junho 19, 2006

Com sono. Mastigando fio dental. Fazendo charme. E sendo política.

junho 16, 2006

Estante de Livros

Não sei o que sou, mas tenho um leve palpite do que gostaria de ser. Agora, por exemplo, gostaria de ser uma estante cheia de livros. Possivelmente eu seria um ser bem sábio e jamais viveria sozinha ou subestimada. Ainda assim não gostaria de ser mãe, mas trataria todos os meus livros com singelos atos maternos. E eu também não viveria sem respostas. Caso as dúvidas aparecessem, eu poderia esclarecê-las em prateleiras superiores ou inferiores, todas bem próximas a mim. Tolos os que pensam que uma estante de livros é um ser inanimado. Por mais que me esquecessem num cômodo qualquer e eu ganhasse algumas partículas de poeiras de vez em quando, eu teria ao menos um visitante fiel. Em todo lugar existe um aficionado. Por mais livros que eu tivesse e fosse a base de sustentação de todos eles, não seria uma interina responsável. Eu seria apenas e explendorosamente uma estante de livros.

junho 13, 2006

O problema não é inventar. É ser inventado horas após hora e nunca ficar pronta nossa edição convincente.

(Carlos Drummond de Andrade)

junho 12, 2006

O Banheiro da Maria

Uma das coisas mais comuns desde que o mundo é mundo é a habitual troca de informações que as mulheres desempenham no banheiro. Um banheiro feminino proporciona um pouco de tudo. Desde reflexões filosóficas até firulas das mais superficiais futilidades humanas.

Mas quando você trabalha num ambiente em que a maioria das pessoas é formada por mulheres e o toallete não passa de um “dois pra quarenta coletivo”, você começa a não fazer muita questão dessa prática comunicacional. A complexidade feminina somada ao famoso jeitinho brasileiro acaba fazendo, quase que involuntariamente, com que você saia em busca de uma reflexão, digamos, mais introspectiva, na paz dos azulejos. Foi então que me dei conta de que a solução estava exatamente na porta à frente do “diário de bordo da empresa”. Um espaço com pouco luxo, com, vai lá, uns três (no máximo quatro) metros quadrados, um pitoresco chuveiro alocado exatamente em cima do vaso sanitário (???), cujo espaço entre um objeto e outro é arquitetonicamente dividido por um, sim, é verdade!, cabo de vassoura, que vai de uma extremidade e outra da parede. Mas para este eu sei a finalidade! Funciona precisamente como um varal para os panos de chão, louça e de tirar pó após suas respectivas higienizações.

Senhoras e senhores, com vocês, o Banheiro da Maria!

O ambiente ideal para dar um tempo do caos da vida pessoal ou corporativa por uns momentos, longe de interrupções, constrangimentos ou qualquer artifício que um banheiro coletivo venha a oferecer. E, mesmo que solitária, se houver a estranha necessidade de uma fofoquinha ou uma profunda reflexão, o Banheiro da Maria continua sendo a melhor solução. Entre produtos de limpezas, vassouras, rodos, estoque de papéis higiênicos e toalhas descartáveis, é possível encontrar edições recentes de Caras, Veja, Capricho, Minha Novela e, pasmem!, exemplares exímios de renomados escritores nacionais e internacionais.

Ninguém entendeu ainda porque respondo que “fui refletir” quando largo meu e-mail bombando, meu telefone esgoelando e o chefe arrepiando os cabelos e me refugio no Banheiro da Maria. Sem querer, me pego brincando com Drummond, dialogando com Clarice, ficando cega com Saramago ou conhecendo um pouco mais sobre a vida da Oprah numa revista qualquer. Muitas vezes, acabo refletindo sobre o fato de que, por alguns momentos, não importa você ganhar trezentos Reais por mês, ter cinco filhos, fazer supletivo na comunidade católica perto da sua casa e, uma vez por semana, visitar um advogado do Estado para saber como anda o processo do emprego antigo. Por alguns momentos não importa. Porque, mesmo fazendo parte do sistema, você pode sair da sua realidade em quatro metros quadrados e se deparar com um mundo real e fantasioso bem ao alcance dos seus olhos, entre páginas de revistas e livros que, provavelmente, nem mesmo o presidente da empresa aonde você limpa o banheiro e serve o café tem conhecimento.

Viva o Banheiro da Maria!

junho 09, 2006

Insight

O tempo passou e agora estou aqui, com meus entendimentos retardatários. Sem meus fones de ouvido e um roque ambiente ao fundo. Neste veículo com quase total ausência de espaço livre, você me aparece entre o relato do dia de um grupo de operárias. Talvez costureiras. Queria que suas lembranças viessem num momento mais poético. Longe da asma deste idoso. Mas você apareceu na minha mente como aparecem os bons pensamentos. As boas idéias. Iluminadas. Entre pensamentos e desejos, sorrio com minhas constatações. Com o fato de você estar bem, feliz e correndo atrás. Igual a todos nós que também corremos. Você tem um amor. Não é novo. É renovável. E eu estou incrivelmente feliz por você. Porque isso me basta. Assim como você me bastou um dia. O tempo passou.

junho 08, 2006

Ela voltou!

Ela voltou e agora alguma coisa que me prendeu por um tempão voltou junto. Ela voltou e eu posso de novo parar o meu trabalho no meio do nada e acessar o blogue dela para reaprender a dizer tudo e nada, assim, de repente. Parecia até que era um incentivo, um empurrãozinho, um combustível. E eu acho que láaaaa no fundo é isso mesmo. E agora eu vejo que estou mergulhada de novo naqueles momentos psicodélicos que costumavam fazer de mim o que eu gostaria de ser. E estou ouvindo Mutantes, o que me arranca umas gargalhadas de vez em quando, assim, do nada novamente. O que tenta me mostrar uma pontinha do que eu realmente sou, mas, como sempre, sem certeza de nada. Mas não importa, ela voltou: Adiós Lounge!

maio 16, 2006

Na fila do banco

O ar condicionado na potência máxima, como se o intuito de todas essas pessoas fosse uma visita longa à Era Glacial. Mas não. É só uma tentativa exagerada de fugir do calor em pleno outono. Mania estranha essa que paulistano tem de ligar o ar condicionado por qualquer razão. Está no carro e quer fugir do barulho urbano, pronto, fecha tudo e liga o ar condicionado. Está no escritório, o sol raiando lá fora, não dá outra, trava as janelas e bota esse ar pra funcionar. Por que é que em fila de banco deveria ser diferente? E ainda, para ajudar, essa fila quilométrica.

Sorte daquele moço todo engravatado. Pelo menos a camisa de mangas compridas dele segura a onda fria. O coitado chegou atrás de mim pingando suor e deve estar achando tudo uma maravilha. Queria só ver ele agüentar os quarenta minutos em pé que nem eu com essa frente-única. Para ajudar, a nervosinha aqui da frente esfregando esse boleto na minha cara. Mocinhaaaa, estamos no mesmo barco, dá pra entender? Está nervosinha, não quer ficar aqui, dê meia volta e vai embora. Só com as balançadas desse boleto, já entendi que você estuda na São Judas e que paga R$ 835,00 de faculdade. Como a data de vencimento é do dia 10 e, deixe me ver, estamos no dia 15, você tem uns bons reaizinhos de multa a pagar aí. Já sei. Seu pai obrigou você vir até aqui para pagar a faculdade, assim como a obriga a ir pra aula todas as noites. Hmmm... mas com essa saia gigante que você está vestindo, esses óculos by Dior na cabeça e essa imitaçãozinha barata de Louis Vutton, você é daquelas que senta mesmo, mas no banco do bar da frente da faculdade, né? No colo... ah, deixa pra lá!

E aquela guria encostada no divisor de filas? O glamour em pessoa e, ora essa, ela usa All Star! Sério, qualquer pessoa com All Star tem o mínimo do fashion no sangue, vai dizer que não? Para mim, quem usa All Star tem conteúdo, ideologia e merece respeito. E a guria é corajosa. Olha só aquele piercing no nariz e aquela tattoo no braço. A senhorinha atrás dela nem tem coragem de levantar os olhos, coitada. Uma faz cara de brava e a outra, cara de medo. Surreal, isso. Mas juro que vou fazer cara de terrorista se os TRÊS motoboys que ocupam os únicos TRÊS caixas que estão funcionando permanecerem lá nos próximos três segundos. Senhoras e senhores, tem caixinha de sugestão nesse banco? Vou sugerir agora mesmo um novo procedimento: os motoboys têm das dez ao meio-dia para realizarem seus serviços. Depois disso, só os brasileiros normais, aqueles com contas vencidas que não podem ser pagas nem via internet e nem via telefone, podem usufruir dos serviços bancários nas agências. Não é uma boa idéia?

Brasileiro é assim mesmo. Tem de agüentar todas essas caras e bocas até chegar a sua vez. Mas quando chega a sua vez - que novidade! -, o sistema sai do ar. E você ainda tem que se conformar, chegar em casa, ligar a TV e ouvir que o seu banco é o mais completo do país.

março 22, 2006

Auto-compreensão

Tudo o que eu queria era ter em mim ausência total de alguns sentimentos e presença constante de outros, de modo que tudo que eu faça não seja egocêntrico demais, a ponto de satisfazer somente a mim, e nem egoísta demais, a ponto de satisfazer somente aos outros.

Tudo o que eu queria era fugir desse triângulo, mesmo que a minha condenação fosse superficial demais e a minha pena fosse jamais desenvolver algo que seria tão bonito enquanto durasse.

Tudo o que eu quero é que minhas palavras soem genuinamente sinceras, ao passo que a força e verdade que em nelas há, faça com que minha dignidade se fortaleça a cada olhar lançado sobre o que eu digo.

Estou de volta ao meu mundo. Saúde!

março 20, 2006

Ao mestre com carinho (ele, o tempo!)

A subjetividade tem falado em meu nome ultimamente. Fazia tempo que não me sentia assim. É paradoxal, mas estes momentos são os que mais me proporcionam um auto-conhecimento. A vida me faz professora e aluna ao mesmo tempo e eu fico pra cima e pra baixo com um caderninho nas mãos, anotando as observações mais importantes. É como seu eu saísse do estágio de aprender com os erros dos outros e passasse a aprender com os meus próprios erros. Sim, eu os reconheço aqui e ali, às vezes, de mãos dados erros alheios. Mas isso não importa mais.


Eu me acerto

(Zélia Duncan)

Não pensa mais nada
No final dá tudo certo de algum jeito
Eu me acerto, eu tropeço
E não passo do chão
Pode ir que eu agüento, eu suporto a colisão
Da verdade na contramão
Eu sobrevivo
E atinjo algum ponto
Eu me apronto pro dia seguinte
Escovo os dentes
Abro a porta da frente
Evito a foto sobre a mesa
E ninguém aqui vai notar
Que eu jamais serei a mesma

dezembro 23, 2005

Proposta de Natal

Há doze meses, defini o Natal como tempo de pensar o bem, desejar o bem e praticar o bem. Propus um renascimento coletivo e, meio que nas entrelinhas, uma renovação de espírito.

Há vinte e quatro meses, refleti sobre o espírito natalino. Abri meu coração para cada mensagem de Natal, cada abraço, pensamento ou atitude natalina.

Hoje, estou aqui tentando não cair na redundância, escapar dela e inovar. Tudo em vão porque os desejos continuam os mesmos, a necessidade de paz continua a mesma, as pessoas continuam precisando se espiritualizar cada vez mais e o significado do 25 de dezembro é o mesmo de há 2006 anos.

Por isso, agora não quero desejar. Quero propor, você aí se compromete? Quero propor mudanças, experiências, atitudes do bem: uma mudança de hábito, alguns sorrisos a mais no rosto, uma nova idéia na cabeça, um pensamento positivo, um “eu te amo” inesperado, qualquer coisa que cause efeito nessa pessoa aí do seu lado.

Quero propor que você, meu amigo do peito, acenda a sua estrelinha e entenda que o brilho próprio dela é você. Lute pela sua causa, pelo seu mundo melhor, para ser a diferença nele. O Irmão lá de cima vai te ajudar, mas não se esqueça de que você é responsável por traçar a estratégia.

A minha proposta é que você alcance o seu sucesso; que você conquiste novos amigos, que você descubra novos amores; que você torne-se saudável.

O seu 2006 poderá ser diferente, depende de você.

Aqui, a minha proposta de um FELIZ NATAL e de um 2006 MÁGICO.

novembro 16, 2005

Hóspede do tempo

(Fred Martins/Zélia Duncan)

Sou hóspede do tempo
Da minha casa
Das minhas palavras
Das coisas que eu declaro minhas
Inquilina da vida que me foi dada
Portanto nada
Ficou na minha bagagem
Do velho brinquedo
Que já não me ilude
O que eu tenho é minha atitude
O que eu levo é minha atitude
O que pesa é minha atitude
Minha porção maior

setembro 25, 2005

Fique

Passaste por mim e deixaste lembranças. Sim, eu ainda as tenho – lembranças. Esquecida que sou, me esqueci de esquecer-te. E querer-te ainda está nos meus planos. Se tenho tuas lembranças, ainda tenho tu.
E tu, beleza encantadora, ainda és minha. Não tenho apenas lembranças. Mais que isso: tenho esperanças. Tudo o que preciso agora.

setembro 21, 2005

Escuro

Fecho os olhos e me enxergo melhor. Assim como Malte Laurids Brigge, que começou a ver aos vinte e oito anos, também eu comecei a ver já crescida, aos vinte e três. Fecho os olhos e deixo a lógica conduzir meus pensamentos. Logo eu, que jamais permiti ao meu lado humano transcender as barreiras do real e absoluto. Vejo melhor agora, sim, mas ainda de olhos fechados. Talvez algum dia eu os abra. Quando a minha visão míope não me incomodar mais. Aos trinta e três, será? Agora, preciso agora! Alguém me ensina a sentir?

setembro 20, 2005

E esse "não", o que é?

Agora que você veio, não quero mais. Pode ir, pode ir. Vá! Não te quero aqui. Não consigo. Não posso. Quero. Quero minha paz de volta. Minha cabeça no lugar de sempre. Quero minhas dúvidas comigo. Não essas, as outras. Quero meu coração inteiro,
batendo Zélia Duncan e não Maria Bethânia. Isso aqui não tem serventia, me diz? Leve tudo: meu desejo, meus óculos, meus sapatos. As canções. Deixe apenas meu sorriso - aquele que te cumprimentou pela primeira vez - e a linda imagem de canto do olho.

setembro 19, 2005

A luz da estrela mais linda que sorri em sua constelação

Como expor certas coisas sem parecer clichê? Dizer e redizer tudo o que já foi dito pelos outros sobre esse tipo de coisa que poderia ser tão bem dita por você mesma? Nessas horas, se arrepender é fácil e quase imprescindível. Rever certos conceitos também. Mas é inevitável não ser hipócrita e não enxergar a covardia que brota dos poros. Milagres existem? Estão por aí? Ofereço tudo o que tenho por um deles. Aceito empréstimo, consignação, permuta ou qualquer outra proposta que faça isso acontecer de uma vez. Que faça ser tão perfeito como espero que seja, que, assim como estas palavras que saem facilmente, simplesmente aconteça. Aconteça e faça brilhar essa mágica que me faz desligar do mundo e esquecer de certas importâncias. É forte, muito forte. E está começando a doer. Meu medo é que isso vá além do que parece possível. E se não for possível eu suportar? Não suportar também é clichê? Danem-se os clichês! Aos diabos com os medos! Uma gota de coragem e é tudo. Tudo para trazer sol às trevas. E eu só gostaria de saber como isso aconteceu. Veio assim, sem avisar. Do nada! E não está me levando à nada senão às expectativas de quem espera sentada. De quem em sua espiritualidade ainda acredita em milagres. De quem, mesmo diante de toda grandiosidade, insiste em não aceitar. De quem nunca sentira isso antes. De quem nunca mais vai rir ou duvidar ou julgar. Será que isso é? E agora?

setembro 11, 2005

(...) Pois versos não são, como as pessoas imaginam, sentimentos (a esses, temos cedo demais) - são experiências. E por causa de um verso é preciso ver muitas cidades, pessoas e coisas, é preciso conhecer bichos, é preciso sentir como voam os pássaros, e saber com que gestos flores diminutas se abrem ao amanhecer. (...)

(trecho de "Os Cadernos de Malte Laurids Brigge", de Rainer Maria Rilke)

agosto 28, 2005

O Eu

Voltar à minha subjetividade me faz bem. Permite que eu mesma toque o ritmo da minha vida, sem liberdades concedidas. Aproxima as minhas respostas e torna os meus anseios compreensíveis. E eu fico assim, “lispectoriana”, enquanto as pessoas se perdem em seus porquês. Afundada num egoísmo merecido e bom, eu consigo fazer poesia sem pretensão. Consigo até um tempo que é só meu, mesmo com o mundo à volta prosseguindo em seu percurso. E me cubro de uma espiritualidade em evolução. As minhas expectativas me acalmam porque, mesmo ainda não sendo fatos, são expectativas. Tudo devidamente mensurável, coberto de uma “trilha sonora duncaniana”. E basta.

julho 27, 2005

O Portuga, o Circo e a Verdadeira Verdade

Sabe de uma coisa? Lembro-me como se fosse hoje, de pessoas olhando sério para mim e dizendo que não votariam num cara que mal sabe falar o bom e velho Português. Engoli um seco qualquer que encontrei na região da garganta e fiquei em silêncio. Não pude deixar de enxergar uma certa opinião do contra nos olhos de quem discursava. A questão ali estava óbvia: não era o Português que incomodava, era o Lula.

Pois bem. Como bem reza a nossa política desde os primórdios até hoje em dia, para entender suas verdades e mentiras, dê uma zapeada na Globo. Para seguir o fluxo, deixei as minhas super séries favoritas de lado ontem e coloquei-me a assistir ao Jornal Nacional. Antes, permita-me um adendo: você não acha que o Jornal Nacional, ao menos neste período, deveria chamar-se "Jornal da CPI"? Ahan, eu também acho. O noticiário inteiro foi sobre o escândalo político, exceto pela queimada criminosa que ocorreu lá nas matas da região do Pará. O responsável, já identificado, poderá pegar de 3 meses a 1 ano de prisão, além de ter sido multado em 20 milhões de Reais. Não, eu não entendi errado. Fiquei pensando no que poderá acontecer com ele, além de perder sua fazenda, todos os seus bens, suas economias, suas roupas e até sua cueca. Fui mais além: será que sua dívida se estenderá para seus filhos, netos, bisnetos, tataranetos, etc.? Sério, o homem foi errado. Criminoso mesmo. Mas por que multá-lo com um montante deste sendo que é óbvio que ele nunca conseguirá pagar? Isso se transformaria numa "Dívida Interna Familiar". Bizarro! Ops. Acho que acabei fazendo dois adendos.

Continuando: na minha empreitada, assistindo ao Jornal Nacional, lembro-me bem de um episódio: um dos integrantes da CPI questionava o Presidente da Comissão quanto à dificuldade de acesso aos documentos de investigação dos envolvidos, criticando os métodos de apuração dos fatos. O moço estava bravo com a senhora esposa do empresário Marcos Valério, e aproveitou seu momento de fúria para despejar umas verdades aos superiores. Ou ele tinha razão. Ou ele estava querendo alguma espécie de promoção. Ou tudo fazia parte do script. Isso sim é uma genuína comédia. Hollyood não chega aos pés do circo político brasileiro, vai por mim. O então Presidente, com um olhar furioso, fitou-o seriamente e lançou: "Recebo estas afirmações com uma grande indgnidade". Indignidade? Indignidade?? A gente sabe que indgnidade ampara 99% das pessoas ali presentes, mas... Indignidade??? Só faltaram aquelas gargalhadas artificiais de fundo, sabe? Aquelas que a gente ouve quando assiste Chaves. Pois é.

Voltando ao meu primeiro parágrafo, que Lula, que nada! O bom e o velho Português não é sabido por ninguém. Falta mais construção em nossos argumentos e ainda mais atenção nas nossas escolhas políticas. Atenção naquilo que é colocado como prioridade, manja? Está a fim de saber a verdadeira verdade? Mesmo?! Educação deixou de ser prestígio da elite há muito tempo. Quer prestígio? Arrume um mensalão e comece a fazer os seus desejos.

julho 26, 2005

ET disse:

Ju,
Muitas pessoas me escreveram mas certamente vc foi a única que me fez rir :))
Thks menina do sorriso,
et


E eu respondo:

Então, pegue aí mais um sorriso pra você!

julho 13, 2005

JERÔNIMO, O MATADOR

(Desabafo concedido ao amigo Marcelino)

Não. Não vou falar aqui hoje da viagem a Paraty, da festa literária, essas coisas. Novidades e fofocas e graças outras que eu terei, juro, prazer em contar a partir de quinta-feira e saravá.

Falarei do Jerônimo, o Matador. Nada a ver com o Jerônimo, o Herói do Sertão, série que passou na televisão na década de 60 e 70 e 80. Esse, o nosso primeiro herói brazuca, pândego, à luta.

Falo de um outro. Cabreiro, sorrateiro e que me entrevistou (eu e o Ademir Assunção - leia também o que falou Ademir clicando aqui) para a revista Veja desta semana. Falando acerca do Movimento Literatura Urgente, do qual sou um dos "membros de primeira hora", como noticiou ele e eta!

O olhar do Jerônimo (de sobrenome Teixeira) era frio, longínquo. Como se tivesse me raptado, eu no cativeiro. "Cativeiro", isso mesmo. Jerônimo me ligou para marcar um papo sobre dois assuntos, segundo ele: o Literatura Urgente e os meus Contos Negreiros.

Estranhei: o que tem a ver o cu com a cara da carranca? Respondeu-me, cheio de artimanha: você é um dos "líderes" do Movimento. E mais: farei uma lincagem, na reportagem, com o lançamento do seu novo trabalho. Não acreditei. Não pode ser verdade. Comentei com o Ademir. Mas vamos lá. Não fujo dos meus algozes. Até espero que eles gozem primeiro.

E foi no que deu: o cara perguntou tudo e molecou as respostas, minhas e as do Ademir, a serviço do seu discurso. Seu não, o da revista. Não é à toa que lá, ao lado da matéria de uma página inteira, note, há uma outra, assinada também por ele, sobre outro nazista, o Adolfo Hitler. Confira, se puder. Mas não compre a revista.

Sigamos.

Falei para ele que nós, sobretudo, nos organizamos, assim, porque nunca nos sentimos representados pelas instituições que, digamos, estão aí para nos "representar". Entendam: são elas que são procuradas quando o assunto é Fundo, Feiras e Falecimentos. Falo da ABL, por exemplo. E da UBE. Essa última, simpatica e simpatizantemente presente nas duas últimas reuniões que tivemos. E onde o Jerônimo também esteve, me disse. Infiltrado, ele, no Movimento.

Por que não aproveitou, então, a ocasião para levantar as questões a todos os presentes? Colaborar para o amadurecimento das nossas reivindicações, sempre abertas à discussão? Não. Jerônimo é um assassino eficaz. Acompanha as vítimas, anota, estuda cada uma, passo a passo. É pago para espionar. O negócio é cortar as cabeças.

Estamos ou não estamos no tempo de cuecas e malas? Daqui a pouco, veremos escritores comprando terrenos e casas. Fugindo para Frankfurt etc. e tal. Conhecendo tudo que é paraíso fiscal. Não. A revista Veja não vai deixar. Logo ela que, desde a época da ditadura, zela pela nossa conduta exemplar.

Até falei: não entendo as perguntas que você me pergunta, pá, pá, pá. Parece que a gente é um bando de corrupto. Falcatrua na literatura. Porra! Não é nada disso. É essa, apenas, a primeira vez em que os escritores se sentam para confabular. Avançar em algumas questões. Clamar por algumas responsabilidades. Por exemplo: como melhor utilizar a estrutura já montada das universidades. O escritor ir para discutir a sua obra com os alunos por aí. Como acontece em outros países. Até nos mais pobres que o nosso, a exemplo de Cuba.

E os nossos consulados pelo mundo, falei para ele. Por que não realizam nenhum intercâmbio, Jerônimo? É coisa fácil e não carece de muito dinheiro. E o Jerônimo entendia, matreiro: câmbio. Eu dizia intercâmbio. E ele: câmbio, câmbio, câmbio. Não, não estou falando de dólares. Estou falando de um projeto básico. De bolsas de criação, como a extinta Vitae. Jerônimo, você é muito novo para esse olhar incrédulo. Repito: hitlerista.

Jerônimo não quer ouvir. Mandaram o cara atirar. E ele foi lá, fazer o serviço. Tudo bem, mas por que não ouvir humana e honestamente os nossos argumentos? As nossas falhas estampadas? Disse eu: cara, a gente não está dizendo que é o dono da verdade. A gente só quer saber por que o escritor nunca é ouvido nesses casos. Não somos, a maioria, tratados com dignidade. Que é isso? O nosso trem não é da "alegria", cara. É do fracasso.

Por isso muita gente tem se organizado. Em Belo Horizonte, Santos, Londrina, Curitiba. Porra, ninguém vive aqui com a bunda na cadeira, esperando (do imortal) a morte alheia. A gente quer ir à labuta, é isso. Ninguém é, escreve aí: filho da puta. Enumerei tantos trabalhos importantes (encontros, livros, antologias, festivais) que fizeram tantos autores que estão na lista do Movimento. Sem nunca esperarem por nada. Alguns dos quais a sua revista é doida para jogar no esquecimento.

Jerônimo ficava em silêncio. Vendo a minha agonia. Sem dominar um vocabulário político. Era outra, ali, a minha energia. Indagações e angústias que me levaram ao Movimento. Não como um dos líderes, discordei. Mas como um dos mais inconformados.

Jerônimo, é bem verdade, perguntou sobre os meus Contos Negreiros. Mas já era tarde. Não conseguiu dissimular o desinteresse. Tocou no tema, forçosamente. A saber: por que você trata sempre de personagens miseráveis e trabalha em um dos prédios mais chiques de São Paulo (próximo do café onde a entrevista foi feita)?

"Quanto mais miserável o escritor melhor", parecia dizer Jerônimo, o Matador.

E disse e atirou.

Pensando ele que nos matou.

Marcelino Freire