensei duas vezes e fui lá. ao lugar que posso fazer o que bem entender na certeza de que afetarei apenas e tão somente a mim.

cortei.

cheguei e disse pra maria que queria ponta em tudo. paradoxalmente, sem nenhuma certeza do que estava dizendo. exatamente da forma como faço sempre de quase dois em dois meses. disse corta e ela cortou.

e eu não gostei.

dessa vez fui guiada pelo instinto e não rolou pesquisa de campo e nem reflexão. simples: você acorda, diz vou e vai. simples assim.

no primeiro dia, eu emanava novidade. passei mousse e fixador e me mandei. o pessoal aprovou e não concordou com a minha definição de estar parecendo mais velha. não discuti, mas não tive dúvidas de que estava ainda mais parecida com minha mãe. mamãe!

aí veio o domingo. testei a pomada que a san havia indicado, achei que gostei e me mandei pela segunda vez. o dia foi encerrado no cinema e, olhando as atrizes, não pude me convencer sequer do razoável.

então chegou a segunda e, com ela, alguns comentários consistentes. levei uma encarada sinistra e totalmente avaliativa do zulinho, que se findou com um indecifrável "gostei". tá bom.

conseqüentemente, chegou a terça. a pomada deixou tudo uó. irritada, ignorei o espelho e me mandei pela terceira vez. acho que as coisas não estavam bem mesmo porque o dia não foi digno de um comentário sequer.

e finalmente veio a quarta, gritando uma mudança estratégica. troquei a pomada pelo antigo creme de pentear e um conformismo tomou conta, literalmente, da minha cabeça. mas só até a hora do almoço, quando o paulinho inevitavelmente concluiu que eu estava parecidíssima com a velma, do scooby doo. vermelho. curtinho. de óculos. hã. deixa pra lá.

só que não adiantou. chegou a noite e, nos preparativos para o jantar japonês, a marcitchas, que não faz idéia de quem seja o paulinho, não pôde evitar a comparação: ju, você está parecendo a velma! nocaute. me convenci.

escrevendo esse texto, lembro-me que eu só queria ponta em tudo e que, de ponta mesmo que é bom, não tem nada. pelo menos não do jeito que eu idealizei. o jeito é esperar crescer e evitar o espelho. será que vai ficar muito estranho se eu adotar o boné?!

agosto 15, 2007

memórias que fizeram de mim quem eu sou.

é.

essa é a minha lição de casa.

vou ali tentar me lembrar e já volto.

agosto 02, 2007

que você desça desse ônibus, tropece banalmente no esgoto mais próximo e morra afogado em excrementos de ratos e de seres medíocres da sua espécie.

que o universo vomite em você todos esses dizeres numa intensidade triplicada pela revolta, impotência e indignação que aqui apresento.

que as palavras de perseverança que eu disse ainda ontem na frente daquela câmera reconstitua esse meu espírito ferido pela violação à conduta de um ser humano digno, que se levanta todos os dias às seis da manhã para ganhar de forma decente o montante vergonhoso que paga as contas da família, e ainda assim não garante reconhecimento ou insenção da obrigação, assuntos estes que não vêm ao caso.

não vou rezar esta noite porque meu gênio impulsivo, tenho certeza, vai responsabilizar deus e o lula que, coitado, têm muitas vaias brasil afora com o que se preocupar, ao invés de perder suas horas preciosas refletindo na criminalidade e violência que tomam conta das cidades.

pensando bem, vou reconsiderar esta decisão e rezar, sim. mas só, seu verme maldito, para você observar as fotos daquele celular e se sensibilizar com o sorriso lindo daquela criança, cujo momento específico ficará para sempre gravado apenas na minha memória.

rezarei, ainda, para que você veja as imagens daquela casa, daqueles cachorros e de todas aquelas pessoas felizes, e se digne a levar a sua vida pela força de um trabalho honesto e não sobreviver às custas do esforço alheio.

rezarei também para que você ouça as músicas daquele mp3, seja influenciado de alguma forma, e encontre serenidade de espírito e sensibilidade nessa sua alma depravada, com a mágica do bem transformadora que a música causa nas pessoas.

torcerei para que você seja guiado por uma curiosidade que, embora suja, o leve a abrir aquela apresentação profissional no power point e seja despertado pelo desejo e vontade de ser inserido no mercado de trabalho, o qual inclusive ratos como você têm direito nessa democracia podre em que vivemos.

sei que você deve estar rindo em algum lugar e exigindo de mim agradecimentos por eu ainda ter ficado com a minha carteira e a minha vida. pois fique sabendo que não estou agradecida a isso simplesmente porque me recuso a declinar a comodismos convencionais como este. fique sabendo também que, por mais que eu tenha certeza de que esta é uma questão de cunho moral e administrativo, não dedicarei culpas ao governo. não andarei por aí reconhecendo você face a face. saiba você, seu escroto, que prossegui no meu caminho: encontrei minhas amigas e vi o filme que tinha em mente. amanhã acordarei novamente às seis horas e tentarei chegar mais cedo ao escritório para colocar em dia a apresentação que você me impediu, e me disponibilizarei além dos limites para aceitar mais freelas e conseguir pagar por três celulares ao mesmo tempo, situação que seres limitados como você me obriga.

e, acredite, não me sensibilizarei diante de cenas sórdidas nas prisões do estado vitimando seres da sua estirpe, liricamente apresentadas pela tevê e pelo cinema. não derramarei lágrimas diante de relatos de vítimas da própria índole e circunstância, justificando a criminalidade como singelos métodos de sobrevivência.

se ainda não entendeu, no português que está acostumado, quero que você se FODA e que ao mesmo tempo seja tão fodido a ponto de que, propositalmente, tudo o que te dá prazer na vida vire do avesso.

julho 15, 2007

às vezes me convenço
que a amizade
é um estado
quase árabe
de espírito

julho 12, 2007

Sabe, eu gosto de pensar que literatura é a atividade mais solitária que existe. Sabe por quê? Simplesmente porque você escreve pra você. É uma atividade que depende única e exclusivamente de você. Claro que tem lá o desejo de ser lido, compreendido, surpreendido. Mas isso é raro. O verdadeiro lance é achar exatamente o ponto que a literatura te ajuda. Pra mim funciona como uma análise. Meu blogue é como se fosse meu analista. Vou lá, crio coragem, digo um monte de coisas e saio correndo. Eu acho que antigamente as pessoas eram mais sensíveis, sim. A diferença é que naquela época existiam poucos frustrados no mundo. As mudanças não eram vistas a longo prazo e as pessoas não trabalhavam com o tempo escorrendo pelas mãos. Hoje é diferente. Outras épocas. Entendo o que você diz porque sofro do mesmo mal. Exatamente do mesmo mal. Mas você precisa transformar a literatura na sua grande aliada. Escrever desenfreadamente sem a ânsia sufocante de achar que aquilo vai cair como uma luva em alguém. Escreva pra você. Deixe que caia como uma luva em você. E o que vier será lucro. E também é importante que você não force. Deixe que a atividade flua. Na hora que tiver de vir, virá. Com um pensamento, uma cena, uma música. Não desanime. Entenda que a literatura é algo de você para você. E pronto.

julho 10, 2007

Entre umas e outras

Uma anda pelo mundo atrás de respostas. Por quês. Comos. Serás. Todos lançados ao vento desenfreadamente. Tem dias que duvida do feito de suportar e, sabe-se lá como, apenas consegue. Em alguns momentos pensa ter chegado no resultado, mas o minuto seguinte vem e desfaz tudo outra vez. Concluiu que esse é o segredo de viver: dá-se um passo, lança-se um pergunta e pronto - sai correndo atrás das respostas. Quem consegue alcançá-las é feliz. Quem pensa que alcançou passa a vida oscilando entre risadas e lágrimas. E os que ainda estão na busca nutrem-se de esperanças ou simplesmente desistem. Destes é que ela tem medo. Provavelmente, porque sabe exatamente o que sentem e o que não querem, assim, na íntegra.

A outra é dona de si. Guerreira e vítima na medida certa. Entende os contextos porque os constroi com as próprias convicções. Se sente medo e acha que é o momento de recuar, simplesmente recua. Não apresenta justificativas, não pede permissão, não calcula limites e vai. Até onde a sua vontade permite. Vive um dia após o outro. Apaga as decepções como se apaga uma equação que não está certa. Assopra os fiapos e recomeça. Se parasse para refletir o que se passou, talvez desejasse ser outra pessoa. Mas acha que a vida é curta demais e prossegue. Não sabe se tem medo porque não se permite bloquear um impulso. Acredita que a felicidade está nas tentativas. E talvez ela esteja certa.

Entre umas e outras, no fundo, desejo que uma seja a outra.

julho 03, 2007

Deixando as Amarras

Sabe que eu descobri que nós temos muitas coisas em comum? O Jazz me fez perceber. Talvez você não saiba quem é a Amy Winehouse e nem a Diana Krall. Talvez você conheça bem a Ella e a Billy Holliday e até poderíamos emendar uma conversa longa falando sobre elas e sobre outras tantas que eu ainda não tive a oportunidade de descobrir. É engraçado porque eu me lembro das nossas brigas no carro pelas músicas que tocavam na rádio. Eu dizia que não queria ouvir música de velho e você arrebatava, dizendo que era música de inteligente. Hoje vejo que você está coberto de razão.

Acho que você adoraria saber que hoje eu lamento muitíssimo por não ter prosseguido com aquelas aulas de órgão em que me matriculou. Aulas que eu detestava porque tinha que deixar minhas amigas brincando nas tardes de sábados ensolarados e suportar o professor chato que, ao invés de dar atenção às alunas, ficava cortejando a minha irmã. Se naquela época eu tivesse o dom da argumentação como tenho hoje, talvez eu o teria convencido a me matricular nas aulas de violão. E enquanto você me falaria sobre os deuses dos teclados, eu lhe falaria sobre Zélia Duncan e Menescal e Gilberto Gil. Seriam papos interessantíssimos.

Engraçado, mas descobri que somos tão iguais. Você não imagina isso, não é mesmo? Mas somos. Não chego a ter o seu gênio, esse foi herdado pelos outros. Mas tenho a sua mania de se indignar perante as coisas. Sabe aquela coisa de falar, falar, falar, se cansar, tomar fôlego e falar de novo? Minha mãe quer morrer quando isso acontece e eu a entendo porque isso deve fazê-la lembrar você. Você deve se lembrar da nossa última discussão. Eu lá em cima e você lá embaixo. Cada um com a sua verdade, meu deus, aquilo não teve um fim. Foi pior do que quando eu disse a você que pela primeira vez que votei no Lula. Aposto que você morre de vontade de olhar na minha cara e despejar um fatídico "não te falei". Ou talvez até despejar outras coisas que não me fariam diferença. Como quando você fez questão de me prometer aquele anel de formatura que eu jamais usaria. Você me vê usando um anel de formatura?

Às vezes tenho vontade de pegar um avião e ir até aí pra te encarar de frente. Quem sabe mostrar minhas tatuagens e falar dos meus amigos gays. Sabe que morro de vontade de saber o que você pensa sobre isso? E se eu te falasse que aquela minha prima, que você tanto gosta, é gay? Juro. Não quer acreditar, não acredite.

Se eu pudesse em algum lugar do passado me encontrar com aquela menininha mimada e pirracenta, cara, não tenha dúvidas de que eu a ensinaria a ser gente. Diria a ela para comer menos e provaria por A+B que ganhar ou não presente no natal não faz a menor diferença. Mas eu bateria palmas toda vez que ela fizesse uma cena para unir a família na mesa. Ah, se bateria. E também faria com que ela lesse muito mais e amadurecesse um pouquinho mais rápido. Assim, quem sabe a sua empresa teria resistido ao tempo e aos avanços da modernidade? Talvez, nossos problemas com dinheiro seriam outros, talvez maiores, e o prazer de ver algo nosso ir pra frente ofuscaria os olhos daqueles dois que não souberam aproveitar o que tinham.

A vida está complicada, não é mesmo? Por aqui, tudo inteiro. Os cachorros continuam latindo, os inquilinos deram um tempo. Ou nós demos, não sei ao certo. Continuo pagando as contas e estudando. De vez em quando dá vontade de falar com você sobre isso, mas não me adiantaria muito. Na maioria das vezes é melhor falar com quem está de fora porque as verdades soam mais realistas, se é que isso é possível. Quero entrar na sua casa qualquer hora dessas para pegar os livros. Eles devem estar carentes de olhares, afinal, estão há tanto tempo esquecidos. Ainda são seus, mas considero meu maior tesouro.

O Jazz me fez dizer tudo isso. E tem um montão de outras coisas que ainda estão aqui e prefiro que aqui fiquem. Você poderia ter sido lembrado por muitos motivos e foi logo me aparecer com o Jazz.

junho 25, 2007

Os bons morrem cedo

Os bons morrem cedo. Foi assim com Cazuza e Renato Russo. Foi assim com Elis Regina, e Ayton Senna também entra na lista. Nara Leão, justiça seja feita, não poderia faltar. A lista é extensa, a ponto da minha memória não suportar todas as lembranças e tornar as injustiças incalculáveis. O que me causa menos martírio é o fato destas grandes figuras ter ido cada uma ao seu próprio tempo, deixando frutos suficientes para torná-las lembráveis por muitas gerações que ainda estão por vir.

Mas não tenho tanta certeza se este pensamento se encaixa a um time que, dentre tanta gente igualmente importante e talentosa, destacam-se Arthur Dapieve, Carla Rodrigues, Paulo Roberto Pires, Sergio Rodrigues, Tutty Vasques e Zuenir Ventura. Explico: se estão partindo desta para uma melhor, duvido! Ainda continuam no plano terreno, mas em momento de pré-sepultamento do NoMínimo, triste notícia que me pegou de surpresa neste início de segunda-feira.

O NoMínimo existe desde 2000, dando continuidade ao finado No que também se extinguiu. Trata-se da revista eletrônica de melhor qualidade na Internet Brasileira, que reúne um refinado time da velha (e em forma) guarda jornalística, sem economia de intelegência, bom senso e, claro, o tempero que não pode faltar aos brasileiros: humor. Quem busca na filosofia e na psicanálise explicações para o caos moderno, lamento dizer, mas está indo ao lugar errado. Os verdadeiros pensadores, como oráculos, revelam tudo o que é preciso saber por meio de um charmoso endereço de website. Mas isso somente até o próximo sábado.

Como toda instituição que depende de patrocínio um dia se vai, não poderia ser diferente com o NoMínimo. Uma pena para quem sempre buscou jornalismo sério, sem jabá, sem censura, sem unilateralidade.

Uma homenagem quase póstuma do Proseando à melhor revista eletrônica brasileira.

Tem deus que não sabe o que faz.

junho 19, 2007

Extra! Extra!

No dia 5 de julho, às 18h30, o Grupo de Escritores da Uniabc se reunirá com o Grupo de Escritores da Casa da Palavra de Santo André para um mega bate-papo. Compareça e conheça os integrantes dos Grupos, as suas inspirações literárias, autografe o seu livro e - por que não? - libere o escritor que há dentro de você.

O encontro será na Casa da Palavra, (Praça do Carmo, 171 - centro de Santo André), e a entrada é franca.

Vejo você lá para uma prosa daquelas!

junho 14, 2007

Ao acaso

Cheguei por volta das nove da noite no ponto do lotação e decidi, entre cachorros perdidos, bêbados e churrasquinhos, esperar o próximo carro para poder ir sentada. Parei no fundo do veículo com uma voz implorando baixinho no meu ouvido para me sentar no assento à esquerda, mas eu queria algo não convencional e optei por me sentar no centro. Depois de alguns minutos liberando as mais positivas das vibrações para que a partida não demorasse, eu tive a visão. E imediatamente me lembrei de que algum dia alguém havia me perguntado se eu acreditava em amor à primeira vista. Eu disse que não sabia. Já me perguntaram sobre uma série de outras coisas também e eu disse simplesmente que não sabia. Se eu tivesse lido a entrevista do Pedro Cardoso há mais tempo, teria sido malcriada e desabafado sobre essa mania feia que as pessoas tem de achar que eu devo ter opinião sobre tudo. Não sou famosa para carregar esse estigma e também não sou nenhuma multi-intelectual. Não sei nada sobre uma série de baboseiras e sobre outra série de coisas importantes que eu deveria estar correndo atrás nesse momento. Sei sobre os dez gigas de músicas que meu computador abriga e do fato de que nenhuma delas é a que eu quero escutar nesse momento. Sei de pessoas que eu gostei tanto, tanto e que hoje já não gosto mais e não tenho coragem de assumir. Sei que eu gostaria que houvesse uma porta no meu quarto, que me separasse de todo ruído mundano porque o barulho da panela de pressão está me enlouquecendo. Sei que eu gostaria de dar uma surra no infeliz que achou o meu celular e não atendeu nenhuma das dez milhões de vezes que eu tentei ligar pra ele até fazer parecer que acabou a bateria.

Não, eu não sabia se acreditava em amor à primeira vista. Até aquele momento. Como é possível você sentir atração por uma pessoa, à qual sequer ouviu a voz, não sabe o nome, aonde mora, o que faz da vida, o que pensa sobre o mundo? Quem me conhece sabe que esse tipo de coisa jamais aconteceria comigo. Mas eu fiquei lá, deslumbrada com a combinação da roupa, a composição do estilo. Tudo. Do corte de cabelo ao all star nos pés. A postura ereta na minha frente e as covinhas com a risada sincera ao entregar seus pertences à gentil pessoa que estava à sua frente. E esta poderia ter sido eu, se meus instintos tivessem sido ouvidos. Isso não era tudo: a leitura, ainda que em pé, de um livro com capa vermelha clássica. Não havia dúvidas de que o havia adquirido em um sebo. Lembrei-me imediatamente do meu exemplar de “O Retrato de Dorian Gray” porque pertenciam à mesma coleção. E traziam na bagagem um histórico longo de muitos olhos que por ali passaram. Porque a leitura de um livro adquirido em sebos é sempre mais prazerosa do que os comprados intactos numa mega store. Além da história do livro, traz consigo as inúmeras histórias de quem o leu. Isso não me foi dito em palavras, mas não foi preciso para saber que temos a mesma opinião. Quando esse tipo de coisa acontece com você, muitos são os pensamentos que afloram. Tenho certeza de que aquilo fora um sinal divino, destes que sempre invoco sem perceber. E foi impossível não se reprimir desde já, por deixar a oportunidade passar em vinte minutos que formam o percurso do coletivo. Algumas idéias deram o ar da graça: caso saltasse antes de mim, eu iria atrás para tentar alguma mágica que fizesse com que ao menos nossos olhos se encontrassem. Se saltasse depois, eu permaneceria lá, apreciando por mais um tempo aquele momento. Ou poderia escrever meu telefone num pedaço de papel e entregar, assim, sem mais nem menos. Pelo menos ficaria a esperança de uma ligação inesperada num momento qualquer. Mas isso pareceria imensamente clichê e seria o tipo de coisa que eu mesma não toleraria se acontecesse comigo. Além do mais, seria chamada a atenção de todos os presentes. Então, restou-me ficar lá entregue ao grau máximo da observação e invocando o milagre como se eu fosse a mais devota das religiosas. Mas chegou o momento e nada aconteceu. Suspirei fundo, levantei, olhei à minha volta e veio a oportunidade. Tocando em seu braço num primeiro encontro de olhar, pedi:

- Você pode dar o sinal, por favor?

Com o sorriso metálico mais charmoso com qual já me deparei, disse que sim e assim o fez.

Saltei do veículo e ainda houve tempo de notar que ocupara o meu lugar. A porta se fechou e nos separamos mantendo um olhar fixo no outro até que isso não fosse mais possível.

maio 23, 2007

Verde

As pessoas no seu silêncio conseguem mostrar o que há de mais verdadeiro dentro de si. O aspecto de dor fatalmente é revelado num semblante triste, ausente de palavras e rico de olhares perdidos. Pensamentos embaralhados tentando responder questões sem um pingo de concentração. Então você se esforça para encontrar um fiapo de alegria num rosto irreconhecível, mas não adianta. Nem mesmo aguçando a mais fértil das imaginações. E de repente tudo pode ficar pior com a presença de um ser de branco. Não sei porquê, mas dizem que isso faz amadurecer. Você só fica aguardando o momento. Tenta uma revista. Uma música. As pessoas olham pra você e, graças a alguma coisa, você permanece lá.

Verde, por enquanto.

maio 07, 2007

brasileiros são seres inconseqüentes. há não muito tempo, cerca de cinqüenta anos, talvez, essa inconseqüência era semeada para o bem. o resultado está aí: toda a evolução no cenário político, social e cultural que temos hoje. em alguns pontos, precária, diga-se de passagem. mas, na maioria deles, memorável. foi com esse espírito de possibilidades e de um saudosismo platônico por não ter vivido uma época tão rica, que acompanhei o espetáculo "cara e coração", com moraes moreira e armandinho. um espetáculo de 1.977, época em que os jovens eram diferentes e direcionavam a sua, bem, a sua racionalidade, não para apologias à violência ou rotulações de bicho-papão aos policiais. havia luta por uma vida melhor, por um cenário político melhor. uma supervalorização da cultura. os frutos da minha geração sabem o que é isso? a arma mais poderosa eram as palavras, as canções. não os murros e pontapés e destruição de bens alheios.

com o coração roxo. foi assim que deixei a minha casa hoje cedo, ao ver pela televisão o bangue-bangue que os jornais mostraram desde a madrugada de domingo, quando a polícia se confrontou com pseudos-apreciadores-de-música, vulgo vândalos, no meio da apresentação dos racionais mcs. ou seriam irracionais? depende do seu ponto de vista.

toda forma de amor vale a pena, disse pessoa. e eu digo que toda forma de cultura também. e foi essa a proposta da virada cultural deste ano - um coquetel de muita música brasileira, valorizando todos os estilos - dança, ópera, teatro, música e teatro, assim, tudo junto, e muitas pessoas que normalmente não se interessam por esses temas, lá, embriagadas do melhor que uma cidade do tamanho de são paulo pode oferecer. e você liga a tevê e se depara com uma proposta que deveria ser unicamente cultural, misturada à pancadaria. isso faz a gente esmorecer. mas só por um momento. porque, repito: toda forma de cultura vale a pena.

espero que os bons apreciadores das artes e suas manifestações continuem criando propostas como estas. propostas para o povão. sim, aqueles que não tem dinheiro para ver um show numa casa de espetáculos, mas aqueles mesmos que, no meio de gente, suor e euforia, sabe emanar uma energia que dinheiro nenhum nesse mundo pode comprar. porque as artes estão aonde o povo está. e enquanto existirem propostas assim, a minha indignação será vencida por um fio de esperança!

como lindamente cantou zelinha:

"na medida do impossível tá dando pra se viver. na cidade de são paulo, o amor é imprevisível..."